Apenas Um Olhar
27 Papai?
— Você parece tenso, quer uma xícara de café?
Ele apenas assentiu, estranhamente calado.
— Eu soube o que aconteceu com você, Mel. – ele pegou a xícara que lhe estendi e pela primeira vez olhou em meus olhos. Seus olhos verdes estavam vermelhos, pesados, profundos. — Eu lamento muito por você. Lamento por nós dois, por termos nos enganado por aqueles dois vigaristas.
— Mas e você, como você está?
— Péssimo! Como você pode ver. – ele bebericou seu café. — Vendi minha parte da sociedade para aquele monstro, me divorciei da minha mulher a quem eu tanto amava e estou na luta com a justiça para conseguir a guarda da minha filhinha, Milena.
Fred estava quase pior do que eu a meses atrás.
Fazia muito tempo que a gente não se via. Eu gostava muito dele, mas não imaginei que voltaríamos a nos ver algum dia.
— Você sabe que o bebê que ela está esperando não é meu, não sabe? É dele! Os dois estão juntos. – ele fez uma careta, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas. — Morando juntos e acho até que pretendem se casar em breve.
— Você não pode estar falando sério!
— Sim, estou! Eu não podia suportar vê-los, aqueles dois traidores. Então eu me mudei. Mesmo assim, não está sendo fácil. Estou bebendo muito e me sinto deprimido, mesmo quando tento superar ou deixar essa história para lá. Mas pelo visto você está muito bem. Olha só para você. Você está ótima!
Eu me sentia ótima.
— Eu queria muito que você também estivesse bem. Eu superei. Foi duro e levou um tempo, mas eu superei. Estou feliz. Estou recuperada. E você deveria fazer o mesmo, não só por você, mas por sua filha também. Ela precisa de você. E sei que você conseguirá a guarda dela. Você é um homem bom, Fred.
Ele desatou a chorar.
Levantei-me e fui abraça-la, comovida.
— Não permitia que eles afetem tanto a sua vida. Eu sei que não é nada fácil, mas não é impossível. Eu sei que você é capaz.
— O que me deixa indignado é eles terem conseguido me enganar por tanto tempo. Eu fui cego! Aquilo estava rolando bem de baixo dos meus olhos. Dentro da minha casa! Como ela pôde me deixar por ele mesmo sabendo tudo que ele fez com você? Ela não tem medo que ele faça a mesma coisa com ela?
— Não sei, Fred. Realmente não sei. Talvez ela pense que com ela seja diferente. Mas eu sei que ele nunca vai mudar. O Carlos é um monstro! A pior pessoa que já conheci.
Ficamos mais alguns minutos conversando. Eu tentei aconselha-lo de várias maneiras. Acho que ele me escutou e entendeu. Porque quando foi embora estava até sorrindo. E eu fiz promete-lo que apareceria mais vezes ou me ligasse se estivesse com problemas, porque eu estava do seu lado.
Tentei aproveitar o restinho do final de semana ao lado do Rodrigo. Naquela noite nós levamos os gêmeos para comer pizza. E se tem uma coisa que esses meninos gostam é pizza.
A semana foi dura. Nós quase não nos vimos. Ele estava muito ocupado no trabalho e com a semana de provas na faculdade. Então, dei um tempo a ele e tentei me concentrar no meu trabalho e na minha família. Mas sempre que podíamos, nem que fosse dois minutinhos, nós ficamos lá fora, as escondidas, nos beijando sem parar.
Como o esperado, Carlos apareceu no sábado de manhã para levar os meninos. Eu já estava lá fora quando ele chegou, na calçada, conversando com o Rodrigo. Carlos pareceu não ter gostado do que viu, mas eu não me importava. Não devia nada a ele.
Deixei o Rodrigo lá fora e corri para casa para chamar os gêmeos que estavam assistindo tevê com o meu pai. Peguei as mochilas deles e fomos até o Carlos. Mas ele não estava sozinho no carro. Heloísa estava no banco ao lado e quando eu olhei para ela, ela virou a cara. Não sei se de vergonha ou por falta dela.
Traidora.
Carlos desceu do carro para abrir a porta de trás para os gêmeos entrarem e se acomodarem. Vendo assim ele até parecia um bom homem e eu esperava que fosse, pelo menos com os próprios filhos. Ou eu seria capaz de uma loucura.
— Pelo visto você já está abrindo as pernas para outro. – ele comentou, debochado.
Para ser sincera, eu não senti nada. Nem me senti ofendida. Quem era ele para falar alguma coisa? Não iria começar a discutir com ele ali, com os nossos filhos por perto.
Mas o Rodrigo que estava um pouco mais atrás não gostou nada do que ouviu e deu alguns passos à frente, ficando cara a cara com o Carlos. Os dois ficaram se encarando por um momento, até que o Carlos deu uma risadinha maldosa e desafiadora.
— Nunca mais fale com ela assim!
— Ou você vai o quê?
Carlos estava passando dos limites.
Rodrigo foi mais rápido do que eu esperava. Não lhe deu outra resposta amedrontadora. Ele simplesmente deu um murro no nariz do Carlos. O murro que eu adoraria ter dado.
— Seu filho de uma...
Heloísa saiu do carro no mesmo instante, apavorada.
Eu, apesar de estar me divertindo, tentei conter o Rodrigo. Pegaria muito mal para ele bater no Carlos ali na frente dos filhos.
— Meu amor, você está bem? – aquela cena era tão patética que eu queria vomitar. — Vamos, querido. Vamos para casa.
Por sorte ela o convenceu a voltar para o carro e desaparecer dali o mais rápido possível, ou eu permitia com o maior prazer que o Rodrigo batesse nele até ele perder o ar.
Convidei o Rodrigo para almoçar lá em casa aquela tarde. Mamãe parece não ter gostado muito da ideia, mas também não disse nada. Quem ficou toda animadinha foi a Juliana.
Rodrigo chegou a uma e meia. Ele só tinha ido em casa tomar um banho e se arrumar. Agora se encontrava ainda mais bonito e perfumado. Com aquele sorriso, aquelas covinhas, aquele olhar e aquele cabelo loiro bagunçado. Convidei-o para entrar.
Ele já conhecia todo mundo de vista, mas era a primeira vez que era devidamente apresentado a todos. Achei que ele ficou um pouco tímido, o que era fofo. Mas aos poucos ele foi se soltando.
Rodrigo se saiu melhor no que eu esperava. Primeiro, enquanto eu ajudava a mamãe a colocar a mesa, ele ficou na sala, conversando com o papai. Logo o papai que quase não falava nada, apenas observava. Rodrigo tem esse lado meigo e convidativo que faz as pessoas se abrirem sem ne perceber.
Na mesa, durante o almoço, quase ninguém falou. Não os meus pais. Juliana e Augusto era os únicos falando sem parar. Rodrigo sorria muito. Meu irmão caçula estava se divertindo por um dos seus colegas estarem almoçando aqui em casa.
— Acho que vou fazer alguma coisinha de sobremesa. – disse mãe, meio incerta, assim que terminamos de comer.
Ela estava calada, distante e estranha, mas eu sabia que no fundo ela estava fazendo um esforço enorme para agradar ao visitante. Esse era o jeitão engraçado dela de disfarçar.
— Senhora, quer alguma ajuda? – Rodrigo sugeriu, pegando os pratos e os levando a pia. Ele parecia de casa. — Eu posso lavar a louça enquanto você prepara a sobremesa.
— Não, muito obrigada. Não preciso de ajuda.
Credo, ela foi grossa com ele.
Lancei um olhar questionador a ela, mas ela apenas deu de ombros.
— Rodrigo, você pode dar uma olhadinha nas crianças lá fora? Elas estão no quintal, brincando. – pediu a minha irmã.
Rodrigo se foi, deixando nós mulheres na cozinha sozinhas. Meu irmão e meu cunhado já estavam na sala acompanhando o papai. O que era injusto. Eles bem que poderia ajudar as vezes.
Enquanto preparava a sobremesa, vi que a mamãe observava o Rodrigo através da janela, brincando lá fora com as crianças. Ela parecia avalia-lo, para ter certeza de que ele era um bom homem.
Juliana e eu nos encarregamos de lavar e secar a louça.
— Sua mãe parece não ter gostado muito de mim. – comentou o Rodrigo. Estávamos indo a sorveteria naquele fim de tarde.
— Ela gostou sim de você. Ela só não quer admitir. Ainda. Ela tem medo que machuquem o meu coração de novo.
— Mas eu não vou fazer isso! Vou provar isso a ela.
Aquela noite, aproveitando que os gêmeos tinham ido passar o final de semana com o pai, eu resolvi aceitar sair com o Rodrigo para um barzinho no centro onde tocava música ao vivo.
Quando terminei de me arrumar fui até a casa dele do outro lado da rua.
— Você está sozinho aqui? – perguntei, seguindo-o até a cozinha. Ele tinha ido beber um pouco de água.
Estava muito calor hoje.
— Os outros já foram. Já estão lá esperando por nós. – depois de beber água ele se virou de frente para mim. — Nossa, você está linda! – ele me avaliou por inteira. — Assim eu não resisto.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele me pegou pela cintura, me ergueu e me colocou sentada em cima da bancada. Ficando entre minhas pernas. Meu vestidinho floral se abriu e ele passou as mãos pelas minhas pernas de forma sedutora.
— Assim nós vamos nos atrasar. – eu disse, tentando não demonstrar o quanto eu estava gostando daquilo.
— Eu não me importo de me atrasar um pouquinho. – ele beijou meu pescoço, dando leves mordidinhas. — Acho que ninguém se importa. Você se importa?
Fiz que não, permitindo que ele me beijasse e me tocasse ao mesmo tempo.
Chegamos ao tal barzinho alguns minutos depois. Até que não demoramos muito. Foi tudo muito rápido. No fundo, o pessoal já estava ocupando uma mesa mais no canto.
O bar não estava tão cheio. Tinha um pessoal espalhando pela pista de dança. Outros sentados nas mesas e outros em pé, perto do palco, bebendo e admirando os cantores.
Estava tudo indo muito bem. Até mesmo para mim que não era muito de fazer esse tipo de programa. A música era boa. Eu conversava com a Fabi e o Patrick bebendo meu refrigerante e o Rodrigo conversava com os outros meninos.
— Quer dançar? – ele perguntou do meu ouvido alguns minutos depois. Senti um arrepio e um enorme pavor.
— Oh, não. Eu não sei dançar. – tentei sorrir. — Vamos ficar aqui e apenas curtir o momento.
— Nada disso, mocinha. – ele se levantou e me pegou pela mão. — Você vem comigo, querendo ou não.
Rodrigo praticamente me obrigou a dançar coladinha com ele com todos olhando para nós. No início eu morri de vergonha, depois fui me soltando e até me diverti. Principalmente quando o resto do pessoal se juntou a nós na pista de dança.
Nós dançamos por muito tempo. Rodrigo me ensinou muitos passos básico para precipitantes. Mas houve um momento que minhas pernas já não aguentavam mais e nós voltamos para a mesa.
— Você não tem vergonha? – perguntei sorrindo. Ele não parava de me beijar e todos estavam ali, olhando.
— Vergonha por amar você?
Eu congelei.
Amar.... Você?
Nós nunca tínhamos dito nada parecido um para o outro antes, tirando o dia na praia, onde tudo foi esclarecido. Nós também nunca determinamos ou rotulamos o que estávamos tendo. Em parte, ouvir a palavra amar me apavorou, mas por outro lado eu gostei de ouvi-la. Me fez sentir uma coisa nova e estranha no estômago.
No final da noite, eu estava muito cansada, louca para dormir. Mas Rodrigo acabou me convencendo a ir para a casa dele, para o quarto dele. E eu não tive descanso nem por um segundo. Ele me provocava e me atiçava de muitas formas.
Tomamos o café-da-manhã juntos no dia seguinte. Eu tinha dormido ali. Mas éramos só nos dois. O pessoal ainda não tinha acordado. E aproveitamos para ficar um pouco lá fora no sol, perto da piscina, abraçadinhos.
Os gêmeos chegaram em casa quase nove horas da noite. Vinicius veio correndo me abraçar. Já o Gustavo estava esquisito. Nem disse nada. Dei um banho neles e juntos vestimos os pijamas.
— O que foi, filho? – perguntei, enfim.
— Não é nada, mãe.
— Tem certeza?
— O papai perguntou a nós se você estava namorando. – Vinicius resolveu responder pelo irmão. — Nós dissemos que não sabíamos. Que você não conversava esse tipo de coisa com a gente. Então ele disse que você era uma mentirosa e que um dia você iria embora com seu novo namorado e iria nos deixar para trás.
— O quê? Mas que absurdo! Ele não tem esse direito! Ele está mentindo, vocês sabem, não sabem?
— Eu acho que não. – foi a vez do Gustavo dizer algo. — Você não desgruda mais do tio Rodrigo. Eu não confio nele. Ele está querendo te roubar de nós. Acho que eu prefiro morar com o papai. Ele, pelo menos, não mente para gente.
— Eu não minto para vocês, Gustavo! – eu realmente fiquei furiosa com tudo que ouvi. — Que bobagem é essa?!
— Eu gosto do tio Rodrigo. Ele é bem legal. – Vinicius interveio, como se quisesse me defender. — Mas eu não gosto da tia Heloísa. Ela não para de falar daquele bebê.
Até então eu nunca tinha colocado os meninos contra o pai, porque eu sabia que eles não tinham nada a ver com isso. Mas pelo jeito o Carlos não pensava o mesmo.
— Vamos dormir agora. Amanhã é dia de aula!
Conversei com a Alícia no dia seguinte sobre a minha conversa com os gêmeos na noite passada.
Ela pareceu tão indignada quanto eu.
— Eu acho que você deveria falar com a sua advogada. O Carlos está passando dos limites! Ele não tem direito de usar os seus filhos contra você. Isso é crime, você sabia?
Quando liguei para minha advogada vi que a Alícia tinha toda razão. O que o Carlos estava fazendo era crime e eu poderia falar com o juiz. Mas resolvi deixar isso para lá. Ao menos se ele continuasse a colocar os nossos filhos contra mim como se não fosse o bastante tudo que ele já me fez passar.
E eu também não tinha muitas provas...
Na quarta-feira à tarde, eu estava deitada com a cabeça no colo do Rodrigo. Ele mexia nos meus cabelos. Era seu dia de folga. Então, resolvi contar a ele sobre as últimas novidades.
— Eu já notei que o Gustavo não gosta tanto assim de mim. Ele é meio desconfiado. Mas eu não quero roubar você para mim!
— Eu sei, mas ele é só uma criança...
— E se nós fossemos a praia no sábado? – ele sugeriu, animado. — Talvez devêssemos fazer mais programas juntos e quem sabe assim ele irá mudar de ideia ao meu respeito.
Parecia uma boa ideia.
No sábado nós fomos a praia, como o combinado. O sol estava muito forte! Rodrigo bem que tentou contornar aquela situação. Mas o Gustavo não estava muito disposto a facilitar. Já o Vinicius estava alegre, animado. Não parava de pular e correr.
Mais tarde, nós fomos almoçar fora. Gustavo acabou dando a maior trabalheira. Ele fez birra e acabou derrubando toda a comida na roupa e no chão. Os gêmeos não eram muito de me tirar do sério, mas naquele momento eu fiquei muito brava com ele.
Não era justo comigo.
— Fica calma. – Rodrigo pediu baixinho. — Ele só se atrapalhou. Vou leva-lo ao banheiro e dar um jeito nisso.
Gustavo relutou, mas acabou acompanhando o Rodrigo.
— Ele não está se comportando muito bem, não é, mãe? – perguntou o Vinicius, todo inocente. Estava terminando de comer.
— Não, filho. Ele não está. Está me deixando muito aborrecida.
— Ele está com ciúmes, mamãe. – Vinicius suspirou, revirando os olhos de forma engraçada. — Eu não entendo o meu irmão. Ele é tão infantil!
Em casa, lancei um olhar duro ao Gustavo. Só para ele ter certeza que eu continuava muito decepcionada com ele.
— Vão tomar banho, vão.
— É só uma fase. – disse minha irmã passando a mão na barriga estufada. O bebê estava próximo! — Logo vai passar.
No domingo à tarde me dispus a regar o jardim em frente a pousada para minha mãe. Rodrigo estava na rua, jogando bola com as crianças. O dia estava lindo, todo ensolarado, mas de repente começou a chover como a muito tempo não fazia.
As crianças não correram como eu esperava que acontecesse. Estava chovendo e fazendo sol ao mesmo tempo e elas pareciam impressionadas com isso. Ao contrário delas, eu me protegi sim e fiquei de longe, apenas observando-os continuarem a brincar.
Só que agora de baixo da chuva.
— Vamos, papai. Corre mais rápido!
Papai?
Quando olhei para o Vinicius, ele estava pulando nas costas do Rodrigo, tentando se pendurar. E ele tinha acabado de chama-lo de pai ou era impressão minha? Eu não sei! Mas isso me fez sorrir. Porque apesar de estranho, só poderia significar que ele o considerava bastante para chama-lo de pai.
— Olha, eu sei que aquilo foi estranho e assustador para você – comentei, entregando uma toalha para o Rodrigo quando entramos em casa. — Eu posso pedir para ele não fazer de novo. Ele é uma criança! Deve ter se confundido...
— Mel, do que você está falando? – perguntou o Rodrigo, com um sorriso divertindo. Ele passou a toalha nos cabelos molhados. Uma atitude bem sexy, por sinal. — Ah, aquilo. Não se preocupe! Foi estranho, mas, sei lá, eu gostei. Acho que pela primeira vez eu considerei a possibilidade de ser pai algum dia.
Continuou chovendo lá fora. Rodrigo e eu ficamos lá em baixo, assistindo a tevê com o meu pai.
Augusto estava na cozinha, jantando com os garotos.
Quando parou de chover, Rodrigo se levantou para ir embora. Já era noite. Mas eu resolvi acompanha-lo até la fora.
— Tenho uma surpresa para você no próximo final de semana.
— Sério? E o que é? – perguntei, curiosa.
— É surpresa. Bom, espero que você goste.
Ele me deu um rápido beijo.
— Tchau. Talvez a gente se veja amanhã.
Fale com o autor