Apenas uma Humana
1 Prólogo
Notas iniciais

Eu sou apenas humano, afinal de contas
Eu sou apenas humano depois de tudo
Não ponha a culpa em mim
Não ponha a culpa em mim — Human — Rag'n'Bone Man
Suja. Era assim que me sentia. Eu não podia me sentir limpa depois de tudo que eu fiz. O mais irônico é que tudo o que eu fiz era para ver os outros ao meu redor serem fortes. Tudo que eu fiz foi para não ver as pessoas que eu amo, enlouquecendo ou morrendo. As mentiras. As omissões. As armações. Tudo zelando pelos que eu queria bem. Tudo isso para eu terminar me sentindo suja e abandonada naquele assoalho encardido de sangue.
O ferimento na minha barriga nem doía mais. A dor em meu coração partido não me deixava sentir a dor do meu sofrimento. Me levantei com muito custo, me apoiando na pia. Me encarei no espelho. Meu supercílio estava com um corte. Meu olho esquerdo inchado e roxo, por causa do soco que eu havia levado. Meus cabelos castanho escuros, que já foram tão bonitos e sedosos, estavam mal cortados, na altura dos ombros. Meus olhos azuis claros que antes eram repletos de alegria, agora estavam opacos como minha alma. Ri com escárnio. Eu estava um lixo humano literalmente.
Minha sanidade era questionável de uns dias para cá e o mais irônico foi que eu me tornei o que sou hoje tentando salvar as pessoas que eu amava de si mesmas. Sempre foi assim. Eu sempre me dei mal na vida por querer pôr o bem estar dos outros na frente do meu. A vida dos outros à frente da minha própria vida. Eu sempre achei que isso era o certo. Sempre pus as necessidades dos outros à frente das minhas. Minha vida toda eu só queria dar orgulho ao meu irmão Rick. Ser amiga de Lori, por mais que não gostasse dela. Cuidar do meu sobrinho Carl. Sufocar uma paixonite idiota pelo Shane. E é claro, ser uma adolescente normal. Mas, eis que veio o apocalipse e tudo aquilo tinha ficado para trás, exceto a necessidade de eu manter minha família à frente das minhas vontades.
E exatamente por esse motivo que eu ruí. Sacrifiquei minha sanidade e minha vida por todos que eu amava e agora iria terminar suja, ferida e abandonada em um assoalho imundo.
E pensar que há algum tempo, eu era só uma garota comum que queria fazer logo os dezoito anos e ir para uma faculdade.
Agora, eu era uma mulher sem sanidade e perdida.
Deitei no chão e fitei o teto mofado, sorrindo. Podia sentir meus olhos pesarem. Podia sentir que iria partir, mas então alguém surgiu passando pela porta.
— Tem uma mulher aqui! — Uma pessoa gritou.
As vozes estavam distantes. Senti alguém me erguendo do chão.
— Você irá ficar bem! — Foi tudo que eu ouvi antes de me entregar a escuridão completa.
Fale com o autor