Notas iniciais
Feriados para mim só servem para uma coisa: escrever capítulos novos hahaha ♥

Chorei muito. Tanto que achei que não conseguiria parar. Chorei praticamente o dia todo. Ficaram todos muito preocupados comigo. Bem que tentaram me amparar. Mas a dor era grande e muito forte. Eu tinha medo de perder o meu filhinho pra sempre, por mais que as pessoas a minha volta dissessem que ele sempre me amaria e que eu ainda poderia vê-lo quantas vezes fosse preciso.

Nem isso era o suficiente para me fazer parar de chorar. Eu queria ele aqui comigo. E queria agora. Queria poder abraça-lo até esmagar todos seus ossinhos. Queria poder beija-lo até ele pedir pra eu parar. Queria passar a mão no cabelo lisinho dele até não sentir mais minhas próprias mãos. Queria olhar para ele por horas, sem nunca me cansar de sua beleza doce e angelical.

Eu estava arrependido por não ter feito o bastante por ele. Por não ter ficado ao lado dele em todos os momentos para tenta convencê-lo de que o lugar certo era ao meu lado. E agora eu daria qualquer coisa por mais tempo com ele. Eu faria qualquer coisa por isso. E só assim ele perceberia que eu o amo mais que qualquer outra pessoa nesse mundo é capaz de amar.

E talvez ele nunca fosse me deixar...

— Isso não é verdade, Mel. E você sabe disso. – disse o Rodrigo, passando a mão carinhosamente nos meus cabelos. Estávamos deitados em minha cama. Já era noite. — Ele é um garotinho esperto, capaz de tomar suas próprias decisões, mesmo sem saber se estar certo ou não. Mas um dia ele vai crescer e será capaz de entender muitas coisas.

— E se mesmo assim ele preferir o pai? Mesmo sabendo de tudo que ele fez. – perguntei, chorosa. Envolvendo-o ainda mais com meus braços, porque com ele eu me sentia muito acolhida.

— Eu não sei.... Nós não sabemos... Mas ele é o pai deles, não é mesmo? E isso é algo que não se pode mudar.

Se eu pudesse mudar isso, com certeza eu mudaria.

Rodrigo beija meus cabelos e eu fecho os olhos por alguns instantes.

Preciso parar de ser boba. Ele ainda é o meu filho. E nós ainda passaremos muito tempo juntos. Não há com o que se preocupar.

Vinicius entra no quarto segurando um copo com suco geladinho. Ele junta-se a nós na pequena cama do quarto.

— Trouxe para você. – ele me entrega o copo cheio.

Sento-me e bebo devagar.

— Obrigada, querido.

O telefone toca lá em baixo. Dou um pulo da cama. Mamãe grita lá de baixo por mim. E minha intuição está certa: é ele.

— Oi, querido. Como você está? – pergunto, ao sair lá pra fora com o telefone. Está uma noite linda, cheinha de estrelas.

— Tô bem, mamãe. Nós já fomos ao cinema e passeamos no shopping. O papai comprou um montão de coisas para mim!

— É mesmo? – finjo entusiasmo. Mas por dentro estou bufando de raiva do Carlos. Ele está comprando meu filho com coisas com as quais eu não posso lhe oferecer nesse momento da minha vida! — E que coisas vocês compraram?

Gustavo passa longo minutos listando tudo que seu pai lhe deu de novo: roupas, tênis, brinquedos. Tudo que ele quisesse, era só escolher.

— E agora eu vou ter um quarto só para mim! – disse ele por fim e mais uma vez eu tentei ficar feliz por ele. Porque acima de tudo, pelo menos o Carlos pode lhe dar tudo de bom nessa vida, ao contrário de mim que tenho muito pouco a oferecer além do meu amor. Mas crianças não entendem muito bem isso.

Pelo menos não o Gustavo.

Volto para o quarto me sentindo um pouquinho melhor. Mas só um pouquinho. E até consigo sorrir quando o Vinicius sugere que eu o ajude a pintar o novo livrinho de colorir que ele ganhou do tio Rodrigo.

— Vai, tio Rodrigo. Pega o lápis amarelo e ajuda aqui também. – ele olha para o Rodrigo com os olhinhos azuis cheios de ânimo.

Rodrigo entra na brincadeira com a gente e enquanto pinta inventa umas histórias malucas de quando ele era criança, causando uma série de risos em mim e no Vinicius. Em poucas horas eu já me sinto muito melhor.

As nove horas o Guto sobe para nos chamar para jantar. Mamãe preparou uma refeição dos deuses. E de sobremesa uma gelatina de abacaxi. Minha preferida! E durante toda a refeição eu até percebi que ela estava mais simpática com o Rodrigo. Puxando assuntos diversos com ele. Não sei se para me agradar porque eu estava tristinha, mas gostei do que vi e desejei que continuasse assim e que com o tempo só melhorasse.

Quando o Rodrigo foi embora pouco tempo depois, ele perguntou se eu iria querer dormir aquela noite na casa dele. Mas eu recusei. Porque sentia que queria passar um tempo a mais com o Vinicius e não perde-lo também.

— Tudo bem. Eu entendo perfeitamente. – ele me deu um beijinho na testa de despedida. — E saiba que eu realmente sinto muito pelo Gustavo e espero do fundo do meu coração que ele volte o mais rápido possível para seus braços.

— Você é sempre tão.... Fofo! – sorrio, apaixonada.

— É porque eu te amo e só quero te ver feliz.

E então ele se vai.

Vinicius e eu ficamos com o papai na sala e o Guto, vendo uns filmes. Em pouco tempo ele cai no sono e eu o levo nos braços para o quarto. Visto meu pijama, prendo meu cabelo e me junto a ele na mesma cama. Dormimos abraçadinhos aquela noite.

Acordo cedo no domingo de manhã com o barulho que vem lá de baixo. Estou sozinha na cama. Vinicius deve ter acordado cedo. Calço meus chinelos e desço para ver o que está acontecendo.

Está todo mundo na sala: papai, mamãe, meu filho, Augusto, Igor, Juliana e sua penca de filhos.

— O que está acontecendo aqui?

— Hoje é dia de jogo! – diz Juliana, toda empolgada, com a mão no barrigão prestes a explodir. Esse bebê já não deveria ter nascido? — Vamos arrecadar fundos para a igreja da cidade.

— Sério?

— Claro! E quero que você convide o Rodrigo e os amigos dele para se juntarem a nós essa tarde.

— Eu não sei se ele vai aceitar...

Sento-me em um canto, Vinicius pula no meu colo.

— É claro que vai aceitar. Ele é um garoto bonzinho e quando souber da causa vai topar na hora. Eu sei que vai.

Estão todos sorrindo para mim, como se concordassem com que a maluca da minha irmã disse. Até a mamãe parece concordar.

— O.K. Eu posso tentar...

— Não demora. O jogo começa as duas horas!

Enquanto eles discutem como isso vai dar certo, vou até a cozinha, encho uma xícara com café e passo requeijão em uma fatia de pão. Vinicius surge do meu lado, também de pijama.

— Nós vamos, não é, mamãe?

— Bom, acho que sim, filho.

— Claro que nós vamos! – ele pula, animado. — Vou falar com o tio Rodrigo agora mesmo. Ele tem que aceitar!

Sem dizer mais nada ele sai correndo.

Fico espantada.

— Ei, aonde você vai, filho?

Tento correr atrás dele, ainda com minha xícara na mão.

— Falar com ele, ué.

E então ele atravessa a rua e vai até a casa do Rodrigo.

Volto para dentro para terminar de comer.

Quando subo para o quarto para arrumar minha cama, meu celular vibra sobre o criado-mudo.

Uma mensagem do Rodrigo.

“Eu topo. Claro que topo! E os outros também. ”

Certo.... Preciso comunicar a minha irmã antes que ela comece a encher o meu saco.

Tomo um banho, visto um shortinho jeans não muito curto, uma regatinha e sapatilhas. Sem muita produção. Hoje é domingo e faz um calorão lá fora. Não há quem aguente!

Vou até a casa da Juliana e lhe dou a notícia.

— Eu sabia que ele ia topar. – ela está sorridente e as crianças fazem um barulhão sobre o carpete no meio da sala.

— Vem cá, e esse bebê aí, não já deveria ter nascido?

— Relaxa, boba. Ele vai chegar no momento certo.

Faço uma careta.

— Estava previsto para essa semana.

Faço uma nova careta, agora de espanto.

— Mas até agora não senti nada.

— Você não tem medo...?

— Não, boba. Tô tranquila! Vai dá tudo certo, não vai?

— Claro que vai.

Não sei porque, mas eu a abraço forte.

— Eu te amo, sabia?

— Nossa... O que deu em você? Está tão sentimental!

— Estou.... Apaixonada. – sorrio, sem graça. — E com um pouquinho de medo de perder as pessoas que amo.

Dessa vez ela que me abraça.

— Eu também te amo.

Depois de ajudar o Vinicius com o banho e a trocar de roupa, nós vamos caminhando todos juntos até o campinho mais próximo. Onde os garotos vão jogar. É um campinho decadente. Quase não há grama. Mas como a Ju disse: dá para o gasto. Afinal, é só uma brincadeira para uma boa causa.

Do outro lado do campo todos os garotos que toparam jogar, incluindo o Rodrigo, o Igor, meu irmão, o Ricardo, o Tiago, o Bruno e até mesmo o Patrick; estão reunidos, dividindo os times e os coletes.

Rodrigo fica com o colete azul. As únicas pessoas que conheço em seu time é o Ricardo, o Patrick e o Bruno, marido da Alícia. O meu irmão e o Tiago ficaram no time do Igor, o marido da Ju, com os coletes vermelhos.

Mamãe, eu, Juliana e Alicia nos acomodamos pertinho da grade. Pois não há arquibancadas. Mamãe bem que insistiu para trazermos umas cadeiras, principalmente pra Ju, mas ela recusou e disse que era bobagem. Ela estava ótima. Mesmo com a barriga prestes a explodir a qualquer momento.

As crianças estão por perto. Correndo de um lado para o outro. Fora a gente, há mais umas trinta pessoas em volta. Torcendo para sua família e amigos. E o sol estar de rachar essa tarde.

O juiz, meu pai, apita dando início ao jogo. É quando finalmente as crianças param por um momento para acompanhar o jogo. E mesmo não entendendo nada de futebol, não consigo tirar os olhos do Rodrigo. E logo percebo que ele é muito bom nisso.

Não consigo imaginar no que ele não seja bom.

Vinicius começa a berrar, torcendo pelo tio Rodrigo. Os filhos da minha irmã gritam pelo pai. E o pequeno Davi, o melhor amigo do meu filho e filho da minha melhor amiga, não sabe se torce pelo pai do time azul ou se torce para o Tio Guto do vermelho.

Em pouco tempo, Juliana entra na vibe das crianças e começa a berrar também. Do meu lado. Ela grita tanto que acho que a barriga dela vai estourar de vez. Começo a ficar preocupada.

Não dá nem vinte minutos de jogo e começa uma grande confusão. Uma falta atrás da outra. O pessoal está levando esse jogo muito a sério. E o time azul só está ganhando com dois pontos na frente. Não sei o porquê de tanta violência. Eles se empurram como se essa fosse a última coisa que eles tivessem que fazer na vida.

Isso me assusta!

Há um momento que o papai tem que parar o jogo, pois cometeram uma falta gravíssima no Patrick. Ele sai mancando no campo e é substituído. Não demora muito para ele vir na minha direção, sorrindo de orelha a orelha.

— Eu pensei que você não jogasse. – comento, risonha. Abaixo-me e pego uma garrafinha de água para ele na caixa de isopor aos meus pés.

— E porque você pensou isso? – ele bebe água, deixando escorrer pelos cantos da boca. — Só porque eu sou gay não posso jogar futebol? – ele parece sério e ofendido.

— Não é isso...

— Tô brincando, Mel. – ele volta a sorrir. — Na verdade, eu não jogo. Mas seu filho é uma gracinha e conseguiu me convencer a participar. O que o pessoal não entende é que eu sou um pouquinho sensível demais.

Caio na risada.

Volto minha atenção para o jogo quando o papai apita para finalizar o primeiro tempo. Alguns garotos saem pelas laterais, cansados. Outros deitam no gramado, outros se aproximaram para oferecer água ou qualquer outro auxilio.

Parece que está tudo bem de novo.

Quando o Rodrigo se aproxima, Vinicius o bombardeia de perguntas sobre o jogo. Eles ainda estão ganhando. Agora por um ponto apenas. Não digo, mas estou torcendo muito por eles. Rodrigo deve saber disso. Porque ele não para de me olhar com aquele sorriso e aquelas covinhas enquanto dá atenção ao meu filho e o resto das crianças.

Ele é tão bonito! Mesmo todo suado, com o cabelo louro bagunçado e grudento.

Em quinze minutos o jogo recomeça. Antes de voltar para o campo Rodrigo me rouba um beijo, mesmo diante de todos, e eu fico vermelha de vergonha. A torcida ao meu lado parece mais animada agora. E eu só quero muito que isso acabe logo, porque está muito calor aqui.

Aos vinte e seis minutos Rodrigo faz um gol e o dedica a mim. É quando acontecem duas coisas que ninguém esperava. Primeiro, um cara desconhecido do outro time se aproxima do Rodrigo enquanto ele comemora com os amigos e o empurra forte e ele cai com tudo no chão. E ao meu lado, Juliana solta um gritinho de dor e com os olhos arregalados ela diz que a bolsa estourou.

AI.MEU.DEUS.

E agora?

O jogo é interrompido. Igor, meu irmão e o papai vêm correndo ajudar a minha irmã. E os amigos do Rodrigo tentam ajudá-lo a se levantar. Mas foi mais sério do que pareceu. Ele sente muita dor na perna. E eu não sei o que fazer. Estou estática! De um lado minha irmã está prestes a parir e do outro lado meu namorado parece ter quebrado a perna.

Alguém chamou duas ambulâncias, que chegam mais rápido do que eu poderia esperar.

— Eu vou com ele. Não! Eu vou com ela.

— Filha! – mamãe me chacoalha, tentando me tirar desse transe. Não sei o que deu em mim. — Seu pai e o Igor vão com a sua irmã. Vou levar o Vini para casa. E você vai com o Rodrigo.

Certo. Eu vou com o Rodrigo.

Subo na ambulância e eles saem as pressas.

Estou tão preocupada com a minha irmã!

— Vai dá tudo certo. – Rodrigo murmura, sorrindo. Ele está deitado em minha frente em cima de uma maca com a perna imobilizada. — Ela vai ficar bem, Mel.

— Mas e você? – pergunto, desesperada. Seguro a mão dele com mais força do que deveria. — Me desculpe.

Começo a chorar.

O que diabos deu em mim?

— Tá tudo bem, meu amor. Eu só torci a perna.

— Na verdade, foi uma fratura bastante séria. – disse um dos enfermeiros que estava ali, me assustando ainda mais.

— Dói muito? – perguntei, chorosa. Sem soltar a mão dele nem por um segundo.

— Não muito. – ele faz uma careta engraçada. — Devo ter caído de chão jeito sobre a perna. Vou ficar bem.

Chegando ao hospital, Rodrigo foi encaminhado rapidamente para um médico especialista. Eu fiquei inquieta, andando de um lado para o outro, muito preocupada, torcendo para que nada de ruim tivesse acontecido com ele.

Então eu vi meu pai sentado por ali. Parecia estar rezando. Sentei-me ao lado dele e o abracei, ainda com lágrimas nos olhos.

— O Igor entrou com ela na sala de parto. – disse ele.

Não tínhamos muitas opções além de aguardar. E aguardamos por muito tempo. Mais tempo do que eu gostaria. Mamãe não parava de ligar. Alícia também perguntou para saber das coisas, mas eu não tinha nenhuma informação ainda.

Um bom tempo depois o Igor apareceu com notícias.

— São gêmeos! – ele anuncia com os olhos cheios de lágrimas.

— O quê?

Quase caio dura para trás.

Papai e eu temos permissão para entrar e ver a minha irmã no quarto, que ainda está meio mole, meio grogue, toda sorridente e suada, com o cabelo para todos os lados.

Há um momento em que a enfermeira entra com dois embrulhos de cada lado do braço. São os bebês! E eles são idênticos aos meus filhos. Como isso pode ser possível? Não consigo parar de rir e todos os problemas parecem sumir naquele momento.

— Filha, estão procurando por você á fora. — avisa meu pai.

Desesperada, saio correndo do quarto.

Esqueci do Rodrigo!

Ele está me esperando lá fora, na sala de espera, sentado. Quando me aproximo, ele se levanta. Sorrindo! E está com uma das pernas engessada e andando com o auxílio de muletas.

— Não foi nada...

Abraço-o forte.

Agora sem lágrimas.

— Graças a Deus!

— Mas vou ficar afastado do trabalho por dois meses.

— Não tem problema. – olho para ele atentamente, com a mão no seu rosto. — Você sempre cuida das pessoas, está na hora de alguém cuidar de você. E você tem a mim.

Ele se inclina com dificuldade e me beija carinhosamente.

— Eu te amo, sabia disso?

— Sabia. Mas é sempre bom ouvir de novo.

Sorrimos um para o outro.

Estão todos olhando para nós.

E eles não sabem o quanto somos sortudos por termos um ao outro.

— Vamos para casa? – pergunto.

— Claro que não! Quero ver seu novo sobrinho.

Não acredito! Como ele consegue? Mesmo depois de tudo...

— Você não vai acreditar! – enquanto caminhamos, tento ajuda-lo com as muletas. — São dois! E eles são a cara dos meus filhos!

— Está brincando!?

— Você vai ver com seus próprios olhos!

Notas finais
Gente, que loucura hahahaha E aí, o que vocês acharam?