Apenas O Tempo Falará...
20 Rhagaer
Notas iniciais
- A mamãe era corajosa, papai? – perguntou Jon, no auge dos seus cinco anos e deitado na cama, pronto para dormir mais cedo naquela noite. Rhaegar teria que esperar a menina Stark chegar durante a madrugada, assim como Arthur Dayne mandara avisar quando e que hora chegariam na Fortaleza Vermelha com a menina. Tudo ocorreu como o programado, até mesmo o joguinho que ele fez com Eddard Stark para que ele virasse Mão deu certo.
Observou o seu filho. Ele tinha as mesmas características de sua Lyanna, os olhos cinzentos eram espertos e o cabelo era escuro, pesado e um liso volumoso. Apenas o nariz fino e longo era de Rhaegar, tudo ali pertencia à Rainha Loba. Ambos curiosos, sim. Muito curiosos, até.
Rhaegar sorriu, apertando a bochecha alva do filho levemente.
- A mulher mais corajosa que já existiu.
Jon sorriu de lado, ele não era tão fácil para sorrir.
Cria minha.
- Acha que ela gostaria de mim se estivesse com a gente? – perguntou carente, com os olhos de cachorrinho abandonado.
Isso me preocupa.
- Claro que sim, alguém te falou que não? – perguntou Rhaegar, tentando disfarçar a raiva. Ele odiava quando os criados falavam algumas coisas e pensavam que Jon era pequeno demais para prestar atenção. Todos eram invejosos pois Jon tinha tudo no mundo que eles gostariam de ter.
‘Pequeno’.
- Promete que não vai machucar ela?
Esse é o problema, Lyanna era bondosa demais.
Jon não pode ser bondoso demais.
- Se pede, eu prometo.
- A Septã falou que a mamãe não gostaria de ver um Stark brincar no mesmo lugar que meu avô e tio foram mortos – respondeu com um carinha triste, despedaçando o coração de Rhaegar. Odiava quando as pessoas jogavam na cara de Jon o que aconteceu no passado, ele não tinha culpa de nada e muitas vezes pensavam que ele estava ciente de como tudo aquilo começou.
Esperarei mais algum tempinho até ele me compreender.
Rhaegar não suportaria ver o filho julgando-o.
- Não vou fazer nada de mal à ela, apenas vou ter uma conversa séria, que tal? – Você que me espere, Septã. – Mas vamos mudar de assunto, o que aprendeu hoje?
Jon estava sonolento, mas seguia o mesmo esquema desde que nasceu: conversa entre pai e filho após um longo dia traiçoeiro na Fortaleza Vermelha. Tudo funcionava melhor assim, Varys era leal pois Rhaegar tinha controle sobre a vida pessoal e o passado não tão limpo assim do eunuco. Varys dava trabalho pra controlar, mas valia todo o esforço.
Tirar dinheiro do Mindinho não é fácil.
Mas apenas Rhaegar sabia como deixar os dois nos lugares dele.
Eu venci o jogo dos tronos, eles tentam me vencer.
Por isso que todo dia finalizado em Porto Real significava mais uma vitória.
- Syrio quer me fazer dançar – respondeu timidamente, fazendo o Rei sorrir.
‘Dançar’.
Lembrava tanto a infância dele...
- E você quer dançar? – perguntou Rhaegar, divertindo-se com o encabulamento do filho que estava com vergonha de falar que estava dançando.
‘Dançar’.
- Não é uma dança de mulher, papai – Jon tentava-o convencer timidamente de que não gostava de coisas de menina, diferentemente de alguns Tyrell que andavam frequentando a Fortaleza Vermelha nos últimos anos – É a dança da espada de Bravos.
- Eu sei que é, filho – concordou ainda com vestígios de um sorriso em sua face e, alisando o cabelo escuro do filho, se reclinou e deu-lhe um beijo na testa. Ele estava prestes a dormir – Agora vai dormir, sua prima vai chegar hoje e amanhã você vai conhecê-la, está bem?
Ele assentiu e se remexeu na cama, Rhaegar o embrulhou devagarosamente para que ele não acordasse de repente e levantou-se, saindo dos aposentos do filho. Do lado de fora, Oswell estava de guarda na porta. Rhaegar não conseguia dormir tranquilo se nenhum dos seus cavaleiros de manto branco estivessem guardando o filho, as traições eram tão constantes que o Rei acostumou-se em fazer sua própria fortaleza dentro da Fortaleza Vermelha.
Oswell fez reverência habitual ao vê-lo.
- Boa noite, meu amigo – falou Rhaegar amigavelmente, os seus únicos amigos são exatamente os que são juramentados como sua guarda pessoal.
Saindo dali rapidamente, ele se pegou pensando em como Viserys poderia estar em Dorne com a Víbora. Oberyn havia mandado uma carta para o Rei relatando que a rebeldia de seu irmão mais novo poderia causar um estrago para o mesmo, muitas vezes tido como inconsequente, Viserys parecia estar tentando tirar Rhaegar do sério. Era bem típico de um Targaryen dar uma demonstração de loucura embora o seu irmão estava sendo mais idiota do que louco.
Fiz bem em mandá-lo para Dorne.
Oberyn não tinha receio em chamar a atenção de Viserys, diferentemente de todos de Westeros.
Viserys precisa aprender que a arrogânca precede o fracasso. Tem que aprender desde cedo.
Tirando esses pensamentos da mente, Rhaegar dirigiu-se até a sala do Trono de Ferro. Não havia ninguém ali naquela hora, deixando-o em paz com os seus pensamentos nostálgicos e, consequentemente, cheios de culpa. Pensamentos que logo deixaram de lhe trazer paz. Esta paz interior não era palpável, entretanto, o mundo dá voltar. Iria criar a prentendente de Robert Baratheon, sendo outra punição de guerra (e pela existência deste sentimento naquele viado) e trazendo Lorde Stark para Porto Real de seis em seis meses.
Só que o que Rhaegar realmente pretendia era criá-la como irmã de Jon, afinal, se Robert Baratheon a quer tanto como esposa, significa que poderia haver uma semelhança considerável entre elas. Então porque não criá-la como filha?
E, quem sabe, esse noivado seja anulado com o tempo.
A história não iria se repetir, não deveria se repetir.
Lorde Stark deveria saber que não é correto repetir os mesmos erros do passado.
Mas criar uma loba na Fortaleza Vermelha não era fácil, Daenerys não era uma menina muito sociável e que não gostava de muita agitação perto de si. Rhaegar teria que criar duas meninas e um menino, este o futuro Rei. O correto era que o seu filho tenha algum conhecimento dos Stark, servindo assim a Mão do Rei e a prima, agora filha de criação.
Catelyn Stark implorou a minha ajuda, a menina caiu do céu para mim.
Poderia ser algum sinal.
(...)
Sentado no Trono de Ferro há algumas horas, Rhaegar sabia que já passava de duas da madrugada mas o sono não vinha. Ele nunca dormia, nunca tinha sono e, quanto tinha, não dormia por mais de cinco horas. Os pesadelos eram constantes, geralmente mostrando os seus antepassados o culpando pela morte do pai e os antepassados Stark o amaldiçoando por separar a família deles novamente. São sonhos que o perturbava profundamente, então ele preferia manter-se acordado.
Em seus pensamentos melancólicos, Rhaegar estava esperançoso que a chegada dessa menina poderia trazer um pouco mais de alegria para ele e Jon. Daenerys era carinhosa mas não permitia que Jon fosse parte da sua família por causa da aparência, ela sempre pensava que Rhaegar o achou em qualquer lugar de Westeros para tomar lugar dos ‘verdadeiros’ Targaryen.
Viserys é manipulador.
Passos apressados ecoaram pelo corredor, chamando a atenção do Rei.
Dois.
Tranquilo, Rhaegar sabia quem eram.
Após alguns segundos, Arthur e Barristan entraram na sala do Trono de Ferro rapidamente, seus passos eram largos e a postura, como sempre, intimidava a quem poderia passar entre os dois. Segurando um pequeno corpo envolto a muitas camadas de pano azul-escuro, Arthur aproximou-se com cuidado para não acordar a menina. Barristan fez a reverência e, quando Arthur deu indício de fazê-la, Rhaegar fez um sinal com a mão para que não a fizesse. A menina poderia acordar e Rhaegar pegou-se ansioso por vê-la, por analisá-la e ver se realmente haviam semelhanças entre ela e a Rainha Loba.
- Espero que a viagem não tenha sido tão ruim assim – comentou o Rei, levantando-se e indo ao encontro de Arthur, que parecia um tanto quanto cansado... crianças... – Vocês dois estão bem?
Eles assentiram, Barristan parecia estar mais vivo do que Arthur, que mesmo assim deu um sorriso de lado. A menina ainda estava aninhada em seus braços e encoberta por um véu acinzentado.
Cores dos Stark.
- Essa menina é bem agitada, Vossa Graça – comentou Arthur, tirando o véu de cima da menina e entregando-a aos braços fortes de Rhaegar, que logo se prontificou.
Ele estava estranhamente feliz mesmo sem ter uma noção se ela parecia ou não com a sua Rainha Loba. Segurou-a com cuidado, era menor do que o mesmo esperava e até mais leve.
Lyanna era pequena e leve...
- Obrigado, meus amigos – agradeceu sinceramente, estava se sentindo estranho mas... se sentia bem consigo mesmo. Era difícil se sentir assim. Os dois assentiram obedientemente, como sempre – Creio eu que Eddard Stark tentou achar falhas em minha mensagem ou meus argumentos, não?
Barristan assentiu.
- Não houve como recusar, o Baratheon chegaria em poucas horas e ele tinha que decidir rapidamente o que poderia fazer conosco em Winterfell – explicou Barristan, respirando fundo. Com olheiras e a barba por fazer, Rhaegar notou que aquele ali precisava de um descanso imediato. Já Arthur... – Perdoe-me mas tenho que dormir, Vossa Graça. A menina chorou muito depois que uma infeliz Lady Stark nos entregou-a, coisas de mãe e filha.
O coração de Rhaegar batia animadamente.
Ele queria criar aquela menina.
- Vá descansar, meu amigo.
Barristan se retirou, mas antes fez a típica e profunda reverência de completo respeito pelo Rei.
Arthur Dayne suspirou, também estava exausto.
- Lorde Stark foi um obstáculo e tanto, aquele homem é teimoso assim como a Rainha Loba – comentou de bom humor enquanto Rhaegar assentia, agora sim examinando a menina devidamente e com calma.
Terminando de afastar o véu acinzentado, ele examinou-a lentamente.
Era uma legítima Stark, para o alívio do Rei.
Uma pequena tocha de cabelos escuros estava crescendo na cabecinha da menina, que encarava-o com curiosidade. Uma pele alva como a neve de Inverno, o rosto comprido dos Stark puros, olhos cinzentos extremamente curiosos, mãos e pés pequenos e um corpinho naturalmente magro. Analisando-a melhor, era fácil concluir que seria uma menina rápida por conta de sua leveza. Esguia, lembrava a sua Rainha Loba. Nariz pequeno, olhos não tão pequenos assim e bochechas rosadas, Arya Stark o dava a impressão que quebraria a qualquer momento.
Mas era apenas uma impressão, Rhaegar estava acostumado com a força de Daenerys e não com uma nortenha esguia. Daenerys, diga-se de passagem, não tinha um corpo magro a ponto de preocupá-lo quanto à isso.
Não compare-a com Dany, Rhaegar. Nada de comparações. Nem mesmo entre ela e Lyanna.
Ainda olhando para ele com curiosidade, o mesmo notou que o cabelo prateado dele chamava a atenção mais do que qualquer coisa. Sorrindo discretamente, ele se pegou estranhamente empolgado. A questão era:
Se eu crio minha irmã mais nova como minha filha, porque sinto esta animosidade ao criar outra menina? Sim, percebe-se que é bem ligada à minha Rainha Loba...
Rhaegar não queria admitir que a queria como filha por querer pensar que se Lyanna estivesse viva, poderiam ter uma menina bem parecida. Era doentio, ele sabia disto, só que neste pequeno jogo, quem ganhou foi ele...
...e não o viado.
- Chegou a encontrar o viado?
Arthur Dayne assentiu, dando um sorrisinho malicioso. Como melhores amigos, o cavaleiro de manto branco era um dos únicos que poderia agir perto do Rei com muita intimidade. Partilhando da vários segredos desde a infância, Arthur Dayne sabia exatamente como lidar com Rhaegar, que agradecia aos deuses a ter alguém a confiar os seus filhos.
- A ama de leite se atrasou e ele nos viu saindo de Winterfell.
Rhaegar ergueu uma sobrancelha, surpreso.
- E ele não fez nada?
Arthur deu de ombros.
- O homem é um aleijado, o que poderia fazer contra nós? – perguntou suspirando visivelmente cansado da viagem – Sei que o Lorde Stark tentou de todas as maneiras atrasar a entrada do idiota em Winterfell, Lady Stark é uma mulher de fibra, meu amigo.
- O que ela fez? – perguntou curioso. Geralmente os Tully eram bem cautelosos, não causavam confusão por nada.
- É pode ter nascido uma truta mas o casamento a fez loba, quando ela ia nos entregar a menina, o viado foi até ela para, segundo ele, ‘fazê-la criar juízo’ – começou a resposta, interrompendo-a com um bocejo prolongado enquanto o Rei observava a menina novamente, pensando em como a vingança era doce – Antes do Lorde Stark ficar entre a discussão deles, o viado falou que era informante da coroa no Norte. Foi a gota d’água de Correrio, ela deu um tapa na cara dele.
Rhaegar sorriu divertidamente.
- Ela está crescendo no meu conceito cada vez mais – comentou rindo ao imaginar a cena em que uma jovem sulista em Winterfell que tem mais poder do que um Baratheon poderia sonhar nestes últimos tempos, enfrentando o antes conhecido como ‘Touro da Tempestade’. No fundo poço... – O que Lorde Stark fez?
- Retirou a mulher do salão e nos despachou logo em seguida sob violentos protestos daquele aleijado – ele bocejou novamente.
Rhaegar assentiu levemente, voltando o véu acinzentado para proteger a menina e fazê-la dormir.
- Ela dormirá em meus aposentos esta noite, amanhã organizarei melhor as coisas pois como percebo, você está dormindo em pé.
Arthur Dayne assentiu, sem-graça.
- A viagem foi bem cansativa, bebês dão muito trabalho.
Rhaegar assentiu novamente, sorrindo.
- Sei disto, entretanto, caríssimo amigo, minha família vem em primeiro lugar e qualquer um que entrar em meu caminho...
...se arrependerá.
Fale com o autor