Apenas Uma História De Amor
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Durante o caminho, nós passamos pela estrada de concreto, embora seja um caminho mais longo, as chances de nos pegarem são mais remotas, uma vez que nós vimos vários furgões do exército Russo por essas redondezas. Mas por uma razão, eu estava tão tranquilo, uma sensação muito boa que tudo isso ia acabar, mas ainda havia muita água para percorrer para que pudermos dizer com certeza “esse é o fim”.
Era um cenário tenebroso aquela estrada, nós vimos milhares de cidadãos machucados e doentes, fugindo como cachorros a um destino desconhecido. E embora seja algo muito assustador e triste, eu me sentia satisfeito, pois me lembrava daquela noite que eu e os outros prisioneiros fomos levados para o campo de concentração.
Eu coloquei os pés no porta-luvas para que eu consiga escrever melhor, eu não faço ideia de que horas sejam, mas o céu está escurecendo, então eu imagino que chegaremos ao campo pela manhã, só espero que não seja tarde demais.
-Eu não sabia que era tão longe. –Eu quebrei o silêncio daquele furgão, olhando para Kenny que dirigia concentrado sem ao menor desviar o olhar da estrada.
-Isso porque era a estrada de terra. –Ele respondeu, virando em uma curva sinuosa, eu me segurei para não tombar para o lado. –Na estrada de asfalto eu vou ter que dar a volta na cidade, não quero passar por ela e ser bombardeado.
Ele dizia essas coisas com tanta naturalidade. É uma guerra violenta, fico imaginando como há de acabar. Eu estava cansado de tanto silêncio e levei a mão para o rádio velho que havia no furgão, tentando sincronizar em alguma estação, a maioria era chiados, até que consegui sincronizar uma rádio alemã.
Na rádio dizia que outras duas cidades alemãs estão sendo bombardeadas e os soviéticos caminham para o norte.
-Norte? –Perguntou Kenny incrédulo, pela primeira vez, ele desviou o olhar a estrada para olhar para o rádio a minha mão, tentando prestar atenção. –Eles estão indo para Berlim.
-A Alemanha não tem mais chances, não é? –Perguntei tristemente.
Ele não respondeu, porque a moça da rádio começou a falar de novo. Ela disse que o Duce italiano Mussolini foi preso e a Itália finalmente se rendeu aos Estados Unidos. Realmente, aquilo respondia a minha pergunta. A Alemanha está contra a parede, nada mais que o Chanceler faça vai reverter essa situação deplorável.
O que me preocupava era o que iria acontecer aos soldados nazistas, que uma vez capturados pelo exército soviéticos se tornarão prisioneiros de guerra. Isso me deixa tão angustiado, eu encolhi as pernas e abracei o rádio, que era a única coisa que eu tinha para abraçar e comecei a chorar.
~*~
Então eu acordei, eu acho que adormeci, não, eu tenho certeza. Eu olhei através das janelas para ter alguma localização de onde estávamos, mas eu só via floresta, como eu via antes de adormecer, eu olhei para frente e gritei quando avistei um vulto.
Nós batemos nesse vulto, mas o Kenny virou o volante com força, e acabamos batendo em uma árvore, graças ao meu cinto, eu apenas bati a cabeça no porta luvas.
-Você está bem? –Kenny perguntou, passando a mão em meus cabelos, eu estremeci porque ele passou a mão no lugar que eu havia batido e estava doendo muito, mas fora isso eu acho que eu não tenho ferimentos graves.
-Eu acho que sim. –Respondi, enquanto tentava me ajeitar no banco, quando eu senti uma dor terrível no meu tronco, eu tive medo de ter fraturado uma costela, mas meus pensamentos desapareceram quando eu vi a enorme mancha de sangue na minha janela. –Kenny, nós atropelamos alguém! –Gritei desesperado enquanto tirava o meu cinto de segurança com dificuldade e sai do furgão, mesmo que me arrastando.
Eu andei, não sei como, pois sentia uma dor enorme na cintura, acho que a palavra mais apropriada seria me arrastando até a pessoa que estava estendida como uma lagartixa na estrada, eu não conseguia ver o rosto dela, pois estava muito escuro, então eu cheguei mais perto.
Arregalei os olhos quando vi que a pessoa que havíamos atropelado era o Tweek. Temi que ele estivesse morto, então eu fiquei em estado catatônico, quem tomou uma atitude foi o Kenny que foi até o loiro e verificou seus sinais vitais.
-Ele só desmaiou. –Ele confirmou e eu me senti aliviado, respirando fundo, mas antes de expirar eu senti a dor nas minhas costelas novamente. Eu me aproximei dos dois e segurei a cabeça do Tweek delicadamente, colocando-o em meu colo.
A cena era de chorar, o rosto dele estava completamente marcado por hematomas e arranhões grandes, que ficava até difícil reconhece-lo, seus cabelos estavam manchados pelo sangue fresco oriundo de um enorme corte na cabeça, eu fico imaginando por cada coisa que esse garoto passou.
De qualquer forma, tinha kit de primeiros socorros na parte de trás do furgão, talvez nós possamos ao menos segurar as pontas até que achemos alguma forma de ajuda-lo, já que os hospitais com certeza não estariam a nosso favor.
O Kenny deve ter lido as minhas intensões quando eu olhei para ele, pois ele se levantou e pegou Tweek nos braços, foi só ai que eu notei a massa enorme de sangue maciça e escura que pingava na parte de trás da sua camisa, levantei a mão e passei a mão levemente no local, apenas para achar a causa daquela hemorragia, foi ai que eu percebi o buraco da bala que estava ali.
Eu engoli em seco e olhei seriamente para Kenny que já caminhava com Tweek até o furgão, eu me levantei, com mais facilidade que antes, pois já não doía mais como antes e caminhei atrás dos dois, abrindo a porta do furgão, já que o Kenny não podia fazê-lo.
Por longos minutos eu apenas fiquei observando atentamente o Kenny cuidar do loiro, era impressionante o quanto ele levava jeito para dar ponto em algum ferimento ou usar um curativo.
-E o ferimento do tiro, Kenny? –Eu perguntei, olhando para o ferimento em questão.
-Pode haver fragmentos da bala, mas a bala em si já deve ter saído, senão ele já teria morrido. –Kenny respondeu com tanta frieza que eu até me assustei, talvez, por tudo que ele tinha passado ele havia ficado pior do que eu, mas eu não podia evitar em me preocupar com a vida do Tweek. –O pior que pode acontecer é ele morrer pela perda de sangue. –Completou enquanto tirava a camisa listrada de Tweek, eu olhei para aquilo e senti meu coração apertar. Ele estava tão magro e o tiro estava de raspão, então não deve ter acertado nenhum órgão vital, mas o buraco estava perfeitamente redondo, aquilo me deu náuseas.
Ele cuidou de tudo que pode, mas não era o suficiente, Tweek precisa ir para um hospital, eu não queria ver ninguém morrer mais do que já morreram. Eu me encostei à parede do furgão e olhei para o teto, mas eu estava sem foco, o silêncio era insuportável e acho que ficamos lá por mais ou menos uma hora, ou parecia uma hora por causa do silêncio, de qualquer forma, eu não sei dizer.
Tudo que eu ouvi foi um leve gemido e quando eu olhei para baixo, vi que o loiro estava se remexendo, embora sentisse muita dor, ele queria se levantar e sair correndo, eu fui até ele e o segurei com delicadeza, para tentar acalmá-lo.
-Kyle... –Ele disse com uma voz muito fraca ao olhar no meu rosto, eu apenas balancei a cabeça positivamente. –Eu achei que você estava morto! –Ele gritou, mas logo começou uma série de tosses profundas.
-Calma, você tem que... –Ele não me deixou terminar de falar, pois me puxou para um abraço, eu tentei retribuir, mas não o apertei, ele estava tão magro que parecia que iria quebrar ao meio a qualquer hora.
Eu me sentia tão mal que o deixei encostar a cabeça em minhas coxas, eu acariciei seus cabelos loiros, tinha tantas perguntas em mente, mas eu me sentia mal em perguntar, pois ele estava tão frágil. Ele escondeu o rosto em meu colo e logo eu senti minha calça levemente molhada, apenas para saber que ele estava chorando, meu coração ficou ainda mais apertado.
-Eles vão matar a todos, Kyle... –Ele disse finalmente, virando o rosto para me encarar, eu olhei para ele confuso. –Os soldados, estão matando a todos os prisioneiros.
-E como você escapou?
-Eu não sei direito, eles reunirão todo o nosso dormitório e nos levaram para uma sala no subsolo. –Ele parou e tentou se lembrar do resto. –Havia muitos corpos naquela sala e todo mundo já sabia o que iria acontecer, daí eu senti alguém me empurrando para um buraco, parecia um cano, mas era muito grosso, tanto que coube o meu corpo, eu rastejei por ali até chegar à outra ponta que era o lado de fora da prisão e saí correndo. O mais rápido que eu pude.
-E o tiro? –Eu perguntei preocupado.
-Isso? –Ele olhou para o buraco da bala e quando a olhou, começou a tremer como sempre tremia no dormitório e eu o segurei, dizendo palavras para acalmá-lo, por sorte ele não teve outra crise de convulsão e voltou a falar. –Bom, quando eles descobriram que eu e o Craig tínhamos informações sobre Luís Carlos Prestes, eles fizeram isso, nos acertaram de raspão justamente não morrermos, mas sentirmos dor. Mas nós não abrimos a boca.
Eu encostei a testa na dele, não queria falar mais nada, mas sabia que há essa hora, se o Craig também não fugiu, ele estava morto. Isso era um mau sinal, pois se eles estavam matando todos os prisioneiros, significa que os soviéticos estão se aproximando, tudo a partir de agora é uma bomba-relógio. De repente o Kenny surgiu na porta do furgão.
-Não tenho uma boa notícia. –Eu suspirei e olhei para o loiro maior, de qualquer forma, eu estava acostumado com más notícias. –O motor do furgão está detonado, ele não pode mais andar.
Eu fechei os olhos por um tempo, não havia outra alternativa, eu segurei o Tweek e o levantei levemente, Kenny havia entendido o recado e eu coloquei Tweek nas costas dele, então, eu desci, juntando o kit de primeiros socorros, pois iriamos precisar.
-Então vamos a pé. –Eu dei a minha palavra final, andando na frente. Ouvi os passos de Kenny atrás de mim.
Continua...
Notas finais
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