Apenas O Tempo Falará...
6 Lyanna
Notas iniciais
Ela andou para cá e para lá em seus aposentos, no alto da Torre da Alegria. Não acreditava nas notícias que os criados estavam dando.
Não me arrependo.
Rhaegar sempre a avisara que o Rei era louco e não admitia questionamentos do que faria ou não. Apenas o Príncipe conseguia controlá-lo em um caso desse, mas Rhaegar não estava em Porto Real, ele estava com ela, na Torre da Alegria. Lyanna não culpava Rhaegar pelo acontecido, muito pelo contrário, ela tinha que consolar o dragão sempre quando ele voltava para a Torre depois de um longo dia de planejamento com o exército de Dorne.
Meu pai e Bran... vocês deveriam ter tido um maior cuidado com Aerys.
Nessa hora que Rhaegar a consolava.
- Lyanna, meu amor, não se entregue à tristeza, lembre-se que ninguém pode reviver os mortos, mas podemos ajudar ao nosso lobo-dragão a viver neste mundo.
Lyanna sorriu enquanto olhava da janela da Torre para ver se Rhaegar estava voltando para casa. Era assim, todo dia ela ficava com mais medo de perdê-lo. Mas não era hora de ficar tensa e ansiosa, Lyanna estava grávida. Sua barriga estava maior a cada dia e já contabilizava quatro meses de gravidez. A Septã cuidava dela perfeitamente, ela nada tinha que reclamar. A discrição de todos ali era fantástica, mas a mesma sabia que algumas informações vazariam mais cedo ou mais tarde.
E Lyanna ficava se perguntando...
Devo ou não me meter entre Ned e Rhaegar?
Ela o fez prometer a não machucar a sua família, principalmente Ned, que virou o novo Lorde de Winterfell, casado com Catelyn Tully. Tudo mudara e ela não poderia deixar tudo aquilo atingi-la, Lyanna precisava ser forte para que seu bebê nascesse perfeito para ser um homem ou mulher de pulso firme em Westeros. Caso... ela relutava nisso, mas caso Rhaegar sucumbi-se, o que ela faria? Com o herdeiro do Trono de Ferro em sua barriga, o que poderiam fazer com ela?
Será se Ned a aceitaria?
Também havia Robert, espalhando o 'amor' por ela em toda Westeros.
Ela tinha vontade de estapeá-lo, junto com todos os seus irmãos.
E ainda havia coisas mais preocupantes.
Com os filhos de Rhaegar em Porto Real, ele terá que enfrentar uma batalha no Tridente. Caso ele cair, todos cairão... exceto eu.
Se conseguissem assassinar todos os Targaryen, o que será do seu filho/filha?
Lyanna estava assustada por tantos motivos que não sabia como se levantava todos os dias para ver o que os criados iriam contar do mundo lá fora. Rhaegar a proibiu de sair da Torre da Alegria e ela compreende muito bem. Elia é de Dorne, acabou o assunto.
No final, Rhaegar terá que lutar contra Robert e os dois estarão bem longe daqui. Pense, Lyanna.
Esperou por mais algum tempo, Rhaegar disse que não sabia se voltaria e não pareceu voltar. Lyanna se deitou na cama, angustiada com toda a guerra que está acontecendo... por causa dela. Se a guerra começou com o 'sequestro' dela, poderá terminar com a sua localização. Mas seu amor não poderia saber disto. Se ele tiver ido para Porto Real, Lyanna teria que dar um jeito de sair dali.
Três cavaleiros brancos irão vigiá-la se ele for para Porto Real.
Não poderia ficar assim, ela não conseguiria suportar a angústia e remorso ao perder todos que ama, principalmente Rhaegar, Ned e... Jon. Se for um menino, será Jon. Lyanna só não sabia qual sobrenome usar.
Tudo depende da oportunidade, como Rhaegar sempre fala.
Por isso que a oportunidade de fazer alguns criados como espiões dela foi inevitável. Lyanna era uma Stark acima de tudo, ela sabia suportar o mais rigoroso Inverno e uma guerra necessita de tais habilidades: a de sobreviver. Os Martell se aliaram aos Tyrell, por mais incrível que pareça já que a cabeça do mais novo dos Baratheon foi encontrada em um espigão. Os Tyrell e Martell invadiram Ponta Tempestade, que caiu facilmente sob aqueles ataques. Os Baratheon ficaram sem sua própria casa e Lyanna já imaginava a ira de Robert e Stannis.
Ela tinha que confiar em Rhaegar, mas ficar parada e quieta não fazia parte de sua personalidade. Suas pernas tremeram quando os três principais cavaleiros brancos vieram protegê-la de sei-lá-o-quê. Arthur Dayne também muito bem o que estava acontecendo, o Príncipe deixou instruções e ainda fizeram um juramento para que Lyanna seja protegida acima de todas as suas vidas. A mesma ficou desconcertada, eles tinham famílias para proteger. Mas ao mesmo tempo pensava que sem Rhaegar, a sua vulnerabilidade diminuía a quase zero. Talvez zero mesmo.
- Estamos à sua disposição, minha Rainha – Arthur Dayne, fazendo uma reverência e deixando-a confusa, até mesmo chocada.
Sor Arthur Dayne parecia ser um homem digno de seu manto, seus olhos a transmitiam segurança, o que ela realmente precisava sentir.
- Mas... ? – Lyanna não conseguiu nem formular uma pergunta – Como... ?
Levantando-se, os dois companheiros fizeram a mesm reverência.
- Os Lannister foram traiçoeiros, Rhaegar avisou ao seu pai que não era recomendável se aliar com os leões... – começou Arthur Dayne, exalando confiança. Lyanna sorriu internamente, seu amor havia escolhido o homem certo para dá-la más notícias — ...fizeram um saque cruel em Porto Real, Jaime Lannister matou o próprio Rei a que servia e os outros procuraram e acharam Elia, Rhaenys e Aegon, matando-os enquanto dormia. Não preciso falar o quanto Rhaegar ficou em fúria com isso. Me perdoe por usar o nome de Elia, mas...
- Ela era a esposa do meu amor e gerou seus dois filhos, é compreensível – falou balançando a cabeça, mas o ciúmes revirava dentro de si. Lyanna se esforçava na hora de considerar a vida de Rhaegar, mas como a escolha foi dela, as consequência também lhe pertenciam. Sentiu o bebê chutar, mas ignorou. Isto estava acontecendo bastante já que a falta de Rhaegar também perturbava o seu bebê – Mas onde ele está?
- Com os Tyrell e Martell na Estrada da Rosa, perto de Vale d'Erva, minha Rainha – respondeu Arthur, notando o quanto ela estava aflita – Não acha melhor se sentar, minha Rainha?
Lyanna balançou a cabeça veementemente, era impossível se acalmar enquanto seu amor estava se preparando para uma guerra. Seu coração batia acelerado e ela mordeu o lábio inferior. Lyanna tinha apernas quinze anos, como o destino a colocou nesta situação?
- Onde será a guerra? – perguntou-lhe ansiosa, se fosse perto de Porto Real, Tridente ou Correrio, não haveria como correr atrás dele e vê-lo pela última vez. Eles hesitaram, o que ela não gostou nem um pouco. Tem lobo nessa neve – Onde será?
Arthur Dayne era um homem que transmitia segurança, mas ela só queria Rhaegar.
- Robert Baratheon solicitou um combate individual e Rhaegar aceitou.
Lyanna não estava passando bem e resolveu se sentar em sua cama enquanto uma das criadas lhe servia um copo de água. Da última vez, o seu amor venceu Robert mas não sabia o que aconteceria depois disto já que com o Rei, Elia, Rhaenys e Aegon morto, Rhaegar estará em fúria ao encontrar com Robert. Ela tinha que sair dali, tinha que ver Rhaegar e tinha que fazer, ela não sabia mas não conseguiria ficar parada enquanto o mundo acabava e se despeçadava em seu colo.
- Me fale, Arthur Dayne, que Rhaegar não irá para o Tridente encontrar com Robert – falou apreensiva. Ela conhecia o seu amor muito bem.
O cavaleiro de manto branco respirou fundo, demonstrando a sua preocupação com o melhor amigo.
- Daqui algumas semanas o Rei irá até o Tridente com todo o regimento dos Tyrell, Martell e cavaleiros livres que são a favor dos Targaryen, e digo mais, a maior parte da população de Westeros é contra a retirada dos Targaryen do poder. Pode ser pelo simbolismo de Valíria ou até mesmo pela linhagem secular no Trono de Ferro, mas a verdade é que Rhaegar tem um poderio forte e bem estruturado, minha Rainha – explicitou toda a situação, deixando-a a par de todos os acontecimentos, mesmo sabendo que era ruim para uma gestante, o mesmo sabia que uma loba não era uma donzela sulista que espera o amado no alto de sua torre. Nortenhas são nortenhas, acabou o assunto.
O problema das nortenhas é que elas cavalgam como um centauro, como sempre falam de Lyanna.
- Sou sua Rainha, não é? – perguntou procurando coragem para isso, ela sabia que eles iriam se opor às suas ideias inconsequentes. Eles assentiram imediatamente – Então, como Rainha, ordeno-lhes que levem até Eddard Stark.
Eles arregalaram os olhos, chocados.
- O Rei nos colocou como sua guarda, para te proteger de qualquer imprevisto – argumentou Oswell Whent, estava apressado em suas palavras, mas a gentileza não foi embora das mesmas. Lyanna sempre conseguiu tudo que queria, não iria ser agora que falharia em seus planos – E a Rainha está esperando o herdeiro do Trono de Ferro, não é sensato deixá-la cavalgar nesta condição.
Revirando os olhos impacientemente, ela se levantou e respirou fundo, fechando os olhos.
De repente a imagem de Rhaegar morrendo em uma poça de sangue no Tridente passou por sua mente, causando-lhe arrepios.
- Não é sensato deixar o meu irmão entrar em guerra com o meu amor – lamentou-se amargamente, quase que se arrependendo do modo inconsequente que eles fugiram de Harrenhal. Quase – Vocês estão aqui para me proteger, não é?
Eles assentiram prontamente.
- Sim, minha Rainha – falaram os três, ajoelhando-se.
Ordene, Lyanna.
- Então me protegerão na cavalgada até o Tridente, sei que vocês são os melhores guerreiros de toda Westeros e tomarão conta de mim perfeitamente, vamos até o Tridente, nem que uma das criadas tenha que ir conosco para me ajudar na gravidez – Ordenou sem hesitar, era preciso ordenar e não pedir. Ela era a Rainha, não é? Então suas ordens teriam que ser seguidas, afinal, o Rei estava longe.
Todos, ainda ajoelhados, observaram a menina-loba.
- O herdeiro do Trono de Fer... – começou Oswell Whent, mas Lyanna cortou-o.
- É resistente e poderoso como o Inverno nortenho e as chamas dos dragões valirianos, sendo o meu filho um conjunto destes dois elementos, ele aguentará pois sabe a urgência dos meus propósitos – Seja autoritária, eles só te verão como uma Rainha se você merecer o posto. Deve mandar, Lyanna, e não pedir já que não é apenas uma menina-loba de Winterfell, é a mulher do fogo de Valíria – Sei que acabaram de chegar, mas iremos sair em duas horas.
- O Rei não gostará disto, minha Rainha – avisou Arthur Dayne, mas os três ainda estavam ajoelhados.
- Não haverá um Rei, nem uma vida para uma Rainha ou um herdeiro do Trono de Ferro caso meu amor sucumbir – colocou sua voz sobre a dele, pensando que quanto mais se apressarem naquilo, melhor. Era nítida a preocupação com Rhaegar, principalmente vinda de seu melhor amigo, Arthur Dayne, que gostaria de estar ao lado do Rei na batalha, mesmo protegendo o que Rhaegar mais ama no mundo. Lyanna também queria proteger o seu amor – Sei que fizeram um juramento para Rhaegar, mas farão outro que ajudará o Rei na guerra. O que me dizem?
Um minuto de silêncio. Eles estavam pensando, mas ainda ajoelhados. Na verdade, não havia muitas opções para fugir dali caso tudo dê errado. Eles estariam encurralados e são os melhores guerreiros de Westeros, todos tinham receio de topar com eles em uma guerra. Bran já havia falado dele muitas vezes em Winterfell.
- A Rainha carrega o herdeiro do Trono de Ferro – Oswell Whent bateu na mesma tecla, mas Lyanna esperou a sua próxima fala, ela sabia que teria um 'mas' – Mas não vejo saída para nós caso a guerra acabe mal, compartilho com meus companheiros que o Rei ficará melhor com a gente, mesmo protegendo a Rainha e o herdeiro.
- Se levarmos a Rainha e o herdeiro... – continuou Arthur Dayne, assentindo.
- ...teremos uma chance de proteger os últimos Targaryen – concluiu Gerold Hightower firmemente.
Eles estão demasiadamente preocupados. Então se algo os perturba...
Lyanna assentiu com os pensamentos a mil por hora.
- Jurem que me levarão até Eddard Stark, Lorde de Winterfell, protegendo-me de todas as situações, sejam visíveis ou invisíveis – começou um pouco trêmula, era muita coisa para ser absorvida e ela estava, mais uma vez, sendo inconsequente – Jurem que não dirão nada a Rhaegar, nem sei como vocês poderão falar alguma coisa à ele, mas será o segredo que devemos carregar. Todos nós sabemos que vocês estando aqui, significa que ele realmente foi para a guerra e não voltará... se não ganhar. Aceitam este juramento?
Oswell e Gerold assentiram após alguns segundos, oferecendo as suas espadas em um gesto de juramento. Já Arthur Dayne analisou-a atentamente, de início Lyanna ficou com o receio do principal deles negar a sua intenção pois sem ele... não sabia o que faria. Mas, para o alívio da loba, ele retirou sua espada da bainha e ofereceu-a para Lyanna, que sorriu aliviada. Os três melhores guerreiros de Westeros estavam juramentados à ela, o que a deixou mais segura sobre a sua empreitada.
Mas...
Eles se levantaram, guardando as espadas e fazendo uma reverência acentuada.
- Seguiremos a Rainha e o herdeiro até aonde conseguirmos levá-la – pronunciou-se Arthur Dayne, cada vez mais aliviada pela aprovação do melhor amigo do seu amor. Ele respirou fundo, analisando-a atentamente – É uma loba, minha Rainha.
Lyanna sorriu, apreciando o elogio. Ela ainda era uma Stark. Mas havia um único detalhe.
- Então... – começou enquanto eles faziam os preparativos para a viagem junto com os criados — ...uma vez me falaram que os cavaleiros do manto branco não podem tirá-lo.
- Correto, Vossa Graça – confirmou Gerald Hightower, assentindo enquanto colocava provisões em um saco de seda bastante fundo.
Lyanna respirou fundo, o nervosismo estava tomando conta dela. Pelo menos Jon, ela sabia que era menino, era do sangue do lobo e do dragão, sabendo o que é resistência.
- O que é um juramento – continuou hesitante.
Artur Dayne ergueu uma sobrancelha.
- Sendo um juramento, não podemos nos esconder, minha Rainha.
Lyanna suspirou, eles teriam que desviar de muitas estradas então. Três cavaleiros de manto branco após a morte de Aerys não significa boa coisa, mas como sempre, os juramentos não os deixa escapar de seus costumes.
Se eu pedir para eles abdicarem deste juramento, não terei o juramento que solicitei.
- Está bem, apenas temos que ir depressa – comentou Lyanna, ela sabia cavalgar igual a um centauro. Sorriu levemente ao lembrar das cavalgadas que tinha com os irmãos, parecia fazer séculos que aquilo aconteceu – Eu cavalgo muito rápido, meu pai sempre falava que eu incorporava um centauro quando resolvia ter pressa.
Eles sorriram, ela só tinha quinze anos e era incomum ver um pulso firme de uma jovem.
Mas eu sou uma loba e lobas rasgam suas presas com os dentes, dilacerando-as.
(...)
Ela falou com eles que cavalgava igual a um centauro mas não acreditaram. De início queriam ir devagar para poupá-la, mas Lyanna nunca foi do tipo de menina que gostava de ser poupada. Jon resistiria, ela sabia disto e sabia mais ainda que sendo o último filho do dragão, nada iria impedi-lo de nascer. O tempo passou e Jon se mostrava cada vez mais forte, mesmo após as longas e rápidas cavalgadas que eles faziam. Os cavaleiros do manto branco eram rápidos, atentos e dedicados, mantendo os olhos abertos a qualquer tipo de ameaça. Logo eles perceberam que Lyanna era tão impaciente que mal conseguia parar durante algumas horas para que eles descansassem. Sua alma precisava resolver toda esta situação e aí sim descansar e aproveitar das mexidas que Jon dava em seu ventre. Sempre sorria quando isso acontecia.
Calma, Jon. Teremos Rhaegar com a gente quando você nascer, para isso, preciso da sua ajuda, meu filhote de lobo.
Era gostoso sentir o vento em seu rosto após todo aquele medo que sentia na Torre da Alegria. Lyanna estava melhor assim, cavalgando nos pastos do Sul de Westeros com os cavaleiros e duas criadas que penavam para acompanhá-los, mas Lyanna não queria que elas ficassem para trás, portanto, pediu para Gerald ensiná-las a montar durante toda a viagem. Faziam isso enquanto a loba dormia, ela sempre sentia muito calor, arrancando olhares curiosos de todos. Não estava quente.
Eles se afastavam das estradas principais do Sul, cortando caminho pelo interior e de vez em quando passando por uma vila ou outra. As pessoas haviam desaparecido, muitas delas haviam virado vigias de fortalezas ou trabalhando em propriedades para uma produção exclusiva de alimentos para soldados, castelos, fortalezas. Enfim, o Sul estava tomado pela guerra idiota de Robert. Ela preferia não pensar no irmão mais velho e no pai, eles deveriam ter procurado-a logo depois de vê-la fugindo com Rhaegar e não esperando um tempinho e depois enfrentando Aerys achando que Rhaegar estivesse por lá.
Ned foi o único que teve bom senso, pelo menos. Já Benjen... ela não sabia o que ele estava fazendo, se estava vivo, morto ou na Patrulha da Noite. Procurava não pensar nisto, já tinha problemas demais e o seu filhote estava crescendo rapidamente. Seria um filhote bem grande, sorriu internamente. Logo ficou amiga dos cavaleiros do manto branco, principalmente de Arthur Dayne, que sempre contava das aventuras que ele e Rhaegar passaram quando tinham a idade da loba.
Era um jeito descontraído de passar o tempo enquanto uma guerra acontecia.
Os cavaleiros do manto branco era habilidosos em escapar das multidões, principalmente de pequenos exércitos que conduziam nobres para lá e para cá. Lyanna passava por nobres e eles não a reconheciam, o nariz deles eram tão empinados que mal da para ver o resto do rosto. Procurava esconder sua gravidez, seria difícil se fosse reconhecia E ainda grávida.
Depois de um mês viajando, ela escutara toda sorte de boatos e de vez em quando mandava as duas criadas verificarem se era verídicos ou não.
Mas, para o alívio de todos, nenhum deles falavam que Rhaegar estava morto ou ferido. Tudo que se ouvia era a fúria do Robert Baratheon, que estava devastando Westeros com os Arryn, Stark, Tully e Frey.
- O que vocês acham? – ela perguntou para os cavaleiros enquanto trotavam por um terreno acidentado, estavam em Valdocaso, driblando qualquer tipo de gente que morava por aqui. Mas claro que sempre havia um boato ou outro, embora nunca confirmado pois os três melhores guerreiros de Westeros mataram um bom número de nobres que poderiam nos denunciar. Já estavam próximos a saída de Valdocaso, passando por Salinas. O regimento nortenho estava perto dali. A barriga de Lyanna estava aumentando a cada dia e ela sabia que teria uma hora que não conseguiria mais cavalgar – Estão falando que os Frey ainda não enviaram nenhum regimento.
Arthur desviava de uma lama traiçoeira, havia chovido na noite retrasada e estava um lamaçal por todo Tridente.
- Nunca confiei nos Frey, Vossa Graça.
- Os Tully tem várias divergências com eles – informou-a Oswell. Ele sempre a informava bem, era um ótimo ouvinte e gravava tudo na maior facilidade, não era à toa que Rhaegar confiava a minha vida à ele – Estão chamando-o de 'O Atrasado Lorde Frey'. É um arregão, se é que me permite essa linguagem pois não achei outra tão boa para descrevê-lo.
A loba sorriu, gostava do jeito desbocado de Oswell, fazia-a rir.
Arthur era o líder nato, Oswell era o mais cômico e Gerald, calculista.
Gerald gostava de matar, era claro.
Lyanna não se importava, desde que chegasse no regimente de Ned com o seu Jon intacto, tava bom.
- Deram um tiro no pé, eles contavam com a numerosa família dos Frey no exército e não estão recebendo nada, apenas direito de ir e vir nas Gêmeas – falou Gerald, olhando para o horizonte. Tinha acabado de amanhecer e estava lindo.
Seria lindo se Rhaegar estivesse comigo.
- Faria muita falta se Rhaegar os enfrentasse agora? – Lyanna perguntou intrigada. Ao mesmo tempo que queria ver Rhaegar vencendo a guerra, nunca conseguiria viver com o remorso de o seu amor ter matado a sua família. Uma situação muito delicada e que ela precisava entrar no meio – Os Lannister foram massacrados pelos Tyrell, agindo pelo sul do Rochedo Casterly.
Gerald ajudou-a a passar por um riacho lamacento enquanto Arthur ia na frente e Oswell atrás com as criadas.
- Os Martell conseguiram capturar o Regicida e Rhaegar o fez sangrar até morrer, uma morte dolorosa – comentou Arthur Dayne com os olhos na floresta em que eles estavam adentrando – Aproveitando esse momento trágico dos Lannister, os Tyrell invadiram o Rochedo Castely e enfiaram a cabeça dos últimos filhos de Tywin em um espigão. Achei um ótimo plano, sem os seus poderosos representantes, os leões se dispersaram e os que resistem estão em Porto Real.
Lyanna respirou aliviada, seu amor havia participado da captura de Jaime Lannister e os deuses interferiram e não deixou-o sair machucado. Só a lobinha sabia o quanto rezava pela vida de sua família, incluindo seu amor. Sentiu um chute de seu bebê.
É um menino.
- E o que dizem de Ned? – perguntou curiosa, ela já sabia que ele estava bem mas precisava ter outras notícias – Vocês sabem se ele participou de uma batalha?
O terreno ficou plano e seco novamente, permitindo com que eles avançassem mais rápido naquela floresta. Arthur não gostava de florestas e também sabiam que o regimento nortenho estava próximo. O problema é que Lyanna não sabia o que eles fariam quando descobrissem, claro que ao vê-la, que ela estava grávida do atual Rei Targaryen. Não mais o último Targaryen, o que complicará toda a rebelião.
Oswell deu de ombros.
- Os Stark são famosos pelo temperamento selvagem, sei que ele andou matando alguns vassalos dos Tyrell... – começou pensativo, acelerando o seu trote juntamente com Lyanna — ...sem ofensas, minha Rainha.
Ela riu, era uma loba-gigante e muito mais selvagem do que uma nortenha comum.
- Sou uma loba acima de tudo, o Norte selvagem está em minha veias – comentou cômica, fazendo-o rir, mas Arthur fez um barulho com os lábios, pedindo silêncio. Todos ficaram sérios, estavam saindo da floresta e uma fumaça estava subindo no horizonte. Havia gente ali. O coração da lobinha começou a bater mais rápido e seu sangue circulava com maior intensidade em seu corpo, proporcionando até um pequeno movimento dele, de Jon. Tratando de ficar calma, ela respirou fundo.
A verdade é que para manter a resistência de Jon, tinha que manter a sua.
- Nervosa, Vossa Graça? – perguntou Gerald, chegando perto com as duas criadas que já estavam muito boas na arte da equitação. Se não estivessem, seriam jumentas duplamente classificadas. Lyanna olhou para a sua mão, tremia igual vara verde. Lyanna assentiu, mordendo seu lábio inferior quando eles avançaram lentamente naquele campo aberto – Me sinto um suicida.
Lyanna sorriu com a frase dele, de certa forma estava doida para encontrar com Ned novamente... mas o que a preocupava é que não era só Ned que estava ali. Ela tinha quase certeza que Robert também estava, eles são melhores amigos, cresceram juntos, fazem suas coisas juntos e claro que estão guerreando juntos. Ela, chegando ali na cara e na coragem, deveria esperar toda a sorte de reações.
Rhaegar não saberia o que fazer quando soubesse que ela fugira da Torre da Alegria com seus três melhores amigos. De início, ele não entenderá. De início.
- Eu me sinto uma louca – confessou rindo de si, arrancando olhares divertidos das criadas, que eram bem quietas.
Oswell deu de ombros.
- Tem três cavaleiros, Vossa Graça, eles devem servir para alguma coisa – falou em um tom cômico, piscando um olho na tentativa de dá-la uma maior força de vontade para encarar aquela loucura.
Não posso ficar com medo ou me abater, eu sou Lyanna Stark e além disso, uma Targaryen de casamento que tem o herdeiro do Trono de Ferro em meu ventre. Independente do que acontecer comigo, meus cavaleiros me protegerão e Ned me ajudará, eu sei que ajudará.
Ela fechou os olhos por alguns segundos, preparando o seu emocional. Ainda trêmula, respirou fundo. Não poderia deixar a sua resistência cair, Jon sentirá se cair, então o segredo era não se deixar abater. Avançando lentamente, a fumaça saía do interior de algumas dezenas de barracas e tendas cinzentas com o logo-gigante estampado em todos os lugares. Procurando outros estandartes, Lyanna achou o veado dos Baratheon.
O viado do Robert.
Engoliu em seco, eles ainda avançavam, descendo a colina e logo avistados pelos vigias das torres de observação recém-contruídas.
Lyanna olhou para seus cavaleiros, sem saber o que falar, o que agradecer.
- O que vocês pensam de mim? – perguntou um pouco insegura.
Arthur sorriu, piscando um olho.
- Uma loba-gigante agressiva e selvagem.
O sorriso da loba-gigante estava trêmulo.
- O juramento que vocês fizeram à Rhagaer...
Oswell balançou a cabeça imediatamente.
- Estamos cumprindo o nosso juramento e independente de onde você for, estaremos atrás, minha Rainha.
Gerald assentiu.
- Guardando-a assim como o Rei nos ordenou.
Lyanna suspirou, se eles estavam se arriscando era porque Rhaegar estava cego de fúria e isso nunca foi bom para um homem em momentos decisivos.
- Obrigada – agradeceu sinceramente enquanto alguns outros vigias saíam das torres e adentravam o regimento rapidamente – Só não sei o que vou falar com Rhaegar sobre vocês caso a guerra termine bem para nós. Vou levar umas broncas bonitas mas tentarei poupá-los, já basta de loucura e inconsequência da parte de todos nós, não acham?
Eles riram, eram ótimos amigos e ainda os melhores amigos do seu amor. Rhaegar escolheu certo todos que o rodeiam.
Que saudade, meu amor.
Ela voltou seu olhar impenetrável para o regimento, já sabiam quem era.
Ned ficava frustrado pelas notícias da guerra que Robert teve a ideia de levantar porque antes de seu pai e irmão morrerem, já havia concentração para uma possível rebelião. O então Lorde de Winterfell acordava e dormia sentindo a culpa de não ter impedido os atos temerários dos irmãos e não ter montado em um cavalo e seguido Rhaegar quando os viu. Ele não sabia porque aquilo não passara por sua mente, talvez ele estivesse tão desnorteado com a imagem que nada funcionou dentro dele. O mais frustrante ainda era que nenhum deles teve a iniciativa de montar um cavalo e entrar na floresta escura que Rhaegar havia encarado. Logo se sentiu um covarde, representando uma família totalmente desestruturada e sem poder ir até Porto Real porque, depois dos feitos com o seu pai e irmão mais velho, todos já sabiam que Rhaegar estava em Dorne, não ali. O problema era que NINGUÉM tinha a menor ideia de onde um homem com uma aparência tão marcante consegue se esconder atravessando Westeros.
Até teve que se casar com a noiva de Bran, para sua humilhação. Não há nada pior do que se casar com a pretendente de um irmão que morreu, este sendo insubstituível. Bran era um exemplo para todos, seja dentro das muralhas de Winterfell ou no resto do continente. Ned não sabia se conseguiria dar conta de ser o Lorde de Winterfell após todas essas tragédias. De vez em quando batia uma tristeza porque apenas Ned ajudou sua irmã mais nova a ir até Harrenhal com eles com a desculpa de ter Robert Baratheon como um possível noivo.
Já este último estava se mostrando um touro teimoso e orgulhoso, o que ele já era mas havia uma diferença: Rhaegar havia reaparecido depois de alguns meses oculto em Dorne. O irmão mais novo de Robert foi morto pelos Tyrell, o motivo foi que não estavam aceitando as condições do tratado de guerra que os Baratheon estavam oferecendo. Jardim de Cima não seria palco de batalhas entre o Norte e o extremo Sul, então resolveram escolher Dorne e os Targaryen para entrar na guerra. Foi um espanto geral, ninguém imaginava que isso poderia acontecer.
Ned sorriu amagurado.
Não posso confiar em mais nada senão dá errado.
Catelyn ficaria em Correrio enquanto eles guerreavam, pelo menos isso o acalmava.
Havia um remorso tomando conta dele: os Lannister e Porto Real.
Massacraram todos que estavam na Fortaleza Vermelha, o Regicida já estava morto pelas mãos de Rhaegar Targaryen, que agora é considerado Rei em metade de Westeros. Mataram as crianças de Rhaegar enquanto elas dormiam e isso realmente tirava o sono do Lorde de Winterfell. Independente da situação, as crianças e gestantes tinham que ser poupadas imediatamente, não seria certo e muito menos honrado matá-las. Mas esses aliados traiçoeiros, os Lannister, encontraram um fim violento, do mesmo jeito que fizeram com Porto Real, que é o local onde todos os Lannister estavam agora, fugindo do massacre que os Tyrell e seus vassalos aplicaram pelo Sul em Rochedo Casterly, até a cabeça de Cersei Lannister, a única filha de Tywin, estava em um espigão na estrada que vai para Correrio, fazendo-o pensar em Catelyn novamente.
Eles tomaram Ponto Tempestade, Rochedo Casterly e possuíam territórios incrivelmente vantajosos, como Jardim de Cima e Dorne.
Benjen sempre estava ao seu lado, pelo menos. Ele iria para a Patrulha logo depois da guerra.
Se eles viverem.
Sentados ao redor de uma mesa cheia de mapas, Ned, Robert, Benjen e alguns dos representantes de seus vassalos procuravam alguma estratégia eficaz. Stannis estava ganhando tempo ao derrotar alguns vassalos dos Martell que subiam pela Estrada do Rei. E ainda existiam notícias piores.
A preocupação era notável na face de todos eles.
- Meu batedor disse que Porto Real está cercada pelos vassalos dos Targaryen, irão tomar a cidade numa questão de tempo já que os Lannister saquearam a cidade inteira, que não tem nenhum recurso para defender os próprios Lannister que fugiram pra lá – informou um dos vassalos, um velho experiente mas que não tinha tanto fôlego para guerra como antes. Ned suspirou, não sei mais o que vai me aparecer de ruim – Rhaegar está no comando para tomar Porto Real com ajuda dos Martell, pegando o lado sul da cidade.
Benjen assentiu, pensativo. Ned pensava em contatar Jon Arryn, procurando conselhos mas então Robert e seu ego revelaram algo que foi rejeitado veementemente por ele.
- Rhaegar aceitou o combate individual – ele parecia satisfeito, acariciando o seu martelo de guerra e ansiando pelo momento de acabar com ele, pelo menos tentar já que Rhaegar era um espadachim com uma educação de guerra impecável, sendo o melhor amigo do homem mais temido de Westeros, o homem que quando vai lutar com o outro, este sua frio e trava. Arthur Dayne tinha esse efeito sob os seus oponentes, isso que preocupava Ned – Logo ele estará no Tridente, aí vamos ver quem é quem.
Robert era o seu melhor amigo mas tinha que ter uma longa e séria conversa com ele. Mas depois, não na frente dos vassalos.
- E os Frey? – perguntou para Benjen, que havia ficado de informar o que se passava nas Gêmeas.
- Então enrolando – respondeu diretamente, tão novo e tão velho... a guerra tinha esse efeito em todos – Mentem quando falam que já mandaram um regimento até Harrenhal, aí quando eu perguntei quem estava liderando, uma carta apareceu do nada falando que todos foram massacrados pelos Tyrell.
Um dos vassalos revirou os olhos, desgostoso.
- Típico.
Ned assentiu, os Frey eram aliados ausentes e só serviam para fazer a ligação entre o Norte e o Sul. Pelo menos isso eles tinham
- Os Frey estão ausentes, os Lannister estão dispersados, os Martell tomaram Ponta Tempestade e estão marchando até Porto Real, os Tyrell massacraram o Oeste, tomando a posse das propriedades dos Lannister, os Arryn estão passando por Harrenhal até Donzela Rosa, os Tully estão se preparando para um possível ataque dos Tyrell e nós, Stark e Baratheon, somos os únicos no Tridente – Ned falou sério, dentro de si estava frustrado pois ninguém esperava a aliança dos Tyrell com os Martell. Cada vez mais ele tinha a sensação de que a guerra estava sendo vencida apenas por muita gente acreditar que Rhaegar é o verdadeiro Rei. Até os camponeses, que nada sabiam de nada, eram partidários dos Targaryen. Como colocar um Baratheon no Trono de Ferro nesta precária situação? – Até parece que fomos amaldiçoados pela natureza, essas chuvas no Tridente estão impedindo nosso deslocamento.
- Mas Rhaegar aceitou o combate individual – argumentou Robert, tentando levantar o astral de Ned, era quase impossível fazê-lo. Benjen não estava prestando atenção neles, apenas saiu da tenda para atender um chamado de um dos vigias do acampamento – Os Tyrell e Martell só se uniram sob o estandarte dele, então se ele morrer, morre o último dragão e aí os Targaryen cairão permanentemente.
Alguns dos vassalos pediram licença para sair e apenas Robert e Ned continuaram conversando sobre Rhaegar enquanto os outros examinavam melhor os mapas.
- Rhaegar é praticamente irmão de Arthur Dayne, Robert – Ned tentou novamente, ele queria que Robert calasse a boca para não colocar mais da vida privada dos dois na frente dos vassalos, algo que o pai sempre ensinou – Já passou por sua mente que Rhaegar pode se aproximar com a desculpa do combate individual só para pegarmos-nos de surpresa?
Robert revirou os olhos impacientemente, colocando o martelo de guerra em cima da mesa.
- Você parece um velho, Ned.
Sem tempo para uma reação ao que Robert lhe disse, Benjen adentrou a tenda com um ar sério e chocado, parecendo que estava vendo um fantasma embora obviamente não havia nenhuma construção abandonada por perto. Os olhos estavam arregalados e Ned quase sentiu o pulso dele acelerado. Benjen era tranquilo, era o lobinho, só se assustava se realmente ficasse marcado em si.
Benjen voltou seu olhar para Ned, que estranhou o fato do seu irmão mais novo sair de uma forma e entrar de uma totalmente diferente. E partir daquele momento, Ned começou a ficar nervoso.
- Eddard – Benjen não o chamava assim – Venha aqui fora.
Ele praticamente pulou da cadeira, agitando o tecido que servia como porta da tenda, e... seu coração parou.
Uma jovem de olhos cinzentos, pele muito clara e cabelos castanho-escuro que desciam em cascata até um pouco acima da cintura e... estava grávida. Reconheceu-a imediatamente e seu coração disparou, não sabia o que estava sentindo. Era Lyanna, a sua irmãzinha... mas uma irmãzinha grávida e pálida, acompanhada por... o coração de Ned se apertou... Arthur Dayne, Oswell Whent e Gerald Hightower, que são os principais cavaleiros do manto branco, sendo os melhores amigos de Rhaegar. Em todos aqueles segundos, foi como se Ned fosse chicoteado apenas por sua visão.
Ela sorriu, fazendo-o sorrir.
Mas a situação era péssima.
- Pensei que nunca mais te veria... – começou o Lorde de Winterfell, aproximando-se dela para um abraço mas foi bloqueado pelo próprio Arthur Dayne, que encarou-o imponentemente.
- É melhor não tocar na Rainha até segunda ordem, Stark.
Ned ergueu uma sobrancelha, também sentia outra chicotada em suas costas. Voltou seu olhar para Benjen, que deu de ombros e fez uma cara de que nada sabia, que estava mais surpreso e chocado do que ele. Ambos sabiam que aquilo ali era anormalmente inesperado.
'Rainha' ?
- Arthur, é o meu irmão... – ela tentou insistir, seus olhos brilhavam.
Que raios estava acontecendo?!
O comandante balançou a cabeça imediatamente, ainda encarando os irmãos Stark com a mão no cabo da espada, que ainda estava na bainha.
- Ordens são ordens, Vossa Graça.
Lyanna deu de ombros, ela estava igual mas diferente. Algo mudou dentro dela...
Por favor, Lyanna, me fale que esse filho não é de Rhaegar.
Ned não conseguia tirar seus olhos da barriga dela, apesar de tudo, o próprio Rhaegar deveria estar determinado a protegê-la. Os três melhores espadachins de Westeros não era pouca coisa, fariam um imenso estrago em qualquer lugar em que a espada tinha que ser retirada da bainha.
- Ned, a viagem foi longa e eu preciso descansar... – começou com a sua voz de lobinha, embora estivesse mais firme do que antes. Lyanna parecia estar exausta, tinhas olheiras profundas e provavelmente a gestação estava avançada o suficiente para longas viagens, principalmente cavalgadas. O coração de Ned ficou em um beco sem saída, era a irmã dele e não havia quem colocaria as mãos nela enquanto ela estivesse com ele... e com os seus cavaleiros de manto branco também. Ele duvidava que qualquer guerreiro do regimento resolvesse desafiar aqueles três. Você não tem opção, Eddard - ...e também quero o suco de laranja que aqueles homens ali estão fazendo.
Independente da situação, ele estava feliz de revê-la bem... err... bem.
- Posso não tocá-la, mas ela pode adentrar a minha tenda, sor? – perguntou com diplomacia, não queria ter a primeira cabeça cortada por Arthur Dayne naquele regimento. Ned sabia que alguns cabeças iriam rolar, afinal, ver que Rhaegar tem um filho na barriga de uma loba seria complicado. Ele o examinou, logo o fez com Benjen e assentiu lentamente. Ned percebeu que os outros dois estavam coletando informações do regimento. Isso é perigoso - Venha, Lyanna.
Quando ele foi pegar na mão dela, o comandante afastou-o novamente. Suspirando, Ned teve que se contentar em entrar primeiro e deixar Arthur Dayne entrar na frente, arrancando um olhar assustado de Robert (Ned já estava prevendo o choque que o seu melhor amigo levaria). Após observar por alguns segundos, principalmente o indivíduo que jazia sentado ali dentro, ele conduziu-a até lá com os outros dois cavaleiros atrás de si.
Vejo que o próprio Rhaegar a guarda como se fosse um tesouro. Péssimo sinal.
Os olhos de Robert encarou os dela, que agora estavam impenetráveis. Não dava para saber o que se passava dentro dela, Ned apenas sabia que Lyanna o mataria se tive a oportunidade.
Outro péssimo sinal.
Benjen entrou na tenda com um jarro de suco de laranja, colocando-o em cima da mesa e enchendo um copo rapidamente. Ele estava se esforçando para agradar os cavaleiros, Ned faria a mesma coisa se não tivesse aquele indivíduo chocado e definitivamente magoado, provavelmente em algo que o conduza até uma fúria, encarando-a sem acreditar no que via.
Mas o estrago foi quando Robert colocou os olhos na barriga dela. O ódio tomou conta daqueles os olhos azul-claro mas Arthur Dayne estava entre eles.
- Sente-se, irmãzinha – pediu Benjen, parecendo estar mais preocupado com ela do que com qualquer outra coisa. Ned também estava preocupado com ela, mas tinha certas coisas que não poderia ignorar, principalmente um Robert terminantemente e intensamente perturbado. Puxando uma cadeira, Benjen sinalizou que ela poderia se sentar.
Benjen... porque age como se ela realmente fosse a Rainha?
Lyanna sentou e Arthur Dayne posicionou-se atrás dela, atento a qualquer sinal de qualquer coisa.
Isso que eu chamo de proteção.
Os outros dois arranjaram posições estratégicas na tenda, caso dê errado a conversa.
Sem saber o que fazer, Ned e Benjen se sentaram, ignorando a face avermelhada de raiva que Robert estava mostrando.
Taí algo que ele não pode lutar contra.
O Lorde de Winterfell ficou surpreso ao ver que ao retirar as luvas de couro, Lyanna tinha um dragão de três cabeças feito de rubi usado como um bracelete e um anel com o mesmo símbolo, com pedras negras e... as garras eram de vidro de dragão. Isso fazia parte de uma história preciosa dos Targaryen e cada vez mais que ele adentrasse o novo mundo de Lyanna, mais ele se arrependia em tê-la deixado ir embora com Rhaegar.
Ele não a forçou, claramente.
- Espero não ter nada neste suco, Stark – falou Arthur Dayne em seu típico tom de quem está protegendo uma pessoa que daria a vida. Pelos deuses!
- Não há nada, sor – garantiu-lhe enquanto encarava Robert, pedindo mentalmente para que ele mantivesse a cabeça no lugar.
Lyanna tomou o copo inteiro de suco, sorrindo logo depois.
- Eu fiquei com um desejo tão grande de tomar suco de laranja ao ver aqueles homens seus prepararem para eles – confessou respirando fundo, agora encarando Ned, Benjen e Robert com os olhos mais... Stark, ou seja, desconfiados. Ned não acreditava que a própria irmã desconfiava dele. Rhaegar a fez Rainha, Ned. – Meus desejos estão cada vez mais fortes e não tenho tantos enjoos como antes.
- Você veio cavalgando até aqui? — perguntou Benjen bem manso.
Acho que a melhor coisa que Benjen faz é deixá-la bem.
Lyanna assentiu, deixando Ned abismado.
- Lyanna... onde você estava? – perguntou Robert, entrando na conversa e segurando o seu temperamento. Ele poderia ser impulso mas não era estúpido. Ned torcia para que nenhum dos cavaleiros de... Lyanna resolvesse decapitar Robert.
Seu olhar mudou completamente ao encará-lo. Estava impenetrável, o que era de doce havia se tornado gélido como as neves do Inverno nortenho e não havia nada de adorável neste Inverno, como Ned rapidamente percebeu.
Ela sabe que Robert exigiu um combate individual com Rhaegar, é quase que palpável a raiva que Lyanna sente por Robert.
Analisando-a bem, é possível falar que Rhaegar é muito querido por ela.
Outro péssimo fator.
Arthur Dayne colocou a mão no cabo de sua espada, demonstrando que ela tinha que ser tratada como uma rainha e não apenas mais uma Lyanna em Westeros.
- Em Dorne, com o meu marido – respondeu diretamente. Ned sentia outra chicotada no ar, tanto para ele quanto para Robert. Benjen saiu da tenda para fazer sabe-se o quê, pedindo licença para os três cavaleiros de manto branco. No fundo, Ned esperava que Benjen não fizesse o que ele estava pensando – Para deixar claro, eu fugi de Harrenhal porque quis, muito diferente do que estão falando por aí. Nos casamos no jardim de Inverno de Harrenhal e fugimos para a Torre da Alegria, em Dorne. Apenas para deixar claro que eu amo muito o meu marido e que aceitei fugir com ele por causa disso.
Ele estava sem chão e apostava que Robert estava pior ainda.
Ela sabe que vão querer matá-la e sabe mais ainda que eu nunca deixarei encostar nenhuma espada nela, muito menos nesse estágio da gravidez. Seus cavaleiros também darão a vida por ela, provavelmente um juramento foi feito, então não será nada fácil se alguém tentar conspirar. Colocando-a em minha proteção, também colocarei o filho de Rhaegar em segurança. Lyanna foi esperta e pensou como uma mente feita para a guerra, sutilezas como esta que ganham uma guerra. Tenho quase certeza que Rhaegar não sabe que ela está por aqui.
- Você era minha noiva – argumentou Robert, era nítida a vontade gritar com ela mas naquela situação, com tantos pares de olhos observando-o... nunca chegaria a esse estágio, até porque Ned a protegeria de qualquer coisa, seja do seu melhor amigo ou do pior inimigo – Iríamos casar, Lyanna.
Ela balançou a cabeça, parecia uma muralha gelada.
- Não, nunca iríamos nos casar porque nunca desejei este noivado, mesmo se Rhaegar não aparecesse eu continuaria rejeitando a sua proposta, Baratheon.
Humm... ela chamou-o pelo sobrenome. Porque isso soou tão Targaryen?
Quando Ned percebeu que Robert iria insistir, ele se levantou imediatamente. Aquela era a sua irmã e grávida do último dragão, não deixaria que nada a prejudicasse.
Agora que a tenho perto de mim, não deixarei Robert afastá-la novamente.
É inútil pensar que ele conseguiria segurá-la por muito tempo tendo aqueles três cavaleiros com as espadas juramentadas aos Targaryen.
- Vamos para a minha tenda, Lya... – Arthur Dayne lhe lançou novamente aquele olhar de autoridade. Ned suspirou, não havia outro jeito de lidar com ela enquanto aqueles três a seguiam para tudo quanto é lugar – Vamos para a minha tenda, minha Rainha.
'Minha Rainha'?
Ela é minha irmã e Rainha do meu inimigo, esperando um filho dele. Não posso fazer nada a não ser...
(...)
Os dois cavaleiros estavam guardando a entrada da tenda do Lorde de Winterfell enquanto o principal, Arthur Dayne, permanecia em pé e ao lado da cadeira extremamente confortável que Lyanna estava sentada e sem as botas esperando a criada que ela trouxe de Dorne esquentar a água e fazer uma massagem em seus pés. Lyanna sorria tranquilamente, como se o mundo não estivesse desabando ao lado dela, ou estava bem consciente disso mas sabia que Ned não conseguiria ficar contra ela.
Ela tinha o único filho de Rhaegar dentro de si, o que Ned poderia fazer?
Protegendo-a, protegeria os Targaryan... mas nunca se oporia à ela, o que faz dele um... vira-casaca?
Ned estava sentindo tantas coisas que não sabia discernir mais, apenas queria a sua irmãzinha saudável, viva e feliz... o que significa criar o herdeiro do último dragão. Isso é o mesmo que ser um vira-casaca, caso isso realmente acontecesse... o orgulho Stark dele ficaria em frangalhos, tudo poderia ficar assim, menos a sua irmãzinha.
- Eu pensava que era frescura quando uma grávida reclamava de dores nos pés – comentou soltando um leve gemido de alívio enquanto a criada a massageava habilmente. Provavelmente Rhaegar as escolheu a dedo.
- Robert está arrasado – puxou este assunto acidentalmente, havia tanta coisa para se falar mas foi essa inutilidade que saiu de seus lábios, que deram um sorriso discreto para não carregar a frase – Ele estava contando que Rhaegar te sequestrou enquanto você morria de amores por ele.
Ela revirou os olhos impacientemente.
- Eu sempre falei que você deveria ter dado um basta na imaginação daquele... enfim, o importante é que conheci Rhaegar – ela sorriu, estava claramente apaixonada.
Outra chicotada.
- Você sente bem quando está perto dele? – perguntou-a curioso, não era bem essa a imagem do último dragão que todos tinham.
Ned sorria internamente, para o choque do mesmo.
- Ahhh... – Lyanna abriu um sorriso apaixonado, encarando-o de uma forma que só fazia com os irmãos: sinceridade — ...Rhaegar é carinhoso, inteligente e honrado, Ned. Você se surpreenderia se o conhecer pois sei que essa coisa de Harrenhal atingiu o modo que você o vê. Em nenhum momento ele me forçou, na verdade ele queria chegar na Torre da Alegria e depois... você sabe... mas aí eu resolvi que iria ser na floresta mesmo, ainda na Campina.
Não acredito que minha própria irmã forçou Rhaegar Targaryen.
- Você sabe como a guerra iniciou, não é? – perguntou só para confirmar, queria saber a resposta dela.
A lobinha respirou fundo, como se aquele assunto fosse algo que ela não gostava de lembrar. Ned também não gostava mas era a cruel realidade.
- Chegar em Porto Real exigindo a presença de Rhaegar e falando que ia matá-lo não ajudou em nada, afinal, ele estava comigo, me protegende e amando – respondeu com a língua afiada. Ned reconhecia que os pai e irmão foram muito impetuosos, a fúria os cegou e era isso que ele temia em Robert e Rhaegar. Os dois estavam em fúria – Achei estranho vocês se esquecerem que quem estava sentado no Trono de Ferro era um homem completamente louco, ainda insisto que nada disso estaria acontecendo se vocês tivessem ido atrás mim, afinal, era só pegar o cavalo e partir pra floresta, o que vocês esperaram tanto?
Ned não sabia responder.
- E agora você chega com Arthur Dayne, Oswell Whent, Gerold Hightower e o filho de Rhaegar na barriga – falou sem saber se faria a coisa certa em protegê-la dos próprios homens, ele sabia que ela seria sequestrada caso os três cavaleiros comessem mosca. O que era improvável. Mas mesmo assim, a vida de Lyanna dependia da vida do tal... Jon, então para ter a irmã, Ned precisava desvincular o Norte com a rebelião de Robert. Ele só não sabia por onde começava tudo aquilo, o seu orgulho iria ser chicotado eternamente... mas ele também sua irmã viva, o que só restava abandonar o seu orgulho e... dar para trás na guerra.
- Sou uma Stark, Ned, se eu chegar até o Trono de Ferro ainda... Rainha, com meu filho como herdeiro... – Ned sorriu internamente, ela sabia que ele teria uma reação daquela sem nem ao menos perguntá-lo. Agora seria o plano que ela tinha feito com os cavaleiros do manto branco — ...o Norte só terá a ganhar, assim como seus aliados, Ned. Os Tully e Stark só terão a ganhar. Sei que os Frey já estão te deixando na mão e os Tully estão na frente dos Tyrell, sua Catelyn está lá e você nada pode fazer pois ela, provavelmente, já está com o seu filho na barriga.
Ned parou e pensou.
- Você está me dizendo que, como Rainha, pode nos beneficiar e até mesmo nos livrar das consequências caso eu desistir? – perguntou pensativo.
Lyanna assentiu.
Que irmã sem juízo. Se fosse Bran iria mandá-la para Winterfell e escondê-la do mundo.
Mas ele não era Bran e não conseguia vê-la naquele estado sem querer que ela fique bem.
- Rhaegar já está acabando com os Lannister e não terá outro motivo a não ser essa rixa com Robert, já que você agora conhece toda a verdade, meu irmão – argumentou novamente, os argumentos eram inteligentes mas a sua honra seria manchado se fosse obrigado a se retirar da guerra – Sei que meu marido está vencendo a guerra, Ned. No jogo dos tronos, você ganha ou perde...e não me obrigue vê-lo na hora que você perder, meu irmão.
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