Apenas mais uma história de amor
6 Deixando para trás
Foi em uma tarde, logo após a escola, depois de muito refleti, que Nina começou a pôr sua ideia em prática, para isso procurou a mãe no escritório, onde ela trabalhava em uma grande empresa multinacional. Não era comum a filha a procurar no trabalho, então Marta sabia que o assunto deveria ser importante.
— O que houve, Nina? O que é tão urgente que não pode esperar até eu chegar em casa e você vir até aqui? – Marta questionou, preocupada, ao receber a filha no escritório.
— É algo que eu queria pedir para você, mãe – Nina começou reticente, sem encontrar as palavras certas, Marta a incentivou com o olhar. – Bem, eu estive pensando que... – fez uma breve pausa — gostaria de passar um tempo com meu pai no Canadá – concluiu em um único folego.
— Por que assim tão de repente, Nina? Aconteceu alguma coisa errada? – Marta se espantou com a ideia.
— Não, nada, está tudo bem. É só porque eu estou com saudades, eu não vejo meu pai, há um tempão. Além de querer conhecer minha irmãzinha, melhorar meu inglês e poderia aprender com uma nova cultura, vivendo em um país diferente por algum tempo – argumentou, havia treinado a resposta antes, Marta encarou a filha, desconfiada.
— Eu não entendo porque essa decisão tão repentina de ir morar com seu pai, Nina. Há algo errado lá em casa?
— Não, mãe! Não há nada errado! – A voz dela sai estridente. — Só que eu pensei que poderia ser uma boa oportunidade para mim, conhecer coisas e gente novas, ter outras experiências. Você me entende? – Nina tentava passar entusiasmo.
— Eu não sei – Marta fechou os olhos e balançou a cabeça, não estava convencida, era difícil para ela a possibilidade de se afastar da filha, mesmo que fosse só por algum tempo. — Você já conversou com o seu pai?
— Sim, ele achou a ideia ótima.
— E quando seria?
— Nas férias de verão, poderia ficar um tempo a mais, talvez, fazer algumas matérias por lá.
— Mas é daqui alguns meses, e ano que vem será decisivo para a escolha da sua carreira e da universidade. Além disso, será inverno por lá, estará muito frio – Marta ponderou, tentando fazer a filha mudar de ideia.
— Será só por algum tempo e eu me adapto fácil. Estou louca para ir. Por favor, mãe! – Nina deu um olhar de suplica.
Marta soltou um longo suspiro, conformada.
— Está bem, mas ainda vou conversar com seu pai sobre isso.
A garota saiu de lá, com um misto de tristeza e alívio, achando que foi uma boa decisão, quem sabe a distância entre ela e Gabriel não ajudaria aplacar tudo aquilo que sentia, atenuar o erro, fazê-la esquecer daquele beijo que ainda se lembrava tão bem, quando fechava os olhos, sentia os lábios macios dele contra os delas, o calor do seu corpo. Mas, precisava esquecer, enterrar bem fundo na sua memória por mais difícil que fosse.
— Nina, falei com o seu pai e combinamos tudo a respeito da sua viagem. Ele já está providenciando uma escola para você lá – Foi assim que alguns dias depois, em um jantar em família, Marta comunicou, em tom casual.
Naquele instante, os olhos de Nina procuraram os de Gabriel e encontrou a perplexidade causada pela inesperada notícia.
— Eu vou passar algum tempo com meu pai no Canadá – justificou-se rapidamente, não era assim que pretendia contar a ele sobre sua iminente viagem.
— É vai ser bom para você – Gabriel disse, sem emoção na voz.
— Sim, eu acho que vai – Nina murmurou.
Daí em diante a comida perdeu o sabor, um nó na garganta o impedia de engolir, Gabriel respirou fundo.
— Com licença, tenho que estudar para uma prova amanhã – Gabriel comunicou, Nina sabia que era mentira, observando-o quando ele se ergueu, levando o seu prato para cozinha, depois, sumiu para o seu quarto.
Quando a casa se tornou escura e silenciosa e Nina não conseguia dormir, o peito sufoca de angústia, então, levantou-se e caminhou até o quarto de Gabriel, bateu de leve na porta, um, duas vezes, esperou por um tempo uma resposta que não veio, então entrou devagar e a fechou atrás de si. Ficou parada no mesmo lugar, o corpo encostado na madeira fria, e quando seus olhos se adaptaram a escuridão, conseguiu distinguir a silhueta de Gabriel deitado na cama, imóvel, mesmo assim, sabia que ele estava acordado e que a estava escutando.
— Eu ia te contar sobre a viagem, juro! Não queria fazer nada escondido de você, Gabriel. Só que precisava ir, queria ver o meu pai outra vez – Em resposta, ela recebeu o silêncio. – Eu só queria dizer que vou sentir muito a sua falta – Em seguida, abriu a porta e saiu.
Depois desse dia, raramente, Nina se encontrava com Gabriel, que a evitava. Nos raros momentos em que isso acontecia, ele mal a olhava ou falava com ela, abaixava a cabeça e a ignorava, e Nina sentia o seu coração se apertar dentro do peito, pensando que, em breve, estaria longe e eles esqueceriam tudo isso.
E assim, alguns meses depois, Rui, Marta e João estavam na frente da entrada do embarque internacional do aeroporto, bastante movimentado naquela época do ano, no começo do período das férias escolares.
— Está tudo aí? Cartão de embarque? Passaporte? – Marta repetia mais uma vez, aflita. — Lembre-se se pai irá buscá-la no aeroporto.
— Pela milésima vez, sim, mãe, está tudo aqui e eu sei que ele irá me buscar. Fica tranquila, eu estou indo para casa do meu pai – Nina repetiu com fingida paciência.
— Desculpe se estou bancando a chata, mas, nós duas nunca ficamos tanto tempo separadas – Marta tinha um nó na garganta, a voz embargada.
— Vai ficar tudo bem, mãe.
— Até breve, Nina – Rui se despediu com um abraço e um beijo no rosto dela.
— Vou senti sua falta, João – ela abraçou forte o irmão caçula.
— Pena que Gabriel não pode vir, ele já tinha combinado com os amigos – Rui lamentou.
— Tudo bem. Diga que mandei um beijo para ele – Ela sabia que era mais uma mentira. Nesses últimos tempos, eles pareciam que fugiam um do outro, evitando o iminente adeus.
Nina caminhou determinada para o portão de embarque, ainda se virou para dar um último aceno antes de entrar.
À noite, Gabriel entrou no apartamento silencioso, escuro e vazio, sabia que todos estariam no aeroporto se despedindo de Nina, assim foi até o quarto dela, acendeu a luz, olhou todos os detalhes, sobre a cama estava uma camiseta esquecida, pegou-a e sentiu o seu cheiro, tentando guardá-lo na memória.
Lá em cima, no avião, Nina recostou a cabeça na janela, vendo a cidade, se distanciar, tornando-se uma renda de fios luminosos, naquele momento, querendo deixar o que sentia para trás, mesmo sabendo que seria muito difícil, esquecer.
Fale com o autor