Notas iniciais
Nem peço que comentem mais. Dedicado aos anônimos invisíveis.

Hoje amanheceu um belo dia, de domingo. Pedro encontrou o endereço do estúdio onde a Larissa trabalha, mas ela esqueceu que hoje é domingo. Como acho que ela não deve estar lá, preferi deixar para amanhã. E o dia de domingo se passa chato e tedioso como sempre exceto pelo fato de que meu pai viu o fizemos com o carro dele. Meu pai não é estressado, pelo contrario é a pessoa mais calma que conheço, mas considerando o fato de aquela lata velha é o amor da vida dele, já esperava por uma reação explosiva. Depois de um século de lição de moral, e de sermos chamados de irresponsáveis milhares de vezes, meu pai me pôs de castigo. Não posso sair, a não ser que seja pra escola por duas semanas. Argumentei dizendo que sou maior de idade e faço o que eu quero e ele rebateu dizendo que já tenho idade suficiente para me sustentar sozinha e ter meu próprio carro. Calei a boca e segurei o riso quando minha tia deu uns beliscões no Pedro por ele ter enchido a cara, obviamente tudo sobrou para mim, e tive que escutar a tarde inteira.

Minha prima Débora estava empolgada com uma festa que ia acontecer à noite e queria que eu fosse. Festa de igreja, tipo quermesse, na rua de baixo, o bairro inteiro estará lá e é bem provável que meu pai descubra se eu for. Mas considerando que eu nunca obedeço meu pai e ele vai assistir futebol com os amigos decidir ir.

Se meu intuito era fugir do tédio, fracassei. As mesmas pessoas que eu via todo dia, a diferença era que algumas estavam fantasiadas de palhaça, pra que tanta maquiagem em uma festa de rua? Não tinha um centavo no bolso pra comprar guloseimas. A Débora flertava com qualquer pessoa do sexo masculino, o Pedro reclamava o tempo todo querendo voltar pra casa. Resolvi ir embora, mas Débora pediu que eu ficasse:

– olha quem tá ali?

– quem?

– o Tiago.

– grande coisa- disse sem paciência

– ele está solteiro.

Fiz cara de descaso. Não quero mais saber desse cara, quero que ele se dane.

– eu vou conversar com ele, se depender de você as coisas não andam.

– você está louca Débora! Eu vou te internar no hospício.

– não, eu vou e pronto, não tente me segurar.

Ela foi falar eu sei lá o que pra ele. Não sabia o que fazer, resolvi não impedir. Fui espiar a conversa, que por sinal não foi nada surpreendente, um adjetivo que a descreveria seria humilhante e previsível.

Iniciou-se um dialogo comum, e ridículo pelo menos a minha visão.

– o que você acha da minha prima, Lara?

Ele fez uma cara de espanto:

– a Lara?!

– ela ta afim de você, e aí?

– de jeito nenhum

– por quê?

– por quê? Nem vou falar, mas sem chance. Se fosse você.

– qual é o problema dela?

– qual é a qualidade dela? Eu sei que ela é feia e histérica, desculpa, eu sei que ela é sua prima, mas não. Agora se você quiser.

– eu preferia um sapo, e se quer saber quem tá perdendo é você, mané.

Ela saiu e ele ficou rindo. Fiquei confusa, já esperava isso. Por mais que eu tente negar, as palavras dele foram como laminas afiadas que me cortaram. Não só pelos sentimentos idiotas que eu nutria por ele, mas ele feriu meu ego, me menosprezou. Podia ter dito, “não estou com outra”, ou “não faz o meu tipo”. Vou guardar aquelas palavras. Não consegui chorar, o sentimento que eu sentia não podia ser convertido em lagrimas, mas eu chorava por dentro. Débora veio com a desculpa inventada por ela, no intuito de me proteger do sofrimento, que ele ainda estava namorando. Fingi acreditar e fui embora sozinha. Parei na esquina e olhei para o céu, límpido, sem nuvens a lua crescente brilhando em meio à escuridão do céu e as estrelas, as coadjuvantes fazendo daquele céu uma visão perfeita. As estrelas brilham no escuro. Quem sabe eu não posso brilhar também em meio à escuridão da minha alma cheia de medos e insegurança? Não tenho a mínima vontade de ir pra casa. Ficar na rua também é uma péssima ideia. Eu estava pensando e filosofando sobre minha vida quando sinto duas mãos me segurarem, torci pra que fosse o Pedro querendo pregar um susto. Tive receio de olhar para trás quando fui empurrada e cai de cara na calçada.