Apenas Um Olhar
14 Boas noticías.
Cuidei minimamente de cada detalhe.
Esse almoço teria que ser perfeito! Eu queria muito surpreender meus sogros que eu ainda não conhecia. Não fazia ideia de como eles eram. Mas queria causa uma boa impressão. Queria que assim que eles colocassem os olhos em mim, eles tivessem certeza que eu era a mulher certa para o filho deles.
Comecei a preparar tudo muito cedinho, logo depois que acordei. Fiz minha melhor receita. Comprei bons vinhos. Arrumei a casa. Preparei a mesa de jantar. E coloquei meu melhor vestido, não muito simples não muito extravagante, e meu melhor sapato.
Como não tive tempo de ir a um salão, ondulei os meus cabelos lisos com a ajuda do babyliss e preparei uma maquiagem que valorizava e realçava os traços do meu delicado rosto.
Ah, e não me esqueci dos meus brincos novos.
— Você está linda! Mas não precisava se preocupar tanto, meu amor. – comentou o Carlos assim que eu dei uma “voltinha” para ele conferir a minha produção. — Não é como se eles merecessem todo esse sacrifício e esforço. É só um almoço.
Mas para mim não era só um almoço.
Eu finalmente iria conhecê-los.
Depois de mais de um ano casados.
Um pouco depois do meio-dia a campainha tocou. Só poderia ser eles! Ajeitei a saia do meu vestido e fui abrir a porta.
Coloquei meu melhor sorriso na cara.
Carlos que estava um pouco atrás de mim, nos apresentou.
Sua mãe, Vilma, é baixa e magra. Diferentemente da mamãe, que é toda fofinha. Dá até gosto de abraçar. A mãe do Carlos é muito magra. Seus cabelos são curtos, escuros e com alguns fios já grisalhos. Ela tem um sorriso forçado, cheio de dentes certos. É muito elegante e parece adorar joias.
Já o seu pai, o André, é alto e fortinho. Ele é um pouco mais velho. E só tem cabelos nas laterais da cabeça. Não sei porque, mas ele me pareceu muito mais legal. Até fez umas piadinhas sem nem me conhecer e me elogiou com um sorriso simpático.
Convidei-os para entrar e se sentarem. Vi que a Dona Vilma foi logo dando uma boa olhada em tudo a sua volta. Acho que para ver se estava tudo em ordem, limpo e se era de bom gosto.
Carlos serviu um pouco de vinho aos pais.
— Vejo que você aplicou muito bem o seu dinheiro, querido. – Vilma comentou, olhando para o filho.
Carlos deu um meio sorriso.
— Quando vamos comer? – André perguntou alguns minutos depois, com um sorriso divertido. Já gostei muito dele!
— Pode ser agora mesmo, senhor.
— Sem formalidades, querida. Me chame apenas de André.
Sorri, agradecida.
Um pouco nervosa demais os convidei para a sala de jantar, onde enfim poderiam se servir para o almoço que preparei.
Vilma não colocou praticamente nada em seu prato. Não sei se era porque não gostou do que viu ou se era porque comia pouco mesmo. Mas ela parecia gostar muito de beber. Aquilo me deixou ainda mais tensa. Já o André encheu o prato com entusiasmo.
A mulher lhe lançou um olhar frio que ele ignorou.
Quase não conversamos durante toda a refeição. Vilma e Carlos estavam muito calados. André parecia o único a tentar manter algum tipo de contato, puxando conversa comigo. Querendo saber mais detalhes sobre mim.
Depois do almoço servi a sobremesa. Vilma não aceitou, disse estar cheia. E ela quase não tinha tocado na comida! Aquela mulher estava começando a me dar nos nervos. Já o André comeu duas vezes do meu pudim e disse que nunca comeu alto tão bom.
Quando voltamos para o sofá, vi que definitivamente Vilma não queria papo comigo. Parecia muito mais interessada em saber como estava o filho. Pelo menos isso! André foi lá para fora, para a cobertura e eu o acompanhei, deixando mãe e filho sozinhos.
André e eu conversamos muito. Ele me contou várias histórias de quando o Carlos era garoto. Carlos nunca me falava sobre esse tipo de coisa. Nunca! Nem sei porque, apesar de ter sido considerada uma criança esquisita pelo pai, que preferia estudar a brincar lá fora com os amiguinhos, eu gostei muito de saber um pouco mais sobre o passado do meu marido.
André me contou que o filho sempre foi muito sério graças a mãe, que exigia muito dele desde cedo. André preferia que o filho fosse uma criança normal. Mas a Vilma não. Exigia que o Carlos estudasse pelo menos uma hora por dia. Exigia notas máximas na escola. Colocou ele muito cedo para aprender outras línguas e fazer intercambio. André nunca aprovou nada disso.
Quando voltamos lá para dentro, eu enchi mais taça dele de vinho. Vilma e Carlos ainda conversavam. Mas pela carinha deles não parecia ser algo muito animador. Contei um pouquinho sobre a minha família para o André. Principalmente sobre meus pais e a minha criação. Da qual eu nunca reclamei.
Eu fui uma criança livre. Em alguns momentos gostava de brincar lá fora com minha irmã e suas amigas. Mas em outros momentos eu só queria ficar no meu canto, lendo meus livros de contos de fadas e viajando na minha própria imaginação.
— Carlos? – André chamou a atenção do filho. — Não pensei que em algum dia você fosse capaz de encontrar uma mulher como essa. Ela é simplesmente maravilhosa! Boa demais para você.
Carlos pareceu ter ficado muito ofendido com o que ouviu. Eu, particularmente fiquei muito sem graça. Não esperava algo assim.
Carlos abriu a boca para dizer algo quando...
— Deixa pra lá. – ele levantou-se, contrariado. — Você nunca entenderia mesmo.
Não sei bem o que deu nele, mas ele saiu apressado, praticamente correu para o andar de cima.
Olhei para seus pais, um tanto perdida.
Esperava que eles dissessem algo. Mas não disseram.
— Vou ver o que há com ele. – levanto-me também e subo atrás do meu marido.
— Viu só o que você fez? Carlos nunca mereceu esse tipo de tratamento! – ouvi a Vilma dizer para o marido e acho que foi a coisa mais útil que ela disse desde que chegou aqui.
Encontrei o Carlos em nosso quarto, sentado na cama, com os cotovelos apoiados sobre os joelhos. Ele passava as mãos nervosamente pelos cabelos escuros.
— Querido, o que houve? Você está bem? – sentei-me ao seu lado e passei a mão em suas costas carinhosamente.
— Não! Não estou bem. Você não percebeu, Melissa? – ele me olha sério, de um jeito quase assustador, como no dia em...
Não quero nem lembrar!
— Quer me explicar o que aconteceu lá em baixo?
Ele suspirou e começou a falar, sem olhar para mim.
— Meu pai, ele não é tão bonzinho quanto parece. Ele sempre me detestou! Sempre me achou muito esquisito por eu não ser como os outros garotos. Ele me batia muito, como se isso fosse ajudar a resolver alguma coisa. Uma vez eu quase perdi a consciência e tive que parar no hospital, graças a minha mãe que chegou a tempo de me socorrer. Não tive uma infância fácil, como a maioria das pessoas devem imaginar. Meu pai e eu nunca nos demos bem e isso só piorou conforme eu fui crescendo.
Ele não estava olhando para mim, na verdade estava evitando o contato com os meus olhos. Mas percebi pela voz que estava chorando feito um garotinho. Isso me deixou sem chão.
— Saí de casa aos dezoito anos sem um real no bolso. Passei por muita dificuldade. Não queria um custão vindo do meu pai. Então, eu me virei. Trabalhei em mercados, lanchonetes, em açougues e me banquei por muito tempo. Mas não estava sem fácil na época, eu tinha muitas contas a pagar. Inclusive a minha própria faculdade. Então minha mãe ofereceu sua ajuda. Ela sempre me apoiou e me entendeu. Eu a fiz prometer que jamais deixaria meu pai saber que ela estava me ajudando financeiramente. Demorou um tempo, mas eu consegui me reerguer. Estudei muito e abri meu próprio negócio, com um dos únicos amigos de infância. Depois disso minha vida mudou completamente. Graças a minha mãe! Ao meu pai eu não tenho a agradecer, apenas detestar por ele ter me feito passar por tantas coisas ruins na minha vida.
Eu já estava chorando também, mas reuni forças para abraça-lo e acalma-lo em meus braços e com muito carinho.
Levamos alguns minutos para nos recompor, quando descemos de volta para a sala de estar, o céu já estava escurecendo e seus pais estavam prontos para irem embora.
Foi um alivio e tanto.
Eu já nem sabia se gostava mais da Vilma e se odiava o André.
Carlos e eu passamos o resto da noite abraçados, largados no sofá, assistindo televisão e dando risada.
Fazia um bom tempo que não passávamos um tempo juntos, descontraídos. Por um momento achei que tudo voltaria a ser como antes ou ainda melhor. Mas na semana seguinte tudo voltou ao normal. Carlos continuou distante e ocupado com o trabalho.
Foi na quarta-feira enquanto eu organizava a minha parte no closet com a ajuda da Heloísa que eu reparei que eu estava muito mudada. Eu já tinha separados milhares de caixas com roupas antigas que já não serviam mais e agora iriam para doação. Estava experimentando uma calça minha muito antiga que ganhei em um dos meus aniversários quando percebi que ela não fechada mais.
— Acho que andei engordado. – comentei, me analisando de todos os ângulos possíveis em frente ao espelho.
— Que nada! – Heloísa fez um gesto engraçado. — Você está ótima. Linda do jeito que é. Não fica com essas neuras, não.
— Mas é sério, amiga. — digo, insatisfeita com o que vejo. — Vou passar no médico amanhã. Você tem alguma indicação?
— Acho que você está exagerando, mas sim.... Eu conheço uma nutricionista ótima. É uma velha conhecida minha.
Na manhã seguinte eu fui a tal nutricionista, recomendada pela minha nova e melhor amiga, Heloísa. A médica, Doutora Mariana, me recebeu muito bem. Nós tivemos uma longa conversa e só depois ela começou a me examinar.
— É, realmente você está com alguns quilinhos a mais. – ela observou, depois de toda sua análise. —Mas não se preocupe, porque isso é só porque você está no primeiro mês de gestação.
Quase caí da cadeira.
O quê?
Eu? Grávida?
Eu tinha cogitado essa possibilidade alguns meses atrás. Carlos e eu até tivemos uma conversa. Na época nós queríamos muito. Mas aí o tempo passou. Toda aquela animação foi esfriando com o distanciamento dele e sua frieza com o nosso casamento.
Saí da consulta ainda muito assustada. A chegada de um bebê poderia significar muitas coisas. Tanto quanto a melhoria de um relacionamento, com a piora dele. No meu caso, tinha que ser a primeira opção. Esse bebê era a salvação de todas as coisas.
Não consegui ir direto para casa, fui dar uma caminhada na praia, colocar meus pés na areia e espairecer um pouco. Fiquei um bom tempo imaginando como eu iria contar a novidade ao Carlos.
Ele detestaria? Surtaria? Ou amaria a notícia?
Pensei em fazer diferente dessa forma. Nada de jantares ou surpresas românticas. Eu iria inovar. Mas antes eu precisava ter certeza dessa gravidez. Fui a um outro médico na manhã seguinte e pedi um exame. Em poucas horas o resultado estava pronto.
Fiz questão de abrir ali mesmo, dentro do carro.
O exame deu positivo.
Em casa preparei vários cartõezinhos. Fiz um caminho com eles da porta até o quarto. No quarto eu elaborei um pequeno varalzinho com fotos de bebês que eu encontrei na internet. Coloquei uma música infantil para tocar de fundo.
Acho que ele iria entender o recado.
Esperei ele chegar. Fiquei em pé, parada no meio do nosso quarto, com o exame em mãos. Eu tremia muito.
Ouvi um barulho na porta e depois alguns passos. Quando a porta do quarto abriu, Carlos tinha nas mãos vários cartãozinho com pequenas pistas. Depois ele viu as fotos dos bebezinhos e por fim se aproximou de mim sem reação alguma e viu o exame.
— Isso é sério, Mel?
— Sim. É o que diz o exame.
— Você tem certeza?
— É claro, meu amor!
— Meu Deus, não posso acreditar.
Acho que finalmente a ficha tinha caído.
Ele largou tudo que tinha em mãos no chão e me abraçou tão forte que eu tenho quase certeza que esmagou todos meus ossos. Carlos começou a encher meu rosto de beijos melecados.
— Eu sou o homem mais sortudo do mundo!
Depois da nossa comemoração, eu fui direto ligar para a minha família, mesmo já sendo tarde da noite. Eles precisavam saber!
— Não acredito! – gritou a minha irmã.
— Mel, filha, isso é um sonho. – disse a mamãe.
— Parabéns, querida. – foi a vez do papai.
— Nossa, vocês foram rápidos. – comentou o meu irmão.
Preparei uma pequena comemoração em família no domingo, vieram todos me visitar. Inclusive, Fred e Heloísa finalmente conheceram a minha família e todos se deram super bem.
Por um momento, enquanto os observava, imaginei o que a Alícia diria se ela também estivesse aqui.
Eu nunca a esqueci.
Na semana seguinte fui ao mercado. Eu estava me sentindo uma nova pessoa. Uma outra mulher. Aquela gravidez já estava mexendo muito comigo em muitos sentidos.
Às vezes eu me pegava pensando em coisas absurdas em quando acariciava minha barriga que ainda nem tinha crescido.
Com meu carrinho percorri todo o mercado, colocando mil coisas dentro. Eu estava feliz da vida, sorrindo para todos os lados e cumprimentando qualquer um que passasse na minha frente.
Eu já estava no caixa pagando minhas compras, quando de relance vi uma figura familiar.
Tive quase certeza que meu coração parou de bater.
Ele estava de costas, saindo do mercado com poucas sacolas nas mãos.
Era um homem adulto. Alto e forte. Sim, estava de costas, usando jeans, camiseta branca e chinelos, como qualquer outro homem. Mas algo me dizia que era ele. Eu tinha quase certeza que era ele. Tinha que ser! Aquela pele e os cabelos claros...
Era o garotinho da minha adolescência. Aquele que me ajudou no dia do desfile que eu caí com tudo no chão, estragando meu vestido e todas as possiblidades de ganhar o concurso.
Eu não fazia ideia de como, mas eu achava que era ele ali, depois de anos. Por muito tempo eu me perguntei como ele estaria, onde estaria vivendo, como ele era agora já adulto ou que fazia de sua vida. Mas de um ano para cá eu tinha me esquecido totalmente dessa história. Por isso não podia ser uma coincidência qualquer.
Eu quase larguei tudo e fui correndo atrás dele. Mas aí eu pareceria uma maluca. O que eu faria ou o que eu diria quando estivéssemos cara a cara?
“Oi. Quanto tempo! Se lembra de mim? Nós nos conhecemos há mais de dez anos atrás. Você era só um garotinho! ”
Nada a ver.
Ele ia me olhar de uma forma estranha e diria que eu era uma maluca. Depois ele sairia andando como se nada tivesse acontecido.
Claro que ele não ia se lembrar!
Ele era muito pequeno na época.
E eu era só uma adolescente boba.
Mas isso já passou. Agora eu tenho uma nova vida. Um marido. Um apartamento. Um carro. E em breve um filho.
Eu não preciso de mais nada.
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