Apenas mais uma sexta feira tediosa.
1 Apenas mais uma sexta feira tediosa.
São Cinco e Meia da tarde.
O sol começa a se esconder por detrás dos topos dos edifícios como faz todo dia.
Envergonhado, decepcionado, broxa.
Frustrado por não ter me entregado tudo o que devia.
Saindo de fininho, tentando me fazer ter pena e chamá-lo de volta, usando os leves fios loiros que lhe restam para tentar me seduzir e me fazer voltar aos anos dourados de tardes quentes e cervejas geladas.
Mas não tem volta, não dá pra correr atrás do passado desse jeito.
Já pensou o que acontece quando um cachorro persegue um carro? Os dois loucamente, amantes urbanos num dia inteiro, o suor, o calor no carburador e então: ”Bam”! O carro para bruscamente como um peso de toneladas caindo em cima da cabeça do pobre cachorro e aí começa a dar ré por que sentiu vontade de voltar á outra rua.
É isso que acontece quando você quer voltar, quando quer dar segundas chances, baby.
Simplesmente não dá.
O sol continua sua caminhada deplorável, com passos lentos em direção ao nada, que nem uma esposa frígida, cansada, que não satisfaz mais seu marido e sabe disso. Sai de cabeça baixa, segurando o pouco de roupas que lhe resta enquanto dá lugar para uma meretriz fogosa, morna e com tanta energia que posso sentir meus lábios faiscarem ao beijá-la.
Sinto muito, baby.
Eu e você sabemos que não é de agora, há um bom tempo... Um longo tempo que nós não mais nos entendemos.
É claro que eu me lembro de nós dois andando pela passarela ao lado do rio, cantando músicas que não fazíamos ideia da letra, correndo contra o tempo para aproveitarmos até seu último suspiro, seus cabelos dourados me abrigaram por muito tempo, Douradinha.
Mas nosso gozo de saudade virou um beijo de despedida.
E todas às vezes têm sido iguais, tentamos sobreviver destes restos poentes como os mendigos debaixo da prefeitura que mastigam os filtros dos cigarros buscando um pouco mais de nicotina.
Só resta o gosto amargo, baby.
E agora, Uau.
Agora lá vem ela.
Eu sinto que ela está perto.
Pela mudança de clima, pelo quicar seco e sem métrica do som dos saltos finos acertando o chão. Tudo muda, a brisa me acaricia como um aviso, um chamado, um pedido.
”Fique pronto, meu amor... ”
Sim, dama obscura. Dona da selvageria, do ardor, da peste que me devora as entranhas e dos demônios que gritam por entre minhas coxas, Sim.
Tudo muda, meus pelos se atraem pela sua existência como pela estática na minha TV de tubo e eu sei que está vindo. Seu cheiro de asfalto cru e húmido me preenchem junto ao hálito de álcool e cigarros baratos que venho masturbando a tarde toda esperando por ti.
As cortinas se fecham, o público se cala, e do escuro da morte desta cidade podre uma nova peça se inicia, mais forte e vibrante que qualquer outra.
As luzes dos postes são meros holofotes para tua passarela de desejos proibidos e eu, meu anjo frio, sou teu admirador mais devoto.
Meus olhos batem no relógio, está na hora!
Eu não quero perder um minuto de você, não quero desperdiçar nem um toque ou canto do teu corpo, está na hora, é o nosso momento, minha agridoce... Natasha.
Tem de ser perfeito, forte, único, o escárnio da besta-homem. O fogo no paraíso.
”Seja meu, querido. Seja meu, McGarthy”.
Você não tem de pedir duas vezes, nunca teve.
Desde que me mostrou o quão sedenta pode ser, o quão grande é teu amor, o teu fogo.
Escolho a melhor roupa que tenho, a mais bonita, a mais chamativa, se eu tivesse uma placa com teu nome eu usava, você sabe disso.
Sinto sua presença.
Posso ouvir sua voz ficando mais alta pela minha janela.
”McGarthy... Meu amor.”
É calma, mansa, cê sabe que eu adoro assim.
Você sempre chega como uma felina, pisando com cuidado com suas patas macias, me faz gritar pelas suas garras.
Eu a amo, mais do que a mim mesmo.
Meu anjo frio.
Subo o zíper da minha jaqueta, estou pronto para sua guerra santa.
Um último gole no uísque.
Ele desce quente, desliza gemendo.
Natasha...
Pelo retângulo sem vidraças na parede posso ver a cidade, o topo de cada casa, os gatos trepando, os vizinhos discutindo por assuntos banais.
Se fosse mais uma Terça ou Quarta.
Por deus, se fosse uma Segunda, eu secaria esta garrafa de uísque sem me dar tempo para respirar apenas parar atirá-la nessas baratas barulhentas, malditas sejam. Eu estaria puto.
Mas hoje não é uma Quinta.
Hoje é sexta-feira, merda!
É o maldito dia sagrado para as putas, os vagabundos, matadores, pervertidos e safados desocupados.
É o nosso Sabbath.
O começo do fim do mundo.
Nossa Sexta-feira santa. Dia de beber até vomitar para beber de novo, comer carne, carne e bucetas.
É nosso dia das crianças, tá me entendendo?
Todos nós viramos seres iguais.
É a porra do Ano novo, Caralho.
Infelizmente... Vejo seus últimos momentos acordada.
Porra, Douradinha. Não tem de ser assim. Não tem que cortar meu barato.
Se serve de consolo... O primeiro gole vai ser pra você.
Minha risada invade o apartamento como goteiras em tempo de chuva.
Dou uma última mexida no cabelo em frente ao espelho.
Tem que ser perfeito, forte...
”Você tá bonito, grandão. Indo encontrar alguém. ”
Você.
Apenas você.
Seus olhos me cerram como se pudesse me devorar de uma vez só. E eu não duvidaria.
Ponho minhas mãos no seu quadril, estamos tão perto.
Eu corri por você, Querida. Que nem um cachorro atrás dum carro.
Minhas mãos calejadas sentem o tecido do vestido.
Seda.
Gosto do toque, parece que vai rasgar á qualquer momento.
Os seus olhos são como o vestido preto que percorre suas pernas torneadas.
Escuro como o céu. Como minha alma.
Deixo minha mão escorrer como gelo sobre sua pele azulada.
Me sinto no paraíso negado aos homens.
Não sei ao certo o que lhe agradou tanto em mim, mas na verdade, não me importo.
” Quem é o meu garoto atrevido? É você, John McGarthy. É você.”
Eu amo quando ela diz meu nome.
Nem mesmo minha mãe me chamava pelo nome.
É tão íntimo quanto o seu toque em meu rosto. Ela tem lábios nos dedos.
Lhe levo até minha cama.
Os saltos marcam cada passo, aumentando minha ansiedade ao máximo, como um vulcão.
No meio dos nossos beijos já não sei se estou no controle ou se estou tão sendo guiado como um cego ao atravessar a rua.
Não ligo.
Ela não me dá coleiras ou restrições, ela não me prende ou me diz o que não fazer.
Ela me liberta.
Leva minhas mãos á sua nuca para que eu a prenda.
Sinto os pequenos fios de cabelo.
Sua pele arrepia, é um sinal verde.
Sigo pelo seu cabelo macio, sedoso, escuro como seus desejos.
Seu cabelo curto não me facilita, mas puxo-lhes como se fosse seu dono desfazendo um pouco o grande moicano preto que lutava até a pouco para se manter em pé
Ela me ensina.
Ela gosta de sofrer.
Ela me pergunta se gostei do vestido.
Meu olhar não foge do par de seios medianos, nem grandes nem pequenos, aprisionados, suspirando pelo decote.
Eu digo que ela está linda, mas o vestido ficaria melhor no chão.
Ela tira minha roupa como se fosse uma embalagem.
Ela me faz pensar que sou um doce e outras vezes um pernil.
Ela é uma predadora, uma tigresa devoradora de homens, o diabo em si vestida em pele de mulher.
Num abraço manhoso ela me pressiona contra seus peitos macios.
É como deitar-se nos travesseiros mais macios do mundo após uma noite de bebedeira.
Mas desta vez, estou sóbrio.
Ela gosta assim.
Que não seja um tiro de Calibre 12.
Que a noite seja um crescendo.
”Você pertence á mim, somente a mim. ”
Não me deixa tempo para responder.
Ela retira uma das suas camadas e o vestido cai lentamente lutando contra o vento até acertar ao chão.
As pintas em seu corpo brilham como numa festa de aniversário.
Quase mordo os lábios ao ver as duas estrelas maiores.
Nós gritamos por horas como gladiadores num coliseu.
Fizemos tanta sujeira que tenho certeza que deixamos os anjos envergonhados.
Ela me deixa na cama fumando um cigarro enquanto ela faz o seu próprio.
Tem um pouco de fumo na bolsa.
De longe a observo andar até a sacada, como se visse o quanto ainda nos sobra.
E eu tenho certeza, é muito.
Ela começa a se vestir sem nenhuma explicação.
Tudo bem, eu não a cobro.
Mas lhe pergunto aonde vai.
Lhe digo que a noite não acabou.
”Está longe de acabar, querido McGarthy. Mas tenho um acerto de contas no Alpendre do Diabo e não posso mais adiar. Por que não me encontra no Olho vermelho mais tarde?”
Alpendre do Diabo.
É uma zona por lá, sinto receio e penso em pedir para lhe acompanhar.
Mas não digo.
Ela me beija.
Pobre da alma que cruzar o caminho de Natasha numa noite de Sexta, o inferno seria pouco.
A vejo sair pela porta sem fechá-la.
Me levanto com um sorriso bobo na cara.
Ouço algo acertar o chão junto ao lençol.
Uma caixa de Fósforos. Nela tem escrito: Bar Olho vermelho.
Uma grande orbe ocular rubra serve de estampa.
Eu não sei de que inferno você veio, mas quando apodrecer quero que seja lá.
Me visto novamente enquanto acendo um cigarro com os fósforos que ela me deixou.
Pego a garrafa de uísque, duas carteiras de cigarro, meu relógio de pulso, uma Magnum.40 que tava embaixo do travesseiro e dou adeus para a foto de Cherrie.
Minha mãe.
Um dia ela ainda vai disparar em mim enquanto trepo.
A Magnum, é claro.
Cherrie já fez isso comigo quando era viva.
Tiro a tampa do uísque com a boca e deixo um pouco cair no piso amadeirado.
Pra você, douradinha. Faça companhia ás baratas.
As ruas nessa cidade suja são quase todas iguais e você tem que estar preparado para se perder caso não conheça bem essa merda.
Até mesmo as crianças, pequenos filhos da puta, abortos malfeitos, te comem vivo se não se cuidar direito.
E eu?
Eu já nasci nesse chiqueiro.
Conheço essa cidade tão bem quanto me conheço.
Às vezes até nos confundimos.
O Bar fica num dos bairros mais cabulosos da cidade. Tem tanta putaria por lá, que fica difícil não ter o que fazer, é a Las Vegas dos bastardos. E pra mim é como um passeio no quintal.
Na frente do prédio em que eu moro tem um Cadillac vermelho.
É a única cor que consigo enxergar nesta rua.
O brilho chamativo do carro chega a ser até mais forte que os das seringas compartilhadas nos becos.
Eu venho namorando com ele há dias.
Não faço ideia de que puto sortudo deve ser o dono.
Mas que se dane, hoje é o dia do acerto de contas.
É o dia que o filho chora e a mãe não vê.
Subo um pouco o fundo das calças e acerto o vidro da janela com o calcanhar da bota.
Os pequenos pedaços do vidro temperado são como crias das estrelas que faltam no céu de hoje.
E com esse carango eu vou buscar a estrela que mais brilha nessa cidade.
Jogo a jaqueta por cima do banco para evitar de um desses vidrinho cortar meu rabo e sinto o couro no volante.
Hum, Baby.
Eu vou te tratar como uma mulher de verdade.
Com um soco quebro o plástico que envolve o volante.
Desconecto os chicotes e sigo tirando quase todo o painel.
Eu faria com mais cuidado, mas hoje quero sentir a bagunça.
Enxergo os fios de poder e de partida.
Agora, baby. Liga pra mim, vai. Nunca te pedi nada.
O ronco abafado acompanha as faíscas no painel. Está viva.
Como um relâmpago mancho as ruas de vermelho em cada curva bruta que faço.
Sinceramente, não tenho pressa de chegar naquela espelunca, mas é um pecado andar devagar numa Sexta á noite.
Passo para a terceira, a quarta, o motor grita por mais.
”Meu McGarthy ...”
O volante gira desenhando uma lua tão cheia e completa como a que ilumina a estrada.
Vejo O Olho Vermelho piscando acima da entrada do bar.
Minha Querida, meu Anjo da morte me espera por lá.
A fumaça esbranquiçada é como uma nuvem densa demais para voar, o cheiro de pneu queimado me excita.
Paro o carro um pouco antes da esquina do lugar mesmo que lá tenha um estacionamento.
Quero guardar a carruagem para quem a merece, para mais tarde, e não tô a fim de discutir com um provável dono.
Visto minha jaqueta após sacudi-la.
Caminho rápido e eufórico.
O porteiro, sentado numa cadeira inclinada para se encostar na parede está mais bêbado que eu. Dormindo com um cigarro apagado na boca e um chapéu cobrindo os olhos.
Eu roubo o cigarro.
Uso os fósforos para acendê-lo e logo ao passar pelo neon encarnado como a pele de Satã deixando as portas balançarem num vai e vem percebo que Natasha ainda não chegou.
Pego uma das garçonetes pelo braço.
Baby, me dá uma igual essa aqui e mais doze cervejas.
Viro a garrafa de uísque que já não tinha o bastante.
Jogo a garrafa no chão, ela não quebra.
Quero que tudo esteja nos trinques para agradar minha predadora.
Há uma mesa vazia no canto.
Passo pela escória dessa cidade e quase me camuflo nela.
Aceno para uns e outros.
Conheço alguns, sou amigo das peças raras.
Mas aqui a gente não demonstra muito os laços, sabe? É perigoso.
Sento na cadeira e com um sorriso amarelado acompanho os quadris das garçonetes.
Bar Olho Vermelho.
Tem uma má fama maravilhosa.
Sempre tá cheio, menos quando todo mundo já tá muito louco.
O problema é pros desavisados. Eles acham que aqui é um daqueles cantos que tocam blues e jazz moderninho, com boinas e quilos de maconha.
Na real, aqui é um bar pra casca grossa.
Pra gente ruim.
Que se machuca, que apanha e gosta.
Daí essas molengonas logo descobrem o motivo do nome do Bar.
— Vai seu Filho da puta, nem pense em cair, você me custou mais do que ganha em um ano!
— Se segura, Estrangulador. Cê aguenta mais que isso. Não vai desmaiar seu puto!
Um gongo metálico é acertado por um martelo e o que parece ser o último round começa.
Essa é a maior atração no Olho vermelho, e obviamente a mais importante.
Dois homens sem camisa.
Um deles de cueca e outro usando uma calça preta desbotada.
Não sei há quantas horas estão ali, mas o círculo de apostadores ao seu redor está tão sujo de sangue seco quanto os lutadores.
Existem apenas três regras.
Nada além dos punhos. Nem ataduras ou mesmo esparadrapos.
Durante a luta é tudo ou nada. Se você desistir perde tudo na noite e vai ter que se ver com seu gerente. Se morrer perde, se matar ganha.
E a terceira e mais importante: O jogo é o Jogo, e o jogo apenas. Não há leis, vingança ou remorso, mas fora do jogo você está por conta própria.
Nunca participei deste tipo de esporte sangrento, mas costumava apostar quando... antes dela.
Os socos acertam os rostos como sacos cheios de carne moída.
Quase não se vê os olhos.
Não sei há quanto tempo estou aqui vendo esta rinha de galos sem deus, bebendo álcool como se fosse limonada, mas ficaria por mais dez anos se for para esperá-la.
Os narizes parecem batatas cozidas junto ao sangue que escorria toda vez que os golpes rasgavam a testa ou abriam feridas antigas nas maçãs do rosto, não falta muito para uma macarronada.
Os braços se movem como marretas.
O choque seco contra os ossos me faz pensar: Eles não se quebram?
Penso enquanto olho minha mão, a fecho e a abro num movimento contínuo.
Perco tempo o bastante para perder aquele último golpe.
Vejo a multidão abrindo o circulo como a pele do rosto do pobre coitado.
Seu corpo voa.
Um anjo ferido.
Abrindo espaço para o meio do bar.
Aquele circulo era a única coisa que distinguia as bebidas da carnificina.
Um corte se abre e enquanto flutua na minha frente vejo a gordura da bochecha.
O corpo cai como uma pedra se partindo ao chão.
Ouço um trincar, um quebrar estilhaçado.
Não pode ter sido seus ossos.
Me levanto em busca de uma resposta, atento ao corpo desfalecido como todos ali no local.
Dentre os rostos curiosos posso perceber o brilho dos estilhaços grossos de uma garrafa de uísque.
Meu uísque.
Ando até o corpo com passos duvidosos enquanto ouço passos apressados.
— Maldito, Estrangulador! – O velho careca joga algumas cédulas sobre ele. Não demora e se mistura ao sangue. – Por que não me enterrou logo com meu dinheiro?
O velho vai embora.
Está assustado.
Puto da vida.
Deve ter perdido muita grana.
Dou uma olhada geral no cara deitado no chão.
Vejo algumas bolhas saindo daquilo que um dia foi a sua cara, mas não dura mais do que dois segundos. Pobre diabo.
Os olhos estão arregalados, como se me olhassem. Como se me conhecessem.
Merda.
Arranco o cordão de identificação militar do seu pescoço.
”Donald DUKE Romero.”
Sua cara estava tão deformada que nem a própria mãe saberia quem é.
Seu imbecil de merda.
Não me assusta agora o desespero do velho. Ele perdeu o melhor lutador que esse balde de lixo já viu.
Merda, Cara. Me prometeu que iria parar.
E agora, veja onde você parou.
Morto no chão do Olho vermelho com gente te chamando de Estrangulador.
Fecho as inchadas e sangrentas aberturas dos seus olhos.
Olho novamente a garrafa partida sob sua nuca.
Tem sangue nas minhas mãos agora. Isso nunca me incomodou.
Mas esse é sangue do Duke.
O peso de sua cabeça a faz deslizar por cima do relevo de uma das partes da garrafa e parar logo ao lado. Solta como a cabeça dos frangos que mamãe prepara pro almoço.
Merda.
Eu matei o Duke?
— MINHA MÃO, PORRA! MINHA MÃO! AAARHG, CARALHO!
— Bom garoto, me valeu cada centavo, filho.
— SEU MERDA, OLHA O QUE ELE FEZ COM A MINHA MÃO.
— Calma, garoto. A gente concerta qualquer coisa.
A mão do moleque tava fodida, dava até pra contar os ossinhos pulando.
Os dedos tortos como os becos que peguei para chegar aqui sangravam tanto que mesmo que ele os segurasse, o chão parecia um daqueles quadros de arte moderna.
É, Duke era mesmo durão.
Pelo jeito mesmo perdendo, ele fez questão de incapacitar esse bostinha.
Tu fez tua parte, cara.
”Seja meu, querido... ”
Sinto o clima mudar.
A atração entre metal e um super imã.
Sinto sua presença.
Sinto seu desejo.
Natasha...
Meu rosto é guiado para fora do lugar.
E dentre as idas e vindas da porta pude vê-la.
Minha mulher vestida de céu sem lua.
”Seja meu, Martin. ”
Como o soco que antes acertara o corpo morto abaixo de mim, sinto meu peito travar.
Sinto-me paralisado belo beijo...beijo... Beijo desta serpente venenosa.
Não me vejo muito diferente de meu velho amigo.
Estou gélido, frio como o último estágio do inferno.
Meus dedos se contraem.
Sinto-me num programa de perguntas e respostas e estou entre ”Enfarto ” e ”Aneurisma ”.
Meu anjo, a criatura mais incrível, o demônio mais quente, ela trouxe o fogo para esse simples mortal e agora me joga nas trevas?
Maldito beijo, me enfeitiçou como um tolo.
Me fez de bobo com este veneno doce que poderia me fazer morrer.
Eu sou um burro, eu sou...
— Um marricas...
— Duke? – Meus olhos trêmulos descem ao corpo morto. Seus olhos estão arregalados novamente. – Cê tá morto cara.
— Tão morrto quanto essa vaga...bunda, vai estar... CORRTA A GARRGANTA DELA! CORRTA A GARRGANTA DELA! CORRTA A GARRGANTA DELA! CORRTA A GARRGANTA DELA! CORRTA!
Não tem de pedir duas vezes.
Puxo a garrafa quebrada e vejo um pouco de sangue espirrar alto.
A parte quebrado, do fundo, permanece fincada no pescoço do Duke.
Eu posso realmente ter causado aquela fratura.
Mas eu não me importo, não agora.
Me levanto num único movimento que me jogo contra a porta, ela se abre como os portões do inferno, me mostrando a pior desgraça que poderia presenciar naquela noite.
Maldita, maldita seja esta Sexta-feira!
Eu posso ver seus lábios tocando os de outro.
Outros lábios.
Outras mãos naquele vestido de seda.
Outro pobre maldito tentando atingir o céu daquela pele azul.
Quantos depois de mim?
E quantos mais antes?
Quantas camas, quantos beijos, quantos homens está mulher é capaz de ter?
— Por que, Natasha? – Tento não gaguejar. O coração de homem nenhum está preparado para isso.
— Querido... – Suas mãos magras e suaves levam o rosto do homem até onde o meu rosto esteve antes nesta noite. Ela parece calma. Assustadoramente calma. – Você tem de entender. Eu não posso ser sua.
— Mas... Natasha... – Meus dedos se enrijecem ao redor do gargalo.
— É simples, Meu bem. A noite não pertence á um homem, mas sim á todos.
Nada parece fazer sentido.
Nada parece real ou certo.
Como uma cobra, Natasha enrosca os braços pelo pescoço da sua presa, o mantendo perto.
Preso num beijo.
Lhe ensinando.
Ignorando minha presença.
Meu cheiro e minha estática.
— VOCÊ NÃO FICA SACIADA, VADIA?!?!
Seus olhos se abrem no meio do beijo profano.
Ela me vê.
E sabe que eu a vejo.
É como descobrir que quem pintou todas aquelas belas telas do paraíso nunca realmente esteve lá.
Ela tenta falar enquanto o imbecil suga seu veneno de sua boca.
Talvez ela não consiga manter dois homens sob controle ao mesmo tempo.
Ou eu simplesmente vi o rosto do diabo.
E ele é lindo.
Sua boca se liberta, sua mão se estende para se proteger.
”... Não, McGarthy! ”
Mas é tarde.
Com um golpe certeiro o gargalo do uísque desenha um sorriso na cabeça do filho da puta.
Ele jorra.
Com o impulso do primeiro golpe rasgo sua garganta.
Ele não tem tempo para gritar ou entender algo além do terror.
O bostinha é um chafariz de sangue.
A pele de Natasha está arroxeada.
Eu levei o inferno até o céu.
Eu clareei A noite com O dia.
Desta vez todo o vidro se foi e não sei diferenciar o sangue dele para o da minha mão.
Por conta dos espasmos ou mesmo da dor, do desespero, o corpo morrendo se permanece agarrado ao da cobra maldita.
Levo minha mão vermelha para dentro da jaqueta.
E quando ela sai, sai acompanhada por uma pistola tão grande quanto o meu pau.
No movimento de sacar a Magnum, vejo meu relógio de relance.
São quase Cinco da Manhã.
— É Hora de amanhecer, Baby.
Puxo o gatilho.
Meus olhos se contraem um pouco pelo barulho.
Sinto o coice ao mesmo instante que vejo a cabeça do maldito se abrir como uma rosa.
Meu ombro se afasta.
Isso é normal, sempre acontece, é o coice.
Mas não para a frente.
Sinto de novo.
Do outro lado agora.
A força dos meus braços se acaba.
A arma desce, tão rápido quanto meus joelhos, acertando o chão.
O que diabos está acontecendo?
Mais uma vez. E agora dói, dói pra caralho.
Meu corpo gira.
Minha nuca acerta o chão.
Já senti isso antes.
Olho para o céu, é a única coisa que dá pra olhar.
Está dividido como a cabeça do outro cara.
O sol tá nascendo.
— Agora eu entendo , McGarthy.
Eu reconheço esta voz triste e trêmula.
É ela? Douradinha?
Me arrasto como um feto inútil enquanto sinto o sangue correr louco por dentro de mim.
Deixo um caminho vermelho para trás, mas me arrastei o bastante para me encostar numa lata de lixo.
Tão fria quanto o cadáver que vou ser logo.
Meus olhos deixam de girar.
Minha vista embaçada ganha um pouco de foco.
É ela. Seus cabelos dourados não mentiriam.
É ela. Ela veio me...
Em suas mãos há um revólver.
Merda.
Ela veio me matar?
Veio me trazer o último raio de sol?
Três disparos eu senti.
Acho que algum deve ter perfurado o pulmão.
Maldita.
Três disparos.
Ainda tem cinco balas no tambor.
Mas espere, não está apontando para mim.
Isso, isso querida.
Atire cinco vezes nesse maldito moicano!
— Atire... Cinco vezes... – Sangue sai da minha boca á cada palavra.
— Cala a porra dessa sua boca, McGarthy, seu cuzão! – Ela grita, mas nem pisca. Nem olha para mim. Sua mão guia a arma em minha direção, mas não tira os olhos... da Natasha. – Agora eu entendo...
Ela dá passos em direção á serpente traidora, passos fortes e convictos.
Nenhuma das duas parece assustada com o amontoado de miolos e o corpo morto jogado ao chão.
Eu estou sentado, encostado numa lixeira, que belo lugar para morrer.
Enquanto ela se move sua mão permanece fixa, deixando aquele cano me encarar.
Será o duplo homicídio mais estúpido que ouvirão falar.
Merda.
E esses escrotos do Olho vermelho sabem que não devem se meter.
Malditas regras.
Enquanto ela se move, amanhece.
A luz entra pelos becos, mostrando todo o vômito e excremento que a cidade aguentou durante a noite.
Todo o rastro dos ratos e vadias.
Iluminando minhas botas.
Eu nunca havia visto tanto assim do meu sangue.
” Seja minha, Querida...”
Mas que porra...?
Ambas paradas.
As mãos azuis tocam o rosto pálido, mancham as bochechas rosas de vermelho.
”Seja meu dia. ”
O clarão aumenta.
As duas se beijam.
Eu não penso duas vezes. Nunca precisei.
Aproveito a distração e jogo minhas últimas fichas fora.
Mesmo correndo o risco de levar mais chumbo nas costas, Eu corro.
Cada passo é uma facada.
Sinto as balas me mordendo por dentro.
Mil diabos, porque deixei o carro tão longe.
Onde está você, baby?
Onde está você?
Ali! isso!
Pulo pela janela quebrada como um gato entrando em casa depois de um noite de farra.
Minhas mãos tremem enquanto mexo nos fios.
O carro liga.
O dia nasce.
Eu dou o fora dessa merda.
Pouco a pouco vejo a manhã de sábado ganhar mais espaço na cama.
Puta merda.
Vadias!
Puta merda...
Ela a atraiu para que eu pudesse fugir?
Eu seria morto de alguma forma?
Na real, não me importo.
Dirijo devagar, não por que quero, mas por que não posso ir mais rápido.
Sinto que talvez eu morra antes de chegar em algum lugar.
Merda, Natasha.
Você brotou do nada e trouxe tudo para este homem.
Uau, você acabou com a minha sexta.
Mas veja, não foi apenas mais uma sexta-feira tediosa.
Foi A sexta-feira, merda!
O maldito dia sagrado!
O nosso Sabbath!
O começo do fim do mundo!
Ah, Isso foi perfeito, foi forte...
Foi único.
Eu te amo, Natasha.
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