Apenas O Tempo Falará...
12 Rhaegar
Notas iniciais
Pode parecer incrivelmente frio, mas Rhaegar nunca se desesperou em relação ao nascimento dos seus filhos já mortos, Rhaenys e Aegon. Parecia ser tão distante, em um outro século, que ele havia desacostumado com a perspectiva de perder a sua lobinha com o ‘lobo-dragão’ deles ao mesmo tempo. Ele realmente estava se desesperando quando viu o sangue se espalhar pela cama enquanto tentava mantê-la segura e consciente ao seu lado. Toda mulher tem medo de uma morte tão cruel como a da cama de sangue, mas parecia que Lyanna não se importava com aquilo.
O Rei já havia alertado seus cavaleiros, reforçando a segurança no lugar, afinal, tanto ele quanto a sua Lyanna estariam vulneráveis em qualquer hipótese. O coração do não tão último dragão estava acelerado e, pela primeira vez em toda a sua vida, se pegou pensando em como poderia levar a sua vida sem sua família? Talvez ele não suportaria...
Deixe isto para depois.
Retirou os lençóis de cima dela e desamarrou a camisola dela em questão de segundos. Observou os olhos cheios de dor que ela lhe lançava, aquilo fazia o coração de Rhaegar tremer nas bases. Pegou a jarra d’água em dois passos, limpando todo o sangue de cima dela, assim como a sua mãe, Rhaella Targaryen, o ensinou quando seus falecidos filhos nasceram. Rhaegar sabia que o pavor que sentia vinha de um cheiro que ele sempre sentiu nos campos de batalha: cheiro de morte. Ele tinha que se esforçar para não tremer enquanto a ajuda não chegava.
Seu coração deu um salto quando sua lobinha fechou os olhos com uma aparência cansada, exausta. O que Rhaegar faria no mundo sem Lyanna e Jon?! Tomou o rosto dela com as mãos delicadamente, mas afobado, para ver se ela acordava. Após alguns segundos de terror, Lyanna abrira os olhos. Rhaegar se aliviou, ainda mais quando toda a ajuda chegara, a Septã com as servas para auxiliar no parto de sua lobinha. Eddard Stark chegara de qualquer jeito, estava sem uma bota e o casaco estava rasgado (?). A velha Septã aproximou-se rapidamente, pedindo permissão para tocar na Rainha.
Ele assentiu.
Sua mula, você já devia estar em cima dela antes mesmo de me ver.
As servas se aproximaram com vários tecidos e ervas, todas elas querendo mexer em sua Rainha. O coração dele batia acelerado. Foi forçado a sair de perto dela para as servas continuarem o trabalho, indo em direção aonde o irmão mais velho vivo de sua lobinha estava. Era um jovem verde, mas já com rugas este Lorde Stark de Winterfell.
Rhaegar sabia que o desespero estava em seus olhos violeta, sabia o quanto o dragão em si estava agitado pois se os deuses reivindicarem a sua lobinha, com quem lutaria? Quem mataria? Quem queimaria?
Não, não seja tão pessimista.
Eddard Stark, Robert Baratheon, Norte, Westeros, Targaryen... nada mais importava.
Algo ruim estava eclodindo dentro dele.
Lyanna começara a gemer de dor, causando o desespero do Rei Dragão. O sangue não parava, mesmo sendo tratado e realizado o início do parto. O relógio estava certo, não havia atrasado na ajuda na hora do parto e todas elas apareceram quase que imediatamente... então porque raios Rhaegar não via melhora alguma?
A fúria tomava conta do dragão.
– Vossa Gr...
– Só quero Lorde Stark e as parteiras nesta tenda, Arthur – ordenou friamente, demonstrando que não estava para qualquer tipo de distração naquele momento. A fúria do dragão estava começando a se mostrar pois todos ali dentro sabiam que Lyanna, a sua Rainha Loba, não estava parando de gemer de dor enquanto o sangue não parava de sair. Todos ali seguiram a ordem imediatamente, sem sequer falar nada uns com os outros.
Todos estavam de cabisbaixos.
Rhaegar engoliu em seco, aproximando-se da sua lobinha, que sorriu fracamente ao vê-lo enquanto as parteiras cuidavam dela.
O coração de Rhaegar nunca se apertou tanto em sua vida de puro sofrimento camuflado. Lyanna, a sua loba selvagem, estava pálida e fraca.
Minha loba-gigante nortenha.
– Nunca entendi o que viu em mim, meu amor.
Não, nada disso, Lyanna. Não faça isso.
O olhos do dragão lacrimejaram, a Septã começava a deixá-la em uma posição para um parto de emergência. Rhaegar não conseguia pensar naquele momento, apenas... apenas vivia o sofrimento como nunca viveu.
O Rei se agachou ao lado dela, acariciando o seu rosto pálido que logo se contorceu de dor à medida que o parto se desenvolvia.
– Vi uma loba-gigante nortenha – foi a melhor coisa que ele conseguiu pensar, afinal, como Rhaegar estava conseguindo pensar?
Ela sorriu novamente, depois de uma careta de dor. Os olhos estavam exaustos, mas o sorriso continuava lá. Ele sempre vira uma beleza selvagem nela, como nunca tinha reparado o quanto Lyanna poderia ser mais vulnerável do que uma mosca?
Acostumei-me mal ao vê-la sempre forte...
– Já eu vi um dragão melancólico.
Ele assentiu imediatamente, assim o parto havia literalmente, praticamente e dolorosamente iniciado. Rhaegar segurou na mão feminina dela, reparando que tinha um pequeno calo por causa das rédeas do cavalo nesta última cavalgada dela por todo Sul. Aquilo matava Rhaegar toda vez que pensava, mas nunca colocaria a vida dos cavaleiros de manto branco em perigo.
Do nada, pegou-se pensando em sua mãe, Rhaella Targaryen.
Diziam que a gravidez dela era de risco.
Mas o que ele estava pensando?
A cama de sangue pode ser cruel, Rhaegar. Mais cruel que uma batalha, uma guerra dos tronos.
A mão dele tremia.
– Um dragão que foi muito feliz de ter te encontrado, meu amor – falou aleatoriamente, sem saber o que pensar, como agir ou o que fará. Parecia que Westeros havia desaparecido atrás de si, parecia que seus problemas estavam minúsculos em comparação ao que o seu coração sentia, o seu sofrimento latejava e a ira queimava profundamente em seu ser – Uma loba-gigante me proporcionou uma felicidade que nunca antes senti, lobinha.
Ela escutara, ele sabia que sim.
Não havia como a Rainha pensar naquele momento, apenas segurou a mão do Rei fortemente quando a Septã começou a massagear o ventre dela na tentativa de acelerar o parto... estava mais que claro que Lyanna corria vários riscos, querendo ou não, ela sofreria daquele jeito. O Rei se sentiu extremamente culpado por tudo quer fizera: dezenas de milhares morreram em uma guerra por causa do amor deles, ele impôs a morte do pai e do irmão mais velho da sua lobinha, sem contar que matara acidentalmente quase todos os Targaryen.
Como posso viver com isso?
– Vossa Graça, perdoe-me mas preciso que o senhor se afaste um pouco – pediu a velha Septã. Rhaegar obedeceu imediatamente quando viu a expressão facial dela. A Septã estava em alerta, completamente ciente das responsabilidades daquele parto, o que isso significava tantas e tantas coisas para si – Vamos, minha Rainha, não perca o fôlego.
Rhaegar apenas deu um passo para trás, sem saber o que fazer.
Quem ele poderia matar?
Queimar?
Os segundos se passavam como se fossem meses, o sofrimento do Rei estava cada vez mais fundo pois não tinha com quem lutar, revidar e matar. Não quis saber do irmão mais velho vivo de sua lobinha, ele não importava mais. Nada mais importava, Rhaegar tinha os olhos lacrimejados ao ver a sua lobinha gemendo de dor e ele sem poder fazer nada.
Apenas parar, observar e... esperar.
Esperar a loucura, como meu pai sempre falava.
Uma cama de sangue.
Era o que resumia aonde ele e Lyanna dividiram o leito pela... última vez.
Ao constatar que o filho, sim, um lobo-dragão, estava nascendo saudável e sem nenhum indício de anormalidades, a felicidade do Rei foi lá em cima. Ele não se esquecera da sua Rainha, apenas viu uma nova vida com muitas possibilidades, via um futuro Rei sábio e forte. Rhaegar viu Lyanna em seu filho, Jon.
Chorando, Jon agora estava saudável, envolvido por mantos quentes.
– Ned – ela chamou o irmão mais velho com uma voz sofrida. Rhaegar ficou em fúria de ciúme. Mas que...? – Ned, me prometa que nunca levantará armas contra o meu filho. Prometa-me, Ned.
O Lorde Stark de Winterfell se assustou, assim como Rheagar.
– Minha loba, o que está querendo falar? – perguntou um desesperado Rei, mas quando Jon foi colocado nos braços de sua Rainha... o dragão delirou de felicidade ao ver os dois juntos. Talvez a vida não seja tão dura assim, Rhaegar. A esperança prevalece. Beijou a testa da sua lobinha, que segurava o lobo-dragão nos braços com uma satisfação que Rhaegar apenas vira quando ela percebeu que estava grávida. Era um sorriso fraco, mas um sorriso imensamente feliz.
– Eu falei que Jon iria ser um lobo por fora e dragão por dentro, não se lembra? – perguntou a sua linda Rainha com os olhos cintilando de felicidade. Rhaegar sorriu, talvez as coisas não fossem tão cruéis como ele pensava. A esperança prevalece, Rhaegar Targaryen.
– Sim, quando estávamos fugindo de Harrenhal e já falando em filhos – respondeu com um sorriso aliviado, abraçando sua loba e o lobo-dragão que havia se calado. O Rei analisou bem o herdeiro do Trono de Ferro e logo sorriu novamente, beijando os lábios pálidos dela – Vejo tanto de ti nele, meu amor.
Ela deu um sorriso fraco, mas os olhos estavam firmes.
– Rhaegar, meu amor, meu dragão, prometa-me que não pegará em armas contra os meus irmãos... – Não, o que está fazendo? O que está falando? O dragão estava com os olhos arregalados, foi como se tivessem tirado um tapete de esperança em que ele estava sustentado — ...tenho que deixar claro, meu amor. Para o bem de todos nós, até mesmo de Westeros. Sonhei com algo estranho, vi um lobo-gigante branco...
Rhaegar não sabia o que estava se passando.
Ela está... ?!
– Lyanna, não me deixe... – implorou com as lágrimas deslizando silenciosamente por sua face. A sua loba, sua Rainha, sua nortenha não estava chorando. Ela nunca chora – ...lutei tanto por nós, não me deixe neste momento. Eu te amo.
Piscou algumas vezes, estava exausta.
Conheço este tipo de exaustão...
– Também te amo, meu amor – falou fracamente, gerando cada vez mais um desespero furioso dentro de si, não pode, não... – Amo minhas duas famílias, os Stark e os Targaryen. Prometa-me, meu amor, meu dragão, que fará de tudo para que Jon não cause... não...
Ele não consegui acreditar, como ele poderia manipular o presente, talvez o destino? Com quem ele lutaria? Não havia nenhum inimigo, apenas os deuses clamando pela vida de sua forte loba-gigante. A cor saía dos seus lábios lentamente, mas ela encarava-o como se fosse a última vez...
Não, Lyanna.
– Lutei tanto por nós, minha loba, meu coração...
– ...então lute mais ainda por Jon, fale com ele, todos os dias, o quanto eu o amo.
Rhaegar sentiu um nó em sua garganta.
– Eu te amo.
A cor saía do rosto dela com maior rapidez, gerando uma fúria enlouquecedora no dragão. No Rei Dragão.
– Eu te amo tanto que joguei tudo para cima para ir com você, meu dragão – começou lentamente, já apoiando sua cabeça no corpo do Rei, que não acreditava no que estava vivendo naquele momento. Não, não... não... – Governe Westeros como um Targaryen justo e consciente, criando o nosso lobo-dragão perto de si, nunca deixe a vida dele em mãos de outros. Meu dragão, saiba que você foi a melhor coisa a ter acontecido... em... minha... vid...
E assim Lyanna fechou os olhos para nunca mais os abrir.
O Rei Dragão não conseguiu saber o que se passou dentro dele quando viu a sua Rainha morta em seus braços, segurando o herdeiro do Trono de Ferro nos braços que jazia dormindo. O coração do Rei parou por um momento, sua mente não funcionou e quanto mais ele pensava no que estava acontecendo, menos aceitava a cena que estava presenciando.
Sua lobinha jazia de olhos fechados, exaustos mas tranquilos e, se não fosse a falta de sua respiração, seu fôlego, poderiam pensar que ela estava apenas dormindo. Mas não, a Rainha Lyanna Targaryen, mãe do herdeiro do Trono de Ferro e o amor da vida do Rei Rhaegar Targaryen havia sido atingida pela mais cruel das mortes: a cama de sangue.
Cama de sangue.
O Rei Dragão estava entorpecido diante da sua Rainha morta.
Em meus braços...
Lorde Stark estava sem reação, assim como o Rei.
Mas este último sentia na pele o que é perder seu amor, perder sua família, perder o reino e reconquistá-lo apenas pelo amor pela loba-gigante.
As parteiras estavam apreensivas, claro que estavam. Era a Rainha que elas mataram.
Não. Um Rei é sábio, Rhaegar. Um Rei é frio. O Rei agora será sábio e consciente, assim como a minha lobinha me pediu.
Ele não conseguiu desfazer o nó que estava em sua garganta, não conseguia falar naquele momento. O choque, o baque, foi tão grande que até mesmo as condições climáticas não ajudavam: uma tempestade começara a desabar do lado de fora.
Uma tempestade interna e externa, Rhaegar.
Observou-a novamente, apreciando cada detalhe naquela lobinha. Ainda não acreditava naquilo, eles foram dormir felizes e... ela simplemente morreu em uma cama de sangue. Respirou fundo, acariciando o cabelo dela mais uma vez. Fechou os olhos, procurando concentração e foco no que queria, no que deveria fazer e como fazê-lo.
Mais uma prova de que a esperança é uma faca de dois gumes.
A dor irrompia no coração do Rei Dragão.
Mas Jon esperava por ele.
O jovem lobo-dragão abrira os olhos, observando a mãe morta.
Não, Jon não pode começar a vida vendo uma morte.
Pegando-o nos braços, Rhaegar viu que era um menino forte e... tinha todas as características da mãe. A verdade era que Rhaegar estava vivendo em um universo paralelo enquanto todos da tenda observavam a dor dele.
Olhos cinzentos, pele extremamente clara e cabelo escuro... Lyanna, meu amor, Jon será criado sob a minha supervisão, não deixarei nenhum outro criá-lo. A vida de Jon agora me pertence, meu amor. Vai ser um herdeiro amado e digno do Trono de Ferro, um herdeiro forte pois a mãe foi corajosa e mais forte ainda...
Ele divagava em seus pensamentos.
Aninhou-o em seus braços, sentindo aquele pele quente.
Poderia sorrir, mas não conseguiu.
Um lobo-dragão, de fato.
O Rei Dragão vivia um momento confuso e solitário.
Um vazio estranhamente ‘preenchia-o’ habilmente, mas toda vez que tomava a consciência de que Jon estava vivo e em seus braços, Rhaegar Targaryen logo recupera suas forças para enfrentar para uma luta: manter o poder Targaryen no Trono de Ferro. A partir daquele momento, prometeu à Lyanna, Jon e si próprio de que manteria o poder nas mãos dele.
Toda esta luta terá um resultado, nosso Jon saberá como guiar um reino e... achar a sua própria futura Rainha, minha loba-gigante.
Após alguns minutos, Lorde Stark se aproximou igualmente desnorteado ao ver a sua irmã mais nova no leito de morte, que foi cruel com ambos. Rhaegar não tirava razão do sofrimento dele, era sua irmã mais nova e que protegeu mesmo indo contra a sua honra, seus aliados e amigos. Acima de tudo, eles tinham isso em comum: o amor pela lobinha. A diferença era que o amor do Lorde Stark de Winterfell era fraternal, felizmente.
– Receio que Vossa Alteza não seguirá a tradições da minha família.
As criptas.
– Os Targaryen queimam os mortos, Lorde Stark – comentou um pouco perdido pois, qual o sentido de queimar a sua linda lobinha? Lyanna era uma loba-gigante, uma nortenha selvagem... não combinaria com o Sul vê-la em um local tão quente e ‘sofisticado’ – Mas uma loba-gigante deve ficar onde lobos-gigante ficam: Winterfell.
Ele foi pego de surpreso.
Eu também fui.
– Vossa Alteza... ? – claro que ele estava chocado, não esperava uma atitude desta do Rei.
Nasceu como uma loba-gigante. Com os lobos-gigante da sua dinasta deve repousar, minha lobinha.
Foco, força e fé.
– Como Protetor do Norte, organize o Norte, Lorde Stark – começou o Rei Dragão, afinal, agora ele era Rei acima de tudo e tinha que garantir um território para o lobo-dragão tão especial, o fruto de um dragão com um loba-gigante. Ele terá tudo, mas terá que conquistar cada um de seus objetivos com a fúria de um dragão e a frieza de um lobo-selvagem – Volte para lá o mais rápido possível, não farei uma cerimônia de coroação. Deixe-me com ela mais um pouco, assim você pode levá-la para as criptas de Winterfell. Dê valor para sua própria família que está em formação, pacifique os Baratheon pois não quero ter que levantar armas contra o Norte novamente. Quero relatórios mensais, espero que honre a memória de sua irmã mais nova ao servir o futuro Rei, que na verdade é o seu sobrinho. Como um lobo-dragão, sei que ele defenderá ambas casas pois as uniu. Quero este regimento seja desfeito em questão de dois dias, neste curto espaço de tempo espero que acompanhe a sua irmã mais nova, a minha Rainha, de perto. Vocês, Stark, são duros, fortes e honrados, honrem ao lobo-dragão e assim nós os honraremos. Visitaremos Winterfell quando Jon estiver pronto.
Eddard Stark o encarava como se estivesse vendo um fantasma.
Quando Jon estiver pronto.
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