Apenas Um Olhar
19 O garotinho que se tornou um homem.
Levou um tempo, mas eu o reconheci. Deveria ter me dado conta assim que olhei dentro daqueles olhos negros e profundos. Não se tratava de um anjo, por mais semelhante que fosse. Se tratava daquele garotinho. O mesmo garotinho que me deu a mão no dia em que acidentalmente caí de bunda no chão. Mas que agora era um homem.
Eu o reconheci, mas ele não me reconheceu. E com razão, eu estava tão mudada. Estava tão irreconhecível com o corpo marcado pelo maior monstro que já conheci. E eu tive tão medo de questiona-lo a respeito no dia seguinte em que ele apareceu no meu quarto, trazendo-me a bandeja de café-da-manhã.
Assim que ele apareceu segurando aquela bandeja, com aquele sorriso, eu fiquei imóvel. Completamente paralisada e sem reação. Ele me cumprimentou, foi gentil e eu mal pude dizer uma se quer palavra, ainda sem conseguir acreditar que era ele ali bem na minha frente, tantos anos depois. Tão adulto, tão bonito!
— O que foi? – perguntou ele, levemente surpreso. Após depositar a bandeja ao lado da minha cama, em cima do criado-mudo. — Aconteceu alguma coisa? Você está estranha!
De repente me dei conta que se eu continuasse muda, a situação ficaria ainda mais estranha entre nós. E muito provavelmente, com essa atitude, eu iria afasta-lo de vez de mim. Ele pensaria que eu fiquei maluca!
— Não, não. Não aconteceu nada. Eu só... – as palavras me fugiram mais uma vez. Senti um nó na garganta. — Esquece.
— Tudo bem. – ele voltou a sorrir, achando graça. — Bom, pelo menos o café de hoje é bem melhor que o de ontem. Você vai gostar, veja só. Tem frutas, iogurte, requeijão e torradas. Gostou?
Apenas assenti, agradecida.
Ele continuou ajudando eu me alimentar, já que meu corpo continuava a doer por todas as partes. Durante todo aquele processo mais que constrangedor, percebi que ele me olhava com carinho, ternura. Como deveria fazer com qualquer outro paciente. Afinal, aquele era o trabalho dele. Mas eu mal conseguia olhar para ele. Inquieta, pensando se eu deveria ou não perguntar se ele se lembrava de mim ou daquele dia do meu pequeno incidente.
Claro que não lembrava! Se lembrasse já teria dito algo.
Respirei aliviada quando ele enfim saiu do meu quarto, levando consigo a bandeja vazia do meu café-da-manhã. Não demorou muito para a enfermeira negra de sorriso contagiante aparecer para me ajudar com o meu banho e minha higiene pessoal. Dessa vez ela me disse seu nome: Marta.
Depois de ter escovado meus dentes e ter tomado um rápido banho morno, voltei para o meu quarto e passei as próximas horas deitada, em repouso, olhando para o teto branco do quarto.
Aquilo era um tédio!
Mas eu não tinha muitas opções.
— Voltei! – Rodrigo me deu um baita susto. Ao ver a minha reação ele riu. E eu não consegui não sorrir com o som da risada dele. Era adorável! — Hoje o dia está bem corrido! Há muito trabalho para se fazer. Você nem faz ideia! Mas consegui um tempo. Quer dar um passeio lá fora?
Ele me colocou na cadeira de rodas e lá fomos nós.
Primeiro, fizemos mais um pequeno tour pela clínica. Foi quando eu conheci muitas áreas importantes: recepção, sala de espera, sala de estar, sala de jogos, sala de informática, refeitório e outras áreas onde a presença de pacientes era livre.
Rodrigo me apresentou a alguns pacientes. Eu fiquei morrendo de vergonha. Não queria que as pessoas me vissem assim ou soubessem da minha história, pelo que eu passei e o me fez chegar até aqui. Apesar de eu suspeitar que nem os médicos sabiam da verdadeira história por trás de tantos hematomas.
— Fica tranquila. – disse ele, colocando a mão carinhosamente sobre o meu ombro direito. — Algumas dessas pessoas também passaram por situações muito difíceis. Ninguém está aqui para te julgar. Você pode até fazer amigos, se quiser.
Por um momento, fiquei apavorada.
Será que ele sabia ou suspeitava de alguma coisa?
Ele era a última pessoa que eu queria que soubesse da verdade.
Continuamos nosso passeio e por fim, mais uma vez ele me levou lá para fora. Fazia uma tarde linda, com bastante nuvens e um ar fresco.
— Você está diferente hoje. – ele observou, sentando-se em um banco próximo a mim. Como da outra vez.
— Não é nada. – eu menti, me sentindo muito mal por isso. — É que é muito bom dar uma volta, conhecer as coisas e as pessoas. Mas é tão chato ficar sozinha naquele quarto o tempo todo.
Eu disse a primeira coisa que veio a cabeça.
— Eu sei. – ele suspirou, pousando sua mão quente sobre a minha que até então estava tão gelada. — Mas faz parte da sua recuperação. Você precisa de cuidados, precisa de descanso.
Eu até conseguia entender. Mas era difícil aceitar que eu, que até poucos dias atrás tinha uma vida tão corrida, correndo atrás de dois filhos e tendo que ao mesmo tempo cuidar da casa e das contas, agora tendo que ficar tanto tempo parada, esperando por dias melhores.
— Tive uma ideia! – ele me olhava animado. — O que você gosta de fazer? Talvez eu possa ajudar!
Pensei por alguns instantes.
Eu gosto muito dos meus filhos. É o que eu mais gosto no mundo inteiro, além da minha família. Mas não posso tê-los agora. Não por enquanto. Eles não podem me ver assim! Eu gosto muito de comer, mas já comi demais nessa vida, tanto que ganhei alguns quilinhos a mais e aqui, na clínica, preciso comer coisas saudáveis. Nada mais do que isso. Gosto também de dar aula, mas é algo que não faço a anos. Talvez eu nem saiba mais fazer isso.
O que mais eu gosto?
Pensei...
— Eu gosto de livros! – respondi, me lembrando de repente do meu hobby preferido. — Gosto muito de ler.
— Sério? Eu também! – ele parecia admirado. Me olhava de uma maneira entusiasmada. — O que você gosta de ler?
— Tudo. Principalmente romance.
— Bom, não temos muitos livros aqui na clínica. Mas eu tenho alguns em casa. Livros de poesia. Eu posso trazer para você...
— Eu adoraria.
Sorrimos um para o outro. Nesse momento, olhando para ele, admirada pelo homem que ele se tornou, apesar de eu pouco o conhece-lo, eu quase pergunto a ele se ele realmente não se lembra de mim. Mas seria vergonhoso e constrangedor se a resposta fosse negativa. Imaginem a minha cara de desapontamento?
Eu nem saberia disfarçar!
— Precisamos entrar agora. Está quase na hora do almoço.
E mais uma vez, minha família aparece durante a minha refeição. Mamãe veio sozinha e faz questão de me ajudar a comer. Pergunto dos gêmeos, ela diz que está tudo bem com eles. Eles disseram que estão com saudades! Nesse momento me seguro para não chorar. Porque eu também sinto muita a falta deles. Nunca ficamos tanto tempo separados e distantes.
Pergunto também do Carlos. Eu não queria perguntar, mas a curiosidade fala mais alto. Não é que eu esteja preocupada com ele ou coisa do tipo. Eu só quero saber o que aconteceu depois.... Vocês sabem bem do que eu estou falando. É difícil pra mim lembrar.
Eu evito pensar, mas sempre que me pego pensando naquele momento, sinto todas as entranhas do meu corpo se contorcerem. É a pior e mais apavorante dor que já senti na minha.
— Ele não ligou, nem mesmo para perguntar dos meninos. Ainda bem, eu não sei o que seria capaz de fazer com aquele monstro! – diz minha mãe, parecendo bem furiosa. — Mas amanhã seu pai e seu irmão vão buscar a suas coisas.
— Não, mãe! – começo a me desesperar. — Não permita que eles façam isso! Vamos esquecer essa história...
— De jeito nenhum, Melissa! Mesmo depois de tudo que você passou, você ainda tem direito a suas coisas. Não vamos permitir que aquele homem saia ganhando depois de tudo que ele te fez passar. Seu pai e seu irmão vão sim pegar tudo que te pertence e isso já está decidido, querida. Não se preocupe.
— Mas eu não quero confusão...
— Ninguém aqui quer brigar, querida. Apesar daquele homem merecer o pior dos castigos desse mundo. – vi que ela se segurava muito para não chorar na minha frente. Mamãe era muito durona quando queria. — Mas as suas coisas não vão ficar lá com ele. E os meninos precisam de roupas!
— Tudo bem. Você tem razão, os meninos precisam de roupa. Mas não façam nada, por favor! Deixa que eu resolvo isso quando eu sair daqui. Isso é entre mim e o Carlos. – só de dizer o nome dele eu sentia um gosto amargo na boca. — Mãe, me prometa que não vão fazer nada. Me prometa!
— Tudo bem, querida. Tudo bem.
Ela beijou minha testa com cuidado e ajudou eu terminar de comer e beber meu suco. Depois eu enfim reuni forças para perguntar como é que ela e o outros me encontraram e me trouxeram até a clínica. Eu não me lembro de nada!
— Foi aquela sua amiga que nos ligou. Quando ela te encontrou inconsciente jogada no meio da sala, ela se desesperou. Nós não acreditamos, mas fomos correndo ver de perto o que tinha acontecido. E lá estava você. Parecia morta!
Dessa vez ela não se segurou e chorou de vez.
Fiz de tudo para não chorar junto.
— Chamamos pela ambulância. Pegamos as crianças. Eles te levaram às pressas ao hospital. Ficamos horas e horas esperando por notícias. Depois que eles nos explicaram tudo, foi que nos demos conta que o único responsável por isso só poderia ter sido o seu próprio marido. Pensamos em fazer muitas coisas, até mesmo chamar a polícia. Mas seu pai achou que era melhor esperar você acordar para poder contar o que de fato tinha acontecido. Ligamos muitas vezes para o Carlos, mas ele nunca nos atendeu. Então você foi transferida para cá, para perto de nós, para que pudéssemos cuidar melhor de você. E graças a Deus você acordou e....
Ela não conseguir terminar de dizer, apenas me abraçou. E apesar de ter aquilo doido muito, eu não me importei. Apenas a abracei de volta, sentindo seu carinho junto a mim.
— Eu sei que é muito cedo para perguntar, querida. Mas, por favor, me conte o que realmente aconteceu...
— Não sei se consigo.
As lágrimas ardiam em meus olhos.
— Na verdade, eu me lembro de muito pouco. Apenas dos golpes e da dor. Mas antes disso, eu descobri, meio que por acaso, que o Carlos estava tendo um caso com a Heloísa. Fazia muitos anos. E quanto eu os confrontei, Carlos me arrastou de volta para o nosso apartamento, então ele começou a dizer muitas coisas cruéis, até que avançou para cima de mim, me derrubou e...
Comecei a soluçar. Chorei muito. Chorei tanto que meu estomago começou a dor. Mamãe começou a ficar desesperada e só sabia me abraçar que dizer que ficaria tudo bem. Mas eu não conseguia parar de chorar, tanto pela dor física quanto pela emocional. Até que ela chamou uma enfermeira que enfiou uma seringa em mim com algum tranquilizante e eu apaguei.
Acordei somente no outro dia e quando olhei para o lado, lá estava ele e mais uma vez eu o confundi com um anjo.
— Você se sente melhor?
— Sim, mas estou com fome.
Ele sorriu.
— Eu trouxe leite e bolachas.
Comi tudo muito rapidamente, dessa vez tentando fazer as coisas sozinha. Por um momento até me esqueci que ele ainda estava ali e fiquei envergonhada quando vi que ele me olhava com um olhar divertido. Acabei derrubando o leite em mim.
— Não se preocupe. Eu ajudo!
— Obrigada.
Depois que ele me limpou e levou a bandeja vazia, voltou a aparecer, agora tinha algo em mãos.
— Eu trouxe um livro, como o prometido.
Ele me passou o livro e eu o folhei.
— Será que você poderia ler algo para mim?
— Claro! – ele abriu um sorriso estonteante. — Posso me sentar aqui? – ele se referia a um espacinho na minha cama. Eu assenti, constrangida. — O que você quer escutar primeiro?
— Hum, eu não sei. Que tal seu poema preferido?
Não consegui tirar meus olhos dele. Ele estava recitando seu poema favorito do Paulo Leminki, chamando Amar você é coisa de minutos... Eu estava tão fascinada com tudo. Com o sol da manhã entrando pela janela e batendo em seus cabelos, deixando-os ainda mais claros. Fascina com a forma que sua boca mexia enquanto ele falava. Fascina com o brilho de seus olhos escuros. E fascina no quanto ele havia se crescido. Se tornado um homem bonito, da voz doce, com ombros largos e sorriso encantador.
Droga!
Eu não posso estar me sentindo atraída por ele.
Não posso mais me dar a esse luxo. Não depois de tudo que me aconteceu. Não depois de ter vindo parar aqui, nesse estado. Não posso mais acreditar em nenhum outro homem. Não depois de ter me entregando tanto a um que me levou a ruina. Para mim, eles são todos uns monstros fingidos. No começo, são uns amores, são sorridentes, são calorosos, gentis, educados. Mas depois se revelavam, mostrando-se cruéis e impiedosos.
Eu não quero mais sofrer assim.
Eu não quero mais ser enganada.
Eu não posso mais acreditar no amor. Porque certamente ele não foi feito para mim. Nada é como nos livros, como nos contos de fadas. Eu fui tão ingênua por pensar que seria possível. Que algum dia encontraria meu príncipe e viveríamos felizes para sempre.
Eu me dediquei cem por cento do tempo. Abri mão de tantas coisas. Me entreguei ao máximo. Me joguei de cabeça. E o que eu mereci depois de tudo isso? Ser espancada até a morte. Ser traída pelas costas pela mulher que eu acreditei ser minha melhor amiga e pelo homem que eu acreditei ser o melhor de todos.
Um sonho que virou pesadelo.
— Gostou? – Rodrigo me perguntou, interrompendo meus devaneios.
Não posso estar me apaixonando. Não em tão pouco tempo. Mesmo ele sendo lindo, gentil, cuidadoso. Mesmo ele sendo especial por ter feito parte de um momento significativo da minha adolescência. Ele é só o meu enfermeiro e só está fazendo o seu trabalho. Isso não o torna melhor e nem único.
Eu só estou me sentindo tão mexida porque passei por maus bocados. Eu só estou me sentindo mexida porque ele está sendo legal e bonzinho comigo, mesmo depois por tudo que passei. Eu só estou me sentindo mexida porque eu o reconheci a pouco tempo. Porque faz tempo que não nos vemos. Ou porque eu nunca soube nada sobre ele e agora, pra mim, tudo é novidade.
Ele nunca sentiria o mesmo. Ele nunca me olharia de outra forma. Eu sou só uma paciente. Uma coitada. Ele nunca me reconheceria. Olha só pra mim! Eu estou um lixo.
Eu sou um lixo.
Carlos deixou isso bem claro.
— Melissa? Tá tudo bem?
— Você pode, por favor, sair daqui?
— Mas.... Porque?
— Porque sim. Porque eu quero.
— Melissa, eu pensei que...
Eu estava me sentindo péssima. Ainda pior que antes.
Nossa, como eu sou tola!
— Por favor, sai logo daqui. – gritei com lágrimas nos olhos, sentindo raiva de mim mesma. — Sai!
— Ta bom. – ele se levantou, parecia chocado com o meu pequeno surto. Ele colocou o livro ao lado da minha cama, sobre o criado-mudo. — Eu vou sair. Mas eu volto.
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