Apenas Uma História De Amor
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Como se não bastasse os desastres da guerra, o frio chegou muito forte. Não tenho como descrevê-lo, mas posso te garantir que é o pior inverno da minha vida. Às vezes o Kenny desmaiava em decorrência do seu ferimento, exposto a esse frio gelado, ele não cicatriza. Estamos cerca de duas semanas andando, pois tenho a impressão de que se pararmos, o Kenny morre.
Eu já não tenho mais lágrimas para chorar, pode ser que a neve congelou minhas lágrimas ou o meu coração. Eu aceitei o meu destino, eu tenho dezenove anos, eu passei a minha adolescência me escondendo como um cachorro e vou passar minha fase adulta fugindo até que Deus tenha a bondade de me tirar desse mundo. E é isso, não tem casamento nem filhos, a família Broflovski morre aqui.
Kenny está tremendo muito, nós estamos em uma caverna muito gelada, ao redor de um fogo muito ralo, o vento forte não deixa o fogo se estabilizar e já tive que o reacender quatro vezes. Eu cheguei perto de Kenny e coloquei sua cabeça no meu colo, como eu sempre fazia e acariciei seu rosto como uma mãe cuidando de um filho doente, às vezes, quando ele está delirando de febre, ele me chama de mãe sim.
Ele está com febre de novo e eu não sei o que fazer. Eu apenas faço carinho nele, tentando minimizar a sua dor, para que ele tenha uma morte pelo menos digna. E ficamos assim, até adormecermos, eu sentado e ele com a cabeça em meu colo.
Ele tremeu até desmaiar e eu fiquei olhando para o céu da caverna e imaginei as estalactites como as estrelas. De repente minha vida inteira passou diante dos meus olhos. Minha infância, todas as pessoas ao meu redor que tiveram um destino trágico, meus pais, o corpo dos meus pais carbonizados e o Stan. Quando pensei neste último, meus olhos se encheram d’água. Eu nunca irei perdoá-lo pelo que fez comigo e com o Kenny, ele nos abrigou, nos fez acreditar que ainda havia esperança.
Esperança...
Sempre me disseram que a esperança é a última que morre. Pois eles estavam certos, esperança foi só o que me restou depois de tudo, mas já acabou também. Ou seja, não me restou mais nada, eu era um saco vazio.
Xxxx
Eu acordei com um ruído fora da caverna, a fogueira havia se apagado durante a noite e o Kenny não estava lá. Eu estranhei, há dias ele não consegue se movimentar sem a minha ajuda, será que ele milagrosamente melhorou?
Bocejando, eu fui para fora da caverna e chamei pelo nome dele, depois eu senti uma pancada enorme na minha cabeça e desmaiei.
E eu acordei aqui, em um vagão de trem sujo e nojento. Havia um monte de gente e todos me olhavam com olhos esbugalhados, não falavam nada, pareciam fantoches de vitrines, mas estavam desnutridos e desesperados, há umas quatro ou cinco crianças, mas eu não via o Kenny por lá. Eu não estava com medo, quem sente medo é quem tem algo a perder, eu não tinha nada.
Xxxx
Depois de uns cinco dias de viagem nós chegamos há um lugar cercado por arames, como uma prisão, mas o lugar era muito precário para uma prisão comum, estavam cercado de soldados nazistas.
Quando desci do vagão, eu arregalei os olhos, embaixo do vagão havia um buraco e nesse buraco estavam milhares de cadáveres nus, putrefatos e frescos, estavam todos lá, empilhados como lixo, jogado para os urubus comerem e ao meu lado, dois soldados levavam mais um corpo para esse buraco. Era o corpo do Kenny, ele estava horrível. Meu Deus o que fizeram com ele?!
Eu gritei, gritei o mais alto que pude e tive uma crise de choro, comecei a vomitar também. O horror daquela cena era tão grande que eu não conseguia parar de gritar e vomitar. E quando eu não tinha mais nada para vomitar, eu vomitei sangue. Eu só parei quando senti uma pancada na minha cabeça.
-Cala a boca, batráquio imundo! –Gritou a voz de quem havia me batido e eu me virei para ele. Era de longe o soldado mais nojento que eu já vi, ele era gordo e forte, tinha uma voz amedrontadora e um olhar extremamente arrogante–O que está esperando, vá!
-Estão mortos... –Eu disse em choque apontando para o buraco. O soldado olhou e depois olhou para mim também.
-Eu sei que estão mortos, quer se juntar a ele? –Eu arregalei os olhos e chorei mais ainda, neguei com a cabeça. –Então faça o que eu mando, anda!
Ele me bateu novamente com a arma dele e eu fui para o chão, ele segurou no meu braço brutalmente e me levou para dentro da prisão, me deixando ao lado de um homem, era uma fileira de prisioneiros, eu ainda estava em choque e o moço ao lado segurou a minha mão, segurou forte, não como quem queria me machucar, mas como quem queria me proteger, estranho, mas eu tinha a sensação de que já vi aquele homem antes.
-Atenção! –Gritou aquele mesmo soldado que me bateu, eu me assustei e olhei para ele. –Eu sou o Tenente Cartman. –O nome me fez arrepiar. –E eu sou responsáveis por vocês, vermes. –Enquanto ele falava, eu notei que em outros pontos da prisão havia fileiras de crianças, de idosos, de mulheres e de homens, que era onde eu estava.
Outro soldado me puxou ainda mais forte e me levou junto com os outros detentos, para uma sala, eles me algemaram no teto e me deram um banho químico, eu gritei, pois aquilo doía, o jato era tão forte que penetrava na minha pele, era como chicote, mas meu grito foi misturado com os outros homens que estavam ao meu redor. Depois me deram uma roupa listrada, era tudo que eu tinha e o meu diário.
Quase imediatamente, eles me levaram para uma sala de barbeiro e começaram a raspar o meu cabelo. Eu ouvia o som estressante da máquina, raspando no meu couro cabeludo e via meu cabelo ruivo e cacheado cair no meu colo e eu não podia fazer nada, além de chorar. Mas quando eu chorava o Tenente Cartman me dava uma pancada com sua arma, ele não falava nada, mas me olhava, ele estava sempre ali.
Depois eles me levaram para outra sala e novamente me despiram, eles passaram a mão em todo o meu corpo, jogavam pedras em mim, do outro lado do vidro, um homem dava sinal positivo, eu não sabia o que significava, mas quando ele fez isso, eles mal me deixaram vestir de novo e já me puxaram para fora, estava novamente do lado de fora da prisão, um cenário mais escuro e gelado, a neve batia em mim tão forte por causa do vento e eu via dezenas de milhares de pessoas saindo desesperadas.
O soldado abriu as enormes portas de metal, que devia ter uns cinco centímetros de espessura e literalmente me jogou dentro e depois de ver todas as pessoas, eu vi que era o meu dormitório. O moço que segurou a minha mão estava lá, ele olhava diretamente para mim. Ao seu lado estava um garoto que tremia e seu olho direito pulava em um tique nervoso. Eu me aproximei do moço e sentei ao seu lado, seu olhar era frio e desinteressado.
-Você segurou minha mão.
-Você estava em choque, se não se acalmasse o tenente iria matar você.
-Não me conhece.
-Eu não preciso te conhecer. Eu sei o que você passou e o que vai passar, não é preciso conhecer a pessoa para ter piedade dela.
-Meu nome é Kyle.
-Craig. –Quando ouvi o nome, vi um lampejo de lembrança.
-Agora eu sei quem você é, você é o líder da rebelião em Berlim.
-É, tinha mais gente aqui, mas foram todos para a câmara de gás.
Eu olhei ao redor, todos estavam desesperados, alguns rezavam; outros não. Eu prefiro continuar escrevendo.
Continua...
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