Apenas mais um dia...
1 Capítulo 1
10 de fevereiro de 1915.
Caros amigos e família,
Vocês devem estar se fazendo milhares de perguntas nesse momento. Venho, por meio desta carta, tentar trazer-lhes um mínimo conforto, para que um dia possam olhar para trás, ver que foi um acontecimento necessário naquele momento e que por mais que tivesse “recebido mais amor ou compreensão”, provavelmente, de nada teria mudado.
Vários pensamentos passaram pela minha cabeça desde que tudo começou, achei que conseguiria suportar, talvez até dar a volta por cima, mas infelizmente o vazio tomou conta da minha pessoa. Nada conseguiria fazer-me sentir menos culpada. Até mesmo ao dormir, os sonhos me atormentavam. Aquela imagem percorria meus sonhos todas as noites, o frio na barriga, os arrepios que me percorriam e algumas vezes até me permitia ouvir novamente os gritos e pedidos de misericórdia.
Com a ajuda de vocês, consegui ter uma vida um tanto normal por um tempo, após tal dia. Por mais ou menos oito meses eu ainda existia, forçando-me a continuar tentando, pelo mínimo que fosse, permanecer em consciência até que chegasse a hora. Eu estava submersa em uma avalanche de dor e raiva, que nem o mais forte sentimento de amor me fazia enxergar a luz novamente. Há um provérbio chinês que diz “Se você é paciente em um momento de raiva, você evitará cem dias de sofrimento” e foi exatamente o que não aconteceu. Eu falhei, me exaltei, perdi a cabeça e isso me trouxe graves consequências.
Um dos principais motivos para eu estar nesse momento dirigindo-lhes esta carta é esclarecer que meus sentimentos por vocês, de nada mudaram. Sou e sempre serei muito grata à toda a ajuda que me deram, o suporte nos momentos difíceis e principalmente por chorarem comigo quando as coisas pioraram. Sei que nada disso será fácil de superar e admito uma parcela de egoísmo da minha parte, visto que obrigarei vocês a suportarem mais um fardo como este, já não bastasse todos os acontecimentos do ano passado.
Por favor não pensem que fiz isso para sofrer mais ou “por que não aguentava mais esse mundo” pois na verdade foi tudo ao contrário. Fiz isso para finalmente conseguir algum conforto no meu coração. Estou mais feliz agora, acreditem. Tudo que quero é meu próprio bem e o de vocês, ninguém mais merecia me ver daquele jeito e talvez daqui um tempo possam voltar às suas vidas regulares.
“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.”
Amo todos vocês,
C.
Notas finais
Obrigado
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