Apenas Um Olhar

31 Um bom coração.


Se eu achei que o Guto e a Vanessa iriam se comportar desde o meu flagrante aquela noite eu estava muito enganada. Na verdade, a situação só piorou. Os dois estão literalmente juntos. Não sei se é namoro ou se é só pegação. Mas não me importa. Eles não param de se agarrar um minuto. A mamãe está ficando maluca!

Não sei onde eles acham tanto fôlego. Se estão no trabalho estão se beijando, se estão na pausa estão se beijando, se estão de folga estão se beijando. As bocas não se desgrudam mais. E pior: é um passa mão aqui, ali e outra acolá. Não importa quem esteja por perto. Eles são incansáveis! E no fundo, eu sinto até uma certa invejinha. Pois queria eu ter esse fôlego todo para correr todos os dias e me livrar de uma vez das gordurinhas acumuladas.

— Eu não sei mais o que faço com esses dois. – queixa-se mamãe, dia e noite. — Já tentei coloca-los em turnos diferentes, mas mesmo assim eles dão um jeito de se encontrar. Já pensei até em despedi-la, mas simplesmente não posso. Há muito trabalho para se fazer aqui e poucas pessoas dispostas a ocupar o cargo. E quanto ao seu irmão, não é como se eu pudesse manda-lo embora. Já que como mãe sou obrigada a vê-lo em casa todo santo dia.

Apesar de tudo, não tem como não rir.

— Fica calma, mãe. Tenho certeza que isso é só uma fase e que todo esse fogo não vai durar muito. Nunca dura, não é mesmo?

— Se eu fosse você não teria tanta certeza, minha querida. Olha só para sua irmã, com trinta e poucos anos ela não para de fazer filhos. Parece que nunca ouviu falar de métodos contraceptivos. Daqui a pouco ela tem uma creche dentro de casa.

— Posso saber o que vocês estão falando de mim? – Juliana nos surpreende ao entrar na pousada segurando um dos bebês. — Olha, para a informação de vocês, Igor e eu decidimos parar. Nós conversamos muito a respeito e ele decidiu que vai operar!

— Graças a Deus! – exclama minha mãe, puxando uma cadeira para minha irmã se sentar. — Já não era sem tempo.

Como tenho essa tarde livre, resolvi ficar ali por mais um tempo, conversando com a mamãe e a minha irmã. Hoje o dia está tranquilo. O movimento é pouco aqui na pousada, pelo menos a essa hora do dia. Mamãe até dispensou os dois namoradores. E já choveu tudo que tinha que chover na semana passada e agora o céu está nublado. A previsão para os próximos dias é de muito sol.

Vinicius saiu com Alícia e o pequeno Davi essa tarde e como eu não tenho muito o que fazer além de tentar ajudar minha irmã com sua pequena creche, vou até a casa do Rodrigo do outro lado da rua para passar o resto do meu tempo com ele.

Ele está se recuperando depressa e não vai demorar muito para estar cem por cento por bom. Por enquanto ele ainda está afastado do trabalho, mas as vezes vai para a faculdade fazer provas ou entregar trabalhos, já que ele está no último ano e esse tipo de coisa é muito importante para sua formação.

Rodrigo ainda preciso manter o repouso, mas como já se sente bem melhor e o médico garantiu que não corria riscos, nós o transferimos para o andar de baixo. Onde ele pode ficar no sofá assistindo à televisão junto dos amigos.

E como sempre, quando eu chego, ele está sorrindo e parece animado. Exceto, é claro, quando está dormindo. Para o Rodrigo não existe tempo difícil. Ele se queixa assim como a maioria das pessoas das dificuldades e dos problemas. Mas não acontece sempre. Na maior parte do tempo ele está tranquilo e isso acalma as pessoas.

— Vejo que você está sozinho hoje. – me aproximo e me inclino para lhe dar um rápido beijinho nos lábios.

Depois sento-me com ele.

— Não completamente sozinho. – diz ele, passando os braços pelo meu ombro e me puxando para mais perto. — Tiago está lá em cima, no quarto dele. Não sai de lá desde que soube do caso entre a Vanessa e o seu irmão.

— Coitado! Você acha que eu deveria ir lá e falar com ele? Afinal, a culpa foi toda minha. Eu não deveria ter levado ele comigo para averiguar as minhas suspeitas. Ele não precisava ver aquilo!

— Nada disso é culpa sua, Mel. Ele acabaria vendo alguma coisa uma hora ou outra. No fundo, ele só deve se sentir muito culpado. Porque ele sabe que isso só aconteceu porque ele nunca foi corajoso o suficiente para deixar claro seus sentimentos por ela.

— É, mas, como você mesmo já disse, talvez ela não sinta o mesmo e nem nunca sentiu. Por isso está com o meu irmão.

— É difícil saber de quem a Vanessa gosta. Parece que a cada semana ela gosta de um cara diferente. Eu não entendo!

— Só espero que ela não acabe magoando o meu irmão também.

Rodrigo riu.

— Seu irmão não faz o tipo frágil, Mel.

— É, eu sei. Mas quando se envolve sentimentos verdadeiros todo mundo se torna frágil de alguma forma.

— Mas será mesmo que ele sente alguma coisa por ela? Eu não acho que sinta. Eles só estão curtindo! Não importa. Mais uma vez estamos perdendo tempo falando deles. Porque não falamos de nós?

— O que tem nós? – pergunto com um sorriso brincalhão.

— Não sei.... Você ainda se sente apaixonada por mim?

— Que tipo de pergunta é essa, Rodrigo? – caio na risada. E ele me acompanha. — É claro que eu me sinto apaixonada por você! A cada dia mais. Não tem como evitar. Você é incrível!

— Não, você é incrível. – ele beija a minha testa e depois volta a me olhar, só que agora de um jeito sério. — Bom, talvez eu só tenha perguntando porque me sinto um pouquinho carente.

— Isso não é verdade! – e mais uma vez estou rindo. — Você carente? Não me parece possível.

— Ei, assim você me ofende. – ele volta a sorrir. — Tô brincando! Você tem razão. Eu não estou carente. Ao seu lado eu nunca estou. Eu só queria te fazer sorrir. Às vezes acho que o mundo te sobrecarrega muito e você não merece passar por isso, Mel.

Eu quase fico emocionada com essas palavras.

— Eu já disse o quanto você é especial para mim? – não dou tempo para ele responder e praticamente me jogo sobre ele, evitando a perna, e beijo-o apaixonadamente.

Quase que me derretendo de amores.

— Você já tentou falar com o Gustavo hoje? – ele pergunta gentilmente quando me afasto.

— Não.... Estou sem credito. E não quis usar o telefone de casa, pois a conta telefônica veio muito alta mês passado.

— Então usa o meu celular, que tal? Está ali em cima, ó.

É importante para mim que ele se preocupe com isso também, faz eu me sentir com mais esperanças.

Pego seu celular sobre a mesinha de centro e vou lá para fora, já discando o número que eu sei de cor.

Tento entrar em contato diversas vezes, mas ainda não obtenho nenhuma resposta.

— E aí? – ele pergunta assim que volto a me sentar ao seu lado.

— Nada ainda. – digo, tentando não parecer tão chateada.

— E o que a advogada disse?

— Ela ainda está tentando resolver do jeito dela. Mas não sei mais se quero esperar. Acho que vou lá amanhã.

— Sim, vai. Faz o que seu coração manda. Você sabe que se eu pudesse iria com você. Mas...

— Eu entendo. Mas acho que isso é algo que eu preciso resolver sozinha. Nem vou falar nada para os meus pais.

— Eu prometo guardar segredo. – ele brinca.

— Vamos assistir alguma coisa? Não quero ficar pensando nessas coisas agora.

Quando terminamos de ver o filme, já é noite e eu vou para casa, pois o Vinicius já deve ter chegado do passeio. Dou um banho nele e o ajudo se vestir, enquanto ele me conta como foi. Depois descemos para jantar com a família e adivinhe só quem está a mesa também? Vanessa ao lado do meu irmão.

O jantar segue normalmente, mas sinto que de alguma forma o clima está tenso por causa da presença ilustre da Vanessa. Mamãe fala muito pouco, papai quase nada, Augusto não para de falar, Vanessa o acompanha e o Vinicius entra no embala.

— Você é a minha nova tia? – pergunta meu filho, inocentemente.

— Eu posso ser se você quiser. – ela responde e é a primeira vez que ela é legal com um dos meus filhos.

Talvez ela não seja de todo mal assim.

Não consigo dormir aquela noite, ainda pensando muito se devo ou não aparecer no apartamento do Carlos de surpresa para ver o meu filho. A advogada pediu para esperar um pouco mais. Meus pais jamais concordariam com a ideia. Meu irmão ficaria furioso. Mas o Rodrigo me apoiou, Alícia e Juliana também me apoiariam se soubesse e já faz mais de um mês que não sei nada sobre o meu filho. Não me parece justo.

Por fim acabo me decidido: eu vou. Eu sou adulta e sou forte mesmo depois de tudo pelo que já passei. Eu preciso ser corajosa e decidida. Não só por mim, mas pelo meu filho também. Preciso fazer isso principalmente por ele. Eu quero muito vê-lo!

No sábado de manhã tento agir naturalmente. Tomo meu café-da-manhã, converso com a minha família e passo um tempo com o meu filho. No começo da tarde tomo um banho e começo a me arrumar. Opto por um vestidinho leve com cores azul e verde. E para os pés sapatilhas confortáveis. Pego minha bolsa e meu celular.

Estou pronta.

— Mãe, pai, vocês podem ficar com o Vini por algumas horas? Eu estou indo resolver umas coisas e não sei a que horas vou voltar.

Eles me olham como se esperassem que eu dissesse que tipo de coisas eu estava indo resolver, mas decidi não entrar muito em detalhes, eu era péssima mentirosa.

Antes de pegar um táxi preciso ir ver o Rodrigo. Preciso sentir que ele está do meu lado, mesmo que eu vá sozinha.

— Boa sorte, meu amor. E qualquer coisa me liga que eu vou correndo te socorrer.

Eu deveria estar apavorada, mas só de imaginar ele correndo com a perna engessada só para me salvar me faz sorrir.

Em pouco tempo em chego ao lugar onde eu esperava nunca mais ter que voltar a ver. A cobertura do Leblon. Do mesmo jeitinho que ela costumava ser quando eu morava aqui. Pelo menos por fora.

O porteiro me reconheceu de cara, mas não fez perguntas para o meu alivio, apenas me deixou subir. Já dentro do elevador eu senti minhas pernas tremerem e minhas mãos suarem frio. Eu estava nervosa e apavorada. Mas ia conseguir. Tinha que conseguir.

Mesmo não sendo o que esperar.

As portas do elevador se abriram e eu caminhei vagarosamente até a única porta naquele pequeno corredor. Era ali que eu costumava morar e achar que era feliz de verdade. Era ali onde eu costumava chamar de lar.

Toquei a campainha e nada.

De repente começou a me ocorrer a ideia maluca de que o Carlos tinha fugido com o meu filho para outro país. Mas não. Ele não seria maluco o bastante. Ou será que seria?

Simplesmente cansei de esperar e abri a porta com cuidado. E ali estava o meu filho, largado no sofá, comendo salgadinhos e com os olhinhos azuis grudados na grande televisão.

Olhei em volta e vi que muita coisa da decoração tinha mudado, acho que a pedido da Heloísa, a noiva rainha do espaço.

— Filho? Porque você não abriu a porta pra mamãe?

Me aproximei muito rápido, pegando-o de surpresa. E o abracei muito forte, como se não o visse há séculos.

— Eu não sabia que era você. E o papai disse que não posso abrir a porta para estranhos. Mas, o que você tá fazendo aqui, mamãe?

— Eu vim te ver!

Dessa vez ele que me abraçou.

— Eu estava com saudades, mãe.

Sentei-me ao seu lado no grande sofá e mais uma vez olhei em volta. Fora o som da tevê não havia nenhum outro som. Tudo muito calmo e silencioso. O mais estranho era a bagunça e a sujeira espalhadas por todas as partes. Como se ninguém limpasse esse apartamento há anos. Se não fosse tanto luxo, eu diria que era um lugar abandonado.

Será que haviam demitido a Célia, a doméstica?

— Cadê o seu pai, filho?

— Trabalhando.

Novidade.

— E a Heloísa?

— No quarto. Ela não sai mais de lá.

— Mas o que houve?

— Não sei, mãe. O papai disse que era complicado e que eu não deveria incomoda-la nunca, que ela logo ficaria boa. Mas não tenho tanta certeza.

Essa história estava muito, muito estranha.

Mas tive que resistir ao impulso de ir lá em cima ver o que tinha acontecido com ela. Afinal, eu não estava ali por ela, nem pelo Carlos. Estava ali pelo meu filho.

— Porque você nunca me ligou ou atendeu minhas ligações?

— Não foi porque eu quis, mãe. – ele me olhou por uma rápido momento. — O papai disse que você precisava se acostumar a viver sem mim e que você precisava de tempo para isso. Por isso ele me proibiu de atender ou telefonar suas ligações.

Onde estava o Carlos agora? Eu poderia mata-lo!

— O que você está assistindo? – pergunto, tentando ao máximo chamar a sua atenção.

Mas ele está tão diferente. Até parece um robô.

— Jovens Titãs em Ação.

— E você gosta?

— É o meu preferido!

Muito devagar tento tirar o pacote de salgadinhos de perto dele e ele nem vê.

— Você já almoçou hoje?

— Já. Comi salgadinho e refrigerante. – diz ele, sem tirar os olhos na televisão.

— Nada de comida?

— Não. Às vezes o papai traz comida para o jantar. A tia Helô não faz mais comida para a gente há semanas.

Estranho...

— Quer que eu prepare algo pra você?

— Não, obrigado. Já estou cheio, mãe.

— Seu irmão sente sua falta, sabia?

— É? Às vezes eu também sinto a dele. Mas estou bem melhor aqui. É o que o papai sempre diz. Porque aqui eu tenho um monte de brinquedos só para mim, um quarto que eu não preciso dividir com ninguém e posso comer o que quiser e a hora que quiser.

Que absurdo!

— E você sai para brincar lá fora? Tem amiguinhos por aqui?

— Não preciso de amigos, mãe. E na maioria dos finais de semana o papai me leva para sair e nós nos divertimos muito. Ele é o meu melhor amigo! A tia Helô nunca vai com a gente. Mas hoje ele precisou ir trabalhar e não tem hora pra voltar.

Pelo jeito é muito pior do que eu imaginei.

— Seus avós e seus tios também sentem sua falta. O Rodrigo até mandou um beijo.

— Eu não gosto dele! Nem o papai. Mas manda um beijo pra vovó, vovô e para tia Ju e o tio Guto e o tio Igor.

Eu já estava ficando cansada. Brava e decepcionada. Tive que resistir ao impulso de desligar aquela tevê e leva-lo para longe dali o mais rápido possível. Ninguém perceberia! Mas nada disso iria adiantar pelo visto. O Carlos já tinha enchido a cabeça do meu filho de porcarias. Só uma lavagem cerebral resolveria.

— Eu vou lá em cima. – avisei, ele nem ligou.

Subi sem fazer barulho. Lá cima estava muito mais assustador. Escuro e silencioso. Tive até medo de entrar. Mas eu precisava de algum tipo de explicação. E precisava também dizer umas poucas e boas para a Heloísa.

A porta do quarto principal estava entreaberta. Lá dentro estava um pouco escuro, mas ainda assim a claridade do dia atravessava as cortinas claras. Além de muita bagunça espalhada pelo chão, notei um grande amontoado sobre a cama.

Só podia ser ela.

E o que estava acontecendo?

— Heloísa? – chamei e repente o amontoado se mexeu rapidamente, me dando um baita susto.

Ela se sentou, assustada. Eu quase não conseguia ver nada, mas podia ver que ela estava péssima. Eu nunca a vi assim. Ela costumava ser a beleza em pessoa. Sempre linda, maquiada e bem arrumada. Agora ela estava despenteada, com roupas largas e velhas e com o rosto coberto de sombras.

— Melissa? O que você está fazendo aqui?

Resolvi entrar de vez.

O cheiro era de quarto abafado.

— Oi. Eu vim ver o Gustavo...

— Ah, sim. Eu já esperava por isso.

Ela passou a mão pelo rosto.

— O que aconteceu aqui, Heloísa?

Ela suspirou, virando o rosto.

— É complicado, Melissa.

— Eu já sou adulta, sabia? Não sou como o meu filho. Vocês não têm que esconder nada de mim. Apesar de muita coisa não ser da minha conta. Mas eu me importo com o meu filho! E me preocupa o que esteja acontecendo aqui. Porque de um jeito ou de outro ele está envolvido nisso tudo.

Ela puxou o lençol para cima do corpo e de uma hora para outra começou a chorar compulsivamente.

Ela podia ter feito o que fez, mas não tinha como não sentir dó dela. Eu tenho um bom coração. Não consigo ignorar certas coisas.

— Por favor, me conta o que está acontecendo.

Sentei-me ao seu lado com certa apreensão.

— Ele se foi, Mel. – disse ela entre lágrimas. Eu quase não podia entender o que ela dizia. — O meu bebê se foi. Eu o perdi para sempre. E isso dói. Dói tanto que não sei se vou conseguir suportar por mais tempo.

Notas finais
E aí, meninas? O que você acharam do capítulo?