Alguns podem me achar insensível, outros podem entender meu modo de agir, compreender porque creio que as coisas sejam melhores dessa forma. Contudo, de um modo ou de outro, não me importo com a opinião alheia. Antigamente, poderia dizer que sim, isto me afetava, mas agora não mais. E é preferível assim. Menos sofrimento para mim.

Hoje tenho uma pequena história para contar, não vai levar muito tempo, juro, apenas alguns minutos. Esta história é sobre mim, e sobre como eu quase quebrei a lei que rege minha vida. Em outras palavras, menos líricas, irei contar como quase fiz papel de otária.

*** * ***

2 meses atrás

A batida da música pulsava por meu corpo, o suor escorria pela minha pele. Corpos e mais corpos misturavam-se na multidão, e eu precisava de mais uma bebida. Vodka, de preferência, mas qualquer outra serviria, contanto que aliviasse minha garganta seca.

Saí costurando um caminho por entre o mar de corpos que se movimentavam no ritmo da música eletrônica que tocava na boate e cheguei até o bar, onde esperei um tempo insuportavelmente longo para ser atendida. Era noite de sábado, então era de se esperar que o lugar estivesse mesmo lotado, no entanto, isto não apaziguava minha irritação por não ser atendida logo.

Somado a isso, contribuindo para minha atual falta de paciência, o fato de eu ainda não ter conseguido meu objetivo da noite estava me deixando inquieta. Como eu poderia estar rodeada de pessoas e não ter encontrado alguém com quem valesse a pena passar a noite? Claro que eu já havia sido abordada por diferentes homens desde que cheguei, mas nenhum que realmente despertasse meu interesse.

Quando, por fim, recebi minha merecida bebida, também notei o cara que faria minha noite valer a pena.

Alto, se sobressaía na multidão, tinha cabelos negros e a pele bronzeada. De onde eu estava não dava para distinguir a cor dos olhos, mas isto não importava muito. Eu não iria encarar muito o seu rosto quando estivéssemos transando. Eu iria obter o prazer que viera buscar ali e iria embora, revigorada para mais uma semana chata no trabalho.

Ele não me notou de imediato, e aproveitei para analisá-lo um pouco mais enquanto bebia minha bebida. Estava se movimentando rapidamente, só que, ao contrário do que inicialmente imaginei, não estava se dirigindo ao bar, mas sim à saída. Ah, não. Ele não ia escapar de mim.

Coloquei meu copo vazio no balcão atrás de mim e enfrentei a multidão novamente. Consegui alcançá-lo a tempo, mas não tinha nenhuma ideia de como deveria abordá-lo. O que eu deveria fazer? Mas que droga, por que nenhuma ideia me vinha à mente?

Em meio aos pensamentos que estava tendo, não prestei atenção ao meu entorno e acabei sendo empurrada para frente por um rapaz que tentava passar, esbarrando justamente na pessoa que eu não sabia como me aproximar. Bem, eu tinha que trabalhar com o que tinha.

— Desculpe — Tentei me fazer ouvir acima do barulho da boate. Quando nossos olhares se encontraram, tudo o que eu havia mencionado antes caiu por terra. Que olhos eram aqueles? Tão escuros, tão vivos, mas também pareceram um pouco assustados. Ele fez menção de falar algo, no entanto, foi empurrado pela massa de corpos em direção a mim. Nunca conseguiríamos ter uma interação direito se continuássemos na pista de dança.

Sem me importar se era uma loucura ou não, peguei sua mão e comecei a puxá-lo em direção ao bar. Ele tentou se soltar, no entanto, eu aumentei a força do meu agarre, para impedi-lo de se soltar.

— Desculpa te arrastar até aqui desse jeito. Não ia dar para falar ali – Disse assim que estávamos mais afastados da multidão, ao soltar sua mão.

— Só não faça um escândalo aqui, por favor. Eu estava tentando passar despercebido. – Fiquei sem entender o que ele quis dizer com isso. Por que diabos ele pensou que eu ia querer fazer um escândalo? Por acaso era louco?

Pelo visto era sorte demais eu encontrar um cara assim tão gato. Claro que tinha que haver algo para fazer eu perder o interesse.

— Olha, eu não sei o que está se passando na sua cabeça. Eu te vi de longe, achei bonito e quis ver se rolava alguma coisa, mas agora perdi o interesse. Boa sorte aí, tentando passar despercebido.

Bem, eu tinha tentado. Realmente, tinha sido corajosa e ido atrás do que queria. Mas não tive sorte.

— Espera – dessa vez ele que pegou meu braço, impedindo-me de avançar para longe, quando comecei a me afastar. Encarei-o com visível impaciência, esperando para ouvir o que ele tinha a me dizer. – Você realmente não sabe quem eu sou? – Indagou, quando me soltou.

— E por que eu deveria saber? – Retruquei. Depois pensei com mais calma e talvez eu já o tivesse visto antes, quem sabe em alguma reunião em que não estava prestando atenção. – Espere aí, você faz parte do corpo administrativo de alguma empresa? Eu juro que não tive a intenção...

Ele começou a rir. Não foi uma risada estrondosa, foi mais contida, mas seus olhos brilharam com diversão.

— Acho que fui um pouco paranoico, desculpe. E não se preocupe, eu não faço parte de nenhuma empresa.

Sei que deveria ir embora depois desse momento, porém resolvi dar uma mais uma chance. Só esperava não me arrepender disso depois, por isso era melhor ele valer mesmo a pena o esforço.

— Acontece – falei simplesmente, dando de ombros. – Posso te desculpar se você me pagar uma bebida. – Arqueei uma sobrancelha, dando um sorriso cúmplice.

— É pra já, madame – Ele piscou e se encaminhou para o balcão, sendo atendido muito mais rapidamente do que eu, voltando com dois copos e me entregando um deles. — Então, você não vai me dizer seu nome?

— Acho que é mais interessante se mantivermos as coisas assim, você não acha? – Respondi, após dar um gole na bebida que trouxe para mim. Whisky. – Uma escolha um tanto arriscada, hum?

— Eu nunca erro quando o assunto é bebida.

— Quero ver se você também acerta em outras coisas – Sorri maliciosamente, ao pronunciar a frase com duplo sentido. – O que acha de irmos dançar?

— Acho uma ótima ideia.