Apenas Sonhos

1 O verdadeiro...


Notas iniciais
A fanart da capa foi feita por @Ha no twitter, ou X, não sei.

Near estava na biblioteca, sentado na frente de um computador, em seu habitual silêncio ensurdecedor. Isso nunca fora algo incomum, jamais seria, Near passava mais tempo na biblioteca do que no seu próprio alojamento. Nada fora do comum, o cheiro de livros antigos, seguido de risos das crianças de Wammy's, abafados pela distância que Near sempre manteve.

Parecia qualquer outro dia, tanto que parecia real.

— Você é assustador, Near. — Veio uma voz muito bem conhecida, uma que Near escutava todos os dias, porém dessa vez o surpreendeu, mesmo que minimamente, mesmo que ele não tenha demonstrado. Era Mello, surgiu ali despretensiosamente, o que era estranho, conhecendo o bom e velho Mello, ele nunca se permitiria fazer uma entrada tão pouco triunfal, principalmente para Near, e muito menos dizer palavras sem um pingo de veneno.

Ele já ouviu tal intitulação vindo do outro garoto, mas nunca com um tom tão... Simples.

— Uma pena, nunca esteve nos meus planos assustar você. — Tão criticamente direto, sua fala cortante sempre irritava Mello, então Near estava preparado para uma resposta fria e odiosa. Era parte de sua rotina, afinal.

Como se não fosse o bastante, aquele Mello, soltou uma risada, tão curta, que Near inconscientemente virou seu olhar para ter a total certeza de que ouviu certo, e que não era sua mente lhe pregando uma peça.

Mello estava olhando diretamente para ele.

A visão de um Mello calmo, simplesmente sentado perto de Near, tão obviamente consciente que o próprio estava ali, e mesmo assim tão alheio a sua presença, não aparentando planejar algo agressivo. Fez Near se sentir um pouco constrangido.

— Você não me assusta, de jeito nenhum. — Veio a resposta sem zombaria. — Apenas me impressiona que você consiga passar tanto tempo sério. Como consegue? — Se Near estava constrangido, agora estava desconfortável.

Ele olhou diretamente para Mello agora, que estava sentado muito mais perto — quando foi que ele havia se aproximado? Near não sabia dizer — pela proximidade, Near conseguiu distinguir com clareza sua expressão, era um sorriso pequeno de canto, emanava uma gentileza tão genuína que parecia bizarro. E ele ainda estava olhando para ele, com lindos olhos cor safira, sem nenhuma repulsa aparente.

Mello nunca falou assim com ele. É claro, desde sempre a relação deles foi montada assim, com Mello nutrindo ódio e uma grande aversão por Near.

Esse não era o Mello que Near conhecia. Mas quando ele falou algo como “Ei, me ensine a fazer isso”, como uma criança curiosa, como alguém totalmente não Mello, Near se sentiu estranhamente cativado e envergonhado.

Esse era um Mello totalmente diferente. Um Mello que falava e ouvia. Um Mello que olhou diretamente para ele e sorriu. Um Mello que não voltou a sua mente de volta para sua rivalidade unilateral. Um Mello que não apenas falava da sucessão. Um Mello inalcançável.

Foi... Um bom Mello.

Em algum momento de lucidez, no qual Near já não se lembra com clareza, ele tentou questionar Mello se as coisas poderiam ser assim, se ele poderia findar essa rivalidade, e talvez ser seu...

Ele tentou dizer algo, apenas para descobrir que a acalorada conversa acabou, e que ele estava no frio enervante de seu quarto.

Foi uma revelação pouco surpreendente para Near. Mas por algum motivo, seu corpo vibrou com algo novo, além do óbvio constrangimento.

Aquele não era Mello, era uma projeção de sua mente. A complexidade fosca de sua conversa com ele foi algo que Near gostaria de realmente esquecer por completo. Achou ridículo o fato de ter se permitido gostar de algo tão fantasioso como aquele Mello.

— Sonhos são sonhos. — Ele se convenceu assim, lógico e simples, do jeito que tinha que ser. —Então eles ficarão apenas na minha cabeça. Eles permanecerão desconhecidos. — Levantou-se e seguiu seu dia calmamente.

Andou pelos corredores de Wammy's, e o clima nublado de Winchester não o ajudou no plano de apenas não divagar pelos inúmeros significados do seu sonho. Dirigindo-se para a biblioteca, como sempre, ele estava subindo as escadas, quando ouviu ao longe uma voz conhecida e esperada, afinal, era rotina. E ela estava acompanhada de outra, era a de Matt, como sempre acompanhando Mello pelos lugares, isso também era rotina.

Mello silenciou a própria voz quando avistou Near, a expressão se fechando tão automaticamente para ele. Assim como em qualquer outro dia.

Não houve um contato visual, mas Near pôde perceber que na face de Mello, havia um desgosto profundo, que poderia ser identificado a quilômetros de distância.

— Pare de olhar para mim com esses olhos, Near, você é assustador. — Seu nome fora pronunciado com tamanha amargura, seu tom carregava uma aversão imensurável. Cada palavra saída com força, emanando veneno pelo ar. Nada com que Near não estivesse acostumado.

— E você é o Mello. O verdadeiro Mello. — Near pensou simplesmente, seu rosto não vacilando nenhuma vez, enquanto subia em direção ao seu destino, e ouvia os dois amigos voltarem a conversar.

Ele iria ignorar o seu sonho, a sua invenção mental, e tudo voltaria a ser normal.

•

Como se fosse uma maldição cruel implantada sobre ele, se tornou impossível ignorar o seu suposto rival dos sonhos.

Seus dias tornaram-se insuportáveis. Ter que escutar Mello sendo moralmente agressivo com aquele seu jeito desdenhoso e continuar sendo repulsivo e indiferente a tais ações, com a qualidade de pessoas que se abominam — e a mesma qualidade que lhes dava uma relação palpável — depois do mesmo ter sonhado outro sonho deles como amigos íntimos, era deplorável demais para suportar.

Se tornaram incontáveis as vezes que Near acordava com reconhecimento tardio de que estava o tempo todo no seu quarto, sozinho, e nunca conversando sobre bobagens do dia-a-dia inocentemente com o Mello dos sonhos.

Near nunca havia visualizado Mello como algo além de um rival unilateral, e sequer pode apontar o dia exato que começou a sonhar com as coisas sendo diferentes entre eles. E como a criatura orgulhosa que é, jamais iria culpar a si mesmo, afinal, eram apenas sonhos.

No final do dia Near estaria acordado, pois sonhos são apenas sonhos. Então eles permanecerão falsos.

Não importa o quanto ele tenha apreciado conversar com Mello verdadeiramente. Ignoraria o fato de sorrir em seus sonhos, junto com Mello, depois de dizer algo honesto e não ser cortado pelo outro garoto.

Guardaria em segredo, o quão imensurável era sua admiração quando Mello olhava diretamente para ele, fixamente para ele com seus olhos. Essa parte de seus sonhos ele sempre lembrava com exatidão.

Quando Mello olhava para ele, ele sentia algo, algo que já não lhe enchia de constrangimento. Ele se sentia feliz, mesmo que aqueles olhos que sempre estão mirando diretamente para os seus não carreguem a mínima veracidade, Near se sentia verdadeiramente feliz.

Ele sonhou com Mello novamente naquele dia. Diferente dos outros, não houve diálogos, não houve provocações amigáveis, não houve nada.

Apenas Mello o encarando com uma emoção desconhecida, um pouco perto demais de Near, de um jeito que o deixaria desconfortável, se não estivesse tão absorto em seus olhos, em como ele conseguia ver seu pequeno reflexo naqueles olhos azuis, e como aquilo parecia real.

Quando desceu para jantar naquele mesmo dia, o verdadeiro Mello não olhou para ele nem uma vez.

Notas finais
Será que alguém neste site ainda existe? E mais difícil ainda, lê fanfanfic MeroNia? É, eu acho que não.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!