Apenas uma Noite
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu gostaria de poder dizer que era uma noite fria de inverno ou que as folhas do outono caíam de uma forma melancólica quando ele me abraçou daquele jeito. Iria gostar de contar que eu estava me sentindo especialmente bem poucos minutos antes, conversando com ele, rindo com ele. Adoraria falar que as nossas mãos se juntaram de um modo tão natural, que juntos formávamos um casal adorável, que nossos lábios se encaixavam perfeitamente e que nossos corpos entraram num ritmo como se fossem um só. Eu realmente amaria dizer isso, mas não ia ser verdade.
Acontece que era uma noite de verão, daquelas intensamente quentes, daquelas que suamos até de ficarmos parados. Eu não estava conversando com ele, muito menos rindo com ele, poucos minutos antes, na verdade, eu tinha acabado de ver ele e minha amiga rolando no chão e gargalhando de alguma coisa idiota e normal que o álcool em seus sangues havia deixado engraçado. Nossas mãos? Elas não ficaram juntas naquele momento. Quando nos beijamos, fomos uma confusão só, um estranhamento só. Demoramos bastante para conseguir encontrar um ritmo para os dois, e logo depois, escutamos meu melhor amigo, também bêbado, comemorando, rindo e perguntando se ainda estávamos lá. Aquela madrugada não foi um conto de fadas, passou longe disso, mas conseguiu ainda ficar pior, e melhor, e pior de novo, e melhor de novo... Nada comparado a manhã seguinte. Essa é a verdade.
Eu queria poder acreditar em tudo que ele havia me dito naquela noite, ele soube o que dizer e em que momento dizer, ainda não sei como. Será que eu contei mais do que devia? Não se diz “Você é mais bonita do que pensa, não se esqueça disso.” para uma garota naquele estado, não se fala “Eu já gostei de você antes” sem que seja verdade. Talvez eu não estivesse tão bem quanto eu acho que estava, mas eu sei o quão mal ele estava, eu sei que provavelmente tudo que ele me contou não era verdade. Eu já sabia antes mesmo de entrar em toda essa bagunça, por isso questiono minha sanidade.
Por mais que eu tenha dúvidas sobre minha cabeça naquela situação, eu me lembro de mais algumas coisas. Não esqueci minha vergonha, não esqueci dele tentando me levar para um quarto e depois respeitando a minha decisão, respeitando meus limites, não esqueci de nós dois tentando culpar um ao outro por ter começado e depois concordando que foram os dois (por mais que eu ainda ache que foi ele que me beijou), não esqueci dele pegando timidamente na minha mão (depois de já ter pego no meu peito, o que é algo engraçado de se pensar). Eu me lembro de nos pegarmos na mesa, no sofá, na sacada... Lembro dele parando de me beijar e eu perguntando “O que houve?” e ouvir como resposta “Será que eu consigo te levantar?”, antes mesmo que eu pudesse negar em desespero, ele já estava me segurando e botando minhas pernas em sua cintura, me pressionando contra a parede. Lembro-me dele brincando com o meu cabelo em um rabo-de-cavalo e depois o jogando todo para o lado, de mim arranhando suas costas e não escutar uma reclamação de dor. Lembro também de decidirmos não complicar as coisas, e aí está o meu erro. Talvez o meu “complicar” seja diferente do dele.
Eu ria no outro dia do que havia acontecido, conversava sobre o que havia acontecido, recordava do que havia acontecido. Quando o meu celular tocou, não vou mentir, torci para que fosse ele. Não porque eu achava que éramos um casal ou coisa parecida, não que eu quisesse ser um casal. Eu queria falar e concordar, agora sóbrios, que só servíamos como amigos. Porque nós éramos isso antes, amigos. Acontece que no telefone não era ele, mas sim meu melhor amigo querendo saber como eu estava. No meio daquela conversa eu soube que ele não havia esquecido do ocorrido, e também foi nesse dia que ele não me chamou. Nem no próximo. Nem nos outros dois meses que passaram.
Foi muito estúpido da minha parte achar que depois de tudo que eu já havia passado por ele, depois de tanto gostar dele, eu iria superar facilmente aquela noite. Porém foi ainda mais idiota esperar que depois de dois meses, ele iria olhar na minha quando nos víssemos e pedir para conversar. Posso garantir que após quatro meses, ainda não tocamos no assunto efetivamente. Só contamos algumas coisas daquela festinha, nada a respeito de nós, é claro. Posso certificar que ele foi capaz até de negar na minha frente que sequer foi nesse dia, e alguns minutos depois, olhar para mim e comentar daquela mesma data (novamente, nada a respeito do que aconteceu entre nós).
Creio que já desisti, mas não canso de imaginar que um dia isso iria se acertar. Maldita hora que eu fui me iludir! Maldita hora que o conteúdo da garrafa acabou! Maldita hora que eu fui fraca, e não me segurei.
Espero que um dia, eu e ele possamos ser novamente amigos, do jeito que éramos antes. Espero que um dia, um de nós dois para de ser otário e vá falar com o outro. Eu torço para que seja ele, pois me falta coragem. Aguardo o dia em que todos nós estejamos rindo do que aconteceu. Espero que um dia, essa noite deixe de ser uma lembrança dolorida, para ser só mais uma lembrança do que já foi a vida de uma garota comum.
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