Apenas uma conversa
1 Único
— E onde o conheceu? – ele perguntou enquanto colocava uma batata frita pelando de quente na boca e me fitava profundamente.
— Numa galeria. – a garota respondeu – Numa galeria do centro.
— Hum... – foi a única coisa que ele conseguiu dizer enquanto mastigava a fritura que por pouco não queimava sua língua – Mas... E aí?... O que virou?
Estavam os dois numa mesa da praça de alimentação do shopping. Ela era branca, tinha o cabelo avermelhado cortado de forma assimétrica na altura dos ombros e os olhos castanhos, enquanto ele tinha o cabelo preto cortado bem curto, cacheado e era negro. Trabalhavam juntos numa companhia de musicais, que na montagem atual fariam um par romântico e teriam vários duetos, portanto acabavam passando muito tempo juntos. Decidiram almoçar depois de um ensaio cansativo e por fim o assunto chegou a relacionamentos.
O rapaz começou a contar que estava numa crise absurda com o namorado, momentos antes de a sua batata frita chegar à mesa. Ele estava com muita fome, portanto encerrou a sua versão dos fatos rapidamente e começou a comer. A garota então começou a contar um relacionamento que a marcou muito, principalmente pelas condições atípicas:
— Bom, ele tinha uma galeria que eu gostava de visitar. Era bastante ampla, tinha várias salas com diversos itens em exposição. Mas o curioso é que ele era um artista que não se mostrava por dentro.
Ela esperou alguma reação vinda do seu colega, porém este continuava a comer batata esperando ansiosamente pelo clímax da história:
— Um dia a encontrei por acaso, vagando pelo centro. A entrada não era tão chamativa, mas ele estava na porta observando o movimento e por um momento nossos olhos se encontraram. Abrindo um sorriso, me convidou pra entrar. Achei tão charmoso que não resisti, mesmo estando muito apressada. Entrei.
Deu um gole no refrigerante e continuou:
— Foi maravilhoso. Logo na primeira sala me apaixonei pelas cores. Adorei cada tela, cada detalhe, cada centímetro do lugar. Eu era a única visitante do momento, fazendo com que ele, o dono da galeria e também artista daquelas telas, me desse total atenção. Acabamos conversando sobre a vida e sobre pintura. Confesso que senti uma conexão muito forte. E que simpatia! – sorriu ao lembrar-se daquele sorriso de canto de boca, que tantas vezes ouviu nos áudios do whatsapp que acabaram trocando depois.
Seu colega tinha quase terminado de comer todas as batatas, tamanha a velocidade em que tinha as engolido. Realmente estava faminto. Chamou o garçom para pedir um doce de sobremesa e nisso a ruiva aproveitou pra fazer seu pedido:
— Eu não ia comer nada não, mas você pode trazer um queijo quente pra mim? – diante da afirmativa e retirada do garçom ela continuou – bom, onde eu estava mesmo?
—Você já ficou apaixonada de cara pelo rapaz da galeria – ele debochou.
— Mentira! – gargalhou – mas confesso que tive uma queda sim por ele. Enfim, estava na parte que visitei a galeria pela primeira vez. Comecei a passar por lá sempre depois do almoço. Fiquei sabendo que ele trabalhava com o pai de manhã e detestava, porém pagava bem. De tarde ele se dedicava ao que realmente gostava, que infelizmente pagava pouco e exigia disciplina, e alguns cursos muito caros para aperfeiçoamento.
— E ele namorava?
— Sim, ele tinha um relacionamento e sempre mencionava pra mim como era bom, apesar de se verem pouco devido as suas carreiras. A gente acabava conversando bastante, tanto pessoalmente, quanto por whatsapp. Quando dei por mim, não passávamos um dia sem nos falar. O complicado na época era a situação que me encontrava. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento em que meu coração e minha auto estima estava em frangalhos. Me sentia feia e a pior pessoa do mundo.
Rapaz arregalou os olhos e a interrompeu:
— Feia? Como assim? Você tá maluca? Você é muito linda e talentosa.
A ruiva sorriu sem graça e respondeu um tímido “obrigada”.
— Mas era assim que eu me sentia. Pra piorar eu estava perdendo minha mãe pro câncer.
— Sinto muito.
— Tudo bem. Foram quatro anos de luta... E por mais que eu ame a minha mãe... Ela me maltratava muito às vezes. E quanto ao meu pai... Eu sempre tive medo de homem, medo de ter alguém na minha vida que me tratasse tão mal quanto meu pai tratava a minha mãe. Até que ele chegou. Ele... Não me fazia sentir medo. Me sentia invencível. – respirou bem fundo e continuou – Acabou que o proprietário foi me mostrando todos os caminhos da galeria, que a priori só mostrava as fases boas da sua vida. No salão principal só tinha trabalhos que revelavam o seu lado mais positivo, porém a medida que ia ganhando mais confiança, o rapaz me levou pra um dos cômodos que o fazia sentir mais dor. Assim que íamos ficando mais próximos emocionalmente, passei a contar sobre a minha infância, que não tinha sido fácil. A relação com os meus pais era abusiva, me deixando marcas profundas mesmo na vida adulta. Qual não foi minha surpresa quando ele admitiu que sua criação havia sido similar. Para ilustrar da melhor forma, me levou a um cômodo trancado a chave, em que suas obras expressavam o mais profundo pesar. Seus pais e sua irmã ocupavam um lugar de destaque, e me senti compreendida como poucas vezes. Naquele dia, eu olhei profundamente admirada. Nunca aquela frase do Sarte fez tanto sentido pra mim: “O que você fez daquilo que fizeram com você?”. Ele tinha feito muito, mas infelizmente não conseguia enxergar.
— Que barra.
— Alguns meses depois seu namoro terminou e ele me levou pro cômodo da luxúria. Nos amamos muito por lá – a garota riu discretamente – e as coisas foram ficando cada vez melhores. Por fim, ele ganhou uma grande oportunidade pra participar de um curso de aperfeiçoamento que poderia dar a sua galeria grande prestigio, além de satisfação pessoal. Seria um grande salto na vida. Só tinha um porém: ele só poderia tentar uma vez. Portanto se preparou ferozmente para o exame.
Seu queijo quente chegou e a moça agradeceu ao garçom. Soprou, deu uma dentada e depois de alguns instantes continuou falando:
— Acontece que ele descobriu que estava doente. Algo na coluna que comprometia seus movimentos.
— Como assim? Quantos anos ele tinha? – meu colega perguntou estupefato.
— 21. Um ano mais novo que eu. Foi realmente uma surpresa. Eu estava botando muita fé de que ele teria sucesso no exame, porém ele precisaria iniciar o tratamento o mais rápido possível, pra isso teria que desistir da prova, uma vez que ele exigiria muito esforço físico. Muitas horas com o braço levantado, sentado na mesma posição, etc.
— Entendo.
— Bom, ele ficou arrasado. Um dos problemas disso tudo é que ele não contou pra mim de cara, eu precisei cercá-lo bastante até que ele me contasse. Seu comportamento mudou muito, sabe? Eu notei que tinha algo estranho, no entanto não sabia o que era.
— Como assim? – meu companheiro de trabalho tinha acabado de terminar sua sobremesa e estava bebericando seu refrigerante.
— Ah – deu uma mordida no sanduíche e mastigou – ele passou a parar de ser atencioso comigo na galeria, parou de responder minhas mensagens e parecia estar completamente desinteressado em tudo. E de uma hora pra outra. Eu, que pareci ser a coisa mais importante por meses, num instante me senti como se não fosse nada.
A moça ajeitou-se na cadeira e continuou:
— Eu fiquei três meses de férias. Pensei que teríamos mais tempo pra conversar, ou que conversaríamos da mesma forma. Mas parecia que nada disso tinha importância, sabe? Ele passou a ser arisco, pouco educado e até mesmo bastante ríspido às vezes. Me chateou bastante.
— Nossa...
— Eu fiquei com muita raiva. Pensei que ele não gostava mais de mim, e se não gostava não tinha problema, ok, acontece. Eu iria sobreviver, só não gostava da sensação de ser enrolada. Não quer mais nada? Me diz então, caramba. Não quer mais ser meu amigo? Vai mudar de uma hora pra outra? Então vá pro quinto!
Ele riu do súbito acesso de fúria que a garota tivera.
— Até que ele me contou o que estava acontecendo e eu quase morri de vergonha. Como pedido de desculpas pela discussão que tivemos eu escrevi uma canção, que chamei de “Canção de apoio”. Nessa música eu o lembrei sobre a importância que ele teve pra mim num momento muito difícil que tive, e que estaria com ele agora que ele mais precisava.
— Awn, que gracinha. Não consigo te imaginar escrevendo canção pras pessoas – debochou – você parece tão brava e impiedosa...
— Muito engraçado, hahaha estou morrendo de rir – ela debochou de volta – mas sim, eu escrevi e não foi só essa. O triste é que nosso relacionamento parou de ser o mesmo, e eu comecei a achar que de alguma forma a culpa era minha. Tentei ser compreensiva ao máximo, dei presentes, me dispus a ajudar com o que pudesse... No entanto eu só me sentia pior a cada dia. Comecei a ter muitas crises de ansiedade com problemas pessoais, e já não sentia mais meu porto seguro pra desabar. Até evitava despejar meus problemas em cima dele como antes, a fim de preservar a sua saúde mental. O problema começou quando estava comprometendo a minha.
Coçou a cabeça, apoiou o queixo com seu braço em cima da mesa e respirou bem fundo antes de continuar:
— Um dia eu cansei, sabe? Parecia que todo mundo tinha a atenção dele menos eu. Por mais que ele me dissesse sempre que me amava, eu não me sentia amada. Amor não é “eu te amo” por que isso é muito fácil de dizer.
— Isso é verdade.
— Aí um dia eu o excluí das redes sociais e apaguei seu número de celular pra não cair em tentação de chamar. O que me doeu muito fazer, no entanto eu já tinha me cansado. Foram quase 5 meses nessa situação, foi me deixando muito mal.
— E você nunca falou como se sentia?
— Muitas vezes. Quem não costumava a falar como se sentia era ele. Queria muito que me dissesse, sabe? Qualquer coisa. Desde um “não gosto mais de você, enjoei” até “eu gosto de você, mas acho que não vai dar certo”. Pra ser sincera ele até disse, mas disse quando minha paciência já estava quase no fim, e as crises de ansiedade e eu já éramos amigas íntimas.
— Eu não dormia, sabe? – ela continuou – eu tava tão cheia de coisa na cabeça que não conseguia relaxar pra dormir. E sempre que eu dormia, minha mediunidade me pregava peças durante a madrugada. Eu sentia alguém sentar na cama, às vezes sentia um cheiro estranho que vinha do nada e até mesmo baforadas de hálito no meu pescoço. Procurei alívio num centro espírita, porém o tratamento é algo demorado e precisa de persistência. Meu cabelo caía como nunca, e meu apetite chegou à zero. Se não fosse meus amigos me lembrarem – e obrigarem! – de fazer as refeições por meio de mensagens, eu continuaria perdendo peso. Já tinham sido 12 quilos.
— Caramba. – o rapaz assombrou-se.
— Isso e muitas outras coisas. Eu não queria levantar da cama. Queria muito acordar morta e me sentia muito covarde por não conseguir tirar a minha vida. Então eu fiz o que deveria ter feito há muito tempo: procurado ajuda. Fui à psicóloga e à psiquiatra. Iniciei a terapia e comecei a tomar medicação.
— E foi bom pra você?
— Foi uma das melhores coisas que eu fiz na minha vida. O tratamento me ajudou a fazer uma análise muito profunda do meu comportamento. Eu descobri por que eu tenho tanto medo de relacionamento, por que eu demoro tanto a me abrir pro amor e a dar chance pras pessoas.
— Mesmo? E por que é então?
— Eu disse que sentia medo de homem, de alguém me fazer eu me sentir como minha mãe se sentiu. De alguém me proibir a estudar, de censurar minhas roupas e minha insaciabilidade pro sexo. Mas na verdade, eu tinha medo era de ficar igual minha mãe.
— Doente? Morrer de câncer?
— Não, não. Minha mãe descobriu a doença depois que se separou. Ela amava meu pai demais e fez muito por ele a vida toda. Se sacrificou e sacrificou suas vontades por ele. Fez tudo o que podia. E ele sempre a tratava muito mal e a mantinha num relacionamento abusivo. E é isso que eu não quero. Eu não quero deixar de fazer minhas coisas, de estudar, de trabalhar, de usar minhas roupas e minhas maquiagens por causa do que meu companheiro vá dizer. E depois chegar ao fim da vida e ficar me perguntando o que fiz de errado, entende? Ficar me culpando pelo erro dos outros.
— Com a terapia – ela continuou – eu percebi que muito do que eu fiz com ele, era eu tentando corrigir os erros que tive com a minha mãe. Por mais que eu cuidasse dela, sempre me maltratava e dizia que o que eu estava fazendo era errado, que eu não a amava, etc. Então quando ele adoeceu inconscientemente eu tentei fazer o que não fiz pra ela. E fiquei muito frustrada por que esperava que a resposta fosse diferente. Mas aprendi que eles são pessoas diferentes, e tudo o que eu podia ter feito pra minha mãe eu tinha feito, e o que eu não fiz já não dava mais tempo de fazer por que já estava morta.
— Que pesado, nem consigo imaginar como seria perder a minha mãe. — ele suspirou.
— Também descobri que estou no espectro bipolar. É quase o transtorno bipolar, mas de uma forma mais branda. Nunca tinha reparado em como meu humor varia ao longo do dia, e pra pior: ao longo do tempo. Ele sempre ficava no extremo: ou muito deprimida, ou muito eufórica, não tinha meio termo. Infelizmente nesses meses fiquei muito no extremo da tristeza.
— Ah, então tudo piorou por que você estava doente...
— Sim. Não só pra mim, pra ele também. No fundo ele também tem alguns transtornos, e sempre flertou com a melancolia, apesar de ser um cara muito otimista e aparentemente feliz. Recentemente foi meu aniversário como você sabe, e recebi uma mensagem dele alguns dias depois. Foi um choque.
— Sério? E aí?
— Bom, nós ficamos alguns meses sem nos falar. Quase três. Confesso que não esperava que ele fosse me mandar uma mensagem, ainda mais como aquela. No texto ele dizia que sentia muito orgulho de mim, e agradecia por eu ter aparecido na vida dele e proporcionado que o mudasse pra melhor. Me desejou felicidades e muita saúde também.
— O que você fez?
— Chorei muito – eles riram – eu levei um susto! Mas chorar é o de menos, eu choro por absolutamente qualquer coisa. E fiquei pensando muito nele desde então. Não que eu já não pensasse, mas é estranho... Nesse período cresci muito como ser humano. E o artista me ajudou, mesmo que indiretamente.
— Por causa dele – ela continuou – eu comecei a sair mais de casa. Acontece que o rapaz foi praticamente meu único amigo por muito tempo, e já que não estava mais comigo como antes, resolvi buscar novas amizades também. Isso foi muito bom pra mim, que tinha problemas com sociabilidade. Por conta disso tudo eu fui buscar ajuda. Acho que chegar ao extremo fez com que eu admitisse que tivesse algum problema e fosse me tratar. Acabou que a medicação não foi tão cara e consegui ajuda médica gratuita.
— Que bom, fico muito feliz por você.
— Também me sinto muito feliz. Sabe, tem uma coisa que eu admirava muito na minha mãe e que tenho muito orgulho de ter herdado. Ela era como a fênix, sempre renascia das cinzas. Por mais que ela ficasse mal, sempre dava a volta por cima. Não é a primeira vez que fico mal desse jeito, só que essa foi a única vez em fase adulta.
— Mas e aí, continua sobre a mensagem que ele te mandou. O que você respondeu?
— Que ele também foi essencial na minha vida, e que sempre que me lembro dele e posso, faço uma prece.
— Que fofa você...
— Vai se foder.
Nova gargalhada do colega.
— Então... Vamos? A gente vai conversando no caminho.
— Vamos sim – a ruiva respondeu.
Saindo da praça de alimentação depois de fazer o pagamento, ela continuou:
— Acho que agora ele não vai mais me procurar.
— Por que acha isso? – ambos andavam pelo shopping em busca da saída, uma vez que em breve teriam ensaio novamente.
— Por que ele sabe que eu fiquei muito mal por conta disso tudo e vai tentar me proteger dele mesmo. Sabe que pode acontecer de novo e só quer o meu sucesso. Não quer que eu sofra, por que por mais que tenha acontecido tudo isso, me machucar nunca foi sua intenção. Ou por que é muito orgulhoso e não quer dar o braço a torcer. Ou por que simplesmente não quer mesmo.
— Talvez uma mistura dos três – meu companheiro de trabalho completou.
— É... Talvez!
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