Apenas mas uma de amor
51 Jacob- Esperança
Os últimos dois meses foram um turbilhão de emoções. Cada dia era uma mistura de tensão e esperança, enquanto buscávamos incansavelmente um doador compatível para Aurora. O novo tratamento que o hematologista havia introduzido ajudou a reduzir os efeitos colaterais, e, embora ainda estivesse internada, Aurora parecia mais animada, menos abatida. Sua energia voltava aos poucos, mas ela ainda precisava de cuidados constantes.
Eu praticamente morava no hospital. Não conseguia me afastar, não queria perder nenhum segundo ao lado dela. Nessie, por outro lado, andava diferente. Nos últimos dias, estava visivelmente abatida e, para minha preocupação, quase desmaiou naquela manhã. Insisti para que marcasse uma consulta médica, mas ainda não sabia o que poderia estar acontecendo.
Naquele momento, estava sentado ao lado de Aurora, ajudando-a a fazer as tarefas escolares. Ela adorava quando eu lia as questões para ela, e era incrível como sua curiosidade e inteligência permaneciam intactas, mesmo diante de tudo o que estava passando.
Meu celular vibrou sobre a mesa. Olhei para a tela e, mais uma vez, o nome "Renata" aparecia no display. Suspirei, cansado dessas tentativas dela. Nos últimos dois meses, Renata havia tentado entrar em contato várias vezes, mas eu sempre ignorava. Dessa vez, no entanto, decidi atender.
— Pai, quem é? — Aurora perguntou curiosa, percebendo minha hesitação.
— Só um minuto, minha princesa. É trabalho. — Levantei e caminhei até o corredor, onde poderia falar sem que ela ouvisse.
— Renata? — Atendi, direto e sem paciência.
— Jacob! Finalmente você atende. Precisamos conversar. É urgente.
— Conversar sobre o quê, Renata? — perguntei, a irritação evidente na minha voz. — Não tenho nada a tratar com você.
— É sobre o passado, sobre nós. Sei que você está ocupado, mas é importante.
— Renata, o passado ficou onde deveria: no passado. Agora, minha prioridade é minha filha, e honestamente, não tenho tempo ou interesse em reviver o que quer que você ache importante.
— Você não entende... — ela começou, mas eu a interrompi.
— Entendo perfeitamente. Você quer atenção, mas não vai conseguir isso de mim. Tenho minha vida, minha família, e não vou perder tempo com coisas que não importam mais.
Do outro lado da linha, ouvi o silêncio. Renata estava claramente ofendida, mas isso pouco me importava.
— Muito bem, Jacob. Me perdoe por incomodar, desejo melhoras para sua filha. — E desligou.
Respirei fundo, fechando os olhos por um instante. Voltei para o quarto, deixando aquela conversa para trás. Aurora me olhou com curiosidade quando entrei, e forcei um sorriso.
— Resolvido, minha princesa. Agora, onde estávamos?
...
Estava sentado ao lado de Aurora, tentando explicar uma equação de matemática. Ela fazia caretas enquanto eu desenhava os números e símbolos no caderno, tentando transformar a explicação em algo mais simples.
— Então, olha aqui, minha princesa. Você soma esses dois números primeiro, depois multiplica o resultado pelo número que está fora do parêntese. Viu só? — falei, apontando com o lápis.
Aurora franziu o cenho, olhando atentamente.
— Hmm… espera aí, pai. Então é tipo… somar o "3 + 5" e depois multiplicar por 2?
— Isso mesmo! E quanto dá?
— Dá 16! — ela respondeu com um sorriso largo.
— Exatamente! — bati palmas teatralmente, arrancando uma risada dela.
— Uau, papai, você é muito bom nisso! Acho que vou tirar A em tudo!
Nesse momento, Nessie entrou no quarto, segurando algumas sacolas. Ela riu ao ouvir a declaração da filha.
— Olha só, Aurora. Já está declarando que vai tirar A em tudo antes mesmo de terminar a lição? — brincou, colocando as sacolas em uma cadeira.
— É porque o papai é o melhor professor! — Aurora disse, orgulhosa, apontando para mim.
Nessie sorriu, mas havia algo em seu olhar que me preocupou. Ela se aproximou e beijou a testa de Aurora.
— Princesa, será que posso roubar o papai por um momento? Preciso conversar com ele.
— Só se ele prometer voltar rápido! — Aurora fez um biquinho.
— Prometo — garanti, levantando-me.
No corredor, segurei as mãos de Nessie e a encarei com preocupação.
— Está tudo bem? — perguntei, já imaginando o pior. — É sobre o mal-estar de hoje? Você foi ao médico?
Nessie sorriu suavemente e balançou a cabeça.
— Jacob, calma. Não precisa se preocupar. Eu não estou doente.
— Então o que foi? — insisti, meu peito apertando.
Ela hesitou por um momento, mas seus olhos brilhavam de um jeito que eu não via há algum tempo.
— Estou grávida, Jacob.
As palavras ecoaram, e por um instante, não consegui responder.
— Você… está grávida? — minha voz saiu quase como um sussurro, cheio de incredulidade e emoção.
— Sim, estou grávida.
Senti meu coração disparar, e antes que pudesse pensar, puxei-a para um abraço apertado.
— Nessie… — murmurei, minha voz rouca de emoção. — Isso é… incrível.
Ela riu baixinho, com os olhos marejados.
— Eu estava com medo de como você reagiria.
— Medo? — afastei-me o suficiente para olhar em seus olhos. — Nessie, isso é a melhor notícia que eu poderia receber. Aurora vai ter um irmãozinho ou irmãzinha…
— E você vai ter mais um motivo para ser o melhor pai do mundo. — Ela sorriu, e eu a beijei, sentindo uma felicidade indescritível.
Naquele momento, todas as preocupações pareceram menores diante do futuro que estávamos construindo juntos.
Olhei para Nessie, tentando entender o que mais ela queria me dizer. Apesar da notícia da gravidez ter me pegado de surpresa, eu sabia que havia algo mais. O jeito como ela segurava minha mão, o olhar cheio de algo que parecia ser esperança e preocupação… ela estava hesitante, mas também determinada.
— Tem mais alguma coisa, não tem? — perguntei, minha voz soando mais calma do que eu me sentia por dentro.
Ela suspirou profundamente, desviando o olhar por um instante antes de voltar a me encarar.
— Daniel disse que… o bebê pode ajudar Aurora.
Por um momento, não entendi o que ela queria dizer. Inclinei levemente a cabeça, tentando processar a informação.
— Como assim? — perguntei, meu coração acelerando.
Ela apertou minha mão e começou a explicar, sua voz baixa e carregada de emoção.
— O Daniel falou sobre o sangue do cordão umbilical. Ele contém células-tronco hematopoiéticas, as mesmas que são usadas em transplantes de medula óssea. Essas células podem substituir as que estão doentes na medula de Aurora, ajudando-a a produzir células sanguíneas saudáveis.
Pisquei, tentando entender o impacto disso.
— Você está dizendo que o cordão umbilical do bebê… pode salvar a Aurora?
— Exatamente. — Ela assentiu, os olhos brilhando com uma mistura de esperança e nervosismo. — No momento do parto, podemos coletar o sangue do cordão umbilical. É um procedimento seguro para mim e para o bebê. O Daniel acredita que essa pode ser uma chance real para ajudar a nossa filha.
Fiquei em silêncio, tentando absorver tudo. Minha mente foi inundada por imagens de Aurora sorrindo, vivendo sem os aparelhos e as limitações do hospital. Era como se uma porta que parecia fechada há meses tivesse se entreaberto.
— Esse bebê… não foi planejado — ela continuou, sua voz suave e cheia de emoção. — Mas, de alguma forma, ele já é um símbolo de esperança. Ele veio para nos lembrar que ainda há algo pelo que lutar, Jake.
Engoli em seco, sentindo um nó na garganta. Olhei para Nessie, tão forte e determinada, mesmo diante de tudo que estávamos enfrentando.
— Nessie… você é incrível. — Puxei-a para um abraço apertado, sentindo a urgência de transmitir o que as palavras não conseguiam expressar. — Não importa o que aconteça, nós vamos passar por isso juntos. Vamos salvar a nossa filha, e vamos fazer isso como uma família.
Ela chorou silenciosamente contra meu peito, e eu a apertei ainda mais forte, sentindo minhas próprias lágrimas escorrerem. Pela primeira vez em muito tempo, o medo deu lugar à esperança. Tínhamos uma chance. Uma chance de salvar Aurora e proteger tudo o que era mais importante para nós.
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