Apenas Uma História De Amor
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Eu me acostumei com os ratos e com a pouca luz daquela cela que, por incrível que pareça, conseguia fazer o dormitório dos detentos bem mais confortável. Eu ouvia os sons de tosses dolorosas e a súplica das pessoas nas celas ao lado, era bem pior do que no dormitório, parece que aquela cela era para os prisioneiros doentes e feridos, como eu.
Minha camisa estava acima do umbigo, porque eu havia nesses dias cortado em tiras e amarrando para formar uma corda. O tecido é muito resistente, por isso eu acho que não vá se romper fácil. Por que eu estou fazendo isso? Simples, eu vou fazer o que eu devia ter feito há muito tempo. Não há motivos para lutar. Não há motivos para ter esperança. Portanto, não há motivos para viver.
Quando chegou o dia planejado, eu amarrei uma ponta da corda em um suporte para lâmpadas no teto, tive medo dele não aguentar o meu peso, mas eu estava tão magro que acho que aguenta sim. A outra ponta eu dei um nó de modo que coubesse a minha cabeça dentro de um círculo de pano.
Eu não o fiz de imediato, eu pensei muito ao longo do dia. Pensei nos meus pais e o quanto eu quero revê-los pós vida, pensei no Kenny, pensei no Stan que me deu certas forças para continuar o suicídio e pensei no Cartman. Sim, aquele soldado gordo que me violentou estava em meus pensamentos, justo porque nesses últimos dias, ele é a única pessoa que eu vejo. Ele sempre está em frente a minha cela, me observando, com o corpo rígido de um soldado do seu porte, mas por alguma razão, hoje ele não estava lá. E eu quero que a última pessoa que eu veja seja o Cartman.
Eu pensei na vida que poderia ter tido se não tivesse acontecido tudo isso. Quando eu era pequeno, eu sempre sonhei em ser médico, por isso não aguento ouvir as pessoas passarem mal por aqui, eu queria ajuda-las. Eu queria ter uma família, embora seja muito difícil por eu ser gay. Eu queria morrer tranquilamente dormindo em minha cabana ao topo da montanha, com cabelos grisalhos e pele enrugada, não nessa situação desesperadora, cuja morte é o único momento de paz.
Deitei a cabeça no chão e comecei a chorar por horas, eu era um covarde, pois mesmo depois de tudo, eu ainda tinha o medo da morte, eu comecei a imaginar aquela cova rasa cheia de corpos lá fora, é lá que irão me colocar. E eu nunca quis ser abandonado.
Depois de horas eu finalmente tomei coragem. Respirei fundo e me levantei, indo até o banco da cela para me dar suporte. Eu ouvi a porta de metal do corredor se abrir, mas eu não liguei, eu coloquei minha cabeça no pano e fechei os olhos.
-Ei, você! Kyle! –Eu ouvi a voz dele. Eu fiquei feliz que o Cartman sabe o meu nome. –Não se atreva! –Eu sorri. Estava de olhos fechados, mas ainda sim conseguia ver ele balançando a porta de metal para tentar abrir, provavelmente tentando inúmeras chaves em seu molho enorme. –Kyle! –O último grito que eu ouvi.
Então eu o fiz. Eu pulei.
E depois... Eu não vi mais nada.
Xxxx
Eu acordei em um lugar muito limpo na verdade, alguém acariciou os meus cabelos e eu senti as mãos ásperas e aconchegantes. Ao olhar para o lado eu vi muitas gavetas de corpos, eu estava no necrotério, minha camisa havia sido trocada por uma inteira. Ao virar um pouco o corpo, eu senti ataduras nos ferimentos, alguém estava cuidando de mim.
Eu virei o rosto para o lado e vi que quem me acariciava era o Cartman, ele estava sem luvas e seu casaco militar estava amarrado à sua cintura, expondo seus belos músculos. Em seu pescoço estava amarrado um emblema do exército. Eric. Eric Cartman.
-O que há de errado com você, seu merda? Você poderia ter morrido! –Ele gritou finalmente se dando conta que eu havia acordado, meus ouvidos doeram, eu só queria que ele calasse a boca.
-Você chegou à essa conclusão sozinho?. –Eu resmunguei, apoiando-me com o cotovelo e massageando a minha cabeça, doía demais. Eu fiz uma careta.
Eu estava tão nervoso que não liguei em desacatar a merda da autoridade dele. Eu olhei para ele com ódio, mas quando eu não vi nenhum ódio ou aversão em sua face, minha carranca se aprofundou. Ele parecia chocado e até um pouco preocupado.
-Por que diabos me salvou? Meu Deus, Eric... –Bufei irritado enquanto me levantava daquela mesa de metal fria, mas o gordo segurou a minha manga e me puxou para baixo e eu sentei novamente.
-Do que você me chamou? –Eu esperava ele estar com raiva, mas ele não estava.
-Hum... Cartman? –Respondi simplesmente. Será que eu o chamei pelo primeiro nome e nem sequer me dei conta?
-Não, não, você me chamou de Eric. –Ele sibilou e suas sobrancelhas franziram como se ele tivesse lembrando-se de alguma coisa.
-Tanto faz. –Eu resmunguei. Eu estava tão irritado que ele tinha me salvado e minha cabeça estava explodindo e ele começou aquela discussão sobre nome, eu quero que ele vá à merda com o seu nome.
-Não, é que... –Ele tentou iniciar uma discussão, mas eu o cortei na hora.
-Qual é o seu problema?! –Eu gritei e ele se assustou um pouco, eu me levantei e fui em direção à porta, mas ele correu e chegou antes de mim. –Chama algum dos seus guardas para me levar daqui então.
-Não.
Eu não sei se era eu quem estava muito nervoso, ou ele que estava muito paciente comigo por não ter me dado uma surra até agora. Mas eu acho que ele estava preocupado comigo.
-Eu salvei sua vida, verme! –Ele gritou como se eu fosse obrigado a ser grato a ele.
-E eu pedi pra você?
-Não, mas eu não podia deixar você ir com o plano comunista.
-Eu não sei de plano nenhum, você é louco! –Só para não olhar na cara dele, eu me virei, andando para outro canto do necrotério, mas ele me abraçou por trás e eu estremeci de medo.
-Eu me importo.
Eu congelei.
Minha cara quebrou, eu ia chorar na frente daquele tenente que só vive à custa da minha dor. Ele me abraçou mais forte, acariciando a minha barriga lisa. Eu só quero saber o porquê de tudo aquilo.
-O que você quer?! –Eu gritei, deixando as lágrimas caírem pelo meu rosto, eu não me importei em limpá-las.
-Eu não quero que você morra. –Ele finalmente murmurou, algo brilhou em seu rosto, mas eu não consegui dizer o que era.
-Por quê? O que isso tem a ver com você além da porra do seu plano comunista?
-Tudo. –Ele falou com uma voz sombria e o pouco agradável militar estava começando a sumir.
Eu me virei e tentei empurrá-lo, ele não reagiu, apenas olhou para mim, uma emoção estranha estava tomando conta de seus olhos castanhos avermelhados. Eu me encolhi perante o olhar, não estava com um bom pressentimento.
-Eu preciso de você. –Eu fiz uma careta, o que diabos aquele gordo quer comigo? Por que ele continua falando essas coisas sem sentido?
-Não! Você não precisa, você me odeia! E eu te odeio! –Eu parecia um pouco infantil, mas eu ignorei. Eric balançou a cabeça e mordeu seu lábio inferior, um brilho malévolo tomou conta do seu rosto e eu estremeci.
-Eu preciso desse ódio. –Levantei o rosto para o olhá-lo, chocado. –Sem você minha vida seria uma merda chata como sempre foi. –Ele encolheu os ombros com honestidade.
-Você só pode estar brincando. Por que isso agora?
-Porque você é meu.
Eu pisquei. A voz dele era fria e sombria, eu senti medo.
-Você é meu, Kyle. Meu pequeno judeu.
Continua...
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