Apenas um sussuro
19 Gasparzinho
Notas iniciais
– Oi Casey.
– Oi Jane.
– Vou deixar vocês dois a sós – e eu vou dar na sua cara. Segurei no braço de Frank implorando com os olhos que ele não saísse. – É sério Jane, tenho que ir.
– Alguma novidade? Algo que eu possa ajudar? – Casey se aproximou mais, fazendo menção de sentar na cadeira ao meu lado.
– Desculpa, mas é sigilo. – Frank se soltou da minha mão.
– Não. Espera – me levantei, afinal algo de bom poderia dar certo hoje ne? – Você tem ideia de algum lugar que possa ter um odor forte? Algo como carne queimada, produtos de limpeza bem fedorentos e cheiro de terra molhada.
– Quem descreveu isso?
– Foi o cara que interrogamos hoje. Ele estava mantido em cárcere em um lugar assim. Foi vendado e não faz ideia de onde estava. Sabe ou não?
– Fábrica de moer ossos. Tem uma em chinatown. Passei perto ontem e tem esse cheiro bem desagradável.
– Obrigada Casey. Agora tenho que ir. – me levantei e passei por ele que segurou meu braço.
– Jane, quero falar com você. – olhei para Frank que apenas acenou e foi em direção aos elevadores.
– Não sei se isso seria apropriado
– Será apenas uma conversa. Prometo. Entre nós há muitas coisas não ditas.
– Tudo bem, podemos jantar hoje. Será rápido. Agora tenho que ir. Preciso chamar um táxi.
– Deixa que eu te levo. Vai pra onde?
– Shopping. – e ele me olhou surpreso. – Que foi? Também faço compras.
– Em liquidações. Não em shopping.
.
– Vou fazer compras com a Maura. Assim tá melhor? – ele me olhou como se me estudasse.
– Eu nunca tive chance não é verdade?
– Do que você tá falando Casey? – ele balançou a cabeça negativamente e soltou meu braço.
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Maura me observou sair do estacionamento junto com Casey e pareceu não gostar muito da cena. Tenho certeza que isso me renderá uma boa conversa à noite.
– Boa tarde Casey. Você veio nos acompanhar? – Maura estava apenas sendo educada. Conheço bem essa ciumenta.
– Não. Vim comprar meias e trouxe a Jane. – ele sorriu sem graça, e não podia inventar algo mais convincente que meias. Quem sai de casa pra comprar apenas meias?
– Tudo bem. – Maura disse e passou seu braço em volta do meu, num claro sinal de marcação de território. – Vamos Jane? Sua mãe e Esquilo nos aguardam na aérea de alimentação.
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Passamos a tarde inteira no shopping, Maura se encantou pela loja de pets, foi um custo conseguir convencê-la a não levar uma iguana africana. Sinceramente sempre acreditei que em lojas Pet apenas eram vendidos cães, ratos e gatos... Odeio me enganar. Mas o pior não foi prometer que depois voltaríamos, foi ter que ouvir nos mínimos detalhes sobre seu habitat natural, qual seu predador, o que eles comem, o que não comem, entre outros detalhes que não fiz questão de ouvir.
Na loja de games confesso que me senti em casa. Arrasei no basquete, nos jogos de corridas e perdi feio na dança... para Maura.
Oh Pai, perdi na dança para Maura, até agora não consigo entender essa proeza. Esquilo ria da minha derrota, e minha mãe ajudava e reclamava do meu mal humor.
E para completar a noite, perdi no baseball para um garoto de oito anos que apostou comigo.
É... tenho que aceitar que a velhice chegou.
– Maura, quero sorvete. Da um pra mim? – aquela carinha de cachorro sem dono derreteu Maura em 2 segundos. Nem uma aula sobre calorias ela deu e ainda pediu um para ela, o que deixou minha mãe e eu boquiaberta com as várias bolas que os dois dividiram.
– Acho que aquela menina quer sorvete – Esquilo apontava para uma menina que estava sendo acompanhada por duas mulheres bem jovens e bonitas. A jovem loira acenou para Maura e pediu três cascão.
Ouvi Maura dizer que aquela loira era uma conhecida dela e que aquela ruiva era sua esposa.
– Aquela menina é filha delas ! — Esquilo crescia mais os olhos a cada palavra que dizia.
– Sim. Isso mesmo. – Maura falava sorridente
– Nossa que sorte! Ela tem duas mamães! – Maura me olhou envergonhada e desviou o olhar.
Eu queria muito dizer que ele também tinha essa mesma sorte agora, porém era cedo demais.
Resolvemos assistir um filme, foi bom no começo, mas após dez minutos de filme Esquilo não parava quieto, nem pude tirar minha soneca de cinema. Aquelas poltronas são realmente confortáveis e sempre me dão lindos sonhos. Saímos do cinema quase no meio do filme e passamos pelos olhos zangados do lanterninha.
– Vamos comer alguma coisa? – minha mãe perguntou enquanto me passava as sacolas de compra. Fui promovida a carregadora oficial daquele trio.
– Sim, mas nada calórico. – reclamou Maura. – Não devemos nos entregar a essas bombas de carboidrato.
– Mas comemos chinesa na segunda. – provoquei.
– É, mas…
– E Mah fez comida italiana na terça e quarta pedimos árabe.
– sim, mas…
– Na quinta comemos pizza com a Kikyo.
– Então, mas...
– E ontem você quis assar aquela lasanha.
–Tá bom! Eu admito que dou algumas escapulidas, mas hoje não quero comer porcarias.
– Mc Donald não é porcaria. – Esquilo se pronunciou finalmente.
Minha mãe interveio: — O que será que tem por aqui com pouca caloria?
– Água. – Todos me olharam como se eu tivesse botado fogo no Papa. – O que? Vocês sabem que Jane e compras não combinam na mesma frase!
Sentamos à mesa e resolvemos pedir uma tábua. Sussurrei no ouvido da Maura que ela não precisava se privar daquelas delicias, pois à noite iríamos queimar bastante calorias.
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– Frank acabou de ligar -anunciei ao entrar na cozinha e ver Maura cozinhando. – Parece que ele não virá jantar conosco pois ficará de campana na fábrica em Chinatown.
– Pena, estava preparando o prato favorito dele. – Maura fica realmente linda com esse avental de cozinha. Sentei no sofá e liguei a TV.
– Cade o Esquilo?
– Está dando um pouco de trabalho a sua mãe. Ela está dando banho nele hoje.
– Não vou secar o banheiro depois não.
– Você nunca seca mesmo. – Maura sentou em meu colo no sofá com uma taça de vinho tinto na mão.
– E qual é o prato favorito do Frank que você está fazendo?
– Lasanha. Na verdade é o prato favorito de toda sua família né.
– Isso eu não vou negar. Mas se você continuar se aventurando na cozinha assim terá que mudar as roupas de seu guarda-roupa. – vi Maura juntar as sobrancelhas e trincar os dentes. Bater com força a taça na mesa e me empurrar no sofá, ficando sentada sobre mim, e eu lá deitada e indefesa.
– Você. Está. Me . Chamando. De . GORDA?!!! – senti a cor sumir do meu corpo e eu suava frio
– N..Não. Eu, eu, eu só.. Eu.. Eu...
– Agora você tá gaguejando? – nem os piores bandidos me botaram tanto medo quanto estou agora.
– Eu... Eu... – não conseguia formar uma frase que valia ao menos o ar gasto no processo.
– Vou te mostrar o que acontece com quem me chama de gorda.
Ouvi a porta se abrindo e graças ao Meu Bom Deus, Esquilo entrou por ela perguntando o que tinha acontecido ao me ver gasparzinho debaixo de uma Maura furiosa. Muito, mas muito furiosa.
– Eu vi a morte garoto! – foi tudo que consegui dizer a ele.
– Tá tudo bem aqui? – Mah perguntou segurando o riso.
– Por enquanto sim Angela. Mas mais tarde terei uma conversa com sua filha. – não sei se foi a forma como ela falou, o seu olhar duro, ou talvez minhas pernas bambas, mas tudo que fiz foi ficar ali deitada, com medo até de respirar.
Quero saber como ela irá reagir quando eu contar que vou jantar com Casey.
– E hoje você que vai lavar as louças viu Jane! – me gritou se levantando indo em direção a cozinha.
– Maur, tenho que te contar uma coisa... – E eu já podia ouvir a arpa dos anjos me chamando e São Pedro abrindo as portas do céu pra mim, tomara que eu tenha sido uma boa garota e mereça um catinho no céu... pois me sinto indo pra lá. – Eu não vou jantar aqui hoje.
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