Apenas mais uma de amor
1 Em que tudo se resume à palavra rabanada
Notas iniciais
Daichi não odeia ir trabalhar naquela empresa de TV a cabo. Ele só pensa que, poxa, a vida podia dar mais oportunidades para quem merece, certo?
A faculdade de Contabilidade não foi um desperdício, também, mas ele se arrepende amargamente de não ter escolhido um curso melhor. Engenharia, talvez? Ou Educação Física. Ele ficaria mais feliz até com Fisioterapia.
Mas não. Ele escolheu Contabilidade. Ele se formou em Contabilidade. Ele arrumou um emprego no financeiro de uma empresa de TV a cabo e, seis anos depois, todo mundo sabe que ele é gay e que a reforma no banheiro da casa dele não sai do lugar há mais de dois anos.
De novo: não é ruim. Só que podia ser melhor.
— Ele iria amar você, sabe. Um homem tão responsável, maturo e bonito. Sawamura-kun, você sinceramente deveria ir jantar conosco um dia desses — dizia a sua chefe, certo dia — meu filho com certeza se encantaria por você! Eu sempre disse que ele nunca iria arranjar alguém tão bom quanto o Azumane-kun, mas você, ah, você!, eu sei que faria um belíssimo casal com ele!
— Com o Azumane? — Daichi realmente queria terminar de corrigir aquelas notas. Era inacreditável o número de gente caloteira que existia no mundo.
— Não! — o tom horrorizado da mulher fez ele olhar para cima. — Com o meu filho, é claro!
Daichi pensou se os diretores da empresa eram mesmo tão atoas assim. Ele não entendia o porquê do grude da mulher em si, mas estava ficando bem cansativo ter que aturá-la o tempo inteiro pendurada em sua mesa, girando a cadeira de rodinhas à sua frente e tagarelando.
Ele gostava da moça, acredite, mas ficar ressaltando a solteirice dele logo na época de fechamento era sacanagem.
— Sawamura-kun, seria possível que você está namorando?
— Não... eu juro que não estou... — mas que diabos, talvez ela não precise do décimo terceiro, só que Daichi tem uma obra há dois anos pra ficar pronta e quanto menos dessas empresas terceirizadas caloteiras continuarem fazendo serviços meia-boca e adulterando as notas, mais dinheiro ele pode garantir para si e para seus colegas que tanto trabalham duro.
— Tem certeza? Será que você está gostando de meninas, Sawamura-kun?
Aí já é filha da putisse.
— Não! — um “ew” quase escapou ao final da negativa. — Eu só ando muito ocupado com o trabalho!
— Não me admira que esteja tão rabugento.
— Eu não esto— — Daichi decidiu que era mais fácil modificar os eventos históricos. — Eu encontrei alguém em uma festa há algumas semanas e acho que estamos gostando um do outro.
Mas, a jovem senhora não pareceu nem um pouco abalada no alto de seus alicerces, também conhecidos como salto agulha Burj Khalifa, e sorriu para ele.
— Quem acha, não sabe nada — recitou sua mais famosa frase, que arrepiava até os fios de cabelo dos lugares mais escondidos de seus funcionários. — Vá jantar com a gente no Natal, Sawamura-kun, será divertido.
— Mas e o—
— Apareça, Sawamura-kun. É de graça, e não mata. Eu ligo pra você.
Daichi suspirou e deixou a testa descansar na mesa. Como ele odiava compromissos. Obviamente, compareceria na tal festa, porque quem ousa declinar um convite feito pelo próprio chefe? Ele não era burro, ou pelo menos não tanto assim. No relógio, marcava 19:31.
Ele já podia estar em casa.
Pegou os papéis espalhados na mesa (1/4 da floresta local estava ali, ele tinha certeza), enfiou-os na gaveta, desligou o computador e correu pelo andar até o elevador, evitando ser visto por qualquer filho da puta sortudo que estivesse saindo de férias naquela terça e tivesse a audácia de desejar boas festas.
Sentiu-se insuportável. Bem, talvez ele estivesse, sim, rabugento. E sim, o fato de não estar namorando era o fator principal. Também, que ele não fazia sexo há uns bons dois meses — veja bem, de fato ele encontrou alguém em uma festa várias semanas atrás, mas foi apenas uma (ótima) noite e eles nunca ma—
Fuiu-iu~
Mentira. Eles ainda se falavam.
Saindo do elevador às pressas e correndo até o carro, Daichi jogou toda a tralha que trazia consigo no banco de trás para checar o celular o mais rápido possível. Ah, e lá estava ele. Aquele número que ele não ousou salvar como um contato — em parte, porque parecia mais sexy, e no geral, porque ele não lembrava o nome do sujeito —, o número que fazia o encontro com o filho de sua chefia se tornar tão desinteressante.
XX XXXX-XXXX:
to entediado~ (7:32PM)
Uma simples mensagem, com uma simples escrita, e com simples intenções. Daichi sorriu um meio sorriso enquanto colocava o cinto. Ligou o aquecedor do carro. Estava escuro e parecendo que ia nevar. Assim que carro começou a esquentar, Daichi pegou o celular, desbloqueando a tela com muito mais avidez que o necessário, afinal, boi lerdo bebe água suja. Daichi não podia evitar aquela faísca pulguenta que insistia em aparecer toda vez que ele pensava “ok, estamos trocando mensagens, mas ele pode muito bem estar tendo casos por aí”. Seria, aquela faísca nojenta e inoportuna, um tipo de ciúmes? Daichi podia odiar esse detalhe com toda sua força e tentar mantê-lo afastado com unhas e dentes, mas ele acreditava que sim.
Sem dúvidas, era ciúmes.
E ele só tinha visto o cara uma vez, em uma noite, onde os dois tinham tomado um porre e mal conseguiam se beijar sem enfiar a língua um no nariz do outro.
Enfim! Sem ressentimentos, no outro dia, após acordar sozinho no quarto do motel com a camareira dizendo que era hora de vazar, Daichi correu para casa achando que ia morrer, mas com a feliz lembrança de que aquela tinha sido uma das melhores fodas da sua vida.
A única lembrança daquela noite, diga-se de passagem.
E, como é à noite que os monstros saem para caçar, uma mensagem acordou-o às duas da manhã de seu sono de beleza.
Daichi ainda tinha a mensagem:
“acho que tou com saudades. q tal uma foto, p melhorar minha noite?”
Veja só, se não é de se apaixonar!
A princípio, sua inocente, ingênua e sonolenta mente não compreendeu muito bem. Foto de quê?, ele pensou, com a cara toda amassada do travesseiro e aquele rastro de baba seca no canto da boca.
Aí, tudo começou a fazer sentindo e Daichi sentiu o calor serpenteando pelas suas costas até as bochechas, fazendo-o chutar as cobertas em todas as direções.
Esse foi o início de tudo. Bom, Daichi achava, sim, meio decepcionante que eles nunca haviam se comunicado direito — a não ser que você considere “to entediado”, “to estressado”, “quero bater uma” e coisas do tipo como um exemplo de comunicação —, mas enquanto ele recebesse fotos nada castas de sua crush e pudesse regozijar sobre os elogios (também nada castos) feitos diretamente às fotos de seu pinto, ele não reclamaria.
Como é que dizem? Tudo está bem, quando está bem?
Huumm...
Não importa. O fato é que, agora, sentado no carro aquecido, Daichi digita tão rápido que se não fosse pelo autocorretor do celular, nem mesmo palavras monossilábicas estariam escritas corretamente.
Você:
Ainda não cheguei em casa... que tal você começar hoje?
Não que eles fizessem isso todo dia, mas... era bem recorrente. Daichi engatou a ré, manobrou e deslizou sobre a neve acumulada no chão para a rua. Dirigiu até a metade do caminho em silêncio; nada da resposta. Ligou o rádio, também, mas honestamente não queria ouvir cartas de amor sendo lidas para toda a província. Subiu na garagem de casa. Estacionou. Daichi pegou o celular e encarou a tela com os olhos estreitados.
Levou um puta susto quando a merdinha vibrou e assoviou alegremente.
XX XXXX-XXXX:
quero um em resposta ;]
[VIDEO]
Daichi congelou por alguns instantes. Outra mensagem veio em seguida.
XX XXXX-XXXX:
ñ chegou em casa ainda? :(
Você:
Acabei de estacionar. Já vou subir...
XX XXXX-XXXX:
ñ vai ver o video no elevador suahsuahssh
Foi como o “abra-te, sésamo” de Ali-Babá, abrindo uma portinha escura e duvidosa. Daichi saiu do carro e quase lacrou essa porta, tamanha a força utilizada na pressa. Pegou as tralhas no banco de trás e disparou até o elevador: frio, frio, preciso ver esse vídeo, frio.
Quando entrou em casa, todos seus pertences despencaram ao redor de seus pés e ele voou para o quarto, tirando os sapatos, o casaco, o cinto. Entrou embaixo das cobertas assim mesmo, e só quando o corpo voltou a se aquecer, que Daichi arrancou as meias, a calça e a camiseta. Afundou entre os travesseiros deliciosamente macios e a coberta magnificamente quente. E então, como um adolescente fazendo bosta, ele afundou para cobrir a cabeça e furtivamente pegou o celular. Considerou pegar os fones, mas só a ideia de sair de seu casulo aconchegante e propício para assistir pornografia o fazia pouco se foder se o áudio contido no vídeo era impróprio.
Ele morava sozinho, mesmo.
Daichi desbloqueou o celular, agora devagar, e respirou fundo antes de dar play no vídeo.
Eles nunca haviam trocado vídeos antes.
Sentindo-se o mais medíocre dos adolescentes pervertidos, Daichi enfiou a mão na própria cueca e vidrou os olhos na tela do celular. Coxas brancas, firmes e bem-definidas. Daichi tinha a esmaecida lembrança de que eram macias, também. Macias e deliciosas de se agarrar e passar as mãos, err.
Enfim: eram belas coxas, e estavam abertas. Bem abertas. Daichi viu o vislumbre dos pés do sujeito nas bordas do vídeo; estavam cobertos com meias listradas de laranja e preto. Daichi sinceramente gostava de meias. Aquelas, então, principalmente, que subiam até os joelhos da sua crush nem-tão-anônima — a merda era que Daichi não lembrava direito do rosto da criatura, sem brincadeira.
E, quase morrendo sufocado pelo ar escasso no casulo de cobertas, Daichi segurou seu pau e esfregou as pontas dos dedos. Com a outra mão, a que segurava o celular, aumentou o volume.
No vídeo, acima daquelas meias sexy e entre aquelas coxas apetitosas, os dedos esguios de X (porque ele é uma incógnita, entende?) subiam e desciam em um pênis que Daichi também se lembrava vagamente de ter chupado. Bom, fazer o quê? A vida é assim. Culpe o álcool.
A barriga lisinha de X também subia e descia rapidamente. Ou ele estava se masturbando para Daichi vendo um pornô, ou ele realmente ficava excitado só de pensar nele — Daichi gostava mais da segunda opção, óbvio. Ele fechou os dedos ao redor do próprio pau. Humm, os quadris de X erguendo-se da cama, a mão escorregando facilmente por causa do pré-gozo. Daichi podia até ver aquele, err, botãozinho de X contraindo-se do ângulo em que a câmera filmara. Deus abençoe o ângulo da câmera!, Daichi se permitiu refletir. Huumm... Daichi se encolheu um pouco na cama, curvando os dedos dos pés e movendo a mão mais rápido. Os gemidos de X, óh céus, os gemidos baixinhos e arfantes. Ele quase sentiu a saliva escapando da boca quando, após um som suspeito de sucção, dois dedos molhados apareceram no vídeo e lentamente abriram seu caminho para dentro de X.
A respiração saía pesada e estranha, como se Daichi tivesse corrido pela praia de uma ponta a outra do litoral.
Os dedos mal entravam até o fim, mas quanto mais X estocava os dedos em si, mais seus quadris subiam e desciam. Daichi também estava se masturbando o mais rápido que podia com a esplendorosa visão que lhe fora proporcionada, ocasionando uma vontade sonsa de fechar os olhos para se concentrar melhor na sensação quente e formigante que se espelhava pelo seu corpo, vinda lá do seu baixo ventre. Só que ele não queria fechar os olhos, é claro que não. Daichi se obrigou a desacelerar o ritmo. Um gemido longo e choroso, meio soluçado, veio para Daichi como aquele solo particularmente foda e orgástico da sua música preferida. X estremeceu visivelmente e tirou os dedos, inclinando o corpo para frente e— não foi dessa vez. O vídeo congelou; tinha chegado ao fim. Daichi quase teve a esperança de ver o rosto de X, mas não se frustraria por isso. Fechou os olhos, largando o celular na cama e se encolheu ainda mais.
Tentou recompor os gemidos de X na sua cabeça, e um minuto depois, com a mão pegajosa e o suor escorrendo pela sua nuca, Daichi já estava se aventurando no frio mortal da casa na direção do banheiro, decidido a tomar um bom banho antes de, veja só, gravar um vídeo-resposta para X se masturbando de novo.
ಌ
Daichi queria, queria de verdade, saber como e por que ele concordara, na primeira vez que X lhe pedira uma foto de seu pinto, em enviar a bendita foto. Também queria saber como eles chegaram àquele ponto, enviando fotos de seus respectivos atributos um para o outro com tanta naturalidade quanto alguém envia um snapchat entre amigos.
Era quarta. Era véspera de Natal. A mão direita de Daichi doía e ele queria morrer por ter, de fato, enviado o vídeo que X pedira na noite anterior.
E ele ainda tinha que ir jantar na casa de seu (risos) pretendente.
— Planos pro Natal? — Kuroo, seu vizinho irritante e que obviamente trabalhava de gigolô (bem, não havia provas concretas, mas sabem como é. Para bom entendedor, meia palavra basta, e Daichi era um ótimo entendedor da vida urbana) perguntou, bem como quem não quer nada.
— Vou jantar na casa da minha chefe.
— Achei que você era gay.
— Vou jantar na casa dela, não jantar ela. E ela tem uns cinquenta anos.
— Você não tem quarenta?
Daichi fuzilou Kuroo por cima da mesa. O outro, por sua vez, sorria alegremente enquanto cortava as panquecas quentinhas que a garçonete recém pousara na mesa.
— Eu tenho vinte e nove, muito obrigado.
— Tem certeza?
— Por que eu almoço com você todos os dias, mesmo?
— Normalmente eu diria que são os mistérios da vida, mas no fundo, eu sei que você é louco por mim.
— Cala a boca.
— Ohoho, acertei um ponto sensível?
— Kuroo, eu vou jogar esse copo de água inteiro na sua cabeça.
— Ok, ok, perdão, perdão. Mas vem cá, que horas você tem que sair hoje?
— Vou sair de casa às seis.
— Vai comigo comprar o presente de Natal do Kenma?
— Compra um gato.
— Já fiz isso. Ano passado.
— Compra mais um, ué.
— Já fiz isso. No aniversário dele.
Bom. Isso não era tão inesperado.
— Tá. A gente vai no shopping depois daqui. — Daichi checou o horário no celular. Havia quatro novas mensagens. — É uma da tarde, vai ser rápido?
— Pra quê? Quantas horas você precisa pra se arrumar, Cinderella?
— Eu odeio sair correndo.
— Eu pago a gasolina do carro.
— Ok, posso ceder mais uma meia hora do meu tempo pra comprar o presente do Kozume.
Kuroo sorriu.
— É assim que se fala.
ಌ
Quando eles saíram do shopping, era cinco e vinte e Daichi estava puto. Ele ainda largou a princesinha na casa do príncipe, com uma caixa de POPs de The Walking Dead embrulhada num papel de presente colorido. Mas Daichi até que ficou orgulhoso que Kuroo pelo menos era meigo o suficiente para comprar um presente bonitinho ao invés de um simples jogo de videogame.
O cara podia ser um puto desgraçado e irritante acomodado meio sem noção em tempo integral, mas Daichi não podia negar que ele era adorável quando se tratava de Kozume Kenma.
Enfim: Daichi chegou em casa, e após combinar direitinho as coisas com a sua anfitriã pelo telefone, foi ver as mensagens que chegaram ao longo do dia enquanto esperava a água do chuveiro esquentar. Sem contar as quatro que recebera ontem e ainda não tinha lido, outras três tinham chego. Pelado mesmo, ele se apoiou na pia do banheiro.
XX XXXX-XXXX:
wow isso foi intenso (ONTEM ÀS 9:04PM)
XX XXXX-XXXX:
ñ acredito que vc dormiu :´D (ONTEM ÀS 9:11PM)
Tanaka:
NAO VAI VIR BEBER HOJE COM AGENTE? (ONTEM ÀS 10:38PM)
Noya:
O Tanaka aproveitou que vc naum apareceu hj e arrumou briga no bar, achei que vc devesse ficar sabendo (ONTEM ÀS 11:29PM)
Noya:
Vc morreu? (HOJE ÀS 10:42AM)
XX XXXX-XXXX:
acordou? (HOJE ÀS 10:46AM)
XX XXXX-XXXX:
como vai a véspera de natal? (HOJE ÀS 4:53PM)
Você:
Chata, tive que sair para comprar presentes com um amigo. E a sua?
Quando a água chegou em uma temperatura satisfatória, Daichi deixou o celular de lado e entrou no chuveiro, deixando a água lavar os seus pecados (há há há, ria comigo, caro leitor). Lavou o cabelo com sabonete, porque o xampu tinha acabado há séculos, e esfregou bem todas as partes do corpo. Principalmente o... o pé. É. Sempre lave o pé.
Desligou o registro e se enrolou na toalha o mais rápido possível para não congelar. Desbloqueou o celular enquanto vestia a cueca.
A mensagem chegou no mesmo instante.
XX XXXX-XXXX:
vou ter que participar de uma janta familiar contra a minha vontade ;/
Você:
Sério? Eu também.
Foi até o quarto com o celular na mão e colocou o desodorante.
Kuroo:
Adivinha quem vai transar hoje graças a uns brinquedinhos zumbis? Um felicíssimo Natal, Sawamura~~~
Puxou as calças. Sorriu consigo mesmo; apesar da mensagem desnecessária de Kuroo, ele ficou feliz. Se você visse o quanto ele amava aquele cara, o Kozume, também se sentiria feliz por aquela simples constatação. Daichi pegou a camisa azul marinho e saiu andando pela casa atrás das chaves, dos documentos e de um chiclete. Ao pegar este último se lembrou de escovar os dentes e voltou para o banheiro. Aproveitou que já estava ali para fazer a barba também — afinal, dizem que a pressa é inimiga da perfeição, não dizem?
XX XXXX-XXXX:
sinto muito ashuahsuahs
Finalmente abotoou a camisa, sentindo-se limpinho e cheiroso e macio e fresquinho. Saiu de casa, fechou a porta assobiando. Era seis e meia quase, quando Daichi tirou o carro da garagem e se direcionou ao horizonte.
ಌ
— Oh, boa noite, Sawamura-kun — sua chefe abriu a porta antes mesmo que ele batesse —, teve problemas em encontrar a casa?
— Nem um pouco — Daichi sorriu. Ela não precisava saber que ele passou oito vezes da entrada do condomínio de casas chiques antes de descobrir que tinha que subir por aquela rampa digna de parques ecológicos.
— Isso é ótimo, mesmo, Sawamura-kun — ela chegou até mesmo a lhe dar tapinhas no ombro, sorrindo de orelha a orelha como ela sempre fazia. — Eu estou saindo para buscar meu marido em Shizuoka. Minha mãe e minhas irmãs estão fazendo a ceia na casa dela, há duas casas daqui; vamos comer a ceia lá — não, pera, o quê? Como assim?
— Ahm...
— Não se preocupe, Sawamura-kun! Eu estarei de volta em três horas, quatro no máximo, bem a tempo da ceia de Natal! Você não precisa ir até lá ainda, vai ter realmente muita gente que você não conhece. Fique aqui enquanto eu estiver fora, meu filho está na cozinha.
— Ahm... eh...
— Fique à vontade! — a mulher disse, empurrando-o para dentro e saindo porta afora, fechando a porta atrás de si. Daichi não soube o que fazer. Ele literalmente ficou perdido, confuso e solitário. Franziu a testa. Olhou para os lados. Cogitou a ideia de sair e voltar para casa, mas achou que seria deselegante; já estava aqui, então enfrentaria a situação até o fim.
Ouviu passos. Ficou alerta e todo duro.
— Convidado? Convidado, cadê vo— ah.
Daichi conhecia essa voz.
ALERTA VERMELHO, ele conhecia essa voz!
— Você! — ele exclamou, tomando liberdade de tirar os sapatos e entrar na casa. — É você!
— Ai meu Deus! — o cara arregalou os olhos. Ficou vermelho e soltou uma risada. — Sou eu! Isso é tão estranho!
— Isso é muito estranho!
Bom, era bem estranho mesmo. Daichi, que até então achava não se lembrar do rosto de X, foi só ver aquelas feições meigas, a pele clarinha, a pintinha sob o olho, os olhos acastanhados afáveis e os cabelos cor de metal, enrolando-se nas pontas, que ele reconheceu imediatamente. Ele é lindo pra caralho, meu Deus, como eu tinha me esquecido disso?!
Daichi deu um passo na direção dele. — Você, você não vai acreditar, mas... eu... eu não me lembro do seu nome, olha que engraçado!
— É Suga. Quer dizer, é Sugaw— é Koushi. Koushi. Sugawara Koushi — meio constrangido, ele sorriu aquele sorriso belíssimo e gentil e atraente que pusera uma coleira invisível em Daichi na primeira vez que se viram —, eu nunca pensei que te veria de novo desse jeito. Quer dizer, eu até meio que achava que ia planejar num futuro próximo te ligar e marcar qualquer coisa, mas... — ele parou. Respirou fundo e sorriu um sorriso resignado de lábios fechados, desistindo de se explicar.
— Mas é — Daichi riu numa tentativa de aliviar o clima. — É, bem assim.
E aí eles sorriram e riram um para o outro como idiotas retardados, até que Suga esfregou as mãos.
— Quer entra- — ele levantou um dedo e fechou a mão em seguida, com o cenho franzido —, bom, você já tá aqui dentro. Eu tô fazendo rabanada pra ceia de Natal, tá quase pronta. Quer beber alguma coisa?
— Pode ser, o que que você tem aí?
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— MHMMM, eu gosto disso~ eu gosto muito disso~ — Suga dizia em tom de choramingo, a cara no travesseiro, a bunda para o céu.
Daichi estava com a boca onde não devia e estava amando aquilo.
— Você tem certeza que não vamos ser pegos? — ele resolveu verbalizar o pensamento que estava incomodando o fundo de seu ser há mais de cinco minutos, que foi mais ou menos quando eles subiram para o segundo andar e se trancaram no quarto com uma garrafa de vinho pela metade.
— Você por um acaso tem um fetiche com isso? — Koushi retrucou quase imediatamente, meio ofegante. — Sawamura, eu já disse que tá tudo bem.
— Suga... se você não se importa, sua mãe me chama de Sawamura-kun e isso é meio desconcertante... Aliás, tem certeza sobre isso? É Natal... e além disso nós não—
— Daichi, quieto — para dar ênfase, Suga rebolou um pouco a bunda, já que Daichi estava com a cara praticamente colada ali —, aquele vídeo de ontem, foi muito sexy. Mas bater punheta não é suficiente e eu sei que te ver aqui dentro da minha casa na véspera de Natal é um sinal do destino de que devemos transar mais uma vez. Já não nos falamos o suficiente pra dizer que tivemos pelo menos uns oito encontros?
— Na verdade não...
— Qual é, você me viu pelado mais do que o meu ex.
— Foram fotos.
— Nossa — Suga disse depois de uma pausa para suspirar. Ainda com as pernas trêmulas, se virou de barriga para cima, tirando o nariz de Daichi do meio de suas nádegas (infelizmente Daichi só ficou ali por um minuto e meio, mais ou menos) e ao se ajeitar nos travesseiros, cutucou o peito dele com o pé. — Vem cá.
Sem nem abrir a boca dessa vez, Daichi foi. Ao contrário de Suga, que estava completamente pelado já, Daichi ainda estava de sapatos e calça, então ele se sentiu meio estranho enquanto entrava no meio das pernas de Koushi e ficava de quatro em cima dele.
— Particularmente eu estou feliz que o cara que a minha mãe queria me apresentar é você.
— É. Eu me senti aliviado também.
— Então.
— Então...
Suga ergueu uma sobrancelha, divertido — Então...?
— Tá bem. Você venceu — Daichi deu uma risada abafada, naquele típico “eu não acredito que estou fazendo isso” —, graças à Deus eu estou sóbrio hoje.
— Amém — Suga brincou. Eles estavam se olhando com tanta intensidade que Daichi começou a se sentir desconfortável (ai meu deus, e se não tivesse feito a barba bem o suficiente, ou se ele tinha alguma coisa no nariz?). Mas o olhar de Suga era tão meigo e lindo e sexy que Daichi não conseguia se forçar a desviar sua atenção. — Posso te fazer uma pergunta?
Pode fazer quantas você quiser, meu anjo! — Ué, mas é claro.
— Por que você me deu um nome falso na primeira vez que ficamos?
Aí está uma pergunta que Daichi não sabia responder.
— Eu te dei um nome falso?
— Me deu um nome falso — por que Suga parecia se divertir tanto com isso?
— Qual era? — ele estava realmente intrigado, agora.
— Tetsurou.
— Sem chance!
— Sawamura Tetsurou.
— Porra, esse nome é tão péssimo! — mais um dos motivos pelos quais eu absolutamente não me casaria com o Kuroo!, ele adicionou para si mesmo. Não que ele já tenha pensado nisso. Dã. Kuroo podia ser too sexy for his shirt, mas depois que eles começaram a se falar e viraram amigos, até achá-lo bonito era inconcebível. O cara é um saco, vocês não fazem ideia.
Suga, porém, achou graça.
— O quê?
— Aí depois que nós transamos você deitou comigo e começou a chorar pedindo perdão porque você tinha me dado um nome falso.
Daichi ficou pasmo.
— Mentira.
— Completamente verdade.
— Me nego a acreditar nisso. Como você se lembra? Você mal conseguia ficar de quatro porque não tinha coordenação suficiente pra se apoiar nos braços e nos joelhos ao mesmo tempo.
— Quando eu bebo minha coordenação motora é afetada, minha memória não, ao contrário de um certo alguém~
— Como você sabe que eu não me lembro de nada? Eu lembro muito bem que- — Daichi achou melhor se interromper.
— Que o que? Do que você se lembra? — Suga insistiu. Suas pernas macias e super torneadas (Daichi babava nelas desde que se conheceram pela primeira vez — uma das pouquíssimas lembranças que ele tem, de fato, daquela noite) estavam prendendo os quadris de Daichi; Suga esfregava o calcanhar na base das costas dele, fazendo-o ter alguns calafrios de vez em quando. — Que foi a melhor foda da sua vida?
— Eu te disse isso?
— Não, mas foi a da minha também — e ele sorriu, parecendo tão ingênuo que Daichi se perguntou se aquilo que estavam fazendo era ilegal. — Só que você não se lembrava do meu nome.
— E você me disse?
— Óbvio — realmente, Suga parecia tão entretido que Daichi não estava levando fé —, eu que pulei em cima de você naquela noite. De cara eu disse meu nome e pedi pra me pagar uma bebida.
— Eu paguei?
Suga se empertigou, deitado abaixo de Daichi, inclinou a cabeça bem pra cima e disse em uma voz grossa: — “Eu não te pago só uma bebida, gostoso, como te pago uma dúzia de pacotes de camisinha e uma diária no melhor motel da cidade” — voltou a posição original e fitou Daichi, sorrindo —, com todas as palavras.
— Eu não disse isso — Daichi não podia acreditar que ele tinha dito isso.
— Disse. Eu só me lembro porque foi a melhor cantada da minha vida.
— Eu duvido.
— Te juro.
— Como você conseguiu meu número?
— Antes de sair do hotel. Eu podia ter roubado o celular, mas só desbloqueei pra pegar teu número, mesmo.
— Oh.
— Agora, chega de tricotar? Você babou toda a minha bunda pra nada?
Daichi quase entrou em combustão espontânea.
— S-S-Su-Suga! O-o-o que foi isso?
— Dirty talk — Koushi piscou para ele. — Queria fazer isso pessoalmente contigo há séculos! Você fica vermelho assim toda vez que eu falo essas coisas por mensagem?
— Claro que não!
— Aham~ não tem problema em admitir, Da-i-chi~
— Suga, eu não me importo se você não puder descer essas escadas pra ceia de Natal.
ಌ
Dizem que toda panela tem a sua tampa.
Obviamente, seguindo essa lógica, toda fechadura, tem a sua chave.
A fechadura de Suga era um pouco apertada, mas nada que um pouco de habilidade de lockpicking e lubrificante não resolvesse. E Daichi orgulhava-se de dizer que era bom com lockpicks. Ora, estava no ramo há tanto tempo. Seus dedos eram habilidosos, sim, muito obrigada. Mas em um momento lockpicks deixaram de ser satisfatórios e Suga chegou a reclamar da demora, e quando a chave finalmente abriu a porta, foi um festival de grunhidos e palavrões e a cama começou a se arrastar e ranger, fazendo Sugawara rir. Assim, em alguns minutos naquela situação esquisita, ambos estavam rindo e gemendo e lutando por ar, mas não pararam o que estavam fazendo nem para analisar o fato de que o barulho da cama batendo na parede poderia chamar a atenção de alguém indesejado.
Mas também, quem se importa? É Natal!
— Vai rápido, rápido — a voz meio esganiçada de Suga era uma loucura. — Ahn, aahnn, nghh, isso é bom, isso é bom, mais rápido, Daichi, Daichi~
Era quase como uma cheerleader.
Tudo pegava fogo; em cima, embaixo, dos lados, dentro, fora, ao redor. Seus ombros e sua nuca queimavam e a base da coluna continuava enviando arrepios sonsos para o resto do corpo. Tudo era calor e tudo era imane.
Ardia, ardia e ardia, mas era tão bom.
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Quanto tempo eles ficaram naquilo, Daichi sinceramente não sabe.
Estavam roucos já, a bunda de Koushi estava meio vermelha por causa do atrito entre os corpos (a pele da pélvis de Daichi parecia um pouco dormente pelo mesmo motivo) e alguém tinha derramado o vinho tinto no chão, mas não era como se eles quisessem parar. Não, não, muito pelo contrário. Aquele devia ser o quê, o quinto, sexto round? Eles estavam fodendo como coelhos. Havia marcas nos corpos e nenhum lençol na cama. As camisinhas já tinham acabado e nenhum dos dois se importava. O pau de Daichi praticamente deslizava dentro de Suga, por isso agora ele ia com mais calma, aproveitando o calorzinho gostoso que aquele local rosado lhe proporcionava. O dito cujo se masturbava devagar também, rebolando e vez ou outra contraindo os músculos para arrancar de Daichi um gemido mais alto. Ele recuava todo o quadril até quase estar fora para depois voltar sem pressa e se enterrar naquele corpo delicioso de novo. Isso quando Suga mesmo não ia para trás por conta própria, reclamando a chave em sua fechadura.
Koushi estava de quatro, e a visão era absolutamente maravilhosa.
— Ah... ah... mhnn... isso, isso, mais fundo...
— Suga... un, Suga... o que você acha de... de sair pra jantar comigo essa semana...?
O olhar que Suga lhe lançou por cima do ombro, arqueando toda a coluna, foi quase cômico — Sério? — ele indagou, meio sem fôlego.
— Seríssimo — Daichi respondeu do mesmo jeito.
E então, tão logo que Sugawara abriu a boca para responder, outro tipo de chave foi usada no andar de baixo, em uma outra porta e para abrir uma fechadura completamente diferente.
Daichi ouviu a porta bater direitinho.
— Merda, merda, esquece. Meu Deus, Suga, acho que seus pais chegaram — Daichi precisou informar, tentando não parecer em pânico.
— Q-que— o quê? — Koushi arregalou os olhos. — Daichi, Daichi, senta.
— Hein?
— Senta! — ele exclamou e se impulsionou para trás. Por uma fração de segundo, Daichi pensou que ia fraturar seu pênis (qual é, vocês sabem que esse tipo de coisa acontece), mas ele apenas caiu deitado na cama.
E de repente Suga estava sentado em cima dele, e estava cavalgado.
— Fui esmagado! — ele não resistiu.
— Quieto! — Suga ralhou, embora seu tom sugerisse que ele estava segurando uma risada. — Mhmmm... — gemeu enquanto seus joelhos e coxas trabalhavam para fazê-lo pular no colo de Daichi. — Me ajuda, temos menos— ahhn... de um minuto...
— Entendi.
Daichi segurou com vontade a carne dos quadris de Sugawara, ajudando-o na tarefa de subir e descer. Céus, e como aquilo era bom. Graças ao bom Deus ele estava sóbrio. Assim poderia se lembrar perfeitamente das costas de Sugawara, o suor escorrendo pela sua nuca, outra pintinha perto da junção do ombro, a bunda redondinha quicando em seu colo tão rápido que respirar voltou a ser difícil em meio aos ofegos.
É tudo demasiado, mas ao mesmo tempo, nada é o bastante.
Suga olhou por cima do ombro, de boca aberta, e Daichi entendeu o recado. Ou fez o que bem entendia, porque aquilo era erótico demais para o seu próprio bem. Ele praticamente sugou os lábios de Suga, que não deixou por menos e enfiou sua língua na boca de Daichi.
O ritmo das estocadas começou a diminuir; Daichi já estava se empurrando para dentro de Suga, sentindo os espasmos começarem a aumentar. É meio complicado respirar, beijar e sentir um orgasmo vindo sem babar, mas Daichi fica satisfeito de conseguir administrar tudo direitinho. Suga voltou a bater punheta e seus gemidos são altos quando saem da garganta, mas morrem na boca de Daichi, como “mmphs” abafados.
Então as ondas vêm e levam tudo com elas.
Daichi pode morrer feliz com essa sensação dormente e fulminante em todos os membros do corpo.
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— Sawamura-kun, está tão frio. Porque não dorme aqui hoje?
Suga ri baixinho. Daichi o encarou, meio sem entender, e depois se virou para a mulher — Não tem problema... é só daqui até o meu carro e do carro pra casa... o carro tem aquecedor...
— Bobagem! — agora quem falava era o pai de Koushi. — É mais de duas e meia da madrugada e está congelando aqui fora, não seja tímido.
— Não é bem—
— Daichi, não tem problema. A gente adora ter convidados — Suga se junta ao motim. — Além disso, você não acha que bebeu vinho demais para ir dirigindo pra casa?
— Ele tem razão! — sua chefe sorriu. — Vamos, Sawamura-kun, é só uma noite!
Daichi olhou furtivamente para Suga, com as sobrancelhas franzidas. Eles estavam caminhando de volta para a casa, e sem brincadeira nenhuma, Daichi estava achando que logo logo ia morrer de hipotermia. Isso que eles só tinham que andar duas casas.
— Que foi? — Suga indagou. — Nós nos divertimos hoje, não?
Aquilo com certeza tinha uma mensagem subliminar.
— Sim...
— Então fica pra dormir! — como dizer “não” àquele sorriso? — Vai ficar?
— Tá. Eu fico... vocês têm certeza de que está tudo bem?
— Claro, claro! O Koushi te empresta um pijama — a sra. Sugawara abriu a porta. — Sinta-se em casa, Sawamura-kun!
— Obrigado...
Ela o puxou de lado depois de fechar a porta e arrumar as trancas.
— Ele gostou de você, Sawamura-kun — cochichou, cutucando-o alegremente —, e você?
— Eu realmente não sei o que responder — e ele estava sendo sincero. O que você diz para a mãe do cara com quem você trocava nudes e acabou de foder há quatro horas atrás? — Mas eu posso vir pra janta de Ano Novo, se eu for convidado — Daichi brincou.
— Está convidadíssimo! — ela disse, séria. — O Koushi cozinha bem, você viu? Ele fez uma rabana ótima, não acha?
Daichi tentou, e tentou com todas as forças, mas a palavra “rabanada” já era errada por natureza. Ele teve que sorrir um sorriso bem largo antes de responder, não tinha como.
— É. Eu achei mesmo aquela rabanada deliciosa.
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