Apenas Uma Vida
9 Espera, brigas e sonhos
Notas iniciais
Depois da audição meu pai e eu conversamos. Ele acha que eu não soltei minha voz tocando violão, por isso o jurado pediu para eu larga-lo, mas ele disse que se o jurado não tivesse gostado não teria pedido para eu cantar de novo. Eu não sei ao certo, tudo pode acontecer, o que me resta é rezar e esperar.
Teve uma coisa que me deixou muito feliz nisso tudo. Se eu não passar, não tem problema, não vou ficar triste, porque todo apoio que eu recebi me deixou muito feliz. A fé das pessoas em mim e no meu talento me surpreendeu. Nem eu tinha tanta fé em mim e é por isso que eu fiquei tão surpresa e contente.
[...]
Cheguei em casa e não tinha ninguém. Deixei meu violão de lado, me deitei, liguei a TV e entrei na internet. Passei um bom tempo assim, contando as minhas amigas virtuais como tinha sido a audição, o apoio que eu estava recebendo era melhor do que qualquer prêmio que eu poderia receber. De verdade. Esquentei meu almoço, que era escondidinho congelado pronto, e em 15 minutos a gororoba estava pronta. Terminei de comer, em frente a TV e meu celular ao lado, demorei uma eternidade para levantar e colocar a embalagem no lixo e deixar os talheres na pia. Acho que depois de 3 à 4 horas eu me levantei para fazer isso.
Mais ou menos 18:30, Jennifer ligou para perguntar da audição. Ela parecia mais animada do que eu. Seu irmão e sua tia também gritavam e queriam saber como foi. Expliquei meio enrolada, mas acho que ela entendeu. Antes que ela pudesse expressar sua felicidade a ligação caiu e ela não retornou. Tentei ligar novamente pra ela, mas sem sucesso. Deixei por assim mesmo. Estava feliz por ela ter se importado de ligar.
Depois disso voltei minha atenção de novo a televisão, quando minha mãe bateu na porta do meu quarto e disse :
"Alice você quer ir no shopping comigo?"
"Hum, pode ser."
Fiquei enrolando enquanto ela falava ao celular e se arrumava. Depois de dez minutos ela entrou novamente no meu quarto e falou.
"Vamos?"
"Aham."
Peguei minha bolsa de estampa militar, estava já vestida com uma camiseta rosa, calça jeans escura e meus tênis. Penteei meu cabelo e fui na direção da porta.
"Estou pronta."
"Pode chamar o elevador."
Abri a porta, fui chamar o elevador. Pouco depois minha mãe saiu ainda falando no celular. Ela passou todo o trajeto do elevador até o carro, e do carro até o shopping no celular com o namorado.
Enquanto ela estava procurando uma vaga para estacionar o carro, finalmente, desligou o celular. Encontrou uma vaga, parou o carro e saímos.
"Vamos em uma loja nesse piso mesmo. Preciso comprar camisas para o trabalho" — Disse ela, eu só assenti com a cabeça e fui atrás dela.
Fomos até a loja Emme, adorava aquela loja. Eu vi um vestido preto e uma regada cinza com a estampa de ossos muito perfeitas. Me lembrou muito uma blogueira que tira foto de roupas que ela gosta no provador para mostrar as pessoas que acompanham o blog. Me deu vontade de provar e tirar foto no provador só para quando eu tiver dinheiro saber onde comprar. Ok, isso é espírito de pobre. Mas, enfim, minha mãe provou umas cinco camisas e levou três. Uma verde bebê, uma azul bebê e outra com pequenas flores por toda parte. Pagamos e saímos da loja. Demos uma volta, compramos meu caderno da escola. A capa era do artista Romero Britto. Eu o adorava. Eram quase nove horas da noite não tinham muitas lojas abertas. Depois das compras resolvemos ir embora. No caminho acabei discutindo com ela, como sempre. Agora lembrará o motivo de não querer sair com ela, sempre acabava em briga. Tudo começou enquanto falavamos das aulas.
"Logo começam as aulas."
"E logo acaba o trabalho, não estou mais aguentando!"
"Pense no dinheiro que você vai ganhar."
"Não compensa mãe. Queria descansar nas férias, não vai ser legal acabar de trabalhar para começar a estudar. Não vou descansar nada!"
"É, mas você já tem 14 anos Alice! Tem que trabalhar, você já tem que pensar na faculdade que você vai fazer. Não pode ficar sem um emprego" — Minha mãe não pensa, eu nem tava falando sobre isso, DE ONDE ELA TIROU AQUELE ASSUNTO?
"Ah não mãe, não vai começar."
"Começar com o que Alice?"
"A falar de faculdade, vocês já encheram o saco do Thiago sobre isso, não vão encher o meu!"
"Por que você precisa ser grossa? Não dá pra conversar com você!"
"Você não queria conversar, queria pressionar, é diferente."
"É, mas tem que pensar nessas coisas. Você já pensou no que você quer fazer na faculdade?"
"MÃE! Você sabe!"
"Não sei, não."
"Sabe sim!"
"Fala Alice!"
"Quero tentar ser cantora, mãe". -Disse abaixando meu tom de voz.
"Ah! Por favor Alice! Já falamos sobre isso. Me desculpe, mas você nunca vai ser cantora. No máximo uma cantora de bar e olhe lá. O sucesso acontece para uma pessoa em um milhão. Você tem que fazer uma faculdade, garantir um emprego."
"Aham" — Foi só o que eu consegui dizer. Ela me destruiu falando aquilo, passei o caminho inteiro em silêncio, ouvindo ela falar, concordando de vez em quando. No começo senti lágrimas em meus olhos, mas segurei. Não iria chorar por uma bobagem como aquela. Não era a primeira vez que minha mãe me fere com suas palavras.
Assim que chegamos em casa, fui direto para o quarto, abri minhas menções no twitter. Fui ler todos os comentários, lembrei de todos me apoiando. Eu tinha pessoas me apoiando que eu nem conhecia, mas minha própria mãe não me apoiava. Tentei esquecer o que ela tinha falado. Fui tomar um banho. A água caía em meu corpo cansado, enquanto levava as palavras dela da minha cabeça. Terminei meu banho, me sequei e coloquei minha camisola rosa escrito Strawberry. Fui me deitar, naquele momento de descanço queria lembrar só das coisas boas que aconteceram no meu dia. Elas eram os únicos pensamentos importantes. Era naquilo que eu deveria me concentrar. Já dei muita importância para o que os outros diziam de mim e agora vejo o quanto isso me fez mal. Mais do que isso, quase acabou com a minha vida. Minha mãe havia me dito que certas chances são de um em um milhão. Eu posso ser essa uma em um milhão! Por que não? Eu QUERO ser essa uma em um milhão e se eu não tentar nunca vou saber se poderia, mas, infelizmente, ela nunca vai entender. Nunca.
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