Apenas não deixe o café esfriar
1 O começo
Notas iniciais
Helena olhou para sua esquerda. Lá fora, apenas a chuva caindo em pingos grossos que batiam como pedra em sua janela. Como amava aquele barulho, trazia paz e lembranças de sua avó Anastácia que morrera á poucos anos atrás e deixara seu avô Pierre viúvo, infeliz, sozinho e angustiado.
Era mais ou menos assim que a menina de olhos castanhos e marcantes se sentia. Tudo começara naquela tarde de inverno em Rouen, os coturnos e o casaco vermelho aliviavam o frio que a brisa trazia para perto, a boina cobria apenas o topo da cabeça deixando à mostra os longos fios negros que caiam pelos ombros até chegarem a mais ou menos a altura da cintura. A cafeteria onde encontraria Natalie estava a menos de duas quadras do Museu de História Natural da cidade. Helena não ligava para horários nem compromissos, ser pontual nunca foi um item de sua pequena infinita lista de qualidades, foi andando devagar apreciando como aquele lugar mudava mais e mais a cada dia, novas casas, comércios e pessoas apareciam de repente. A calçada já não tinha mais um tom de cinza, mas sim um branco repleto de figuras e pinturas, as velhas fábricas de tecido do século XIX época em que a industrialização chega ao local ganharam cores fortes e vibrantes para chamar atenção de quem as visitavam nos dias de hoje.
Quando se deu conta já estava a cinco metros da cafeteria, pode avistar Natalie com meias pretas até os joelhos e um coturno da mesma cor, um short bem gasto, blusa de listras e por cima um casaco cinza de lã com botões grandes de cor marrom, em sua mão um copo de café expresso, um iPod e seu molho de chaves repleto de chaveiros de bichos que trouxera da Disney,onde fora conhecer no verão passado.
- De novo Helena? Se nós perdêssemos o ônibus mais uma vez juro que não iria mais ao colégio com você!
- Mas não perdemos. Já falou com a sua mãe sobre ir dormir em casa nesse final de semana?
- Não, e nem estou confiante. Acho que ela está muito ocupada cuidando da papelada da separação para pensar nos filhos e no resto do mundo.
- Ela está mesmo decidida a se separar do seu pai?
- Pelo que percebi sim, e acho que dessa vez é pra valer – Helena se calou. Apenas ficou observando a amiga olhar o horizonte e beber o pouco café que restava no copo.
O ônibus se aproximava quando a menina avistou um garoto pálido com um gigante casaco azul o cobrindo. Seus cabelos eram negros e desgrenhados. Não era alto, nem baixo. Helena imaginou que não teria mais de 1,77, ou o casaco lhe dava a entender que era mais baixo.
Ele a encarou. Olhou para direita e depois para a esquerda e a encarou novamente, olhou para a direita e para a esquerda e a encarou novamente, dessa vez um pouco mais discreto, como se estivesse observando o horizonte ou as velhas fábricas.
Helena corou. Abaixou a cabeça e deu um sorriso de lado colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, resistindo para não olhar novamente para o outro lado da rua, subiu no ônibus na companhia da amiga correndo para pegar a janela e espiar o garoto pálido que a ficou encarando por segundos. E lá estava ele, olhando o ônibus andar em um ritmo lento como em um filme romântico em que o casal se separa e toca aquela música triste ao fundo. Ele ainda estava olhando quando o veículo virou a esquina pondo fim na troca de olhares. De uma vez, e quem sabe talvez para sempre.
Notas finais
Espero que tenham gostado, comentem e acompanhem ♥
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