Apenas amor e ódio
1 Capítulo único - Intensidade
Notas iniciais
Era noite estrelada. O acampamento estava tranquilo, a maioria dos campistas já havia ido para seus chalés. Depois de terminar meus afazeres, o sono não veio. Revirei-me na cama até que desisti. Sentei em uma pedra na beira do lago. Fechei os olhos e senti a brisa em meus cabelos.
Alguém senta do meu lado, meu corpo automaticamente enrijeceu.
—Oi Reyna...
Eu conhecia aquela voz. Conhecia bem, principalmente porque sempre que a ouvia, ela vinha seguida de algo que me deixava irritada.
—Valdez.
—O que está fazendo? — indagou.
—O que acha que estou fazendo?- rebati.
— Nada. – deu de ombros.
Leo podia até tentar, mas sempre acabava fazendo algo que eu não gostasse. Como podia ser tão bobo?
—Exatamente. E eu gostaria de continuar a fazer nada sozinha, então tchau.
—Nossa, que hostil da sua parte senhorita. – ele disse fingindo estar muito ofendido.
Eu revirei os olhos. Passamos um tempo em silêncio. Realmente, eu não tinha muito paciência para ele.
—Posso fazer uma pergunta?- Leo disse por fim.
—Já está fazendo, se não percebeu.- observei levantando as sobrancelhas.
—Posso-fazer-outra-pergunta-além-desta-que-estou-fazendo-agora? –disse pausadamente.
Ainda não tinha olhado para ele. Virei-me. Ele me encarava com uma expressão quase chateada, como se nem ele mesmo gostasse do que ia falar. Dei de ombros.
—Pode.
—Porque tem tanto ódio de mim?
Conti um suspiro. Essa pergunta... Olhei em volta, ninguém. Ok Reyna, acho que está na hora de baixar a guarda e dar uma resposta honesta a ele.
—Eu não odeio você. — disse com convicção. — é só que...
—Que...?- pressionou ele.
—Temos personalidades muito diferentes. — expliquei. — Você fala quando devia estar calado.
—Já ouviu falar em ''os opostos se atraem''? — disse com confiança.
— Isso não se aplica a esse caso. — garanti.
—Posso te fazer uma proposta?- perguntou de repente, inseguro.
—Não é nada idiota?- ergui a sobrancelha.
—Talvez você ache idiota, eu não acho... tanto...
—Fale logo, Valdez.
—Você me daria o resto desta noite para te mostrar o quanto posso ser legal?- perguntou.
Entreabri a boca, surpresa. Leo Valdez me fizera mesmo esta proposta? Eu tinha que ser justa: Leo não era uma pessoa má. Suas piadas em momentos inoportunos realmente me irritavam bastante, mas ele era bom no que se propunha a fazer. Ajudava seus amigos, era corajoso. Sentia que as vezes exagerava na minha reação, mas sabia que não podia me dar ao luxo de parecer fraca. Refleti por um momento. Se alguém nos visse e nos descobrisse, não seria uma coisa que eu iria me orgulhar, mas afinal, o que eu tinha a perder?
Ele mexia impacientemente um objeto em sua mão. Decidi.
—Sinto que te devo isso. Você tem só o resto desta noite. Não faça com que eu me arrependa.
Um sorriso enorme se formou em seu rosto. Tudo bem, eu estaria sendo mentirosa se dissesse que Leo não era bonito. Suas covinhas eram muito... fofas. Seus olhos brilhavam como os de uma criança que acabara de ganhar um presente. Os lábios rosados eram cheios. Os cabelos encaracolados moldavam perfeitamente o rosto de uma beleza distinta. Me dei conta que nunca havia percebido e visto ele como alguém atraente que era.
—Venha, Reyna. Venha se divertir com Leo dono-da-diversão-Valdez.
Ele estendeu a mão. Balançando a cabeça, ainda descrente pelo que estava prestes a fazer, segurei.
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Horas depois......
Nunca pensei que Leo Valdez pudesse me surpreender de tal forma a me fazer rir. Ele me mostrou várias projetos que estava desenvolvendo nas forjas, alguns totalmente fora do comum. Testamos alguns, ele caiu no chão ao me mostrar um e eu realmente não pude segurar o riso. Foi algo totalmente diferente. Estranho, aliás.
—Foi divertido, Leo.
Esclareci com um sorriso sincero. A essa altura, já estávamos perto da floresta, próximo as forjas. Encostei em uma árvore.
—Preciso de uma câmera para gravar isso!- ele disse, petulante. — A toda-poderosa-Reyna admitindo que se divertiu?!
— Leo, não força.
Suspirei. Percebi que ele me encarava, sério. Não consegui entender sua expressão.
—Acho que está na hora de ir. — falei.
—Mas é cedo ainda. Podemos fazer mais alguma coisa.
Leo me lançou um olhar apreensivo. Aproximou-se de mim instantaneamente. Eu não soube como reagir.
—Mesmo assim, preciso ir. – respondi rapidamente. — Que isso fique só entre nós. Fingimos que essa noite nunca existiu.
—Tudo bem. Não contarei a ninguém. Mas...
Ele estava sério. Mordeu o lábio inferior antes de continuar.
—Mas? -repeti.
—Tenho uma duvida. -senti seus olhos se fixarem nos meus. — Você quer que eu guarde segredo sobre absolutamente TUDO que acontecer esta noite?
—Sim, absolutamente tudo. — balancei a cabeça, sem entender. Continuei, desconfiada. -Porque está perguntando isso?
Leo colocou sua mão até meu rosto e o acariciou com a ponta dos dedos.
—O que você está fazendo?- murmurei assustada, meu corpo não estava tendo a reação que eu esperava.
Ele aproximou seu rosto do meu, tanto que pude sentir seu hálito. Eu estava tão hipnotizada que não consegui me mexer. Minha boca criou vida própria.
—Não faça isso, Leo. — recobrei a consciência. –Nunca. –coloquei sua mão na minha pra tira-la do meu rosto.
Mas ele foi mais rápido. Com a outra mão, ele agarrou-me pela cintura e puxou-me para ele. Nossos corpos se chocaram e eu senti um arrepio involuntário, quase hipnótico.
—O que acha que vou fazer Reyna? Você é tão inteligente, admira-me que ainda não tenha descoberto.
Por um segundo não soube o que fazer. Estava verdadeiramente surpresa. Meu corpo correspondia aquele beijo, e eu também correspondi. Nunca havia me sentido atraída por ele, mas depois de hoje, algo mudou. Algo dentro de mim fez com que me sentisse atraída pelo seu corpo, seus lábios. Não sei se era a falta de ser tocada daquele jeito, de saber que ele me beijou porque gostava de mim, mas algo fez com que eu tivesse a necessidade de beijar ele e então, com toda a minha atenção voltada aos nossos lábios, eu me deixei levar e beijei-o intensamente.
Quando nos faltou ar, ele roçou os lábios nos meus, segurando minha cintura possessivamente, enquanto sua outra mão estava na minha nuca, me segurando firmemente. Durou apenas alguns segundos, até que ele já estava me beijando novamente.
Um segundo de lucidez passou pelo minha cabeça. Leo Valdez! Eu estava beijando Leo Valdez! Você odeia ele Reyna, odeia!
Empurrei-o com toda a minha força para longe de mim.
—Valdez! Como ousa fazer isso?! –perguntei, transtornada.
—Eu não posso levar toda a culpa! –ele disse, ainda assustado com o meu empurrão. – Você também me beijou!
—Eu não sei o que deu em mim. — passei as mãos no cabelo, respirando fundo. — Eu simplesmente não sei.
Leo aproximou-se de mim. Lembrou.
—Nada do que aconteceu será replicado á alguém, é tudo um enorme segredo.
Ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Desceu os dedos por toda a extensão da minha mandíbula. Permaneci imóvel, encarando-o, decidindo qual seria minha próxima fala. Em um movimento rápido, segurei firme seu queixo, cravando minhas unhas nas sua bochechas para que pudesse olhar diretamente em seus olhos. Murmurei.
—Nada disso aconteceu, essa noite não existiu.
Sem dizer minha palavra, nossos olhos entraram em concordância explicita. Não havia mais porque falar, pelo menos não agora.
Não sei exatamente quando tempo passou, nem como, mas simplesmente não conseguia me afastar dele. Minha boca só desgrudava da dele para respirar, e ainda assim, ela seguia para seu pescoço, como se um imã a atraísse para Leo sem nenhuma resistência.
Ouvi ao longe vozes, fazendo com que de alguma forma eu acordasse do transe.
—Pelos deuses. — pus as mãos na árvore que Leo estava apoiado. A essa altura, estávamos sentados na grama, comigo em seu colo. — O que eu acabei de fazer, ainda mais com VOCÊ.
Levantei rapidamente, ajeitando a blusa e o cabelo, completamente desarrumada.
—Você adorou me beijar, Reyna. — Leo levantou-se com um sorriso no rosto, espreguiçando-se.
—Cale a boca!–esbravejei. — Se alguém souber disso, será um idiota morto, entendeu?!
—Ok MESTRA, ninguém vai saber disso. –disse irônico.
—Eu te odeio, Leo Valdez. – sibilei.
—Amor e ódio andam juntos, sabia? – disse com sarcasmo.
Faltou pouco para não matar aquele garoto ali mesmo. Ao invés disto, sai correndo dali. Não quis olhar para trás.
...
Já era manhã quando acordei. a primeira coisa que veio a minha mente foi Leo. Bati os punhos na cama. Simplesmente não acreditava que tinha feito aquilo com ele! E apesar disso, mesmo odiando admitir, o desgraçado beijava muito bem.
Vi um papel dobrado na minha cômoda, embaixo do meu abajur, tão discretamente colocado que somente eu conseguiria ver quando estivesse deitada.
Reyna,
Amor e ódio andam juntos.
E, o contrário do amor não é o ódio, e sim, a indiferença.
Você não foi indiferente ;)
Sei que você me ama, afinal, quem não amaria?
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