O luto pelo fim do relacionamento do seu melhor amigo e a esposa foi visivelmente traumático para seu irmão, que gritava aos quatro ventos que agora era filho de pais divorciados, então Regulus ficou mais do que contente quando o Ministério finalmente lhe entregou a posse da antiga mansão de sua família.

Ele se mudou imediatamente.

Kreacher estava exultante de alegria com a volta de seu mestre ao antigo lar dos Black. Bem, ao menos à sua maneira. Desde a morte de Walburga Black, sua senhora favorita, o elfo não se dedicava à limpeza da casa, mas agora com um novo mestre digno, ele havia voltado às suas atividades com empenho.

Regulus havia feito da restauração da mansão uma missão pessoal, então, mesmo a contragosto, Kreacher estava aceitando que seu mestre o auxiliasse com alguns feitiços de limpeza bobos. Regulus sempre tentava demonstrar estar se divertindo no processo, pois precisava que o elfo acreditasse que ele estava fazendo por contentamento e não por obrigação.

Os últimos anos haviam cobrado um preço na sanidade de Kreacher, que agora murmurava "relatórios" sobre as mudanças necessárias na casa e as desventuras dos irmãos Black para o quadro de uma senhora Black já morta há pelo menos 2 anos.

Possivelmente essa era uma compensação por ter se dedicado mais a Regulus do que a sua senhora em seus últimos momentos e certamente, estava relacionado ao fato de que o pobre Kreacher havia tido que descumprir uma ordem direta de seu mestre, mesmo que isso fosse de encontro a sua natureza servil.

Regulus estava mais do que grato que Kreacher havia lhe desobedecido naquela única vez e o lembrava disso sempre que via o elfo punindo a si mesmo às escondidas, porém, era provável que a criatura continuasse fazendo isso até o fim de seus dias. O sonserino então teria que achar formas criativas de recompensar Kreacher, sem que isso ferisse a dignidade do servo mais fiel dos Black.

O jovem buscou o elfo doméstico novamente com o olhar, já que ambos haviam trabalhado diligentemente no hall de entrada da mansão, retirando a camada de poeira que havia assentado sobre as dezenas de retratos de seus antepassados. Agora, os Black eternizados nas paredes da casa ancestral pareciam satisfeitos por finalmente estarem tendo sua glória restaurada. Bem, todos os Black, exceto uma...

—REGULUS ARCTURUS BLACK, ESPERO QUE NÃO ESTEJA PENSANDO EM DEIXAR AQUELE TRAIDOR DO SANGUE IMUNDO VOLTAR PARA ESTA CASA, ESTÁ ME OUVINDO?!?! —Regulus esteve ouvindo as reclamações de sua falecida mãe nos últimos dias repetidamente, porque parecia ser a única coisa que o quadro sabia dizer para ele.

Aparentemente todo o orgulho e carinho que a mulher tinha por seu filho favorito não haviam sido eternizados no quadro preso bem na entrada da casa. Se orgulhava de sua paciência, mas ela estava finalmente terminando.

—No fim das contas, Sirius estava certo, mamãe. Lorde Voldemort se mostrou um grande... Idiota. —O sonserino de vinte anos sorriu timidamente com sua escolha de palavras. Já havia respondido ao quadro centenas de vezes, todas com o mesmo desfecho, então se permitiu uma pequena malcriação.

Nem em um milhão de anos se imaginou dizendo algo assim, ainda mais para sua mãe, mas estava tentando ser um pouco mais sincero com os seus sentimentos. E não é como se ainda houvesse alguém vivo para puni-lo por sua rebeldia, não é mesmo?

Durante toda a sua adolescência, tinha sido o filho perfeito dos Black e o maior fã de Lorde Voldemort, esse era o resumo de toda sua personalidade na época. Havia admirado o desejo do Mestre de fortalecer os valores tradicionais do mundo bruxo e invejado seu domínio das Artes das Trevas. Bem, Regulus ainda tinha um certo fraco pelas tradições e Artes das Trevas, mas havia perdido toda a admiração por Voldemort.

Supunha que era assim que se sentiam os patéticos amantes dos romances, ao terem seus corações despedaçados pelo objeto de seu afeto. Os momentos de traição dos livros ativavam sua indignação, ao mesmo tempo que faziam o jovem pensar que esse tipo de coisa nunca aconteceria com ele. Regulus Black era muito esperto para ser traído.

Porém, quando Kreacher, o elfo doméstico que estava em sua família por séculos, retornou quase morto para a mansão após ter sido entregue em confiança ao Mestre, algo em Regulus realmente se quebrou. Talvez tivesse sido seu coração, como em um romance trouxa barato.

Ouvir os demais comensais da morte desejando — quase salivando — cometer atrocidades com os trouxas e nascidos trouxas, mesmo com aqueles que não eram nada próximos a uma ameaça, havia abalado sua confiança na causa, não podia negar.

Ver as voltas e voltas argumentativas que seus pares precisavam dar para justificar as ações cruéis ou simplesmente desleixadas do Mestre era um desafio a sua inteligência. Mas entendia que talvez ele apenas não conseguisse ver o quadro geral, como o Lorde das Trevas enxergava.

Porém, finalmente perceber o completo descaso de Lorde Voldemort com qualquer coisa que não fosse ele mesmo, havia selado a opinião de Regulus: ele havia cometido um erro ao seguir o Lorde das Trevas cegamente.

Nem mesmo seus pais haviam feito a marca negra, embora tivessem o apoiado em sua decisão. Orion e Walburga Black consideravam o ato desnecessário, mas o Regulus adolescente estava tão sedento em demonstrar seu apoio e o de toda a família Black, por tabela, que não hesitou em receber a marca em seu antebraço e se doar para a causa do Lorde das Trevas.

Porém, com o passar dos anos, aprendera da maneira mais difícil que a causa do Lorde girava somente ao redor do Lorde e nada mais. Voldemort queria viver para sempre, em um mundo que refletisse a si mesmo e qualquer criatura seria usada para este fim e seria eliminada, caso ficasse em seu caminho.

Logo, todos os dias eram um inferno entre tentar ser notado pelo Lorde, porém não o suficiente para ser enviado em alguma missão suicida. Ou em uma tarefa degradante, ao lado dos seres mais hediondos e sem escrúpulos com quem um bruxo poderia se associar.

Mas a verdade é que, no fim das contas, Regulus não havia pensado tão profundamente na situação para além do que se desenhava a sua frente, quando tomou a decisão de trair o Lorde das Trevas. O Mestre havia se mostrado um homem mesquinho e egoísta, que desdenhava das coisas insignificantes, que não podia compreender e essa foi a sua ruína.

Naquele fatídico dia, em que decidiu refazer os passos de seu elfo doméstico na missão do Mestre, Regulus havia sido cegado pelo desejo de vingança, de certa forma inconsequente. Ironicamente, sua impulsividade o havia honrado com sua única decisão decente em anos.

Durante o tempo que Regulus havia ficado escondido, em recuperação, o jovem percebeu que ele mesmo acabou sendo um peão insignificante no plano do Mestre. Ironicamente sendo cuidado por outra criatura igualmente insignificante. Não estava nem certo se seus esforços e sacrifício haviam sido necessários, porque, independentemente de suas ações, a guerra havia terminado.

Não soube dos detalhes da batalha entre o Lorde das Trevas e os jovens organizados em uma Ordem pelo diretor de Hogwarts, Albus Dumbledore, mas os jornais diziam que havia sido uma derrota épica e definitiva. Sem corpo para enterrar, com muitas mortes de ambos os lados, mas uma vitória para aqueles que buscavam a paz duradoura no mundo bruxo.

Bem, ele não tinha tanta certeza sobre a parte da paz duradoura. Não havia conseguido destruir a horcrux que roubou com a ajuda de Kreacher, então sempre pairaria sob sua cabeça o medo do retorno do Mestre. Regulus tinha certeza de que não poderia seguir em frente antes de colocar um ponto final na mera possibilidade da volta de Voldemort.

Iria descobrir se o bruxo das trevas havia feito mais horcruxes, descobrir um jeito de destruí-las e então, seria livre para viver a sua vida da maneira que achasse melhor, sem nenhuma culpa lhe assombrando.

O sonserino, eventualmente, seria obrigado a se adaptar ao novo mundo bruxo, já que o Lorde das Trevas havia perdido para bruxos com metade da sua idade e habilidades, pois havia ficado obcecado em destruir um bebê de um ano de idade, que aparentemente era a maior das ameaças...

Iria aprender e se reinventar aos poucos, pois agora o mundo bruxo era progressista, qualquer sombra de apoio ao tradicional e conservador era vista com maus olhos. Bem, ao menos na superfície, já que os mesmos velhos de sempre se sentavam nas cadeiras de poder.

Regulus havia acenado para muitos rostos familiares nos corredores do Ministério há uns dias. Alguns desses rostos pareciam verdadeiramente confusos com a sua presença, outros acusadores, porém, assim como o jovem Black, a maioria dos ex-comensais não podia revelar se eram traidores da causa do Lorde das Trevas ou apenas sobreviventes dos horrores da guerra.

Ninguém tinha certeza se Regulus Black havia recebido alguma anistia, como muitos, ou se havia delatado seus pares, como poucos. Não sabiam de nada sobre o garoto magricela, de sangue nobre, que sempre se mantinha calado nas reuniões do Mestre.

Regulus voltou de seus pensamentos ao ouvir a longa e extremamente alta campainha da porta de entrada tocar, renovando os gritos do quadro de sua mãe – que na verdade não haviam parado, apenas haviam sido mutados em sua mente cansada.

Aqueles gritos eram do tipo que a senhora Black costumava reservar apenas para o mais velho de seus filhos, mas aparentemente era o único tom de voz que havia sido registrado no maior dos quadros da entrada principal.

—Mamãe, a senhora poderia... — Antes que pudesse raciocinar o que estava fazendo, havia silenciado o quadro dentro de uma bolha gigante de água, com um aceno de varinha. Era absurdo e extremamente desrespeitoso com sua mãe e Regulus sabia que pagaria caro por isso, mas o sonserino precisava de cinco minutos de paz para pensar direito. —Desculpe por isso, mamãe, juro que vou me arrepender amargamente!

Não era uma mentira, Regulus já estava se arrependendo nesse exato momento, pois sabia que o quadro colado com um feitiço permanente jamais o deixaria esquecer esse desrespeito. O sonserino correu para a porta, se afastando dos múrmuros repreendedores de seus antepassados, grato por Kreacher ainda não ter vindo ao socorro de sua senhora. Abriu a porta com outro aceno de varinha, sabendo muito bem que não se tratava de um trouxa.

—Potter? —Declarou um pouco surpreso, mas nem tanto, já que ele e o irmão eram os únicos que sabiam de seu paradeiro. Bem, talvez alguns dos velhos do Ministério soubessem também, mas não conseguia imaginar nenhum deles lhe fazendo uma visita em plena luz do dia.

—Eu. —James murmurou sem muita empolgação, aceitando o convite implícito para adentrar a mansão. —Estou vendo que começou a limpeza...

—Sim, mas não é como se a casa estivesse tão ruim assim... Conseguimos nos livrar da maior parte das criaturas indesejadas na mesma manhã! —Regulus contou orgulhoso, pulando qualquer cumprimento tolo, com um aceno amplo em direção ao hall quase que restaurado a sua antiga glória.

Obviamente o jovem estava ignorando a grande bolha d’água ao redor do quadro mais proeminente da grande exposição de membros da mui nobre família Black, na parede recém limpa. Diferente de James, que só tinha olhos para isso.

—Vejo que encontrou uma maneira de calar a sua adorável mãe. —O grifinório assentiu em aprovação, porque ele e Sirius haviam perdido horas preciosas tentando fazer algo para calar o quadro, mas haviam falhado miseravelmente. —Muito criativo!

—O truque foi não ser tão literal com o silêncio, o quadro ainda está fazendo um leve barulho, não está? Às vezes a resposta para um desafio é algo bastante simples. —Regulus assentiu para si mesmo, desviando o olhar da mirada assassina que sua mãe lhe lançava de sua moldura.

—Achei que você era o filhinho da mamãe que jamais ousaria desrespeitá-la... Estou impressionado. —James falou olhando para o sonserino, tentando decifrar que tipo de mudanças Regulus Black havia sofrido nos últimos anos.

No seu primeiro encontro tinha que admitir que estava muito focado em entender o como ele havia sobrevivido, ao invés de focar no se ele deveria ter sobrevivido. Mas tentaria reverter a situação, já que até agora sabia bem pouco sobre tudo que envolvia a volta do sonserino a vida.

—É só um quadro. —Regulus respondeu com um tom que poderia ter passado como despreocupado em ouvidos pouco atentos, mas para que James soou sem vida. —É apenas uma versão bidimensional da minha falecida mãe. Infelizmente só sabe guardar a porta e repetir a lista dos tipos que não podem entrar na nossa casa. A propósito, você está na lista dela.

—Eu sei, ela já me disse isso. —James respondeu divertido, pois mesmo sendo um puro sangue, era um traidor aos olhos de Walburga Black. Parou de sorrir ao se lembrar das implicações do que diria a seguir. —Você também deveria estar, não?

Regulus hesitou um pouco antes de responder, aproveitando para desfazer o feitiço no quadro da mãe, antes de Kreacher ver aquela situação absurda e acabar culpando Potter injustamente.

—Eu também estou. — Respondeu sério, ignorando os gritos estridentes do quadro de sua mãe. Os gritos haviam virado uma espécie de som ambiente para o sonserino. —Enfim... Ao que devo a sua visita, Potter?

—Vim falar sobre... É... Merlin, parece que ela ficou mais alta! Você se importa se nós fossemos para algum lugar menos barulhento? —James perguntou, enquanto tapava os ouvidos, muito tentado a recolocar o feitiço bolha d’água ao redor do quadro da senhora Black.

—Ah, claro! Vamos à sala de jantar. —Regulus sugeriu simpaticamente, mas o maroto tinha outros planos.

—Não, vamos a um bar.