Notas iniciais
Olá, vagalumes o/ Faz tempo que não dou as caras por aqui, hn? Enfim. Boa leitura.

Havia momentos ― não muitos, mas alguns ― em que Leo gostava de ser o “garoto solitário” do navio.

Entrar sorrateiramente na cabine de Jason ― enquanto deveria estar indo para a sua própria e descansar, aproveitando que seu turno de vigília estava sendo executado pelo Treinador Hedge ― e poder apreciar a perfeita ordem do lugar talvez fosse um desses momentos.

Ao passar pelo batente da porta, pôde sentir a mudança na atmosfera. Todas as cabines tinham dessas coisas; como se conseguissem se tornar parecidas com seus habitantes.

A cabine de Percy, por exemplo, tinha cheiro de maresia e às vezes dava para ouvir baixinho uma onda ou outra se quebrando nas paredes; a de Annabeth era estranhamente quieta e tinha um aroma gostoso de livro recém-comprado; a de Leo era quente e era o local no navio onde se podia ouvir o perfeito funcionamento da sala de máquinas (gostava disso, porque se tivesse algum problema lá em baixo, ele prontamente saberia).

De todas elas, a cabine de Jason era a que mais gostava, pois era o maravilhoso oposto da sua. Era gelada, como os fins de tarde no outono, e tinha aquele cheiro tão típico dos dias chuvosos. Sabia que lá por volta de meia noite, a cabine rangia com o som sutil da precipitação atmosférica; sem os raios nem os trovões constantes e ruidosos do Chalé Um no Acampamento Meio-Sangue, era apenas o farfalhar da água caindo.

Passou as pontas dos dedos pela colcha da cama, sorrindo de leve ao notar a bagunça que foi se formando com o movimento. Era engraçado fazer isso, dava a breve sensação de estar bagunçando o próprio Jason.

Quanto transtorno poderia causar na cabine de um filho de Júpiter sem morrer eletrocutado?

Seria engraçado descobrir, mas... A porta do armário estava entreaberta e aquilo parecia extremamente errado.

Jason tinha pequenas manias de ordem que ás vezes chegavam a irritar, porque já havia decorado a maioria; ter certeza de que todas as portas estavam devidamente encostadas era uma delas.

Com uma boa intenção, aproximou-se e viu que a dobradiça estava um pouco solta. Pelas marcas deixadas no ferro, percebeu que ele tentara arrumá-la a força e, ao compreender que não conseguia, perdeu o maldito controle.

Revirou os olhos e mexeu em seu cinto de utilidades. Após construir um navio, se esquecera de como era fácil consertar uma simples dobradiça.

Seus olhos caíram em outra irregularidade: um dos tecidos brancos estava dobrado todo torto e sujeito a ficar amassado.

Ou ele havia sido abduzido ou andava muito estressado.

Olhou por cima do ombro e não viu nem meio sinal de vida no corredor. Puxou o tecido do lugar e diante de seus olhos caiu a toga romana de Jason, aquela que ele usara para ir ao Acampamento Júpiter.

Leo odiava aquele troço.

Era só mais uma grande exclamação na linha viva entre eles que insistia em ressaltar o quão diferentes eram um do outro; e o quão distantes pareciam ficar a cada dia.

Sabia melhor do que gostaria de saber que Jason estava dividido entre os dois acampamentos e o que parecia segurá-lo do pulo decisivo era o seu senso de dever com seu antigo lar.

E por mais que pudesse gostar disso, parecia errado.

Ele poderia passar o resto da vida no Acampamento Meio-Sangue, andar como um grego e até falar como um, mas seus trejeitos e manias eram todos romanos. Contudo, ele o queria assim ― como sempre fora e como parecia o certo ser pelo resto da vida.

A verdade é que não conseguia ver Jason sem Roma. Ele podia se divertir como um grego pelo tempo que quisesse, mas a sua essência era romana. Não havia vírgulas nem mas e reticências; apenas e simplesmente esse irrefutável fato.

Como ele dizia mesmo?

Filho de Roma?

É. Talvez fosse isso.

Jason era, afinal, parte disso. E se Roma lhe fosse tirada, ele seria desintegrado e reconstruído em algo que não era ele. E os deuses bem sabiam como Leo não queria isso; nem ver, nem presenciar ou sentir de longe.

Colocou a cabeça para fora do corredor e ao certificar-se de que ainda estava vazio encostou a porta. Acendeu a luminária e ficou de frente para o espelho (em sua cabeça, podia imaginar Jason fazendo exatamente a mesma coisa toda vez que tinha a oportunidade).

Puxou a camiseta laranja pela gola e jogou-a em um canto perto do criado mudo ao lado da cama. Ao ver seu reflexo magricela no espelho, sentiu-se constrangido por estar se despindo na cabine de Jason. Podia sentir que todos os móveis e paredes riam dele; o lugar se acostumara a acomodar o belo corpo de seu melhor amigo e uma criatura de ossos marcados podia ser uma gritante novidade.

Tirou a camiseta do lugar e algumas outras caíram no chão. Disfarçadamente, colocou tudo de volta onde estava antes, do jeito que conseguiu colocar.

Desdobrou a camiseta roxa e sentiu o cheiro do sabão do acampamento. Jason usara aquela camiseta diversas vezes; ele vira, pois nunca deixava de reparar quando ele a usava.

Apertou os lábios e um pouco receoso levou a gola ao nariz. O cheiro fraco de chuva estava ali; surrupiava sua atenção e forçava seus olhos a se fecharem por um momento.

Naquele instante, pôde reproduzir perfeitamente a imagem de Jason em suas pálpebras fechadas. Ele estava sério e talvez despreocupado, sorria minimamente e falava algo; assim não parecia mais tão estressado como nos últimos dias.

Abriu os olhos de forma sonolenta e viu a cabine se recompondo aos poucos, como se todos os móveis tivessem desaparecido no instante em que tirara os olhos de cima deles.

Vestiu lentamente a camiseta e riu como um idiota ao ver que ficava larga e comprida em seu corpo, mas, ao se olhar no espelho, achou que era a melhor aparência que conseguiu ter em dias.

A luta que se iniciou com a toga durou horas ― ao menos, foi isso o que pareceu. Não sabia nem por onde começar, mas deu um jeito de se enfiar naquele tecido branco e novamente se olhou no espelho.

Via claramente que colocara tudo errado, mas mesmo assim subiu na cama, imitou a postura de seu melhor amigo e fingiu que os livros distribuídos por ordem alfabética eram uma enorme multidão.

― Amigos, romanos e conterrâneos*. ― Tentou imitar o tom pomposo da voz dele. ― Eu tive um sonho! Sim, senhores, eu, Jason Grace, Filho de Roma, tapado como uma porta, mas peguei a Reyna, tive um sonho! E nesse sonho...

― O que você está fazendo? ― A voz que lhe era tão bem conhecia invadiu sua plateia imaginária e destruiu os seus infinitos e atenciosos ouvintes romanos. Leo tentou se virar, mas os pés se enroscaram na toga comprida demais para ele e o chão lhe recebeu de braços abertos.

Ou quase isso.

Jason o ajudou a levantar, com o cenho franzido e uma expressão intrigada; todo confuso e preocupado.

― Você está bem?

Estava bem, contanto que Jason não percebesse que ele estivera brincando com suas roupas; desdobrando-as, amassando-as e sabe-se lá mais do que ele poderia reclamar.

Mas quando os olhos dele foram capturados para o que vestia, percebeu que pouco se importava se ele reclamasse, pois a vergonha subia quente por seu pescoço e o desespero que se formou no fundo do estômago lhe deu vontade de correr. Correr e não ter que se explicar.

Jason abriu um sorriso calmo e Leo armou um plano de fuga: jogar um tijolo na cabeça dele e sair correndo ― era mais rápido do que ele, apenas precisava não ser pego. A única falha é que não tinha nenhum tijolo que pudesse usar como arma, então apenas procurou no fundo de sua cabeça alguma piadinha que pudesse usar.

― Venha aqui. ― Jason puxou-o pelo pulso e o fez ficar de pé.

Leo poderia ― deveria ― ter feito alguma piada qualquer para livrar a sua pele do constrangimento de estar vestindo a camiseta dele e o maldito vestido de pretor, mas a elegância com que ele lhe tirou o tecido do corpo parecia dizer para ficar calmo.

Seus orbes azuis caíram na camiseta roxa e Leo agradeceu profundamente a sua falha tentativa de fingir que não notara, mesmo que o sorriso em seu rosto tivesse ganhado calor, desaparecendo com a cicatriz.

Pelas atuações das mãos dele ao colocar a toga, Leo percebeu que estivera fazendo tudo muito, muito, errado. A calma com que fazia cada coisa era bonita, parecia que toda a paciência existente no mundo estava enjaulada em baixo de seus cabelos amarelos.

Mesmo tentando prestar atenção ao que ele fazia, distraía-se com a atenção que estava recebendo. Gostava dela ao mesmo tempo em que não gostava; queria os olhos dele em si ao mesmo tempo em que preferia quando era ao contrário.

Soube ali naquele momento que gostava muito mais de quando Jason olhava para qualquer outra coisa que não fosse ele e Leo era o único observador presente. Quando ele podia olhá-lo por quanto tempo lhe parecesse necessário sem o receio de que ele o pegasse em flagrante.

Gostava de saber que Jason sempre estaria olhando para frente, porque assim poderia sempre estar olhando furtivamente para ele. Era bem mais divertido assim, se os olhos não se encontravam em momento algum.

Ao que pareceu terminar, Leo deixou-se rir com ele do pano amontoado em seus pés.

Maldita diferença de altura.

― Abaixe os braços. ― A voz dele soou como uma ordem, seguida de suas mãos empurrando ambos os braços de Leo para baixo, deixando-os ao lado do corpo. ― Endireite as costas. ― Mais uma ordem que Leo o deixou obrigá-lo a cumprir.

Conhecia-o bem o suficiente para saber que ele não falara com intenção de realmente ordenar algo, estava apenas acostumado com isso. E essas pequenas coisas ainda tinham o gosto e o cheiro de Roma.

― Agora sim você pode fazer aquele discurso... ― Jason sorriu minimamente e apoiou as mãos em seus ombros, abaixando um pouco para ficar com a sua altura na frente do espelho. ― Como um verdadeiro pretor e Filho de Roma.

A frase desceu em arrepios gélidos por sua coluna. Leo apertou os lábios e encarou sua imagem no espelho.

Soava ridícula a palavra pretor direcionada a si, mas ao ver o rosto de Jason cheio de expectativa ― e algumas outras coisas que nunca pareciam muito claras ― permitiu-se gostar do que via.

Sorriu para ele e um riso fraco caiu em seu pescoço.

Era estranhamente boa a sensação de ter Jason por perto; sentia-se sempre muito estúpido e otimista.

Com a seriedade que se seguiu, Leo tomou consciência das mãos de Jason em seus ombros e da ponta do nariz dele poucos centímetros distantes de seu pescoço.

Discreto, como de costume, mas Leo ainda era mais esperto; imaginou se Jason gostava do cheiro alheio que grudava em suas roupas.

Soltou uma gargalhada, assustando-o sem querer.

― Cara, para de me cheirar.

Jason endireitou o corpo, suas bochechas enrubesceram na mesma fração de segundo; ele procurou uma saída, mas Leo não estava a fim de levar seu constrangimento adiante ― não dessa vez.

― Esse vestido incomoda.

― É uma toga.

― Tanto faz. ― Deu de ombros. ―Anda, me ajuda a tirar esse troço.

Calmamente, ele fez o que lhe foi pedido.

O sorriso caminhou calorosamente para seus lábios e a cicatriz desapareceu com rapidez. Com o olhar divertido do amigo sobre si, procurou uma desculpa para a camiseta roxa, mas nada lhe ocorreu. Nada exceto o comando rápido de memorizar o rosto dele para uma futura situação na qual talvez não mais pudesse vê-lo.

A toga foi dobrada e posta de volta no armário. (Leo fingiu que não vira sua camiseta laranja sendo perfeitamente dobrada e guardada junto com ela.)

―Obrigado por concertar a porta ― disse ele, com traços de riso na voz.

― Não foi nada. ― Deu de ombros, sabendo que ele não havia notado a desordem causada em suas roupas. ― Mas eu explodo você se tentar eletrocutar o meu navio mais uma vez, Jason Grace.

Ele riu daquele jeito solto que raramente se permitia rir e Leo achou que devia fazer isso mais vezes, mas só porque ficava mais bonito assim. E sendo apenas Leo e ele, seu riso poderia ter os tons que bem quisesse.

― Vá embora daqui, Valdez. Você amassou minha toga.

Riu ao sair para o corredor, porque Jason não cometia erros como troca de cores.

Mas a parte mais engraçada, Leo concluiu tempos depois, era que onde quer que fosse o lugar no qual seu corpo se entregava ao cansaço, seus sonhos estavam sempre embalados por um cheiro de chuva que não era seu.

Notas finais
*"Amigos, romanos e conterrâneos, eu tive um sonho" isso é de alguma série, mas eu não me lembro de qual. Obrigada pela leitura, comentários são sempre muito bem-vindos e até uma próxima o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!