Apenas Um Olhar
12 Pensando no futuro.
Notas iniciais
Rapidamente encontrei algo de útil para fazer da minha vida: agradar o meu marido. Mostrar a ele que eu poderia ser a melhor esposa de todas. Faria qualquer coisa que estivesse ao meu alcance para tomar nosso casamento cada vez melhor.
Acordei um pouco mais cedo que o dia anterior e preparei algo melhor para o Carlos comer antes de sair. Bolinhos, café e frutas. Assim que desceu, já de terno e cabelo penteado, ele ficou admirado com a mesa que eu tinha preparado para nós.
Até flores eu tinha colocado.
— Não fique tão surpreso, porque daqui para frente todas as manhãs serão assim.
— Eu realmente me casei com a mulher certa. – ele me beijou carinhosamente.
Depois que ele se foi e eu fiquei sozinha no apartamento, liguei o som em uma rádio aleatória, dessas que tocam músicas populares internacionais, e comecei a arrumar o apartamento de baixo pra cima. Queria que tudo ficassem impecável.
Como o apartamento era muito grande, isso demorou pelo menos umas três horas de faxina. Fiquei exausta, mas fui logo tomar um banho geladinho para me refrescar.
Coloquei um vestidinho básico de verão e rasteirinhas. Peguei minha bolsa e saí de casa pela primeira vez. Fiquei com mais medo ainda de andar de elevador sozinha, mas assim que os vizinhos entraram no elevador também eu fiquei mais calma.
Cumprimentei todos eles simpaticamente. O que pareceu um gesto estranho. Porque demorou um tempo para eles se darem conta que eu estava falando com eles. Acho que simpatia não era algo muito comum por ali. Mas agora seria.
Com ajuda do Nelson, o porteiro/zelador do prédio, eu encontrei meu carro na garagem do prédio, na parte subterrânea. Sabia que iria a uma livraria, mas ainda não sabia como iria chegar até ela. Afinal, eu não conhecia nada do Leblon, mas estava muito perto de descobrir tudo com a ajudinha do GPS e a internet.
Antes de ligar o carro pesquisei por livrarias na região, depois digitei o endereço no GPS e lá fui eu. Logo, logo seria uma boa motorista, porque se dependesse de mim eu praticaria quantas vezes fosse preciso. Agora eu tinha tempo de sobra.
Nunca entrei em uma livraria tão grande e tão cheia. Era muito maior que a biblioteca em que eu trabalhava. Um rapaz de mais ou menos 18 anos se aproximou para me ajudar, deve ter percebido que eu estava muito perdida. Digo que sou nova por ali.
— Então seja muito bem-vinda. – disse ele, sorrindo.
Com a ajuda do rapaz eu rapidamente encontrei a sessão de livros de receitas. Eu sei que hoje em dia nós temos a internet e ela nos oferece absolutamente tudo. Mas nada melhor que um livro físico para carregar pra cima e pra baixo para onde quiser.
Sem contar o cheirinho de livro novo que é maravilhoso.
Comprei três livros de receitas com o pouco dinheiro que eu tinha na carteira. Depois procurei um bom lugar para comer. Vi que aquela rua tinha bastante comércios, principalmente lojas de roupas de grife e restaurantes caros. Mas eu só queria um lugar simples para relaxar.
Encontrei uma lanchonete na esquina, onde a mocinha de sorriso aberto foi muito educada comigo. Pedi um refrigerante e um misto-quente. Estava tudo muito saboroso.
Voltei para casa disposta a começar a estudar receitas fáceis para começar a cozinha melhor. Quem sabe até no mesmo nível que a mamãe. O que me fez pensar que eu deveria ligar para ela.
Conversamos por muito tempo e ela me incentivou bastante a começar a cozinha mais, para que no dia que ela viesse nos visitar pudesse comer a minha própria comida.
Pensar nisso me deu ainda mais motivação.
Li os livros de receitas a tarde toda, até fiz algumas pesquisas a mais de dicas na internet. No comecinho da noite coloquei meu avental e fui me arriscar na cozinha. Mas antes mandei uma mensagem para o Carlos, pedindo que ele, se possível, viesse jantar em casa hoje, pois teria uma grande surpresa.
Foi difícil, mas eu consegui. Montei uma mesa linda de jantar, com velas e flores que antes enfeitavam a sala de estar.
Peguei um caderninho e anotei que na próxima vez que saísse deveria comprar alguns arranjos simples de flores para essas ocasiões especiais.
Assim que saiu do trabalho, Carlos me mandou uma mensagem. Eu estava doida para conhecer o escritório dele! Subi correndo para o quarto e me arrumei. Troquei de vestido, colocando um mais escuro e um sapatos com um saltinho médio.
Prendi o cabelo em um coque despojado e passei o pente da minha franjinha para ela ficar bem certinha. Para realçar o olhar, passei várias camadas de rímel nos cílios e um batom vinho nos lábios pequenos.
Eu estava descendo quando o Carlos chegou. Deixou a pasta de lado e ficou olhando para mim, sem piscar. Abaixei a cabeça e abri um sorriso tímido, continue descendo até ficar de frente para ele. Inclinei o rosto para cima e deixei ele me beijar, com a mão na base das minhas costas nuas.
Durante todo o jantar, Carlos me contou como foi seu dia e fez questão de perguntar como foi o meu também. Não deixei nada de lado. Depois ele até me ajudou com a louça e por fim me conduziu até o sofá, onde eu tirei seu paletó e massageei seus ombros.
Ele ficou muito relaxado e agradecido. Pegou minhas mãos antes mesmo de eu terminar e a levou a sua camisa, onde com um olhar ele pediu para eu desabotoar.
Quando me dei conta já estávamos ambos nus.
Foi uma noite muito boa.
Mais tarde, dormi com muita facilidade sentindo as mãos deles nos meus cabelos.
Os dias seguintes foram todos assim. Eu acordava cedo, preparado o café da manhã. Depois, quando estava sozinha, eu inventava alguma coisa para fazer: ler, ficar de bobeira na internet, fazer pesquisar, fazer faxina, lavar roupa, passar roupa, dirigir por aí para conhecer melhor o bairro, ver televisão, escutar música ou ligar para minha família e matar a saudade que eu sentia de todos eles.
Sempre que podia o Carlos vinha jantar em casa. Mas quando não podia ele ligava antes para avisar. Se ele vinha eu preparava algo especial para testar novas receitas e habilidades e também me arrumava para ficar bonita para ele. E se ele não vinha, eu continuava fazendo o que eu já estava fazendo antes. Ou simplesmente nada, apenas esperando ele chegar.
Em pouco tempo eu já estava familiarizada com a grandeza do apartamento e tudo que tinha a minha disposição. Acho até que estava dirigindo bem melhor agora, apesar do trânsito do Rio ser uma loucura. Carlos ficou surpreso comigo. Eu estava me virando muito bem. Tinha até conhecido alguns dos meus vizinhos.
Dias desses fui convidada para tomar um chá da tarde com uma senhora que me parecia muito solitária. Eu, claro, aceitei o convite. Levei até uns biscoitinhos que eu mesma fiz para ela. Conversamos muito. Ela me falou sobre os filhos e netos que não via a bastante tempo e fez questão de emprestar seus livros mais antigos de romances clássicos. Acho que nos tornamos muito amigas.
Carlos ficou satisfeito com todos esses meus avançados.
Hoje à tarde ele vinha me buscar para eu conhecer seu escritório, o qual ele dividia com o sócio e amigo, o Fred.
O Fred já era quase um irmão pra mim.
O escritório ficava no alto de um prédio comercial todo espelhado. Era um escritório grande, com uma recepção, lavabo e duas salas no fundo. A decoração era simples, mas muito sofisticada. Gostei especialmente dos quadros nas paredes, de artistas desconhecidos.
Depois Carlos me levou para comer algo. O Fred veio conosco. Aproveitei e perguntei a ele sobre a Heloísa. Ele me disse que ela tinha ido passar um tempo na casa dos pais que há muito tempo ela não via. Por isso eu nunca mais a vi, o que era uma pena.
Ao anoitecer o Fred foi para casa, mas eu e o Carlos continuamos nosso passeio. Estava uma noite linda, estrelada e fresca. Ele sugeriu que fossemos tomar água do cocô na orla da praia, dar uma caminhada e ver o mar.
No outro dia a tarde, quando eu estava quase cochilando, me assustei com o barulho do interfone. Era o Nelson, dizendo que tinha chegado uma encomenda para mim. Nem acreditei.
Adivinhem só o que era? Um cartão de crédito que o Carlos havia mandando fazer para mim. No começo não achei justo, nem concordei com a ideia. Não queria abusar. Mas ele insistiu e disse que eu poderia usar só em caso de emergências, se quisesse.
À noite, aproveitando que o Carlos não ia vir para o jantar, resolvi lavar o banheiro quando a minha irmã me ligou para contar as novidades. Achei que eu poderia muito bem fazer as duas coisas ao mesmo se colocasse no viva-voz.
E deu certo.
Até que sem querer, no meio da nossa conversa, o celular escorregou da pia e caiu dentro do vaso. Eu fiquei paralisada! E agora? Peguei a luva, coloquei na mão e meti a mão dentro do vaso – que por sorte estava mais limpo do que nunca – para pegar o aparelho antes que fosse tarde.
Acontece que já era tarde demais.
Ele não deu nenhum sinal de vida.
Quando o Carlos chegou eu corri até em ele praticamente em pratos. Precisei de um tempo para conseguir contar a ele sobre a tragédia que tinha acontecido. Ele só sabia rir.
Eu fiquei muito brava.
— Porque você não usa o seu cartão e vai amanhã comprar um celular novinho muito melhor?
De jeito nenhum! Eu não ia usar o cartão para isso, mesmo que agora não houvesse como eu falar com a minha família.
— Ta bom, então. Eu levo o celular amanhã para ver se eles conseguem arrumar.
Mas não foi bem isso que ele fez.
Sim, ele levou meu pobre celular pifado para a assistência. Mas só para eles tentarem recuperar meus dados. Por um milagre divino eles conseguiram. Porém, o Carlos me presentou com outro celular. Um grandão, todo dourado, desses mais caros.
Pensei em não aceitar, mas ele fez uma carinha toda fofa, dizendo que ficaria muito ofendido com essa minha atitude.
Ele sempre conseguia me ganhar com essa carinha.
Depois que passei o resto da noite fuçando meu novo celular, aprendendo a mexer nele, liguei para minha irmã e expliquei toda a situação para ela.
No sábado à tarde minha família apareceu de surpresa, dizendo ser ideia do Carlos. Eu não esperava, nem tinha preparado nada. Mas fiquei radiante, pulando de alegria.
Primeira coisa que eu fiz foi mostrar o apartamento para eles. Preciso nem dizer que eles ficaram de queixo caído. Depois preparei um lanchinho para eles, mamãe bem que tentou ajudar. Mas eu disse que hoje ela era a visita e deveria apenas aproveitar.
Meus pais, minha irmã e eu tínhamos muito o que conversar. Principalmente nós mulheres. Juliana já estava com quase três meses de gestação. Pronta para saber o sexo do bebê.
Papai e o Carlos ficaram lá fora, aproveitando a vista, tomando café e conversando sobre coisas de homens.
Já o meu irmão que a princípio não parecia nada feliz por estar ali, ficou o tempo todo jogando videogame ou assistindo desenho animado na televisão grande da outra sala de estar.
A noite saímos todos para jantar fora para eles poderem conhecer melhor a cidade. Carlos nos levou a uma restaurante perto da praia, onde a especialidade era frutos do mar e peixes.
Não paramos de conversar nenhum por um minuto.
Mamãe e Juliana estavam encantadas com tudo.
Quando voltamos para casa fiz questão de acomoda-los muito bem. Papai e mamãe ficariam em um quarto de hospede e meu irmão e minha irmã juntos no outro. Peguei lençóis novos, toalha e entreguei tudo a eles.
Ficamos assistindo um pouco de televisão. Meus pais foram os primeiros a irem dormindo, arrastando o Guto junto. Carlos se despediu depois e por fim só restou eu e minha irmã. Ficamos tagarelando até de madrugada, até fiz pipoca para gente.
No outro dia, acordei antes de todo mundo e preparei o café da manhã lá fora. O dia estava muito claro. Meus pais foram os primeiros a aparecer, depois o Carlos, Juliana e por fim o Guto.
— Nossa, aquela cama é incrível! – comentou a minha irmã, sentando-se a mesa. — Dá vontade de dormir o dia todo.
— Já eu mal consegui dormi. – meu irmão reclamou, de cara amarrada. Ele é muito birrento. — Juliana não para de se mexer e roncar. Nossa, credo. Como você aguentava, Mel?
Todos riram.
Aceitei a ajuda da mamãe para a preparação do almoço, afinal eu não era acostumada a cozinhar para tanta gente assim.
Depois da refeição saímos para tomar sorvete e no finalzinho da tarde tive que me despedir da minha família. Eles, infelizmente, precisavam voltar para casa. Isso aconteceria, uma hora ou outra.
Na terça-feira, eu estava jogada no sofá, terminando de assistir um filme muito dramático, desses que fazem você chorar do início ao fim. O dia lá fora estava completamente nublado e pelo jeito não ia demorar muito para chover.
Os créditos do fim do filme começaram a subir da tela da televisão, quando ouvi o toque da campainha.
Mesmo descalça eu fui ver quem era. Raramente recebia algum tipo de visita. Imaginei que fosse um dos vizinhos precisando de alguma coisa ou o Nelson para dar um recado.
Era a Heloísa e ela tinha nos braços uma linda garotinha, com um vestidinho muito fofo todo cor-de-rosa.
— Helô, pensei que nunca mais fosse te ver! – abracei-a com carinho e pedi pra ela entrar. — E quem é essa menininha fofa?
— Estava na casa dos meus pais. – ela sorria. Sentamos no sofá. Desliguei a televisão. — Ah, essa é a Milena. Minha filha.
— Sua filha? – não estava acreditando. — Eu não sabia que você e o Fred tinham um filho. Meu Deus, ela é linda!
Milena tinha os cabelinhos ondulados castanho-claro e olhinhos verdes.
— Quanto meses ela tem? – peguei-a no colo, me deliciando com seu sorrisinho cativante e o cheirinho de talco de bebê.
— Ela já tem um ano e meio.
Heloísa veio em uma boa hora.
Ficamos conversando sem parar. Contei da visita da minha família no último final de semana, que infelizmente ela perdeu a oportunidade de conhece-lo. E ela me falou sobre os dias em que ficou na casa dos pais, matando a saudade.
— Eles moram no Recife. – contou ela.
Quando começou a chover, fiz um chocolate quente para nós duas e ofereci uma fatia do bolo de fubá que eu tinha feito ontem.
Heloísa continuou no sofá me falando mais sobre ela e eu me sentei sobre o carpete para brincar com a Milena.
Ela era tão adorável! Não parecia dar um pingo de trabalho.
Passar algumas horas com ela foi o bastante para eu pensar na ideia de algum dia ser mãe também.
Era a única coisa que ainda faltava na minha vida.
Será que algum dia eu seria uma boa mãe?
Quando Carlos e eu teríamos um bebê?
Será que ele já pensava naquilo tanto quanto eu?
De repente eu não via a hora de aumentar essa família, apesar dos meus medos e receios. Um bebê me faria companhia e preencheria meus dias de alegria e cuidados.
Pensar nessas coisas me deu coragem para tocar no assunto mais tarde, quando o Carlos chegou do trabalho.
Eu queria muito saber qual seria a opinião dele.
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