Apenas um clichê
1 O começo
Notas iniciais
POV — Gabriel Lewis
Acordo com o barulho do despertador, era uma das minhas músicas favoritas, “Not Today” do BTS. Minha amiga Catarina quem me fez começar a gostar deles, virei um ARMY por causa dela. Olhei ao redor e decidi levantar da cama. Fui direto para o banheiro lavar o rosto, me encarei no espelho e vi uma bendita de uma espinha na minha testa. Droga. Dei um jeito de esconder com a franja e saí para trocar de roupa. Pus meu uniforme da escola e já ouvi o meu cachorro batendo suas patinhas na porta do meu quarto.
Abri a porta e fiz carinho em suas orelhas, como sempre faço. Andei em direção a cozinha com Pluto (o tenho desde os 6 anos, então não tinha muita criatividade para nomes) em meus calcanhares, peguei uma caneca de coloquei café. Minha irmã apareceu com uma cara nada boa.
— O que foi Ju? -pergunto
— Tem aula. -diz ela se sentando de frente para mim
— Ah! Pensa pelo lado bom, é o primeiro dia de aula, vamos conhecer pessoas novas — digo tentando animá-la.
— É, pode ser… me passa o café por favor?
Entreguei a garrafa de café. Terminei de beber e comer e fui para o banheiro escovar os dentes. Quando estava pronto, fui para a sala esperar Julianna. Assim que ela apareceu, saímos do prédio e fomos em direção à escola.
— A gente pode ir de ônibus ? -pergunta Julianna
— Eu vou a pé mesmo.
— Que saco!
— Você pode ir de ônibus sozinha.
— Não.
Reviro os olhos e sigo andando com uma Julianna resmungando atrás. Depois de uns 20 minutos, chego na porta da escola.
— Nem sei a minha sala. -digo
— É só olhar na lista ali. -ela diz apontando para a parede onde a escola geralmente cola a lista
— Mas tem um mar de gente. -diz ela rindo
— Vamos até lá -digo puxando ela
— Vou até a lista da minha série, segundo ano.
— Fiquei na A. Pelo menos a Catarina tá na minha turmas sua namoradinha? -ouço alguém falar, mas ignoro.
— Fiquei na A também. -Diz Julianna
Julianna sai de perto de mim e vai até suas amigas, me deixando sozinho.
— Sua traíra, me largou sozinho.
Vou até o corredor das salas a procura da minha e depois de subir as escadas, a encontro. Me sento na fileira da parede, na quarta carteira e fico mexendo no celular até dar o horário. Mando mensagem para Catarina, perguntando quando ela vai aparecer e ela não me responde. Fico ouvindo música então.
Ouço o sinal tocar e os alunos começam a entrar. Coloco minha mochila na cadeira em minha frente, guardando lugar para Catarina. Depois de mais alguns minutos, ela aparece e sorri pra mim.
— Olá. -ela diz
— Demorou hein! Pensei que fosse ficar sozinho hoje.
— Bom dia pra você também
— Bom dia.
— Planos pra hoje ?
— Sim, jogar videogame.
— Vai ficar a tarde toda mofando naquele quarto?
— É o que pretendo.
— Às vezes, me pergunto como eu fui ser sua amiga.
— Porque você não tinha muita escolha.
— Claro que tinha, quantas pessoas tem nessa sala?
— Umas 30, eu acho.
— Pois bem…
— O que é isso no seu cabelo?
— O que ?
— Isso. -digo apontando para as suas pontas.
— Pintei, gostou?
— É, ficou legal.
— Nossa! Tá mais legal do que essa espinha na sua testa. -diz ela tirando minha franja da frente
— Para de olhar pra ela, to tentando esconder! — digo tirando sua mão e penteando a franja.
— Não está fazendo um bom trabalho.
— Me deixa.
— Tá deixado.
— Olha a professora chegando, vira pra frente.
— Grosso -ela diz rindo e virando pra frente.
Aquela professora até que era legal, era a de inglês. Modéstia a parte, e era o melhor naquela matéria, graças a minha família que era inglesa.
— Good Morning class!
— Good Morning teacher! — respondemos em uníssono.
Ela fez a apresentação e pediu para nós também fazermos a nossa também. Depois, ela passou o conteúdo da matéria na lousa e já começou matéria.
— Você vai me ajudar nessa matéria .-diz Caty
— Mas é claro, se você me ajudar em todas as outras.
— Claro!
Caty era uma das melhores alunas da série e não sei o que eu, um mero aluno aluno mediano, poderia fazer por ela em alguma matéria. Tivemos as duas aulas antes do intervalo, duas de geografia e finalmente toca o sinal do intervalo.
Me espera no pátio, vou no banheiro rapidinho.
— Tá bom.
Fui direto pro pátio e me sentei em um dos bancos e vi a menina que eu gostava desde os 12 anos, passar na minha frente. Era a Aline.
— Vai babar desse jeito. -ouço Caty dizer
— Não estava babando.
— Ah claro. Era eu.
— Para!
— Parei. O que você fez de bom nas férias?
— Você passou grande parte delas comigo sua boba.
— Mas não 100%.
— 80%
— Tá… me fala.
— Joguei, dormi e comi muito.
— Só isso?
— Você queria o que?
— Saí com meus irmãos.
— Legal, minha irmã ficou mais com as amigas delas do que em casa comigo.
— E seus pais?
— Trabalhando, minha mãe não gosta muito de ficar em casa e meu pai teve que viajar.
— Legal, eu acho.
— Mais ou menos.
— Sua irmã veio ?
— Veio, por que ?
— Não a vejo. -diz Caty olhando em volta.
— Não sei então.
— Vamos voltar pra casa juntos hoje?
— Pode ser, só preciso esperar a Ju.
— Claro.
— Ficou legal o seu cabelo, eu gosto.
— Ah! Obrigada.-ela sorri eu eu também.
— O que acha de irmos no cinema depois?
— Pode ser...
O sinal toca e nós voltamos pra sala de aula. Mais três aulas nos aguardavam pela frente, duas de matemática e uma de história. Me sentei na carteira e tirei meu caderno de matemática da mochila.
Bom dia alunos, sou Carlos, professor de matemática.
Fizemos nossa apresentação novamente e resolvemos exercícios da matéria nova. Eu era péssimo em matemática, nunca conseguia passar sem ajuda de Caty.
— Caty, me ajuda aqui, pelo amor de Deus -digo a cutucando.
— O que seria de você sem mim, né?
— Teria reprovado, com certeza.
— Não exagera.
Ela me explica como fazer o exercício e eu FINALMENTE consigo me localizar ali. Olho pra janela ao meu lado e vejo o quão bom seria estar lá fora, com meu cachorro.
Depois de sofrer com a aula de matemática, veio a aula de história, que seria a última. A aula de história era uma das minhas preferidas, a professora era tranquila e não pegava no nosso pé. Eu gostava de história porque eu adoro saber sobre o passado, principalmente se for de algum país.
Depois de uma incrível aula sobre a história do Brasil, o sinal toca e vamos pra fora escola esperar minha irmã. Julianna aparece logo depois e vamos em direção a rua.
— Como foi o dia ? -pergunto
— Legal, e o de vocês? -diz Ju
— Melhor do que eu esperava -digo
— Só estou meio assim, porque a primeira aula de segunda vai ser justo inglês.
— Qual o problema? -diz Ju
— É muito legal inglês .-digo
— Pra vocês, vocês já sabem.
— Disse que posso te ajudar, my friend.
— Me too. -diz Ju e faz Caty dar risada.
Quando chegamos perto da casa de Caty, nos separamos e fomos para outro lado. Chegando em casa, joguei minha mochila no chão do quarto e fui para a cozinha almoçar.
— Gabe, você faz o almoço hoje .-Ju diz se sentando à mesa.
— Okay, o que você vai querer?
— Qualquer coisa.
— Vou fazer arroz, cortar alface e tomate e fazer frango frito pra gente, okay ?
— Delícia, seu frango frito é melhor do que o da mamãe.
— My God! Julianna, é você mesma ?
— Por que?
— Você me elogiou…
— Qual o problema?
— Faça isso mais vezes, por favor.
— Garoto problemático...
Comecei cortando a salada e depois fiz o arroz e o frango.
— Julianna, VEM COMER!
— JÁ VOU.
Servi pra mim e comecei a comer. Realmente, meu frango frito é melhor do que o da mamãe. Julianna se sentou e começou a comer também.
Assim que terminamos, Julianna lavou a louça e eu sequei. Fui para o quarto e liguei meu videogame para jogar um pouco.
Quando parei, já era noite e minha mãe tinha acabado de chegar junto com o meu pai.
— Olá mãe e pai.
— Oi filho -diz os dois
— Mãe, o Gabe fez o almoço e sobrou um pouco. -Diz Ju
— Ótimo, estava com preguiça de fazer -diz mamãe
— Vou tomar um banho antes de jantar. -diz papai
— Quer assistir alguma coisa comigo Julianna ?
— Depende…
— Black Mirror?
— Pode ser.
Vai ligando a TV enquanto eu vou no banheiro.
Fui ao banheiro e voltei pra sala. Ficamos assistindo até ás 20:00, ou seja, até mamãe e papai nos expulsar da sala para poderem ver o jornal. Fui para meu quarto e fiquei mexendo no celular até a hora de dormir.
P.O.V Catarina Morelli
Como quase todas as manhãs acordei com a pata do meu gato roçando em meu rosto. Ao abrir os olhos a primeira coisa que pensei ao ouvir a casa silenciosa é que talvez seria sábado, pois somente nesses dias é que minha família me dava um pouco de sossego para descansar.
Por segurança, peguei meu celular da cômoda e conferi o horário. Eram inacreditavelmente 06:50 da manhã, ou seja, eu estava mais do que atrasada para o primeiro dia de aula do ano.
Levantei em um pulo e me dirigi ao banheiro para escovar os dentes.
Logo em seguida troquei meu pijama amassado por meu lindo e maravilhoso uniforme ( ironia matinal), e fiz um coque frouxo com o cabelo, que por sinal já estava precisando lavar.
Desci as escadas e foi a primeira vez no dia que ouvi algum barulho naquela casa. Eram meus irmãos Giorgio e Valéria que discutiam sobre qualquer coisa que houvesse para discutir. Típico deles.
— Caty — Minha mãe disse quando entrei na cozinha, em um tom mais calmo o possível. Era como minha ela me chamava às vezes, quando não estava nervosa e decidia gritar meu nome inteiro no sotaque mais italiano o possível, herdado de meus avós. — Eu iria te chamar agora minha querida. O que quer para o café?
— O mesmo de sempre- respondi, juntando-se a meus irmãos na mesa, que ao me verem pararam o que estavam fazendo para me encarar.
— Mana, ela roubou meu pão. — Giorgio apontou para Valéria, que estava com o prato completamente vazio.
— Ele está mentindo! — minha irmã argumentou de volta, de braços cruzados.
Revirei os olhos. Essa era a vida de quem tinha irmãos gêmeos de oito anos.
Nesse exato momento mamãe trouxe um prato com duas fatias de pão para mim. Aproveitei e peguei um deles, colocando-o no prato de Giorgio:
— Aqui seu pão. Problema resolvido. — disse. — E pare de acusar sua irmã.
— Bobão. — Valéria mostrou a língua para Giorgio que revidou da mesma forma.
Comi meu café e dei um beijo em mamãe agradecendo. Coloquei a mochila nas costas e fiz o mesmo trajeto para a escola, acompanhada por meus irmãos, já que a escola deles ficava perto da minha.
Depois de deixar meus irmãos no colégio deles fui para a minha e subi as escadas até minha sala. Todos estavam sentados, inclusivo meu melhor amigo Gabriel,aquele bobão que não desgrudava do celular e que agora era uma das pessoas mais engraçadas que havia conhecido na vida.
Lá estava ele, provavelmente sentindo minha falta, todo encolhido, sentado em uma cadeira no canto da sala, naquele lado da parede que ele sempre gostava, pois havia uma janela logo ao lado, na qual ele gostava de ficar olhando quando ficava entediado da aula.
— Olá.
— Demorou hein! Pensei que fosse ficar sozinho hoje.
— Bom dia pra você também. — respondi de forma mais educada o possível. Parece que alguém tinha acordado de mau-humor.
— Planos para hoje?
— Sim, jogar videogame.
— Vai ficar a tarde mofando naquele quarto? — indaguei, um pouco preocupada como sempre. Já que é assim que ele pretendia aumentar a sua vida social.
— É o que pretendo.
— Às vezes, me pergunto como eu fui ser sua amiga.
— Porque você não tinha muita escolha.
— Claro que tinha, quantas pessoas tem nessa sala?
— Umas 30, eu acho.
— Pois bem…
— O que é isso no seu cabelo?
— O que ?
— Isso.- ele apontou para as pontas que caiam soltas nos meus ombros.
— Pintei, gostou?- balancei as madeixas como se eu fosse uma modelo famosa, só que não.
— É, ficou legal.
— Nossa! Tá mais legal do que essa espinha na sua testa.- tirei a franja de sua testa.
— Para de olhar pra ela, to tentando esconder!- ele afastou minha mão e o cabelo caiu na testa de novo, um pouco acima das sobrancelhas.
— Não está fazendo um bom trabalho.
— Me deixa.
— Tá deixado.
— Olha a professora chegando, vira pra frente.
— Grosso- ri e me virei para frente.
A professora chegou, vestida de um vestido solto embaixo do jaleco de docente branco, e com alguns livros de inglês na mão. Suspirei, tinha que ser essa a minha primeira aula do dia?!? Francamente.
Abaixei a cabeça e coloquei-a sobre minhas duas mãos cruzadas sobre a carteira, decepcionada.
Então logo depois, virei-me inquieta, na direção de Gabriel, logo atrás de mim.
— Você vai me ajudar nessa matéria.- disse.
— Mas é claro, se você me ajudar em todas as outras.
— Claro!
As duas aulas passaram voando e logo era o recreio, o qual Gabriel chamava de forma elegante de “intervalo”. Para mim era recreio mesmo, afinal ainda estávamos na escola, estudando aquelas mesmas coisas, ainda sentados naquelas carteiras esperando aquela tortura acabar. Divaguei demais.
O sinal tocou e decidi levar o meu dinheiro para comprar lanche comigo. Vai que alguém me roubava?
Gabriel e eu trilhamos o mesmo caminho para o pátio até que senti uma vontade enorme de ir ao banheiro. Avisei:
Me espera no pátio, vou no banheiro rapidinho.
— Tá bom.
Fui ao banheiro com tanta pressa que no caminho acabei esbarrando com alguém no corredor e deixando minha carteira cair no chão.
Abaixei-me para pegá-la mas antes que o fizesse vi uma mão pegá-la. Segui o caminho das mãos com os olhos, passei pelo braço e pelo pescoço, e quando eu estava completamente em pé novamente, vi o dono daquela mão.
— Aqui. — era um garoto que eu nunca tinha visto na vida antes, que segurava a carteira na minha frente com um sorriso gentil. De onde surgiu aquele ser?
— Obrigada. — agradeci. — Desculpe falar isso mas nunca te vi aqui antes. — comentei. — Deve ser um dos transferidos, não?
— Ah, sim. — ele sorriu. — Estou com tanta cara de perdido assim?
— Um pouco- nós rimos. — Mas é normal, logo você se acostuma.
— Não se você vem de outro país… — ele suspirou.
Eu mal acreditava no que estava ouvindo… Aquele cara era de outro país?!?
— Sério?!? — não pude esconder minha surpresa, estampada na minha cara com um S maiúsculo.
Ele riu, uma risada forte e marcante, porém suave.
— Relaxa, já estou acostumado. — ele respondeu. — E essa não é a primeira vez que eu volto para o Brasil. Faz alguns anos que estou fora mas, não deve ser tão diferente desde a última vez que estudei aqui.
Um silêncio permaneceu no meio daquele barulho de burburinhos e alguns gritos sobressalentes no corredor. Nunca havia saído desse país, e só de pensar naquela possibilidade eu ficava mais do que animada.
— Deve ser legal ir para outro país. — disse, meio que sem pensar, mais para mim mesma do que para ele.
— Bom… Tem seus prós e contras. — ele comentou. — Mas entre nós… O Brasil ainda é um dos melhores países, ao menos para mim. — ele opinou.
— Então, quer ajuda em alguma coisa? — indaguei, voltando a situação.- Eu posso te mostrar a escola se quiser.
— Eu gostaria muito. — ele sorriu novamente mas de um jeito diferente, de uma forma doce, como ninguém havia sorrido para mim. Seus olhos passavam uma sensação a qual eu nunca havia experimentado antes. Era estranho.
— Então tá, eu só vou no banheiro, e te mostro onde é a sala do diretor para que ele deixe que eu te guie pela escola.
— Eu espero aqui.
Dada essa resposta fui ao banheiro feminino e fiz o que tinha que fazer. Na saída da cabine, encontrei uma antiga amiga minha acompanhada de umas garotas. Elas estavam rindo.
Sem graça, me dirigi até a pia e enquanto a água escorria sobre os meus dedos, me lembrei de quanto costumávamos nos divertir antes que algo nos apartou de vez. E desde então, ela se recusava a falar comigo. Por que aquele dia tinha que acontecer?!?
Logo elas saíram e finalmente consegui respirar em paz. Encontrei o garoto naquele mesmo lugar onde eu o havia deixado. Ao me ver ele acenou.
Então, vou te levar na sala do diretor.
— Obrigado é…
— Catarina, mas não gosto que me chamem assim.
— Então como prefere que eu a chame?
— Do modo que preferir, menos Catarina.
— Ok Caty. — ele disse, o que soou meio estranho vindo de alguém que eu mal conhecia, já que quem costumava me chamar assim às vezes era Gabriel. Começamos a andar em direção a sala do diretor.
— E você? Tem nome? — perguntei, e logo depois me arrependi. Claro que todos tem um nome né Catarina? Só podia vir de mim aquela pergunta.
— Tenho. Alan.
— Alan? — perguntei. — Americano?
— Sim.
— Hum… Legal. — sorri.
— O seu tem um cheiro de italiano…
— Como sabe? — perguntei, assustada.
— Seu rosto, delicado e marcante. — aquela frase me fez corar. Ele havia prestado a atenção em mim mesmo que havíamos nos conhecido a tão pouco tempo? — Italiano.
— Acertou. — admiti. — Não me diga que foi a Itália também? — perguntei, um pouco extasiada e emocionada. Sempre quis conhecer a Itália um dos berços da minha família, uma parte de mim.
— Já.
— Não diga!
— É verdade. — ele riu.
— E como é?
— Incrível, parece que você volta na história… Todas aquelas casas antigas, as pessoas vibrantes e o silêncio daquelas ruelas à noite. Quando você vai não quer mais voltar… É tudo tão atraente e as palavras saem como música da boca dos nativos. Simplesmente é um dos lugares mais marcantes que visitei. — ele parou por um instante e acrescentou de forma mais baixa como se me dissesse um segredo. — Sabe… de certa forma, sinto a mesma coisa em você.
Aquelas palavras percorreram todo o meu sangue como um arrepio. Algo na voz de Alan me deixava um pouco nervosa, em um modo bom. Pigarreei, tentando voltar ao normal e então, olhei ao redor, tentando olhar qualquer coisa que não fosse aqueles olhos esverdeados. Ah, logo ali estava a sala do diretor.
— Chegamos. — disse me afastando o mais rapidamente o possível.- É ali. — apontei para a sala.
Ele seguiu com o olhar para onde eu tinha apontado e então pareceu que tudo voltou ao normal.
— Pode deixar que daqui eu consigo me cuidar. — ele disse. — Mais uma vez obrigado Principessa.
— O quê?
— É princesa em italiano.
Aí sim que meu rosto ficou mais vermelho do que o tomate em promoção na feira do seu Zé. Não sabia onde esconder a cara. Só sabia dar um sorriso amarelo e olhar para os meus próprios pés.
— Até. — ele se despediu.
— Até Alan. — respondi e logo que ele entrou na sala, saí meio que sem chão.
Decidi tentar esquecer tudo aquilo e levar minha vida como ela sempre foi: real e o mais rústica o possível. Desci as escadas e encontrei Gabriel babando por aquela menina- que até hoje era muito sem graça para o meu gosto. — que ele gostava desde os doze, e me pressionava a tentar ajudá-lo a conquistá-la.
— Vai babar desse jeito.- disse, quando me aproximei.
— Não estava babando.
— Ah claro. Era eu.
— Para!
— Parei. O que você fez de bom nas férias? — decidi iniciar uma conversa.
— Você passou grande parte delas comigo sua boba.
— Mas não 100%.
— 80%
— Tá… me fala.
— Joguei, dormi e comi muito.
— Só isso?
— Você queria o que?
— Saí com meus irmãos.
— Legal, minha irmã ficou mais com as amigas delas do que em casa comigo. — nesse momento senti uma pena de meu querido amigo. Tadinho… Mas se ele parasse de bobeira e me escutasse, talvez teria passado as férias comigo ou com alguns amigos. Ele e sua vida social...
— E seus pais?
— Trabalhando, minha mãe não gosta muito de ficar em casa e meu pai teve que viajar.
— Legal, eu acho.
— Mais ou menos.
— Sua irmã veio ?
— Veio, por que ?
— Não a vejo.- procurei a irmã fofa- sincera dele com os olhos.
— Não sei então.
— Vamos voltar pra casa juntos hoje?
— Pode ser, só preciso esperar a Ju.
— Claro.
— Ficou legal o seu cabelo, eu gosto.
— Ah! Obrigada.- sorri e ele também.
— O que acha de irmos no cinema depois?
— Pode ser…- disse meio que incerta.
O sinal novamente tocou anunciando a volta da prisão. Ops! A volta das aulas.
Então, voltamos a sala junto com o nosso novo professor de matemática, cujo nome era Carlos.
Não demorou nem uns trinta minutos e Gabriel já estava me implorando ajuda:
— Caty, me ajuda aqui, pelo amor de Deus — ele disse me cutucando com o lápis.
— O que seria de você sem mim, né? — brinquei.
— Teria reprovado, com certeza.
— Não exagera.
Ajudei-o no problema cabeludo que nos foi dado e ele agradeceu, estupefato. Bom, ainda bem que a gente podia se ajudar em algumas coisas, pois em Inglês, bom… A minha história era outra e no prova nunca tinha um final muito feliz.
A aula teve fim e eu, Gabriel e sua irmã conversamos brevemente. Eu não conseguia prestar atenção em muitas coisas, já que eu ainda repetia aquela conversa com Alan um milhão de vezes, apesar de não ter ocorrido nada de especial.
Mas, de qualquer forma, o meu maior pesadelo ainda estava por chegar, pois a aula de inglês ficaria pior ainda nas próximas semanas.
Peguei meus irmãos na escola deles e fui direto para casa, sem atender ao pedido deles que queriam que eu passasse na sorveteria antes do almoço. Nem pensar! Imagina o que minha mãe faria comigo se descobrisse que eu havia “envenenado” meus próprios irmãos com uma quantidade enorme de açúcar.
Comemos o mesmo de sempre em casa: legumes e verduras, feitos pela nossa querida cozinheira pessoal: Dona Janice.
Agradeci e fui para o quarto. Mal o tempo passou e acabei adormecendo.
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