Apenas Um Olhar

10 Uma nova realidade.


Tivemos um final de semana tumultuado, mas por sorte todos resolveram me ajudar. Meu quarto transbordava de caixas, onde eu colocaria minhas coisas, apesar do Carlos insistir que eu poderia muito bem comprar novas coisas depois. Mas eu não queria me desfazer das minhas coisinhas. Elas faziam parte de mim!

Minha irmã parecia muito mais ansiosa com a minha mudança do que eu mesma. Ela adorava viajar na maionese. Eu até brinquei com ela, dizendo que ela não via a hora de se livrar de mim. Ela riu e disse que eu era boba e que estava completamente enganada.

— Eu só estou feliz por você. – disse ela, me abraçando.

Tentei fingir que não via a mamãe chorando escondida pelos cantos da casa, enquanto me ajudava a colocar meus objetos com todo carinho dentro das caixas. Era de doer o coração.

Já o papai e meu irmão trabalhavam em silencio, ajudando a colocar as caixas no caminhão e no carro. Eles eram muito sérios e calados, era muito difícil saber o que eles estavam pensando.

Depois de encaixotar todos meus pertences mais íntimos, deixando para trás apenas minha cama e a minha parte vazia do guarda-roupa, minha família preparou um jantar muito especial, no domingo à noite, de despedida.

Parecia até que eu estava me mudando de galáxia. Quando na verdade não estava nem saindo do Rio de Janeiro. Só estava me mudando para uma das partes mais caras e luxuosas.

À noite, um pouco antes de dormir, eu ficava pensando no quanto era difícil imaginar que a minha vida estava mudando tão racialmente, da água para o vinho.

Na segunda-feira bem cedinho, fui até o colégio onde eu trabalhava para ter uma conversa definitiva com a diretora. Expliquei minha situação para ela. E agradeci por tudo.

Sai de lá, estava até um pouco emocionada.

Sim, eu estava deixando tudo para trás para viver uma nova vida. Inclusive o meu trabalho dos sonhos que eu tinha demorado tanto tempo para conseguir. Ainda não sabia dizer se era uma atitude de coragem ou de burrice. Mas pela primeira vez vida eu resolvi que valia a pena arriscar.

Também não era o fim do mundo. Não existia apenas uma escola no mundo todo ou uma vaga de emprego. Eu poderia tentar outras chances em outro lugar. Isso só dependeria de mim.

Ao meio-dia o Carlos veio me buscar.

Foi muito difícil me despedir da minha família, mas eu prometi que quando as coisas se acertassem, eu voltaria para visita-los sempre que possível ou eles poderiam me visitar também na casa nova, para conhecer melhor a cidade grande.

Mesmo assim foi um chororô completo, principalmente meu, da minha irmã e da minha mãe. Éramos muito sentimentais.

A viagem era de apenas 30 minutos. Até que foi rápido. Era rápido. Eu pensei que fosse mais demorado. Mas nunca tinha ido ao Leblon ou a nenhuma outra cidade desse nível para saber.

Durante todo o trajeto Carlos e eu ficamos conversando sobre assuntos paralelos e sempre que eu perguntava do apartamento, no nosso novo lar, ele soltava um sorrisinho, preferindo manter o mistério que era típico dele.

Carlos estacionou meu novo carro em frente a um prédio alto, em uma rua onde só tinha prédios do mesmo nível, mais ou menos parecidos e a rua era todo arborizada e tranquila.

Assim que descemos do carro e pegamos algumas caixas que eu tinha trazido, um senhorzinho magricela e calvo se aproximou, era muito simpático. Se apresentou como Nelson. Ele era o porteiro e zelador do prédio.

Ele nos ajudou a levar as coisas lá para cima. Subimos de elevador, é claro. Mas acreditem se quiser: eu nunca andei de elevador antes e confesso que morri de medo.

Subíamos sem parar, parecia que nunca chegávamos ao nosso andar. Olhei intrigada para o Carlos, e ele apenas sorriu.

O que eu não sabia é que moraríamos na cobertura do prédio. Um prédio muito alto e que consequentemente tinha uma vista linda das maravilhas do Rio de Janeiro.

Assim que colocou as caixas no chão, Nelson se despediu e saiu. Eu agradeci pela ajuda. Carlos pegou a minha mão e me levou para conhecer cada canto daquele imenso apartamento.

Achei que era muito só para nós dois.

Mas fiquei encantada com absolutamente tudo.

Assim que entravamos dávamos de cara com sala de estar e uma escada que levava ao primeiro andar. A sala é ampla e com o pé direito muito alto. Tudo ali era muito branco. Exceto, é claro, os detalhes. O sofá era branco assim como a maioria da mobília. Mas as almofadas era um misto de azul e amarelo. A poltrona era azul. Uma das paredes com vários quadros, de muitos tamanhos, em tons de azul e amarelo, assim como alguns objetos.

A decoração era linda, nada que se compare ao que estava acostumada. O Carlos realmente tinha cuidado de tudo, com a ajuda de profissionais qualificados e muito competentes. Vi que ele até se preocupou em dar um toque mais familiar ao ambiente. Colocando porta-retratos com nossas fotos e da minha família.

— O caminhão com as suas caixas chegou hoje mais cedo. – ele explicou, como quem lê meus pensamentos. — E eu me atrevi a abrir algumas delas e pegar algumas coisas para dar um toque a mais.

Era perfeito!

A parede na minha frente era toda de vidro. Tive até medo de me aproximar ou tocar nas coisas em volta, com medo de quebra-las. Mas o Carlos pegou a minha mão e me puxou.

Ele empurrou uma porta de vidro e me levou lá para fora, para nossa imensa cobertura. Ali havia até uma pequena vegetação e um ofurô desses que eu só vinha em revistas e na televisão. As pessoas usam o ofurô – uma espécie de piscina reduzida – para relaxaram, pois até onde eu sei a água é bem quentinha.

Do outro havia algumas cadeiras e mesas espalhadas para sentar e admirar a vista e para a proteção de todos uma mureta , só que de vidro, para ninguém cometer nenhuma loucura e resolver pular lá em baixo ou quem sabe cair acidentalmente.

Carlos me puxou novamente lá para dentro e me apresentou a cozinha, toda de inox e já toda equipada com tudo que eu precisaria: copos, talheres, taças, pratos, xícaras.... Até mesmo comida nos armários. E a geladeira transbordando de coisas.

Ele não esqueceu nenhum detalhe.

Ali em baixo, conheci também a dispensa, a lavanderia, a sala de jantar que tinha um lustre maravilhoso e o lavabo. Voltamos a sala e subimos as escadas. Ainda tinha mais! A primeira coisa que ele me apresentou foi a uma nova sala com um sofá mais espaçoso e um carpete fofo. Do outro lado uma verdadeira biblioteca já cheia de livros. Meus olhos brilharam!

Depois vimos o banheiro, os dois quartos de hospedes, um escritório e por fim a nossa suíte que tinha um grande com closet.

Nosso quarto era um dos maiores cômodos. Muito simples, mas muito sofisticado. Com uma cama enorme parecida com essas de castelo. Um janelão com cortinas escuras. Mais fotos nossas. Uma mesa com um computador de marca famosa. Uma porta que dava para o banheiro, que tinha até uma banheira. E outra porta para o closet, o lado esquerdo dele e o direito todo meu.

Sem contar o imenso espelho.

Me joguei de costas na minha nova cama.

— Isso parece um sonho!

— O nosso sonho.

Carlos se jogou ao meu lado e se inclinou sobre mim para me beijar apaixonadamente. De repente estávamos sem roupas, testando pra valer a nossa cama. Enfim tínhamos nosso próprio espaço e privacidade. Nada no mundo poderia nos impedir!

— Estou com fome. – digo, levantando-me e pegando meu vestido no chão. — Vou preparar algo pra gente comer.

Estava ansiosa para estrear a cozinha nova.

— Antes tenho uma coisa para te dizer. – disse ele seriamente, abotoando a camisa. — Meus dois únicos amigos vão vir jantar aqui essa noite para conhecer você e o apartamento.

— Sério? – fiquei empolgada, pois finalmente conheceria alguém que fazia parte da vida do Carlos antes de eu conhece-lo. — Ai meu Deus! O que vamos fazer? O que eu vou fazer? Eu mal sei cozinhar! – comecei a me desesperar pra valer.

— Fica calma, Mel. – Carlos se levantou e veio até mim. Ele pegou as minhas mãos e levou ao peito. — Eu os conheço a bastante tempo para saber que eles não se importam com isso. Se você preferir, podemos pedir alguma coisa.

— De jeito nenhum! O que eles iriam pensar? – Carlos riu de mim. — Afinal, para que existe internet hoje em dia? Vou começar a pesquisar agora mesmo algumas receitinhas fáceis.

Depois de me vestir e arramar o cabelo em um coque desajeitado, corri até a mesa do computador. Mas então me dei conta que eu não sabia nem como ligar aquilo.

— Ei – chamei-o, antes que ele saísse do quarto. — será que você pode me dar uma ajudinha aqui? Eu nunca mexi em um desses antes. – dei risada, com vergonha de mim mesma.

Sorrindo ele se aproximou e pelos próximos minutos me deu uma aulinha básica das principais funções. Eu aprendia as coisas muito rápido e com muita facilidade.

Em meia hora eu estava craque naquilo.

De fato peguei o jeito da coisa.

— Amor, eu preciso dar uma saidinha. Compras umas coisas para o jantar. Você não se importa em ficar sozinha, se importa?

— Não, de jeito nenhum. Vai lá.

Eu estava tão empenhada em procurar uma receita na internet para o jantar, que nem vi a hora passar. E eu ainda não tinha encontrada nada fácil para preparar.

Desesperada, resolvi ligar para minha mãe.

A quem mais eu poderia recorrer?

— Oi, mãe. Desculpa não ter te ligado antes. Nós chegamos bem. E você não vai acreditar! O apartamento é quase uma mansão. Não vejo a hora de vocês virem aqui conhecer.

— Nós também não vemos a hora de isso acontecer.

— Ah, mãe, antes que eu me esqueça. Eu preciso de uma ajuda sua. Hoje a noite uns amigos do Carlos vêm jantar aqui. Mas eu não sei o que preparar. O que você sugeriria? Algo fácil, é claro.

Ela ficou calada alguns segundos, acho que pensando.

— Já sei! Por acaso vocês têm queijo por aí?

— Acho que sim. Os armários e a geladeira estão cheios de coisas. Então, com certeza sim. Nós temos queijo.

— Então, pega uma caneta e um papel para anotar a receita.

Tá... Mas aonde eu iria encontrar uma caneta e um papel?

Desci correndo até a sala, onde as minhas caixas ainda estavam lá, agora em um canto para não atrapalhar a passagem. Revirei a maioria delas a procura das minhas próprias coisas.

Finalmente encontrei o que procurava.

Devagarzinho a mamãe me passou a receita e depois que terminamos de conversar, eu corri para a cozinha para começar a colocar a mão na massa, antes que fosse muito tarde.

Me atrapalhei toda durante todo o processo. Afinal, não sabia onde estava nada. Eu precisava me acostumar com aquilo e com a variedade coisas a minha disposição. Acabei sujando muita louça, o chão e até o meu vestidinho. Tive que limpar tudo correndo.

Mas pelo menos consegui preparar até uma sobremesa. Uma das poucas coisas doces que eu sabia fazer: mousse de chocolate.

Quase oito horas o Carlos chegou com duas garrafas de vinho importado.

— A que horas eles chegam? – perguntei a ele.

— Como eles moram aqui no prédio, não sei, talvez umas nove. Por aí. Realmente não sei, querida. Vou ligar para eles.

— Peça a eles que venham umas nova e meia. Assim dá tempo de preparar tudo. Enquanto a comida está no forno e a sobremesa na geladeira, vou tomar um banho e me arrumar.

Dei um rápido beijo nele e subi as pressas.

Pensei em estrear a banheira. Um luxo que nunca tive. Mas pensei que poderia ficar horas e horas ali. E tempo era algo que eu não tinha no momento. Mas o chuveiro me pareceu igualmente bom. A água quentinha e o sabonete cheirosinho.

Não sei como, mas a maioria das minhas roupas já estavam esperando por mim no closet. Sei que elas chegaram hoje mais cedo, então o Carlos deve ter contrato alguém para arruma-las para mim.

Para aquela noite escolhi um vestidinho azul escuro muito simples e sapatilhas. Afinal, era só um jantar aqui em casa mesmo. Deixei os cabelos molhados soltos para secar e passei um pouquinho de maquiagem, aplicando os truques que minha irmã me ensinou.

Nossa, eu já estava morrendo de saudade dela!

Já estava pronta quando o Carlos entrou no quarto, após dar uma batidinha de leve na porta. Coisa que ele nem precisava. Já que agora o quarto era totalmente e inteiramente nosso.

— Uau! Você está linda. – ele me beijou e depois seguiu para o banheiro para também tomar um banho e se arrumar.

Desci para dar uma olhadinha no forno. Já eram nove horas. E para minha sorte estava tudo pronto.

Peguei os pratos, talheres e taças e arrumei a mesa de jantar do jeitinho que a minha mãe havia me ensinado a fazer na pousada.

Até acendi algumas velas para deixar tudo mais bonito.

Quando a campainha tocou eu dei um pulo de susto. Primeiro pensei de onde teria vindo aquele só barulho. Depois me lembrei que estava em um ambiente totalmente novo.

Uma outra realidade.

Abri a porta de entrada e dei de cara com um casal elegante, que só poderiam ser os tão esperados amigos do meu marido.

Meu marido.

Ainda soava estranho para mim.

O homem era alto, moreno e tinha olhos verdes. Ele tinha um estilo muito parecido com o do Carlos. A mulher era mais baixa, praticamente da minha altura, usava um vestido preto também muito simples, mas que se adequava perfeitamente ao seu corpo exuberante e tinha cabelos cacheados e dourados. Seus olhos também eram verdes e estavam destacados pela maquiagem forte.

— Oi. Eu sou a Melissa. – sorri nervosamente para eles. Fiquei em dúvida se estendia a minha mão ou dava um beijinho do rosto deles. Mas se eles eram amigos dos Carlos, também eram meus amigos. Optei por dar um beijinho. — Entrem.

Para o meu alivio, o Carlos apareceu naquele momento.

— Que bom que vocês chegaram. – ele também cumprimentou os amigos com beijinhos no rosto. — Como vocês já devem saber, essa é a Melissa, minha esposa. Melissa, esses são meus amigos Frederico e Heloísa.

Sorri ainda mais para eles. Não sei porque.... Eles não eram nada como eu tinha imaginado. Por um momento pensei que fossem pessoas difíceis e que eu me sentiria muito deslocada e desconfortável. Mas na verdade, eles pareciam um amor.

— Sentem-se. – convidei-os. — Fiquem à vontade.

Sorrindo, eles sentaram juntos.

— Ela é muito mais bonita pessoalmente que nas fotos. – comentou Frederico, sem tirar os olhos de mim.

Todos riram. Mas eu fiquei muito sem jeito, admito.

Mas fiquei feliz por ele ter tirado a tensão do momento e fiquei intrigada também por imaginar o Carlos mostrando fotos minha pelo celular aos amigos. Que fofo!

— Carlos, você é realmente um homem de sorte. – dessa vez foi a Heloísa que disse, sorrindo para mim de um jeito amigável.

De repente me ocorreu que poderíamos nos tornar grandes amigas daqui para a frente.

Notas finais
O Fred e a Heloísa são novos personagens. O que vocês esperam deles? Comentem!