Apenas mas uma de amor
37 Renesmee- Compatibilidade
Os últimos dois dias no hospital haviam sido exaustivos. Eu passava a maior parte do tempo ao lado de Aurora, tentando mantê-la entretida e otimista, enquanto por dentro eu lidava com uma inquietação crescente. Daniel havia solicitado o exame de medula óssea "por precaução," como ele mesmo disse, e agora eu estava a caminho do consultório dele para saber o resultado.
Quando entrei na sala, Daniel estava sentado ao lado de outro médico, um homem de meia-idade, cabelos grisalhos e olhos atentos. Ele se levantou para me cumprimentar.
— Dra. Cullen, é um prazer conhecê-la. Sou o Dr. Hendrik van der Meer, hematologista especializado em doenças pediátricas. — Ele disse, apertando minha mão com firmeza, mas de forma acolhedora.
— Obrigada por acompanhar o caso da minha filha, Dr. van der Meer. — Respondi, tentando manter minha postura profissional, apesar do nervosismo que sentia.
Daniel indicou uma cadeira para que eu me sentasse. O tom sério no rosto dos dois homens era evidente, e isso me deixou ainda mais tensa.
— Renesmee, — Daniel começou, usando meu nome como uma tentativa de criar uma conexão mais pessoal — queremos que saiba que estamos aqui para apoiá-la e garantir que Aurora receba o melhor cuidado possível. Por isso, decidimos fazer o exame de medula óssea para descartar possibilidades mais graves.
Dr. van der Meer assumiu a explicação, pegando um laudo em mãos.
— O exame revelou que Aurora apresenta sinais de anemia aplástica, uma condição em que a medula óssea não está produzindo células sanguíneas em quantidade suficiente. Isso explica os episódios de sangramento, a fadiga e a palidez que você observou.
Minha respiração ficou pesada. Era como se o chão estivesse se abrindo sob meus pés. Ainda assim, forcei-me a manter a calma e a escutar cada palavra.
— Anemia aplástica... — Repeti, processando a informação. — Isso significa que a produção de glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas está comprometida. Mas qual é o grau de severidade?
Dr. van der Meer assentiu, como se estivesse esperando essa pergunta.
— A condição de Aurora é moderada, mas há o risco de progressão para um estágio mais grave se não agirmos rapidamente. Inicialmente, começaremos com imunossupressores para tentar conter a resposta autoimune que está prejudicando a medula óssea. Também administraremos transfusões e fatores de crescimento para estimular a produção celular. — Ele fez uma pausa, olhando diretamente para mim. — No entanto, se não obtivermos uma resposta positiva ao tratamento em alguns meses, precisaremos considerar um transplante de medula óssea como a próxima etapa.
Eu engoli em seco, sentindo o peso da realidade cair sobre mim.
— E o transplante... Sabemos o quão desafiador pode ser encontrar um doador compatível. Já devemos começar a busca por um doador? — Perguntei, minha voz falhando ligeiramente.
— Sim, já estamos iniciando os testes para verificar a compatibilidade entre os familiares mais próximos. Quanto mais cedo encontrarmos um potencial doador, melhor. — Respondeu Dr. van der Meer com firmeza, mas sua voz tinha um tom de empatia.
Daniel se aproximou, colocando uma mão no meu ombro.
— Renesmee, sei que é muita informação para processar, mas Aurora tem uma boa chance de recuperação com o tratamento inicial. E se precisarmos chegar ao transplante, estaremos preparados para enfrentá-lo juntos.
Eu assenti, lutando contra as lágrimas. Como médica, eu sabia exatamente o que isso significava, mas como mãe, a sensação de impotência era esmagadora.
— Obrigada, Daniel. Obrigada, Dr. van der Meer. — Disse, tentando manter a compostura. — Vamos fazer tudo o que for necessário para que minha filha fique bem.
Quando saí da sala, respirei fundo, tentando reunir forças. Aurora precisava de mim, e eu precisava estar forte por ela, mesmo que por dentro eu sentisse que estava desmoronando.
Quando o Dr. van der Meer saiu da sala, Daniel ficou em silêncio por alguns segundos, me observando. Eu tentava me manter firme, mas era impossível não sentir o peso daquela conversa. Ele se aproximou lentamente, hesitante, mas com determinação.
— Nessie, — ele disse suavemente, — você não precisa passar por isso sozinha.
Eu o encarei, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele me envolveu em um abraço. Por um momento, deixei que o calor daquele gesto me envolvesse. Apesar de tudo, era bom sentir que alguém estava ali por mim.
— Obrigada, Daniel, — murmurei, me afastando suavemente. — Mas preciso estar com Aurora agora.
Ele assentiu, compreendendo minha urgência.
— Claro, mas antes... — Ele respirou fundo, como se escolhesse as palavras cuidadosamente. — É importante que você e os parentes mais próximos de Aurora façam o teste de compatibilidade. Se o transplante for necessário, precisamos estar preparados.
Eu assenti, absorvendo mais essa responsabilidade.
— Vou providenciar isso o mais rápido possível. Obrigada por tudo, Daniel.
Nos despedimos, e eu caminhei rapidamente de volta ao quarto. Assim que entrei, encontrei Aurora sentada na cama, brincando com os lençóis. Ela levantou os olhos para mim, sua expressão iluminada por uma esperança que apertou meu coração.
— Mamãe, a gente vai embora hoje?
Eu me aproximei e me sentei ao lado dela, segurando sua mão pequena entre as minhas.
— Meu amor, a gente vai precisar ficar mais alguns dias no hospital.
Ela franziu o cenho, claramente desapontada.
— Mas por quê? Eu já tô bem...
Respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas.
— Lembra quando eu disse que o hospital é como uma escola para o corpo? Às vezes, a gente precisa ficar mais um pouquinho pra aprender tudo o que precisa. O seu corpo está aprendendo a ficar mais forte, e os médicos querem ter certeza de que ele vai conseguir fazer isso direitinho antes de a gente ir pra casa.
Aurora ficou em silêncio, pensando.
— Então eu tô doente?
— Você está com um probleminha no sangue, mas é algo que os médicos sabem como cuidar. Eu prometo que vamos fazer tudo pra você ficar bem rapidinho.
Ela suspirou, parecendo aceitar a explicação.
— Tá bom, mas eu posso escolher o que a gente vai fazer enquanto eu tô aqui.
Eu sorri, acariciando seus cabelos.
— Claro que pode. O que você quer fazer?
Ela abriu um sorriso travesso e apontou para a televisão.
— Assistir dorama! Aquele que você falou que era seu favorito quando era adolescente.
Eu não pude deixar de rir.
— Você é mesmo impossível, sabia? Tá bom, vamos assistir juntas.
Subi na cama ao lado dela, ajeitando os travesseiros enquanto ela pegava o controle remoto. À medida que o episódio começava, eu fazia carinho nos cabelos de Aurora, tentando me agarrar a esse momento de tranquilidade. Ela precisava de mim agora, mais do que nunca, e eu faria qualquer coisa para protegê-la.
...
O dia seguinte chegou com um misto de esperança e ansiedade. Aurora iniciou o tratamento com transfusões regulares de sangue e o uso de medicamentos para estimular a produção de hemácias. Eu sabia, como médica, que os efeitos colaterais seriam inevitáveis, mas nada poderia me preparar para ver minha filha enfrentá-los.
Ela ficou mais pálida do que o normal e reclamava de uma sensação de calor que percorria o corpo. Em alguns momentos, parecia enjoada, e eu a segurava enquanto ela tentava respirar fundo para controlar o mal-estar.
— Mamãe, tá doendo a minha barriga, — ela murmurou, com os olhos marejados, enquanto eu acariciava seu cabelo.
— Eu sei, meu amor. Mas isso vai passar. A gente só precisa ser forte por mais um pouquinho, — sussurrei, tentando acalmá-la, mesmo que meu coração estivesse despedaçado.
Depois que o primeiro ciclo terminou, ela estava completamente exausta. Voltamos ao quarto, onde ela praticamente desmaiou na cama, envolvida nos cobertores que eu ajustei com cuidado. Sua respiração suave preenchia o silêncio, e por um instante, o alívio me tomou. Ela estava descansando.
Estava sentada em uma poltrona ao lado da cama quando Daniel entrou. Seu olhar era gentil, mas havia algo em sua expressão que imediatamente me deixou em alerta.
— Todos os testes de compatibilidade foram realizados, — ele disse, cruzando os braços enquanto se apoiava na beira da porta.
Eu me levantei devagar, tentando não fazer barulho para não acordar Aurora.
— E os resultados? Já sabe de alguma coisa? — perguntei, a esperança ainda presente em minha voz.
Ele suspirou, um gesto que me fez sentir o peso do que viria a seguir.
— Nessie... infelizmente, nenhum dos familiares é compatível. Nem mesmo você.
Por um momento, parecia que o chão havia desaparecido sob meus pés. Eu respirei fundo, tentando digerir a informação.
— Então, o que fazemos agora? — perguntei, minha voz falhando levemente.
— Precisamos iniciar uma busca no banco de doadores. Quanto mais cedo, melhor. Eu já comecei a encaminhar os dados de Aurora para os registros internacionais.
Eu assenti, lutando contra as lágrimas que ameaçavam cair. Não podia desmoronar agora, não na frente de Daniel, e muito menos na frente de Aurora.
— Obrigada, Daniel. Por tudo.
Ele deu um passo à frente, como se quisesse me oferecer algum conforto, mas eu simplesmente me sentei novamente ao lado da cama de Aurora, segurando sua pequena mão adormecida.
— Vamos encontrar um doador. — Minha voz era firme agora, mais para me convencer do que para ele.
— Vamos, Nessie. Você não está sozinha nisso, — ele respondeu, antes de sair, me deixando sozinha com minha filha.
Enquanto olhava para Aurora, tão pequena e frágil na cama, prometi a mim mesma que faria qualquer coisa para garantir que ela recebesse o tratamento de que precisava. Nenhuma mãe deveria enfrentar isso, mas se dependesse de mim, ela não enfrentaria sozinha.
A noite avançava, e o quarto de Aurora estava envolto em uma penumbra tranquila, apenas interrompida pelo som suave da respiração dela. Eu estava sentada na poltrona ao lado da cama, segurando sua mão, quando a porta se abriu silenciosamente. Bella entrou, seus olhos repletos de preocupação e ternura.
Levantei-me, e ela me envolveu em um abraço apertado. Por um momento, senti como se todo o peso que estava carregando fosse aliviado, mesmo que apenas por alguns segundos.
— Como ela está? — Bella perguntou, sua voz baixa para não acordar Aurora.
— Está descansando, mas foi um dia difícil. O tratamento a deixou muito cansada, — respondi, soltando um suspiro longo. — Ela ainda não sabe sobre o teste de compatibilidade, nem que nenhum de nós é compatível.
Bella assentiu, sentando-se na cadeira ao lado da cama. Seu olhar estava fixo em Aurora, mas sua mente parecia distante.
— Vocês já começaram a busca no banco de doadores? — ela perguntou.
— Sim, Daniel está cuidando disso. Mas eu sei que pode demorar... E o tempo é algo que eu não quero arriscar. — Minha voz fraquejou, mas me mantive firme.
Bella ficou em silêncio por alguns segundos antes de se virar para mim, seu olhar carregado de significado.
— Nessie... nem todos os familiares fizeram o teste.
Meu coração deu um salto. Por um instante, fiquei imóvel, processando suas palavras. Eu sabia exatamente a quem ela estava se referindo.
— Jacob, — sussurrei, mais para mim mesma do que para ela.
Bella assentiu lentamente.
— Ele tem o direito de saber. E Aurora... ela também tem o direito de conhecer o pai.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu as contive. A ideia de trazer Jacob de volta à minha vida, depois de tanto tempo, era avassaladora. E, ao mesmo tempo, inevitável.
— Eu sei, mãe. Mas... como vou dizer a ele? Como vou explicar tudo isso? Ele pode ter seguido em frente, pode ter outra vida agora...
Bella segurou minhas mãos, suas palavras cheias de convicção.
— Você não está fazendo isso por você, Nessie. Está fazendo isso pela sua filha. Jacob merece saber que tem uma filha, e Aurora merece ter todas as chances possíveis de encontrar um doador compatível.
Eu olhei para Aurora, ainda adormecida, e senti uma onda de culpa e determinação me invadir. Bella estava certa. Era hora de enfrentar o passado, por mais doloroso que fosse.
— Vou falar com ele, — murmurei.
— Eu estarei ao seu lado, não importa o que aconteça, — Bella disse, apertando minha mão com força.
Eu sabia que o caminho à frente seria difícil, mas, por Aurora, eu estava disposta a enfrentar qualquer coisa.
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