Notas iniciais
Neste capítulo, uma regra original do Death Note será alterada. É citado brevemente no anime e aparece também no How to Read que quem tem o nome escrito de maneira errada 4 vezes no Death Note fica imune a ele. Se alguém escrever o nome de outra pessoa errado 4 vezes propositalmente a pessoa que escreveu morre e aquela cujo nome foi escrito não ficará imune. Essa regra será mudada nesta história, para se encaixar na narrativa

A mulher sentada no sofá tinha um olhar firme. Era como se ela carregasse uma certeza inabalável, que nada nem ninguém poderia mudar. L prestou bastante atenção na moça ruiva na sua frente. Percebeu que ela usava alguns colares que mal apareciam por baixo do uniforme de camareira, assim como a tatuagem que ela tinha na nuca, cujo desenho ele não conseguiu identificar. Mas o mais interessante era o olhar. Ela olhava diretamente para os olhos de quem falava, e mesmo mascarado, L sentia os olhos verdes dela olhando diretamente nos seus olhos, e isso o incomodava. Era como se alguém lhe tocasse sem permissão.

— Acho que você deve imaginar que eu tenho muitas perguntas a fazer – L manteve seu tom habitual, educado. Ela não pareceu estranhar a maneira como ele estava sentado no sofá, com os joelhos encostados no peito. Isso também chamou a atenção do detetive.

— Claro. Responderei o possível. Mas preciso que você ouça o que eu tenho pra te contar – Havia alguma urgência na voz dela.

— Eu lhe dou a minha palavra que vou ouvir. Mas você há de convir que o fato de ter invadido a força tarefa coloca você em sérias suspeitas.

— Se eu fosse o Kira, não faria sentido invadir a força tarefa para matar você já que eu não sei o seu nome. Mas se eu for o segundo Kira, faria sentido, por isso você está mascarado.

O resto do grupo observava em silêncio. Light se esforçava para esconder a ansiedade que estava sentindo.

— Devo lhe dizer que você é muito esperta, senhorita.

— Por favor, me trate por você. A propósito, a segurança daqui não é tão boa. Nem foi tão difícil burlá-la.

— Essa seria a minha primeira pergunta. Como me encontrou?

— Primeiro fui ao prédio da força tarefa para conseguir informações. Como obviamente, as investigações corriam em sigilo, eu me aproximei de alguns policiais que trabalhavam na investigação para conseguir acesso ao prédio e informações sobre o caso.

— Como assim “aproximar”? – Perguntou o Sr. Yagami, como se tivesse medo da resposta. L permaneceu em silêncio.

— Eu convidei alguns deles pra sair, um de cada vez, claro. Depois de um tempo de conversa eles acabavam me contando tudo. Além disso, com o acesso que consegui ter ao prédio, consegui roubar informações do sistema da polícia através de um pen drive com um programa invasor que um amigo hacker que me devia um favor desenvolveu pra mim.

Todos na sala, à exceção do detetive, não contiveram sua expressão de choque, em alguns, mesclada com desaprovação. Chiara era realmente muito bonita, não seria estranho que os homens se sentissem atraídos por ela, mas não eles não achavam correto que ela usasse isso em benefício próprio. Eles também estranharam o fato de que ela falava como se fosse a coisa mais normal do mundo e não aparentava o mínimo de culpa ou vergonha. L tentou pressionar o polegar na boca, como de costume, mas a máscara atrapalhou.

— Com quantos policiais você saiu, moça? – O Sr. Yagami estava aparentava estar horrorizado.

— 6. Foi a quantidade necessária para conseguir colocar o vírus no sistema e copiar os arquivos do caso Kira.

— Você não se sente envergonhada de sair com tantos homens? – Agora o Sr. Yagami parecia indignado.

—Não – Retrucou ela, naturalmente. – Na verdade muito me impressiona a hipocrisia com o que o senhor age. Eu acabei de dizer que utilizei um vírus para roubar informações da polícia e o senhor fica indignado com o fato de eu sair com 6 homens? Que eu saiba isso não é crime. É minha vida pessoal, eu faço o que bem quiser dela.

Essa era difícil de rebater. Ainda assim, todos à exceção de, L que apenas observava o desenrolar da conversa, pareciam repreendê-la com os olhos. Ela parecia não dar a mínima. O Sr. Yagami, irritado, quebrou o silêncio:

— Os policiais que te passaram as informações precisam ser punidos. Você tem que dar os nomes agora mesmo!

— Sr. Yagami – Interrompeu L – Creio que isso não seja importante agora. Por favor, deixe que Chiara termine de nos contar como chegou a mim.

— Bom – Ela se ajeitou no sofá, buscando ficar mais confortável – Os arquivos que eu consegui tem todos os registros do caso até a equipe se reduzir. Depois de a maior parte dos investigadores ter saído do caso, não foi difícil descobrir quem permaneceu. Foi só observar os registros de ponto e ver que alguns dos policiais não estavam mais nas frequentando o prédio da polícia, mesmo permanecendo no quadro de funcionários. Depois, peguei o endereço do policial de patente mais alta – no caso, o Sr Yagami, e o segui por alguns dias, até descobrir o hotel. Vi que você muda de hotel toda semana, o que dificultou um pouco. Assim que vocês vieram para este hotel, me candidatei a uma vaga de camareira e consegui. Durante esse tempo, observei que os seguranças deste andar recebem uma garrafa de café toda tarde. Hoje, consegui colocar sonífero nesse café, e depois, foi fácil abrir a porta utilizando alguns grampos.

— Você teve bastante trabalho, é bem inteligente, tenho que admitir — L estava interessado naquela mulher. Além de impressionado com a inteligência dela, apreciou o seu esforço em encontrá-lo.

Chiara tentava imaginar que expressão teria a face por baixo daquela máscara. Ela tentava olhá-lo no fundo dos olhos, como costumava fazer com todos, mas os dois olhos arregalados daquela máscara esquisita a faziam sentir como se estivesse conversando com um boneco. Como seria o rosto daquele detetive tão talentoso?

— Então você sabe como Kira faz para matar suas vítimas?

— Sim, eu tive contato com o Segundo Kira no incidente que matou o meu noivo.

— Pode nos contar como aconteceu? – O tom de voz de L fez Chiara pensar que ele estava realmente interessado.

— Antes, quero lhe pedir algo, detetive – L assentiu discretamente. – Primeiro, peço que mantenha sua mente aberta. Segundo, que prometa que vai ouvir a história até o fim.

— Está bem.

Todos na sala pareciam curiosos, e os olhares de expectativa se voltaram todos para ela. Light arquitetava formas de se sair daquela situação. Seria muito suspeito tentar impedi-la de falar. E se realmente estivesse falando a verdade, que saída ele encontraria?

— Tudo começou na noite do incidente da TV Sakura — Chiara buscava manter a voz controlada e uniforme, apesar de relatar lembranças dolorosas — Eu e meu noivo morávamos na Inglaterra e viemos há alguns meses ao Japão porque eu estou tocando em alguns concertos com a Orquestra Sinfônica do Japão. Nós alugamos um apartamento no prédio em frente à TV Sakura. Naquela noite, decidimos subir até a parte de cima do prédio para ver a cidade de cima. Ao chegarmos lá, percebemos que havia alguém olhando pra baixo, para a rua. A pessoa estava usando um sobretudo longo fechado e capuz. Achamos estranho. Ela estava com um caderno aberto na mão e parecia muito atenta ao que fazia, pois não percebeu quando nos aproximamos.

Light gelou. Caderno aberto? TV Sakura? Parece que a história dela seria verídica, afinal. “E agora, se Ryuzaki acreditar eu estarei em maus lençóis... Mas talvez ela não tenha como provar e todos achem a história absurda. Quem vai acreditar que um caderno possa matar pessoas? Ryuzaki é inteligente demais pra acreditar numa história dessas!”

— Ao perceber nossa presença, a pessoa se assustou e deixou o caderno e a caneta caírem no chão. Percebemos que ele ou ela usava também uma máscara, o que achamos muito suspeito. Sam, o meu noivo, pegou o caderno do chão, e de repente gritou de susto olhando alguma coisa no ar. Eu não entendi a reação dele, então perguntei o que estava acontecendo. Foi quando ele me entregou o caderno e então eu pude ver – Ela fez uma pausa e ergueu as sobrancelhas – o Shinigami.

— Não seja ridícula! Todos sabem que Shinigamis não existem. Você só pode ser maluca! – Light já iniciara seu plano de desacreditá-la.

— Você prometeu que eu não iria ser interrompida – Disse Chiara, dirigindo-se a L e ignorando Light.

— Light, por favor, deixe que ela termine.

— Obrigada – Continuou- O segundo Kira estava apenas parado observando. Não pude ver sua expressão através da máscara, mas me pareceu que ele não quis falar nada para que sua voz não o identificasse. Apesar de estar assustada com a figura do Shinigami, eu abri o caderno. Havia alguns nomes escritos nele. Um deles eu reconheci. Era o nome do âncora de um jornal daqui de Tóquio. Estava escrito que ele iria morrer exatamente às 6 horas daquele dia de ataque cardíaco. Havia também outros nomes, mas sem a descrição da morte. Achei aquilo muito estranho, então perguntei ao Shinigami o que era aquilo tudo. Ela me disse que o caderno era um caderno de Shinigami, e que a pessoa cujo nome for escrito nele morrerá. Não foi difícil acreditar, já que era um Shinigami que estava contando. Além disso, observei a rua que a pessoa misteriosa observava antes. Haviam três pessoas desmaiadas na calçada, provavelmente mortas. Distraída junto com o Sam observando os corpos no chão, não percebi quando o segundo Kira veio por trás de mim e arrancou o caderno da minha mão, rasgando um pedaço de uma das páginas, que joguei no chão. Num impulso, corri atrás dele, enquanto Sam ficou com o Shinigami. A pessoa misteriosa desceu correndo pelas escadas e conseguiu fugir. Voltei ao alto do prédio para encontrar Sam – Ela parou e engoliu seco, tentando disfarçar o embargo na voz – E ele estava no chão, morto. Na sua mão, encontrei o pedaço de papel que eu havia rasgado. – Novamente, ela faz uma pausa. Parecia lutar para que nenhuma lágrima caísse dos seus olhos. Por enquanto, estava vencendo. — Nele, com a letra do Sam, estava o meu nome, escrito quatro vezes, mas de forma incorreta. O Shinigami também não estava mais lá. Alguns dias depois, assisti à gravação da transmissão da TV Sakura, e vi que o âncora cujo nome eu vi escrito naquele caderno realmente havia morrido da mesma maneira como estava especificado. Vi também que as pessoas mortas que eu tinha visto na noite passada eram policiais que tentaram interromper a transmissão. Isso pra mim é o suficiente pra ter certeza de que aquela pessoa misteriosa era o Segundo Kira. Ao contrário do Kira original, ele não precisava de um nome para matar, apenas do rosto. Mas ainda ficaram algumas questões que me permitem apenas especulações, como quem matou o Sam e porque meu nome estava escrito com a letra dele naquele papel. E ainda, o fato de o segundo Kira não ter me matado, já que descobri o segredo dele. Na verdade eu acho que estou imune de alguma forma, pois não faz sentido ele me deixar viva depois de tudo o que vi.

Todos estavam sem reação diante da história dela. Light estava inquieto, mas como sempre, não deixou transparecer. Ela realmente sabia de tudo. E ele já podia imaginar que Misa não contou nada pra ele com medo de ser recriminada. Mas havia uma lacuna. Porque o noivo dela escreveu o nome dela de forma errada 4 vezes no pedaço do Death Note? Será que havia uma regra que ele ainda não conhecia? Não... na verdade, o que ele deveria se preocupar agora era com a reação de Ryuzaki.

— Tem mais uma coisa – Chiara acrescentou – Eu acho que o segundo Kira é uma mulher ou um pré-adolescente.

— Mas porquê? – Apressou-se Matsuda. Todos ficaram impressionados.

— O tipo físico era magro, mas principalmente pela altura. Ele era mais baixo que eu, que tenho 1, 65 m. Sou mais baixa do que a média dos homens japoneses, mas sou mais alta que a média feminina.

“E tem mais essa” Light pensou.

— Ah, sem essa! Shinigami? Caderno que mata pessoas? Você não acha que vamos acreditar nisso, não é? – Aizawa exibia um sorriso debochado.

— Não pedi para acreditarem em mim, pedi pra me ouvirem. – Disse ela calmamente, sem parecer se importar com o deboche.

— Detetive – Ela se voltou para L, que permaneceu imóvel durante todo a narrativa –Eu realmente não me importo se vocês acreditam ou não em mim, se me acham louca ou seja lá o que pensem. A minha decisão de lhe contar tudo isso foi porque eu acredito que mesmo que eu seja realmente imune ao caderno, Kira ainda pode me matar da maneira tradicional. E eu não quero morrer sem ter a certeza de que ele virá logo depois de mim. Na verdade, eu acho que se tem alguém que realmente pode pegar Kira, essa pessoa é você. Se for tão bom quanto dizem, vai chegar uma hora em que as informações que lhe dei serão úteis.

— Eu entendo... — L estava contrariado. A história dela era totalmente absurda. Como ele poderia acreditar na existência de Shinigamis e de cadernos assassinos? Por outro lado, o segundo Kira mencionou no diário enviado à TV Sakura a existência de Shinigamis e também de cadernos, além de ele desconfiar de uma mulher, Misa, como o segundo Kira... Não tinha como ela saber disso.

— Senhorita, desculpe-me dizer mas a sua história é absolutamente sem sentido. Mesmo que fosse verdadeira, não faria sentido o segundo Kira não voltar pra tentar matar você, e a sua teoria sobre ser imune não tem o menor embasamento. Além do mais, você não tem prova nenhuma. É apenas uma mulher de conduta duvidosa contando uma história absurda. – Light estava apelando. Queria usar a conduta dela para desmerecer a sua história.

— Eu não estou interessada no acha da minha conduta. O meu objetivo era dar a informação ao L, e eu consegui fazê-lo. O que vocês vão fazer com essa informação é problema de vocês.

Chiara parecia especialmente incomodada com as observações de Light. Enquanto isso, L observava cada movimento dela, sem pensar exatamente no porquê. Apesar das respostas grossas, ela não parecia uma pessoa desagradável. Ela falava como se gostasse de cada palavra que estava dizendo e isso era perceptível, mesmo contando uma história tão triste. Mas o que mais interessava L ainda era a expressividade dos olhos dela. Era como se eles entregassem tudo o que ela estava sentindo. Mesmo que tentasse parecer forte e até meio arrogante, os olhos verdes e profundos diziam que ela estava sofrendo. Os devaneios de L foram interrompidos pelo Sr Yagami.

— Tudo bem, você já contou a sua história. Agora, lembre-se de que você confessou roubar informações da polícia. Tenho que prendê-la.

— Eu já esperava que isso fosse acontecer. Tudo o que a gente faz tem um preço a pagar e uma consequência, não é mesmo?

L se incomodou com a reação dela. Ela parecia não ter medo de ser presa. Na verdade ela parecia desejar isso.

— Por favor, Sr. Yagami – Disse L. calmo e educado como sempre – Sei que está tentando cumprir seu dever como policial, mas por motivos que explicarei mais tarde, não seria interessante prender a senhorita Chiara nesse momento.

— Não se preocupe Sr. Yagami. – A moça tirou um cartão do bolso. – Aqui está meu endereço. Garanto que não vou fugir.

Chiara levantou-se e dirigiu-se a L.

— Mais alguma pergunta, detetive?

— Não. Para mim é o suficiente.

— Então, eu vou embora. Mas antes, tenho uma pergunta para fazer ao adolescente ali. O que tentou me enrolar.

Light sentiu o estômago revirar.

— Por que fingiu ser o L?

— Para que você dissesse logo o que veio dizer e nos deixasse trabalhar. – Não era uma resposta muito boa mas foi a melhor explicação que Light conseguiu improvisar.

Chiara soltou uma gargalhada leve e curta.

— Se eu fosse o segundo Kira – Ela apontou o dedo indicador para ele e levantou o polegar, simulando um revólver. Depois fechou um dos olhos como se estivesse mirando nele e simulou um tiro silencioso, e num gesto gracioso, soprou a fumaça imaginária que sairia do cano da arma. – Você já estaria morto.

Ainda sorrindo, Chiara saiu e fechou a porta, deixando todos estarrecidos.

Notas finais
A mulher misteriosa finalmente contou sua história. E agora, o que será que vai mudar com L sabendo a respeito do caderno? e quanto a Chiara, ainda há muito a saber sobre ela. Cenas para os próximos capítulos...