Apenas Uma Mulher Dos Diabos.

1 O Homem é o Lobo do Homem.


O homem.

A mais perfeita e requintada criatura de deus que já pisou neste pedacinho de poeira que chamamos de Lar.

A obra-prima de toda a criação, a imagem e semelhança do poder divino, o próprio criador em sua essência — mesmo que de uma forma genérica.

Cristo era homem, era macho, era divino e provavelmente o único filho direto de seu escroto celestial.
O homem.

A maior e mais bem trabalhada arma já criada.

Tão rico em detalhes em sua magnanimidade que se torna impossível sua auto compreensão em meio aos seus semelhantes, tendo em vista que de tão rico e incomparável, é capaz de escolher tais qualidades em seu meio social. E quase unanimemente escolhe a decadência.

É provável que o senhor todo poderoso, sentado em seu trono de proporções incalculáveis, tenha pensado que seria um grande feito incorporar suas qualidades de origem questionável em bilhões de conceptáculos de carne, ego e pênis.

Por sua sorte, se é que este conceito se aplica a ele, não havia uma competição de ideias.

Afinal de contas teríamos um perdedor.

Talvez ele reconheça sua derrota neste pôquer de acasos e circunstancias, mas quem iria ganhar ou perder de deus? É um jogo injusto tal qual sua imagem e semelhança.

Não me admiraria se nosso Pai celestial se deleitasse de virgens nuas com seus seios fogosos e lábios de pêssego á lhe abanar com folhas gigantes da árvore do conhecimento – Bastante irônico de sua parte – enquanto observa seu jogo obsessivo e fúnebre sobre pequenas formigas que morrem pelo fato de não suportarem a própria existência num milésimo de segundo do seu tempo eterno, sentado em seu trono reluzente formado por dezenas, centenas de milhares de falos metálicos unidos, mas nenhum superior ao seu próprio.

Deus poderia ter até mesmo dois se quisesse.

Particularmente acredito que haja bem mais do isso dentre suas coxas misericordiosas, logo acima dos joelhos complacentes.

Para que ele possa, assim, foder a vida de todas as suas crias simultaneamente.

Esse era o real plano sublime? Espalhar seus genes, seu DNA, seus hábitos, desejos, manias e feitios como uma egrégia ejaculação sobre toda esta parte do universo e nos assistir sucumbir?

Se nosso progenitor é eterno, por qual motivo parecemos?

Conveniente de sua parte escolher a dedo o que deveria implantar em nosso código espiritualmente genético enquanto se louva e se gaba que, por amor, nos fez tão igual a ele.

O Homem.

Deus é homem.

O Diabo é homem.

Ou pelo menos são eles, machos.

Por mais estranho que pareça existirem apenas um de cada espécie.

Nunca vi o diabo como um ser maligno ou causador dos males dos homens, o que trouxe a angústia, a dor, a desolação e os caminhos tortuosos que nos afastam do que é bom.

Simplesmente porque é mais inteligente vê-lo como um funcionário.

Por que diabos O diabo nos tentaria tanto? Para simplesmente nos ter? o inferno nada mais é do que um quartel, uma sala escura onde se torturam adolescentes por se masturbarem ou pensarem nos peitos da vizinha mais velha. É óbvio que é reconfortante pensar que há um lugar terrível para onde vão os estupradores, assassinos, canibais e sereal-killers, mas é estranho lembrar que, além de ser o mesmo departamento que lida com os garotinhos que tentando brincar sozinhos, também é um pedaço da constituição criada por deus.

É como se satanás fosse um estagiário louco viciado em culpar tudo e todos para poder agradar seu patrão e ser promovido.

Ou um ótimo fingidor que tenta até hoje dar uma rasteira do altíssimo e tomar seu posto, o que eu prefiro mais.

Bom, baseado nisso, acredito que o Diabo tenha aproveitado as más ideias do Santíssimo e criado algo maior, mais perigoso, delicado e fatal, feito com o propósito de conter todo o potencial do desejo, da paixão e do inferno em si.

O diabo fez a Mulher.

Pois se o Homem é o Lobo do Homem, a Mulher é seu caçador. E neste mundo de homens, que constantemente pisoteiam tudo ao seu redor como gado que caminha sobre as plantações recém devoradas deixando o solo infértil, algumas pessoas percebem que existe mais.

Alguns portadores da liberdade, da forma crua e feroz que são as coisas, das chamas diabólicas das quais foram criadas, as próprias filhas do proibido... Angel.

Não se sabe exatamente seu nome real e talvez isso nunca tenha sido necessário.

Alguns pensavam ser Angélica enquanto outros suspeitavam de Ângela, mas o que realmente importa é que Angel poderia ter o nome que quisesse, afinal, não era seu nome em especial, mas sim tudo o que trazia com ele.

Se você se pegasse sozinho em sua cama em meio á mais um dia frustrante, olhando para o teto e, mesmo que tudo ao seu redor cheirasse á tristeza, você estivesse alegre e suspirando o nome de Angel para a janela... Tenha uma certeza: Você estaria ferrado.

Para ela romances não duravam mais do que três noites.

Uma para lhe por no topo do mundo.

A segunda para lhe fazer perceber que tem algo errado.

E a última para lhe dizer adeus.

Por favor, não a veja como uma vadia manipuladora.

Ela não tem culpa de carregar em seu olhar a tentação de mil demônios ou de que fazer questão de exibir seu charme como numa exposição de arte.

Ela apenas domina o jogo que mais gosta de jogar e não economiza fichas.

Pois afinal, sempre ganha.

Ganha seus corações devotos, suas almas apetecidas com o seu fervor e seus eternos queixos caídos.

Entendo o que deva estar pensando.

“Ela apenas mantém seus paus molhados para lhe satisfazer como um animal no cio.”

É algo além disto.

Seu cio não é pelo corpo, é pela índole, é pelo prazer de danificar a alma de alguém irreparavelmente.

Deixar sua pegada na existência deste pobre felizardo.

Diferente de um colecionador, Angel não tem a necessidade da quantidade ou a exigência de ter provado todos os exemplares, ela simplesmente busca toda a adrenalina, a emoção que alguém a possa dar.

E uma vez que a tenha, não há mais graça em repetir.

Não há espaço para sentimentos simples em seu ser, nada de sensações medianas ou encobertas de demoradas apresentações.

As ruas noturnas se tornaram seu rodízio favorito.

Angel é uma verdadeira devoradora de homens.

E quando está satisfeita, faz questão de limpar suas presas com as próprias garras.

E os pequenos restos de camas bagunçadas e lençóis suados que ficam por entre os dentes são cuspidos para fora.

Nada de sobras.

É do tipo que sempre quer o inteiro, o prato cheio, o prato principal.

A recompensa por ser escolhido era tão grande quanto o perigo de derrapar pelas curvas violentas e perigosas do seu corpo.

Desde criança, Angel demonstrava traços de sua soberania perante outras garotas.

Certa vez, durante uma tarde na piscina do vizinho, a pequena loba fez todas menininhas em sua companhia correrem de volta para seus pais.

Assustadas.

Tremendo como rãs engelhadas.

As canelas magrelas se balançavam como bambus ao vento fazendo os joelhos se baterem, causando um “Knoc“ vez ou outra quando se encontravam feito duas cascas de coco vazias.

Correram como numa maratona ao ver a água azulada pelo plástico assumir uma cor escura, arroxeada, guiados pelo grito de partida que rasgou as risadas tal qual o braço da garotinha loira que irritara Angel.

Seus dentes recém formados se fincaram como estacas num solo macio e vermelho-sangue.

Não teve força o suficiente para que atingisse o fino osso da coitada mas fez sangrar seu braço esquerdo como um porco em um matadouro.

Seus pais, bom, seus pais já tinham o discurso de defesa decorado.

A sua mãe, uma vadia sem pudor ou noção de como criar uma criança, vivia bêbada e jogada pelos cantos casa.

Sempre ao lado de uma poça de vômito ou fardo de cervejas.

Cigarro queimando na boca.

Chapéu de vaqueiro.

Cara amassada.

Se maquiava como um palhaço com Parkinson enquanto cantava I got a name.

Pobrezinha, não tinha nada.

O pai.

Porra, o pai era um pedaço de inconsciência com um bocado de inevitável.

Foi quem criou o pequeno diabo, ensinou a ler, escrever e limpar as mãos de sangue.

Incitava conversas sobre o que acontecia, sobre as brigas, sobre a mordida, sobre o mau comportamento, a fazia decorar coisas numa tentativa frustrada de a fazer entender.

“Eu não devo machucar as coleguinhas, mesmo que seus pais sejam uns viados e suas mães putas sujas.“

Ela sempre repetia, claro.

Mas nunca aprendeu.

O anjinho caído sempre tinha o tempo de seu pai dedicado somente a ela.

Ele era seu exemplo, seu espelho, seu mestre, seu único homem, o único que precisava.

Certa vez, numa das bebedeiras da mãe, apanhou como uma vaca velha e se olhando no espelho, com seus lábios encarnados dando origem ás linhas de sangue que desciam em direção ao pescoço, se questionou a razão de não ir embora.

“Eu não devo machucar as coleguinhas, mesmo que seja minha mãe.“

Ela repetiu baixinho encarando seus olhos verdes no reflexo embaçado.

Se sentiu frustrada em pensar que tentara se convencer tal qual seu pai.

E seguiu seu rumo.

Passou dias lembrando do pai e chorando sua falta nos intervalos de felicidade.

Não teve mais noticia deles até terminar os estudos e se formar em jornalismo.

Estavam mortos.

Moradores afirmaram que, culpando-a pelo sumiço da filha, O marido havia dado fim á vida de sua esposa e em seguida á sua própria.

Foram enterrados juntos.

Angel sabia que não deveria ter sido assim.

Mas quem diria que os cães briguentos acabariam unidos na tumba.

Toda e tristeza, confusão e hematomas do passado serviram de lápide.

Quase como se estivesse realmente escrito no mármore o quanto eles mereciam aquele descanso.

De um jeito bom e ruim ao mesmo tempo

A morte em sua família não lhe tirou a vontade e a curiosidade sobre o mundo.

Sobre o que a cercava.

Sobre os homens.

Por muitas vezes enquanto amadurecia, Angel se pegou olhando para suas coxas e o que lhe dizia Olá vez ou outra durante a noite lhe fazendo lembrar dos fantasmas que lhe perseguem.

Fantasmas, lembranças, desejos.

A deixando-a com calor, mas não pela temperatura.

Ideias vinham á sua cabeça num convite carnal.

A confusão ainda a perturbava como um martelar incessante na parede do vizinho durante a madrugada.

Em meio ás crises de ansiedade, talvez causadas pela falta de apoio emocional, mal conseguia se alimentar. Vomitava o que não tinha no estômago apenas com o cheiro do que deveria estar lá.

Durante meses rejeitou sua fome.

Se mantendo no papel que ensaiara tão bem longe dos pais.

Angel tinha de ser a repórter. Educada e bonita.

Inteligente, mas não demais.

Esforçada, mas nunca da maneira certa.

Capaz, mas nunca o bastante.

Uma mulher no mundo dos homens.

Um cadeado que trancava a si mesma, rodeada de chaves pingando óleo.

Durantes meses escrevera sobre acontecimentos locais, coisa boba ao meio do que os outros vaziam, nunca tendo o prazer de ver algo ir para a primeira página.

Uma vida monótona.

Mas o diabo não te faz apenas a oferta, ele te tenta, te tenta pela opção que quer mais.

Angel não se conteve.

Ela olhou em seus olhos e viu quem ela realmente era.

Durante meses fez da noite seu parceiro mais fiel, derretendo corações ao sorrir e ao dançar seduzia mais do que o Diabo.

Nas mudanças de hábito a repórter loira e bem humorada deixava sua pele de cordeiro lhe cair bem durante as atividades noturnas, mas era com a chegada fria do anoitecer que se espreguiçava num ronronar dengoso de más intenções.

Aproveitando de bar em bar, bancos detrás de carros esportivos e fundos de boates, o tédio logo veio. O fluxo de paixões diminui e seus lábios vermelhos não se davam ao despeito de gastar o caro batom em quem não era peixe grande.

No jornal, enquanto entregava um rascunho para o chefe, percebeu sobre sua mesa diversos recortes.

Numa conversa rápida e cheia de cantadas desnecessárias vindas do careca barrigudo, Angel descobriu sobre um Oasis em meio ao deserto da procrastinação.

Uma série de crimes, um amontoado de corpos, um caos, desordem, uma oportunidade.

Num pedido empolgado, recebeu a aprovação acompanhada de um cheque com nada além do necessário para passar um mês na nova cidade.

Angel sabia que não recebeu o “sim“ pelo chefe ter visto a oportunidade de algo grande, afinal teria mandado um dos abutres teleguiados.

Foi enviada apenas para servir de piada e exemplo para os colegas de trabalho quando voltasse frustrada.

Pobres homens de pouca fé.

Havia mais naquelas ruas asquerosas do que este maldito jornal seria capaz de publicar.

Havia violência desenfreada, tratada como apenas mais um enfeite, em meio aos muros sujos.

E Angel.

Ah... Angel se sentiria em casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.