Apenas Um Olhar

35 E tudo desmorona mais uma vez


Notas iniciais
Estamos na reta final da história!

A advogada e eu tivemos uma longa reunião junto da minha família que seriam testemunhas de tudo. Judith analisou todas as provas dentro do envelope com muito cuidado e atenção e por fim ela me disse exatamente o que eu precisava ouvir após tanta apreensão e tanta espera.

— Essas provas eram tudo que nós precisávamos. – ela guardou tudo dentro do envelope. — Vou ficar com elas, para sua própria segurança, tudo bem? – eu assenti, animada e nervosa também. — Vou marcar uma audiência o quanto antes. Não se preocupem. Vai tudo se resolver dessa vez. Podem acreditar.

Depois que ela foi embora, levando consigo o envelope com fotos e o gravador mais o exames que eu fiz na clínica após a agressão do Carlos contra mim; minha família me arrastou até a sala de estar e começaram todos a me interrogar todos ao mesmo tempo.

— Mas como você conseguiu tudo aquilo, querida? – perguntou a minha mãe sem tirar os olhos de mim.

— Você não foi espionar o Carlos ou foi? – perguntou a minha irmã, segurando um dos bebês no braços. Igor estava ao seu lado, segurando o outro bebê. O resto da creche estava no quintal brincando com o Vinicius e a babá Vanessa.

— Você ficou doida, Mel? – perguntou o meu irmão, parecendo surpreso e ao mesmo tempo bravo. — Aquele cara poderia te ter matado, sabia disso?

Digamos que eles estavam exagerando um pouco. Eu não era doida e muito menos uma espiã. Então resolvi dizer isso de uma vez por todas a eles e explicar toda a situação.

— Fiquem calmos. Não é nada disso. O que aconteceu foi o seguinte...

Então muito calmamente, sem esquecer nenhum detalhe, contei exatamente o que eles precisavam saber: a visita da Heloísa e a conversa que nós tivemos na cozinha. Por fim, ninguém acreditou que ela ainda pudesse ter um bom coração. No fundo, nem eu. Mas de uma coisa eu sei: a gente nunca sabe o que esperar das pessoas.

No começo da noite, eu já estava cansada de todo aquele questionado e resolvi dar uma basta naquilo. Não queria ficar pensando na audiência e na possibilidade de enfrentar o Carlos outra vez. Eu só queria um descanso. E o encontrei nos braços do Rodrigo, em seu quarto, naquela mesma noite.

Apesar de já estar a par de tudo, ele não ficou me fazendo perguntas e muito menos tocou no assunto. Muito pelo contrário, ele tentou me distrair com outras coisas: com seus beijos molhados, seus novos livros e algumas histórias da clínica.

Dormimos juntos aquela noite. Mas infelizmente, tivemos que acordar muito cedo no dia seguinte para trabalhar. Corri até em casa, tomei um banho, troquei de roupa, ajudei o Vinicius com suas coisas, comemos algo rapidinho, peguei minhas coisas e fomos para a escola juntos, caminhando e conversando.

Eu ainda não tinha contado nada a ele. Ele era só uma criança. Não entenderia e também eu não queria lhe dar falsas esperanças. Não queria que ele ficasse animado com a possibilidade de o irmão voltar para casa sendo que eu ainda não tinha certeza se ocorreria tudo bem ou não na audiência.

Por fora eu parecia bem tranquila quanto a isso, quase animada demais por finalmente ter provas contra o Carlos. Mas no fundo, no meu interior, eu estava apavorada. E se não desse certo? E se o juiz não levasse em consideração tudo que eu tinha a dizer e mostrar? Eu ficaria arrasada. Não suportaria.

À tarde, depois do trabalho, Alícia e eu fomos almoçar na pousada que para nossa surpresa estava muito movimentada. Talvez fosse porque o final do ano estava cada vez mais próximo e a maioria das pessoas procuraram hospedagem perto do litoral.

Os pais do Rodrigo se juntaram a nós para a refeição e eu aproveitei a oportunidade para apresenta-los. Queria que eles conhecessem minha melhor amiga. Queria que todos eles se dessem muito bem. E foi exatamente o que aconteceu.

— Agora já sabemos quem o Rodrigo puxou. – comentou Alícia quando já estava indo embora. — Os pais dele são tão fofos!

Depois que Alícia foi embora, eu fui para casa e subi para o meu quarto, onde encontrei o Vinicius tirando um cochilo. Me aproximei devagar e lhe dei um beijinho na testa. Depois tomei um banho, coloquei uma roupa mais leve e me juntei a ele, só que na cama ao lado e comecei a ler o livro que eu ainda não tinha terminado.

Mas para minha própria surpresa, acabei pegando no sono também e quando olhei para o lado assustada, encontrei o Vinicius e o Rodrigo sentados no chão jogando xadrez. Não pude evitar abrir um baita sorriso. Eles pareciam tão concentrados no jogo que nem perceberam que eu tinha acordado e continuaram falando baixinho para que eu não acordasse.

— Mãe! Você acordou. – disse o Vinicius, surpreso. Quando me viu os observando de longe.

Rodrigo se virou para mim.

— Oi, meu amor. – ele sorriu, exibindo suas covinhas. Se curvou um pouco e me deu um beijinho rápido.

— Nossa, estou morrendo de fome. – sento-me sobre o colchão e passo os dedos pelos cabelos bagunçados.

— Nós estamos também. – comentou o Rodrigo. — Estávamos pensando em sair pra comer uma pizza. O que você acha?

— Eba! – Vinicius se empolgou. — Eu acho uma boa.

Eu ri.

— Tudo bem pra mim.

— Então vamos apenas terminar esse jogo aqui. Porque eu estou muito perto de ganhar. – disse o Rodrigo, bagunçando os cabeços do meu filho e o fazendo rir.

Enquanto eles terminavam a partida, eu coloquei uma calça, joguei um pouco de água no rosto e passei um batonzinho.

Tivemos uma noite agradável. Como uma família. Comemos pizza, tomamos refrigerante, conversando bastante e rimos.

As nove e meia voltamos para casa, mas eu estava sem sono. Então apenas coloquei o Vinicius para dormir e depois desci com o Rodrigo e ficamos lá fora, em frente a pousada fechada.

Meu celular tocou de repente, interrompendo nossa conversa.

— Desculpa te ligar tão tarde, Melissa. Mas tenho notícias. – era a Judith, a advogada. Meu coração deu um salto. — Marcamos a audiência para sexta-feira, as três da tarde. Tudo bem para você?

Não estava. Mas o quanto antes, melhor para mim.

Então o Carlos já estava ciente das minhas pretensões. Ótimo. Isso me apavorou um pouquinho. Rodrigo deve ter lido isso nos meus olhos, pois meu puxou pela cintura e me deu um forte abraço.

— Não se preocupe. – ele encostou a testa na minha e segurou meu rosto rente ao seu. — Eu estarei lá com você.

A quinta-feira passou voando e quando dei por mim, já era sexta-feira e eu não tinha como e nem pra onde fugir.

Era hora de encarar os fatos.

Depois que cheguei do trabalho, nem consegui almoçar. Eu só conseguia pensar na maldita audiência. Para minha sorte, Vanessa se ofereceu para cuidar do Vinicius pra mim, já que toda a família estava disposta a ir comigo ao tribunal.

Tomei um rápido banho gelado, vesti minha calça preta, minhas sapatilhas azuis marinho, uma blusinha branca simples de mangas curtas e minha jaquetinha jeans por cima. Prendi os cabelos negros em um coque básico e passei uma make leve no rosto.

As duas horas estavam todos lá em baixo esperando por mim, inclusive o Rodrigo, que tinha faltado ao trabalho para me acompanhar. Quando me aproximei ele beijou minha testa e segurou firme a minha mão. Me senti muito segura e confiante.

Então lá fomos nós.

Foi uma tarde longa.

Inquietos, esperamos por muito tempo. E adivinhem só? O Carlos não apareceu. Seu advogado, coitado, não sabia onde enfiar a cara. Pelo visto ele não tinha nem avisado ao advogado que era um covarde e que estava disposto a fugir de suas responsabilidades.

Já eram quase cinco horas quando eu resolvi sair lá fora sozinha para tomar um ar e foi quando meu celular vibrou dentro da bolsa pendurada em meu ombro e eu me sobressaltei.

Era um número desconhecido.

Resolvo atender na esperança de que fossem boas notícias.

— Mamãe?

— Gustavo?

— Oi, mãe!

— Filho, onde você tá? — perguntei apavorada. A ligação não estava muito boa. Tinha muito barulho vindo do fundo. Barulho de carros.

— Eu não sei... – disse ele, parecia confuso e perdido. — Mãe, o papai saiu e me deixou no carro sozinho. Eu estou assustado. Por isso resolvi te ligar.

— Mas o que aconteceu, filho?

— Eu não sei. Estávamos em casa e de repente ele ficou estranho. Disse para eu pegar minha mochila e colocar umas coisas dentro. Ele parecia nervoso. Ficou bravo por eu demorar para arrumar as coisas e gritou comigo. Então eu chorei e ele me puxou pelo braço e depois descemos e ele me colocou no carro. Disse que íamos viajar. Era importante. Precisava ser rápido.

Minha cabeça estava girando muito rápido.

Então quer dizer que o Carlos tinha fugido com o meu filho. Como nos meus sonhos. Não era possível...

— Eu não queria viajar. Queria ficar em casa, assistindo desenho. Mas ele me obrigou. E estava bravo comigo. Mas eu não fiz nada de errado. Eu juro, mamãe. Não fiz nada de errado!

— Eu sei, eu sei. Olha, não fica assustado, ta bom? – eu estava muito assustada, como é que conseguiria pedir para o meu próprio filho não ficar assustado? — A mamãe vai te encontrar e te trazer pra casa. E por favor, fique quietinho. Não irrite o papai e nem diga a ele que tivemos essa conversa. Eu vou te encontrar.

— Ta bom! Preciso deligar... Ele ta vindo!

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, a ligação foi cortada.

Eu tremia dos pés à cabeça.

Meu filho estava por aí, perdido e assustado, com o pai monstro dele. Eu não podia acreditar que isso estava mesmo acontecendo comigo. Com a gente. Não era justo!

Entrei depressa no tribunal e quando eu surgi de repente todos olharam para mim assustados.

— Pai, preciso da chave do seu carro. – disse eu, decidida.

— Pra quê, Melissa?

— Eu preciso encontrar meu filho. Sozinha!

— Ficou maluca, Mel? – era minha mãe, assustada. — O que você está dizendo?

Não. Não era hora para perguntas.

— Vocês não entendem! – eu gritei, nervosa. Chamando a atenção de todo mundo em volta. Não só da minha família. — O Carolos fugiu com o meu filho e agora ele está por aí perdido e assustado. Ele acabou de me ligar sabe-se lá de onde. E eu preciso encontra-lo imediatamente. Antes que seja tarde demais.

Foi um choque para todos.

Mas não me deram a chaves do carro.

Meu pelo contrário, me fizeram sentar, beber água e depois explicar tudo, mas sem gritar, sem tremer. Coisa que não era possível. Eu estava tensa, nervosa, apavorada e aflita.

— Fica calma, meu amor. – pediu o Rodrigo depois de um tempo, me olhando no fundo dos olhos. Ele tinha se abaixado e colocado as duas mãos nos meus joelhos. — Nós vamos encontra-lo. Você vai ver! Mas não precisa ficar nervosa.

Eu estava cansada de todo mundo me pedir para ficar calma, inclusive a advogada que estava tentando resolver tudo. Eu estava cansada de permitir que o Carlos fizesse o que bem entendesse comigo, inclusive mexer com a minha família. Com os meus filhos. Não era justo. O problema era entre ele e mim. Nossos filhos não tinham nada a ver com isso.

Ignorei todo mundo, inclusive o Rodrigo e levantei e trotei até o banheiro mais próximo. Onde eu me tranquei por alguns instantes. Joguei água no rosto e me encontrei no reflexo do espelho.

Eu não posso ficar aqui parada, digo a mim mesma mentalmente enquanto continuo a me encarar. Eu preciso fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Meu filho precisa de mim!

Sai de fininho do banheiro. Garanti que ninguém pudesse me ver. Afinal, estavam todos muito ocupados no hall de espera, discutindo a melhor forma de resolver aquela situação. Rodrigo, notei, era o único de lado, andando de um lado para o outro, pensando sabe-se lá o que. Eu sabia que não era justo a maneira como eu estava tratando-o. Mas eu estava numa situação complicada.

Saí por outra porta e corri até um táxi.

O motorista olhou para trás e perguntou para onde eu queria ir.

Foi aí que ficha caiu: eu não sabia para onde ir.

Para onde eu iria se eu quisesse sequestrar meu próprio filho? Pensei muito. Tentei buscar respostas no fundo da minha mente. Mas acontece que eu não era uma sequestradora, muito menos um monstro. Eu jamais faria algo assim.

Pedi desculpas ao motorista e desci do carro. Ele me olhou de um jeito estranho, como se eu fosse louca e saiu dali. Olhei em volta, em busca de respostas e tentando ao máximo não chorar. Eu queria muito chorar! Porque eu não era uma boa mãe. Olha só a que ponto chegamos. Se eu ao menos tivesse sido uma mãe diferente...

— Mel? – quando olhei para trás, o Rodrigo tinha saído do tribunal com um expressão apavorada e quando me viu ali, veio correndo na minha direção. — Você sumiu! Eu fiquei tão apavorado.

Quando chegou bem perto não disse mais nada, apenas me abraçou e foi então que comecei a chorar para valer.

Uma das coisas que eu mais gostava nele, além de ser todo incrivelmente maravilhoso, era o fato de ele nunca me julgar, nunca brigar comigo, falar mais alto, ser rude ou grosso, nem me olhar como se eu fosse maluca ou uma descontrolada.

— Aconteceu uma coisa, Mel.

— Que coisa? – praticamente gritei.

— Olha, fica calma, ta bom? – ele secava minhas lágrimas com a ponta dos dedos. — Precisamos ir ao hospital agora.

Hospital?

Não, não, não.

Não pode ser real.

Não pode.

Nada de ruim pode ter acontecido ao meu filho.

Só de pensar nisso, senti que meu corpo ia desmoronar. Senti que tudo ficou gelado. Minhas pernas fraquejaram. E quando dei por mim eu caí com tudo. Mas antes de apagar, senti que braços fortes me envolveram bem a tempo de eu ir com tudo no chão.

Foi Rodrigo. Não há duvidas. Meu anjo protetor.

Notas finais
O que vocês acham que aconteceu? Palpites?