Apenas O Tempo Falará...
37 Catelyn, Eddard, Arya e Jon
Notas iniciais
Logo que acordou naquela manhã, Catelyn sabia que algo estava estranhamente errado. De início pensara que os preparativos para o dia em que a família real chegasse em Winterfell, não estivessem prontos a tempo. Seria um pesadelo ter que se desculpar com os dragões por conta de uma falha no planejamento da prestativa e dedicada mãe, a respeitada Lady Stark. Queria mostrar para a Rainha Lyanna, a queridinha dos Stark, que mesmo com todas as responsabilidades de sua posição, ainda era uma mulher hospitaleira que lutava pela privacidade familiar.
Não devo afastá-los de nós.
Era uma das metas dela no momento. O marido não gostava da ideia de juntar todo mundo para conviver diariamente, mas não poderia ter muita opinião em algo que só uma mulher sabe fazer. Pelo menos era isso que Catelyn pensava.
Temos que superar essa história.
Era outra meta da mulher, embora esta mais difícil ainda. Convencer o marido era o mesmo que tentar tirar a carroça na frente dos burros, ou seja, só com muita sutileza e tempo de sobra. O que acontece nisto tudo se chamava...
...os Baratheon.
Nunca foi com a cara de nenhum, e era bom os dragões pensarem que ela e o resto dos Stark também preferem os Targaryen no poder.
Da sutileza até a vitória.
Sempre teve cuidado de não usar palavras mal... ditas. O duplo sentido sempre foi um amigo e inimigo das mulheres, mas não naquele caso, quanto mais específica, melhor para Catelyn e seus filhotes. Até mesmo Ned ainda não se acostumara com essa vida de duplo sentido tão exigida para quem está no poder, então a própria Catelyn o ajudava, ou melhor, o conduzia em meio às cortesias habituais que os inimigos costumavam fazer... em sua frente.
Ela tinha que mostrar uma guardiã sulista mas com pulso nortenho.
Lyanna vai me julgar até a alma.
A Rainha foi por muito tempo a única mulher entre os irmãos, agora avaliaria toda a Winterfell em que um dia nasceu, cresceu e morou. Não deveria se sentir nervosa, havia feito um excelente trabalho no local...
...exceto pela torre que decorei como meu altar de orações.
Não adiantava, ainda era uma menina do Sul e as árvores nortenhas ainda a assustavam inteiramente.
Meistre Luwin fez um barulhinho com a pena em cima do pergaminho apenas para chamar a atenção dela. Perdida em meio suas divagações, Catelyn esqueceu do onde estava e o que fazia. Sorriu ao Meistre Luwin em um tom de desculpas, sabia que estavam com pressa e deveriam fiscalizar cada elemento que entrava e saía do castelo.
– Me perdoe, não sei aonde minha cabeça está – começou respirando fundo, pegando o pergaminho e lendo as anotações do meistre – Por mais que queira continuar com isto, há algo que não está me deixando pensar direito, meistre.
Sentados na biblioteca, todos os filhos já haviam passado lá para cumprimentá-la... exceto a mais rebelde de todas.
Talvez por isto que ela não veio aqui ainda.
Arya era a pessoa mais imprevisível que conhecera em toda a sua vida. Um dia ela estava em Winterfell, outro já partia para a Muralha. Cat avisava que não era um comportamento sadio para uma moça, só que ela não queria nem ao menos saber o que a mãe guardava para ela. De certa forma, a menina acabou virando a queridinha do Lorde Stark por ter um jeito bem semelhante à Rainha, então o mesmo deixou o comportamento arisco passar como se fosse adequado. Não que Catelyn gostava de discutir com o senhor seu esposo, mas tal coisa não era bom para uma garota da idade dela.
E que ainda não é mais uma donzela.
Não sabia como lidar com a situação, apenas lembrava o quanto Lysa foi estúpida e pelo menos isso Arya não é. O rapaz dos Baratheon pôde até ter conseguido deflorá-la, mas só porque a mesma quis e prosseguiu com aquela loucura, mas conquistá-la?
Não.
Arya, se é que existe essa palavra, é ‘inconquistável’.
Ela vai com a sua cara, ou não.
Em meio a extremos, a filha era o oposto da noiva mais linda daquele mundo.
Não que Arya seja feia, pelos deuses!
– Lady Sansa se casará dentro de poucos dias, é compreensível essa ansiedade materna – tentou convencê-la gentilmente, mas Cat não era uma Lysa para se deixar surtar por qualquer besteira – A futura soberana do Ninho da Águia veio até a senhora três vezes e não estamos nem no meio do dia, Lady Stark.
Ela balançou a cabeça, não era Sansa que a preocupava... daquela forma. Tocou no pingente de ouro com safiras do colar que o senhor seu esposo lhe dera quando ficou sabendo que dera à luz a uma segunda menina, principalmente pelo fato da mesma lembrar-lhe tanto a irmã. Ned ficou tão surpreso, feliz e confuso. Teve uma certa peninha do homem no dia, mas tudo passou, pela graça dos deuses.
– Onde estão os meus filhos? – perguntou determinada em saber o que acontecia com cada um deles naquele momento. Seu instinto de mãe estava aflorando cada vez mais rápido, demonstrando um estado de urgência que jamais antes sentira. Era como se uma parte de si estivesse... lhe deixando – O senhor sabe onde estão todos eles?
Catelyn congelou quando notou o olhar cauteloso que o velho lhe lançou.
Não.
– Todos os vossos filhos estão em segurança, minha senhora – consolou-a gentilmente, dando-a uma sensação de que algo muito errado acontecia a cada segundo que se passava... e ninguém a contava – Não tem o que se preocupar, penso que é melhor decidirmos o quanto antes a respeito da hospedagem da família re...
Lady Stark se levantou abruptamente, jogando os pergaminhos, penas e vidrinhos de tinta preta por toda parte, quebrando-os ao atingirem o chão. O coração da mulher congelava a cada momento que pensava que algum dos seus filhos estivessem precisando de ajuda e ela ali, preocupada com hóspedes! Cerrando os olhos, debruçou sobre a mesa estabelecendo um perigoso contato visual com o meistre de Winterfell.
– E as minhas filhas? – perguntou com pressa, não queria perder nenhum minuto.
Algo apertava o seu coração, e ela não gostou nem um pouco da sensação de ficar sem ele... da sensação de ficar sem alguém que faz parte dele.
– Lady Sansa passou por a senhora há poucos minutos – uma ruga tremia perto dos olhos do homem.
Catelyn ergueu uma sobrancelha, agora que percebeu a ausência do seu marido nas últimas horas. Só se encontraram no desjejum e ele desapareceu inexplicavelmente, assim como...
– Onde Arya está?! – berrou descontrolada – Aonde está a minha filha?!
Será que um dragão a viu?
Será que ela fugiu?
Será que alguém a levou?
Arya é habilidosa com armas e escorregadia como uma cobra, não havia jeito de raptá-la se não fosse alguém conhecido e que tem acesso à Winterfell...
Uma raiva cresceu dentro da truta, ela nunca gostara do modo possesivo que aquele rapaz agia quando estava com a sua filha.
...Gendry Baratheon.
Malditos sejam os viados e o dragões.
(...)
O castelão alcançou o Lorde Stark quando este ultrapassara o décimo quilômetro de distância de Winterfell. O cavalo de Sor Rodrik foi claramente usado em uma cavalgada intensa, abrindo caminho na neve que ainda tomava conta do lugar... e que ficaria mais um tempo, segundo a intuição de Stark que Ned sempre teve. Os olhos urgentes do homem já diziam o que ele já sabia.
Os cães de caça se misturavam com os lobos-gigantes em busca de algum cheiro novo, colocando uma roupa da lobinha nortenha para todos buscarem aonde está a essência daquele aroma. Descobriram o sumiço de Arya há três horas e ele preferiu ocultar tal coisa da esposa, já sabendo do aborrecimento e da sensação de fracasso em protegê-la. A verdade era que Ned se sentia o pior dos pais por permitir que o bastardo Baratheon fosse tão longe a ponto de raptá-la, segundo os camponeses que vendiam lã em Winterfell de dez em dez dias, enquanto estivesse dormindo, ou inconsciente.
Segundo os camponeses, ‘Lady Arya se assemelhava a um filé de peixe cru’.
Não era uma comparação que Catelyn precisava escutar.
– Meu senhor, — começou o castelão – a senhora descobriu tudo.
O céu nublado trovejou, logo cairia uma chuva que se armava desde muito cedo.
O que é pior para nós.
Não sabia de quem estava com mais raiva, do ‘melhor amigo’ ou de si próprio. Não deveria ter deixado aquele rapaz seguir com as intimidades com Arya, mas Ned ficava temporariamente cego quando Robert dava de ombros falando que na época deles as coisas eram piores.
– Me surpreende que ela não veio até mim ainda – comentou com seu típico ar contido, quase que frio... mas não exatamente em sua raíz da palavra. Ned poderia ser muitas coisas, mas a frieza em seu sangue desaparecia a partir do momento que via a filha mais nova bancar a querida Lya dos tempos de Winterfell – Onde ela está?
– Lady Sansa e a Septã Mordane estão cuidando dela.
O Protetor do Norte ergueu uma sobrancelha. Era por causa destas reações que ele preferiu esconder aquilo temporariamente.
– O que minha esposa teve? – perguntou preocupado.
– Um pequeno ataque de fúria, se é que me permite a expressão – respondeu Sor Rodrik – Tudo piorou quando Lady Arryn tentou consolá-la.
Pelos deuses antigos.
– ‘Consolar’? – repetiu Ned.
O castelão revirou os olhos impacientemente, a presença daquela mulher conseguia ser irritante até para quem não tinha nada a ver com a dinâmica familiar. Um modo deplorável de tratar as pessoas, agindo por impulso emocional e deixando a todos constrangidos com seus dramas passionais.
– Lady Arryn colocou o nome dos dragões no meio da história – pelos deuses antigos, aonde chegaremos com isso? – Ela culpou os Targaryen, só espero que isso não chegue até os ouvidos daquela gente tão bem informada... e ameaçadora – Sor Rodrik pareceu pensar direito no que havia acabado de fala – Quero dizer...
– Não se dê o trabalho de tentar proteger minha irmãzinha, sor – começou falsamente tranquilo, utilizando um aceno com a mão para que o cavaleiro não se preocupasse – Lya nunca foi uma menina pacífica, muito menos um flor doce de se cheirar, como Robert pensa... ou pensava. As políticas do Rei e da Rainha são muito pesadas, nisto eu concordo com o resto de Westeros, mas o importante é que mantém todo mundo sob as rédeas dos mesmos. Temos que nos apressar, não podemos ficar vagando por aí enquanto a Lady Arryn fica acusando os Targaryen por serem... Targaryen, digamos assim.
O castelão, que havia acabado de cortar aquelas costeletas gigantes, passava a mão pela bochecha em busca de algo para puxar. Nem mesmo sua barba escapara das lâminas afiadas do barbeiro, este sendo movido por pedidos da senhora sua esposa para que todo mundo aparentasse estar perfeitamente alinhados.
Ned não seria sem juízo a ponto de ficar cara a cara com Catelyn Tully.
– Irá até eles, meu lorde?
– Não tenho escolha, eles chegarão a qualquer momento e prefiro checar se foi o filho de Robert que levou Arya – respondeu em dar de ombros, esporeando o cavalo iniciando a cavalgada apressada e pegando lugar na Estrada do Rei na direção sul – Avise Lady Stark para não se preocupar, tudo isto finalizará em pouco tempo.
Ou não.
Mas era uma hipótese que o homem preferia nem cogitar.
Preciso dos Targaryen.
Nada melhor do que um dragão para farejar uma loba, e ele só esperava não se arrepender disto futuramente.
(...)
Sentia como se estivesse acordando depois de bater a cabeça no chão enquanto caçava, perdendo a consciência logo em seguida. Antes de abrir os olhos, Arya levou a mão até a nuca para verificar se havia sangue escorrendo lá atrás.
Não tem nada.
Sua visão estava embaçada, só conseguia ver uma mistura de neve e sendo mirada por algumas pessoas, observando-a aos cochichos. Não sabia quem eram, muito menos como aquelas pessoas... homens... eram, uma escuridão acabou apagando todas as cores mesmo com as pálpebras definitivamente abertas. Se viu deitada em algo felpudo, aparentemente uma capa de pele, e o cabelo encharcado por causa da neve. Sentia o corpo doendo intensamente, parecia que cada um de seus ossos haviam sido pisoteados até virarem cacos, nem sequer conseguia se mexer... embora conseguisse escutar claramente o que aqueles rapazes diziam.
Onde está aquele filho da puta do Gendry?
Esperava sinceramente que alguém estivesse espancando-o.
– Ela está nos vendo? – perguntou uma voz masculina em um tom de dúvida, não era muito grave embora se via um tanto quanto curiosa – Está com os olhos abertos, mas creio não nos enxergar.
– Saberíamos se ela estivesse nos enxergando, disto tenho certeza – falou outra voz masculina, esta mais grave que a primeira – Acho que aquele cara pegou pesado no que a fez ingerir, provavelmente um veneno em uma dosagem maior.
– Pelos deuses, um iniciante – praguejou a primeira voz, que era menos séria que a outra – Será que tem problema... quero dizer, nós dois metemos a porrada no cara que a levava nos ombros.
– Sei lá – espero que tenham machucado aquele quadrúpede relinchante – Ela não parece uma camponesa. Foi muito suspeito o modo com que ele a carregava, parecia fugir de algo e quase cagou nas calças quando nos viu passar no meio da floresta. Onde estão nossos pais? Será que eles estão por perto?
– Está falando que deveríamos perguntá-los a respeiro do que fazer? – pais? Oi? – Tenho minhas dúvidas, afinal, estamos perto de Winterfell e aparece.. err... essa menina. Tem certeza que ela está nos escutando?
– Mas é claro que sim, por que acha que ela ficou quieta após nos escutar? – confirmou o da voz mais grave, este estava em sua direita. Logo percebeu que um animal bem grande estava junto deste rapaz, a respiração era bem semelhante à uma besta gigante... tipo um lobo-gigante. A cabeça dela latejou – Eu sei o que você está pensando, irmão.
– Devo dizer que ela tem seus olhos – o da voz mais leve, menos séria, soltou uma risada curta – Mas a aparência dela é bem mais agradável do que a sua.
– Ainda bem que fomos nós que a achamos, é perigoso para uma menina tão nova quanto ela estar sozinha justo aqui – meus olhos? – Nem preciso perguntar para ninguém a respeito da identidade dela, é uma Stark.
– Arya Stark, para ser mais direto – quem são esses dois? – Que foi?
– Acho melhor não tirarmos conclusões precipita...
– Vai me dizer que nossa mãe não se parece com ela, irmão? – perguntou impaciente o que estava à sua esquerda – Tenho certeza que é a filha mais nova do tio Ned.
Mãe?
Tio?
A lobinha pensou por alguns segundos enquanto um silêncio tomava conta dos dois rapazes.
Então eles são...
– Vocês poderiam em ajudar a levantar ao invés de ficarem especulando sobre a minha vida – sugeriu na tentativa de ser amigável enquanto a dor de cabeça a corroía. Pelo menos ela tentou ser, o que já está de bom tamanho. O mesmo silêncio ainda estava entre eles – Estou falando com vocês, ou será que tenho que me levantar sozinha no meio dessa neve?
– Sutil quanto nossa mãe – riu o da voz mais séria – Vamos ajudá-la, Aegon. Eu pego este braço e você pega o outro, não a deixe escorregar no meio dessas raízes.
Logo ela foi pega por eles com toda a segurança possível, ambos tomando cuidado para não deixá-la cair por causa do mal jeito. Eram bem cuidadosos, disso ela tinha que concordar, e não demoraram muito até colocá-la em pé do jeito que queria... mas não a soltaram.
– Eu consigo andar sozinha, muito obrigada – resmungou com seu jeito auto-suficiente apitando dentro de si, sabia que não conseguiria andar enquanto não enxergasse direito.
– Não, você não consegue – insistiu o rapaz à sua esquerda – Também está temporariamente cega por causa da substância que aquele cara a fez ingerir.
– O que aconteceu com Gendry? – perguntou curiosa, gostaria ela mesma de espancá-lo até a morte por causa de um plano tão ridículo quanto aquele.
– ‘Gendry’? – repetiu o rapaz à sua direita – Gendry Baratheon?
Arya assentiu levemente, movimentos bruscos a estavam deixando tonta.
– Papai e mamãe não vão gostar nadinha disto – comentou o Príncipe Aegon – Você está bem?
– Um mamute me pisoteou e estou cega, pelos deuses – praguejou a lobinha em um tom de desgosto – O que aconteceu com aquele idiota? Vocês ainda não me contaram.
– Ahh, — o outro Príncipe que ela não sabia quem era ponderou antes de voltar a falar – só o amarramos ali na árvore.
– Não escutei nada vindo dele – Arya observou desconfiada, eles eram, acima de tudo, dragões – Enfim, isso não interessa. Um é o herdeiro do Trono de Ferro, existe só um Aegon na Fortaleza Vermelha, e... como tem um animal que eu presumo ser um lobo-gigante do outro lado, só me resta chutar que seja o Príncipe Jon.
Uma pausa esquisita.
– Ela está muito bem para quem levou uma surra de um tranquilizante potente – comentou em um tom de divertido o tal do Aegon – Vamos lá, garotinha. Iremos te levar até Winterfell antes que pensem que a culpa é nossa.
– É claro que ela não está bem – começou de novo –, lembra-se das vezes que mamãe ficou fingindo que estava bem enquanto morria de dor quando engravidou de Elliot? É a mesma coisa, se é que não percebeu.
– Claro que percebi! – alegou Aegon – Só não acho adequado deixá-la no frio enquanto conversamos.
Pelos deuses, estes dois numa discussão devem ser o cúmulo da contradição.
– Isto tenho que concordar – suspirou Jon – Me perdoe, Lady Arya, te colocarei em cima de Fantasma para que não se esforce em movimentos desnecessários quanto ao seu estado de agora.
Antes que ela pudesse sequer responder, seus pés saíram do chão com a ajuda dos braços do Príncipe Jon, tão cuidadoso e gentil quanto todos falavam. Um bom garoto, segundo seu pai sempre quando alguém perguntava do rapaz. Ela relaxou facilmente em seus braços e logo sentiu falta deles quando fora colocada nas costas do lobo-gigante, retirando todo o contato humano sendo substituído pelo pêlo felpudo da besta.
– Você é o cúmulo da cerimônia, Jon – criticou Aegon – Poderia muito bem ter colocado a menina em Fantasma sem ter que parecer estar fazendo algo errado.
– Não a conhecemos, temos que ser cuidadosos quanto essa relação com os Stark, ou melhor, com as Stark – ponderou o rapaz sabiamente enquanto a lobinha escutava um deles arrastar algo pesado na neve – O que fará com esse corpo?
Arya engoliu em seco.
– ‘Corpo’? – perguntou a lobinha sem acreditar no que ouvira – Vocês mataram Gendry?
Outro silêncio esquisito.
– Não foi proposital – sei – Aegon foi na frente para te tirar do saco que aquele Gendry a enfiou, carregando-a como se fosse um saco de batatas. A flecha que lancei atingiu o pescoço e... ele morreu. Foi sem-querer.
Uhum, sei.
Mas Arya não se sentia tão ruim quanto pensava, achava até merecido o que Gendry acabou levando por fazer aquela besteira de raptá-la utilizando um veneno potente que poderia tê-la matado... e a deixou cega, esperando sinceramente que fosse por um tempo determinado.
Se Jon a comparasse como um saco de batatas novamente, levaria uns bons tapas quando voltasse a enxergar.
– Foi meio sem-querer – Aegon riu levemente – Não tínhamos a menor ideia de quem ele era, é mais que claro matar alguém em situações como esta. Só espero que isso não resulte em uma crise, os deuses sabem o quanto nos esforçamos para estabelecer uma convivência pacífica com o Norte.
– Mas ele a raptou, isso muda tudo – falou Jon ajudando o irmão a arrastar aquele corpo – Onde vamos enfiar esse corpo, irmão? Não o levarei em Fantasma nem que um Caminhante Branco resolvesse encher nosso saco.
O lobo-gigante fez um barulho que parecia estar em acordo com o dono.
– Que tal deixarmos aqui? – sugeriu o mais velho – Não estou com vontade de sair arrastando algum Baratheon por aí, ainda mais filho daquele quadrúpede relinchante aviadado. ‘A Nossa é a Fúria’ e as galhadas também, se é que me entendem.
Arya até tentou não rir, mas não deu muito certo.
– Não deveria estar fazendo piadas disto – comentou o politicamente correto Jon – Isso pode desencadear algo ruim para nós.
– Deixa de ser um velho resmungão, Jon – Aegon riu novamente e escutou o som de algo batendo em outro corpo, parecia ser um ‘tapinha amigável’ do herdeiro do Trono de Ferro no irmão – Nada acontecerá conosco, e se acontecer não sobrará ninguém para apontar o dedo nas nossas costas. Faremos as coisas como nós sempre fazemos, não deixaremos ninguém respirar até isso acontecer, se é que me entende.
Agora entendo porque o Norte prefere a diplomacia com os dragões.
Eles pareciam não hesitar em matar alguém, algo interessante para quem estava acostumada com as regras corretinhas de Ned e Catelyn Stark.
– Vocês dois estão mais para mercenários do que bondosos, gloriosos e exemplares Príncipes que minha irmã tanto idealiza – a lobinha comentou rindo enquanto os rapazes montavam em seus cavalos e Fantasma os seguia lado a lado tranquilamente... embora Arya não pudesse enxergar nada mais que um grande borrão negro.
– É preciso ter uma espada afiada quando se está no poder, priminha – falou Jon que, pela primeira vez, aparentava pelo tom de voz uma leveza após deixarem o lugar que provavelmente estava só o sangue de viado – Nunca se sabe quantos inimigos temos exatamente, estão todos nas sombras e assim devemos dar o exemplo para que todos fiquem lá escondidinhos e sem coragem de nos enfrentar.
– Nessa hora que concordo com meu irmão – começou Aegon que aparentava mais leveza também – Nossos pais nos criaram para o mundo, temos que saber lidar com várias pessoas diferentes todos os dias e as maquinações fazem parte da nossa rotina, como sempre. Isso não é surpresa para ninguém, o jogo dos tronos feito por nós não permite que ninguém fique vivo. Aprendemos com nosso pai que inimigo bom, é inimigo morto.
Ela abraçou o logo-gigante com mais força, ele estava tão, mas tão quentinho...
– O que vocês estão achando do Norte? – perguntou cautelosa, estava lidando com coisa séria naquele momento.
– Gelado, assim como sempre pensamos – respondeu Aegon – Prefiro as comidas sulistas, principalmente de Dorne.
Dragão de Dorne.
– Gostei das comidas nortenhas – comentou Jon contradizendo o irmão, como parecia sempre acontecer – É semelhante às da nossa mãe.
– Jon é o meu irmão Stark, nem parece que tem sangue de dragão nessas veias aí – comentou o herdeiro do Trono de Ferro em tom de gozação – Não que ter sangue de lobo-gigante seja ruim, muito pelo contrário, mas estou esperando alguma atitude impulsiva que só um dragão sabe fazer acontecer.
– Tipo o nosso pai – exemplificou Jon.
– Exatamente – concordou Aegon como se fosse um expert no assunto – Um dragão destrói tudo quando quer algo, assim como nosso pai fez.
Eles amam e admiram o pai que tem, mesmo este detonando tudo quando pegou Lyanna Stark para si.
– Mas então não é bom ser um dragão, se destrói tudo pela frente... – divagou Arya sem se importar muito com eles — ...então prefiro conservar, assim como o gelo faz. O gelo é um Stark por natureza.
– É... – começou Aegon pensativo — ...as semelhanças com nossa mãe só aumentam.
– Como assim? – Arya perguntou curiosa, queria saber mais sobre a tia Lyanna para saber como o pai se sentia quando, às vezes, confundiam as duas.
– Irá conhecê-la, Lady Arya – murmurou Jon gentilmente – Sei que gostará dela, assim como ela de você.
Será?
Não teve tempo de pensar muito, logo caíra em sua inconsciência enquanto aqueles rapazes conversavam tranquilamente com ela.
(...)
– Que tal um chá de...
– Eu não quero chá de mais nada, Sansa! – berrou uma furiosa Catelyn jogando a xícara longe, espatifando na parede da biblioteca de Winterfell – Eu quero saber onde sua irmã está!
A truta de Correrio não conseguia sequer concentrar nas palavras macias que a filha distribuía para que ela ficasse mais calma, praticamente estava trancada na biblioteca daquele castelo por causa da profundidade da neve que estava lá fora. Sabia cavalgar muito bem, mas o seu garrano não pertence ao Inverno nortenho, era difícil conviver com tantas adversidades que apenas nortenhos conseguiam superar. Sulistas tem o talento de sobreviver ao calor, o que é muito diferente do resto de Westeros.
– Papai já está à procura dela, mamãe – a filha tentou consolá-la, mas palavras doces não resolviam nada – Não demorará muito, Lady e Cão Felpudo estão com ele.
Teve vontade de falar para Sansa que Lady não é um lobo-gigante de caça, mas magoaria a menina se optasse por esta atitude.
Lady parece um cachorro de... ladies.
Era exatamente o que Sansa se tornara, óbvio.
– EU que estar à procura da minha filha! – berrou novamente, era difícil segurar a besta que existia dentro de si – Se Arya não aparecer nas próximas horas, eu mesma irei até o covil daqueles viados e arrancarei a cabeça de cada um!
Pelos deuses, já são quase quatro da tarde e nada.
Por mais que ameaçasse, a única coisa que poderia fazer era esperar.
(...)
– Ela dormiu? – perguntou Aegon olhando para trás, atraindo a atenção de Jon. Este percebeu um certo interesse do irmão mais velho na lobinha, parecia ser mais uma curiosidade pois a semelhante entre ela e a Rainha beirava o impossível. Mesmo assim, essa reação que Arya Stark provocara no irmão acabou por irritá-lo.
Jon voltou seu olhar para a menina adormecida ao seu lado, trotava lado a lado com o lobo-gigante que o pertencia. Eram feições exóticas, ele tinha que concordar que lembravam muito a Rainha Lyanna, o rosto comprido e os olhos acinzentados sempre foram características dos mais conhecidos Stark de antigamente. Os lábios finos e o nariz pequeno a deixavam com um ar mais delicado enquanto dormia, mas só enquanto estava adormecida mesmo. Era até engraçado ver o quanto Arya Stark passava uma imagem de vulnerável e indefesa, sendo o que, se for bem parecida mesmo com a Rainha, a verdade era outra. Pequena, suas mãos eram a metade das dele e gostou de sentir que estava ajudando aquela menina tão singular. Era tão interessante que...
– Tenho a sensação que ela poderia ser nossa irmã – confessou o Príncipe, atraindo a atenção do herdeiro do Trono de Ferro e uma marcante sobrancelha erguida – Diz que você não pensou assim, ela não tem nada a ver com a Lady Stark que conhecemos.
Aqueles olhos violeta-índigo analisaram o irmão atentamente.
– Não nego que pensei o mesmo quando a vi.
Me diga o que pensa, Aegon.
Jon se sentia um pouco confuso quanto à ela.
– Eu sei o que você está pensando – começou o moreno tentando disfarçar um nervosismo idiota que tomara conta dele.
O irmão mais velho arqueou as sobrancelhas, um sorriso de lado brincava em seus lábios embora o próprio tentava evitá-lo.
– Eu também sei o que está pensando, Jon – murmurou com uma piscadela – Arya Stark é o tipo de garota que nós gostamos, mas não estamos na posição de tentar algo com ela.
‘Nós’.
O mais novo suspirou, era bem comum ter suas expectativas frustradas quando o assunto era mulher e homem. Sempre atraía o mesmo tipo de garota que o irmão, então de vez em quando acabavam por dividi-la para evitar confusões. Era difícil ter alguém só dele, apenas isto.
– Isso também vale para você – comentou mexendo no cabelo, algo que fazia sempre quando se via nervoso – Eu aguento muito bem esse tipo de trato, já você...
O irmão revirou os olhos impacientemente.
– Eu arranjarei alguma prostituta para fingir que é a garota que quero mas não posso ter – falou como se fosse a coisa mais comum, tão leve que até mesmo Jon desconfiou de toda essa decisão do irmão -, e você deveria fazer o mesmo. Não me venha com essa história de que não consegue se abrir com prostitutas, é só abaixar o calção e ela fará o serviço. Nunca entendi essa sua dificuldade, mas sempre transa com Daenerys e Arianne.
Jon respirou fundo, não acreditava que acabavam na mesma discussão sempre que viam uma garota interessante.
– Você também transa com elas, espertinho – o Príncipe Lobo fez uma pausa – Até mais que eu.
– Daenerys e Arianne são mulheres majestosas, estonteantes e gostosas – Aegon ria – Os vestidos que usam são sensacionais, ainda mais com essa obsessão de nossa tia com os costumes Dothraki. Dorne também não fica para trás, são as mulheres mais sensuais de toda Westeros. Gosto muito da aparência das duas, mas...
– ...o nariz empinado fode tudo, eu sei – Jon completou sorrindo. A face de cafajeste do irmão era sempre muito divertida, mesmo os dois atraídos pela mesma lobinha. Muito ao contrário do que as pessoas pensavam, eram melhores amigos e nenhuma garota ficaria acima disto – Gosto de conversar com elas, mas tenho a sensação de que fazem isto só porque estamos tão perto do Trono de Ferro.
O irmão assentiu levemente.
– Entendo o que quer dizer, é como se as pessoas só olhassem nossos títulos e assim deixam de lado nossos medos emocionais – Jon ergueu uma sobrancelha para o irmão – Que foi?
– Eu matei Gendry Baratheon ou Aegon Targaryen? – fez graça apenas para o irmão se distrair. Jon sabia muito bem até onde aquela conversa iria chegar: na menina que Aegon desejou por anos e acabou morrendo de peste. Era uma pobre camponesa que não tinha onde cair morta, ele passara a sustentá-la em segredo e só com a ajuda do Príncipe Lobo. Ninguém mais sabe... – Saia dessa fossa, meu irmão.
Fazia dois anos que a menina perdeu o pulso.
– Tem razão – concordou respirando fundo – Nossa prima é uma lobinha muito engraçada, penso que iremos gostar muito de conviver com ela neste meio-tempo em Winterfell.
– Não podemos sequer tocar nela – o Príncipe Lobo advertiu o herdeiro do Trono de Ferro – É uma questão de honra.
– Quero ver essa honra chegar caso ela esteja disposta a aceitar um de nós dois como... – tenho até medo disso – ...um grande amigo, se é assim que você quer colocar as coisas. Vamos, Jon, é apenas uma brincadeira.
O moreno mexeu no cabelo novamente.
– Se é uma brincadeira... – pensou por mais alguns segundos — ...se ela escolher nós dois facilitará muita coisa.
O irmão mais velho sorriu descontraído, até mesmo se divertindo com a situação.
Se pensa que vou perder pra você dessa vez, está muito enganado.
Não que Aegon disputasse as mesmas garotas com ele, apenas essas mesmas garotas preferiam a proteção do herdeiro do Trono de Ferro do que a do segundo filho, mesmo tendo um posição de muito poder à frente dos Targaryen. Jon era mais ponderado, gentil e tranquilo do que o irmão mais velho, que era claramente mais inclinado à cortesia e galanteios que lhe eram naturais.
Ele ilude as garotas com seu jeito de Príncipe perfeito.
Por ser mais realista, Jon acabava com o papel de tímido e fechado. Só com a ajuda mesmo do irmão para arranjar algumas meninas para si, mas acabavam dividindo a mesma por terem o gosto muito parecido. Ele se perguntou a respeito da escolha da lobinha querer um deles só para si, já cogitando que ela se interessaria.
Seria uma puta de uma ironia se a menina não mandar charme para um dos dois. Era mais que comum tal coisa, era uma rotina que ambos enfrentavam dia após dia. Os caprichos femininos sempre foram muito criticados pela Rainha quanto ao modo de conseguir as coisas, preferindo ser mais dura e direta em seus posicionamentos do que permanecer nas costas de um homem atraindo-o à decisões subjetivas através de métodos nada honrados. Lyanna Targaryen preferia decapitar alguém do que utilizar joguinhos.
– Não te atrapalharei dessa vez, Jon – Aegon o surpreendeu após alguns minutos calado, falando seriamente para o irmão – Farei o mesmo que você fez por mim com Aieska, não deixarei que ninguém descubra o seu interesse na caçula dos Stark.
O Príncipe Lobo sorriu abertamente. Aegon o conhecia mais do que qualquer pessoa, então praticamente lia os pensamentos do rapaz em sua própria testa. Muitas vezes tinha raiva dessa capacidade do irmão, mas acabava salvando-o em várias confusões que se metia sem saber como.
E vice-versa.
– Ela se interesserá por você, Príncipe Perfeito – murmurou em tom de gozação, mas colocando um fundo de verdade. Ver o irmão sorrir aliviou-o, era difícil manter o papel de competidor e melhor amigo do rapaz – Se ela é a Lyanna Stark, você é o Rhaegar Targaryen.
– Eu te detesto por colocar minha auto-estima lá em cima – confessou Aegon divertindo-se. Mas aí avistaram um grande acúmulo de gente quando viraram a Estrada do Rei, presenciando vários cães farejadores e alguns lobos-gigantes cercando onde o Rei e a Rainha estavam. Jon logo reconheceu tio Ned conversando com seus pais, foi aí que ele e Aegon e entreolharam – O que você acha que eles pensarão?
Jon ainda pensava no que poderia responder quando eles viraram o centro das atenções de todas aquelas pessoas que pareciam estar envolvidas em uma dura caçada. O sol já estava se pondo, por volta das quatro horas da tarde, quando a expressão facial do tio suavizou ao reparar que Arya estava com eles. O que não gostou, e provavelmente o irmão sentiu a mesma coisa, foi o modo com que os pais os olharam.
Eles temem a nossa reação.
Por que será que consideram aquilo tão inevitável?
Talvez por terem sentido na pele a urgência de um pelo outro.
Pelos deuses, Jon esperava não chegar naquela condição.
E nem Aegon.
– Minha preocupação é ter que mentir para nossa mãe.
O loiro coçou a cabeça, sempre foi um sinal de que se sentia nervoso.
Algo não tão comum assim.
– Aí que mora o medo, lobinho – Jon revirou os olhos – Prefiro desafiar nosso pai do que ter que inventar uma história para nossa mãe. Ela mete medo com aquela cara de loba, lembra quando Rickard brigou com aquele cavalariço bêbado? Depois daquilo, rapaz, as pernas já tremem.
– Que tal chegarmos já falando que matamos o tal do Gendry? – sugeriu Jon – Isso nos dará um bom espaço, podemos sair pela tangente porque o assunto só acabará sendo a respeito da quebra da diplomacia como Norte. Stannis Baratheon irá nos chatear para todo o sempre com isto, então talvez seja melhor assim.
O Dragão de Dorne analisou o irmão em um tom de dúvida.
– Será que isso dará certo? Vai ser suficiente?
A quem eu quero enganar?
– Mas é óbvio que não.
A Rainha tem um olfato de loba-gigante.
– Pode deixar, irmão, eu irei lhe proteger assim como você fez comigo e Aieska.
Uma coisa era o cauteloso, desconfiado e ponderado Príncipe Lobo esconder algo, outra completamente diferente era colocar o Dragão de Dorne fazer a mesma tarefa. Pelos deuses, por que será que Jon se sentia mais nervoso do que o normal?
Prendeu a respiração quando chegaram mais perto e presenciaram a mãe com as mãos na cintura olhando a ambos como se estivesse montando o sermão em sua mente. A garganta do rapaz ficou seca quando os olhares pediram uma explicação daquilo tudo, principalmente quando Fantasma foi até o tio para entregar a pequena loba de Winterfell.
(...)
Catelyn andava de um lado para o outro na biblioteca, não aceitando ninguém interromper seu sofrimento particular, quando o castelão adentrou o aposento rapidamente com a melhor notícia que ela poderia receber. Ned havia acabado de voltar com Arya, esta desacordada e ninguém sem saber direito o que acontecera, mas tendo testemunhas... nada inocentes. Mesmo assim, Lady Stark não quis saber de recepcionar ninguém em Winterfell, mesmo com o Rei e a Rainha se acomodando lentamente dentro daqueles domínios. Correu até o saguão de entrada com Sansa e Lysa atrás de si, nenhuma dando conta de acompanhá-la em seu desespero.
O senhor seu marido carregava a filha mais nova nos braços, pequena quanto uma criança, ela nunca crescera tanto como Sansa. Mais do que nunca Arya parecia ser vulnerável, frágil e indefesa enquanto dormia. Enquanto dormia. O problema era que o modo com que a própria estava adormecida desesperou a truta de Correrio, chegando até o marido para ver como a sua pequenina estava.
Pálida e coberta como uma capa felpuda completamente negra, que Catelyn logo localizou o dragão de três cabeças costurado na altura do peito, suas feições jaziam serenas e tranquilas embora sua respiração estivesse bem curta. O coração de mãe apertou sensivelmente, não saberia o que faria caso ela estivesse morta ou danificada.
Mataria aquele rapazinho.
Nem um Caminhante Branco poderia interromper essa possível caçada.
– Como ela está, Ned? – perguntou com urgência, mas logo se acalmou. O marido não estava demonstrando tanto desespero assim, seus olhos até mesmo aparentavam muita seriedade embora Catelyn o conhecia o suficiente para saber que um alívio percorria todo o seu ser.
– Segundo a história que contaram, Gendry Baratheon a raptou usando um veneno que a deixou desacordada e... – Lorde Stark olhou para a esposa como se estivesse procurando uma tranquilidade, que inexistia, dentro dela — ...falaram que Arya não conseguia distinguir imagem alguma, estando possivelmente, e temporariamente, err... cega.
Catelyn nem quis saber quem contou a história. Seus olhos apenas se arregalaram quando estou a últim palavra que Ned dissera. Boquiaberta, ela tentou se acalmar mas logo precisou de ajuda para ficar em pé. Sansa veio na hora certa quando a ajudou a se manter firme.
– Cega?! – berrou incrédula – Aquele rapaz a deixou cega?! Pelos deuses! Pela Mãe! Que o Estranho que o leve!
– Mãe! – exclamou a filha, horrorizada com a raiva da mãe.
– Gendry está morto, Cat – informou-a seriamente.
Era para deixá-la alegre, o que realmente a deixou, mas este sentimento logo passou quando uma pergunta que ela suspeitava saber a resposta.
Dragões.
– Quem o matou? – perguntou confusa. Não porque estava em dúvida se sentia pesar pelo rapaz, mas sim pela resposta de quem o fez – Ned?
Foi quando uma mulher extremamente intimidante que Catelyn conhecia, embora não tão bem quando o marido, adentrou o saguão de entrada do castelo. Usava uma tiara de pérolas negras e um vestido tão negro quando as próprias pérolas, caminhando rapidamente como se não existissem incontáveis anáguas ali debaixo. Era uma figura majestosa e ameaçadora, mesmo tão pequena quanto Arya. A Rainha era misericordiosa... se a pessoa provasse que merecesse tal coisa. Com a feição bastante carregada, ela logo se apoderou do ambiente ficando entre o irmão e a cunhada.
– Não importa quem o matou – começou imperiosamente – Ele tentou estuprá-la quando meus filhos a encontraram, logo acabou sendo morto por algum deles. Gendry Baratheon a envenenou, é tudo que sabemos.
Essa história está estranha.
O tom de voz da mulher era desafiante.
– Vossa Graça – todos fizeram a reverência profunda como dita às boas maneiras e a lei do respeito – Não discriminarei quem o fez, apenas gostaria de saber para cumprimentá-lo e agradecê-lo por finalizar tal situação. Vossa Majestade sabe tanto quanto eu que uma mãe sempre é vingativa quando seus filhotes estão em jogo.
Sentiu aqueles olhos acinzentados a examinarem por completo, Lyanna não parecia uma Rainha, seu ar de Imperatriz era tão profundo que até fitá-la acabava se tornando um tom de disputa. Estranhamente, a Rainha parecia estar bem mais séria do que o normal e as coisas aconteciam claramente nos bastidores. Catelyn sentia o cheiro de intriga no ar.
– Entendo, Lady Stark – será mesmo? – Sou uma loba-gigante, não duvide do que sou capaz quando um dos meus filhotes estão em uma situação nada favorável. Minhas presas, quando combinadas às de um dragão, acabam se tornando mortais. Não há necessidade de saber o que aconteceu ou não, esta história morreu e, se insistir, eu falo que eu mesma matei esse pobre, ignorante e burro rapaz.
Levei um coice ou foi impressão minha?
Nesta hora que a truta de Correrio percebeu que se algum dos Príncipes assumissem a morte do herdeiro dos Baratheon, aí uma crise diplomática logo iria irromper no meio daquela visita que tinha a intenção de ser amigável e familiar. Uma coisa como aquela estragaria todo o casamento de Sansa, e foi aí que Catelyn sorriu agradecida.
Não suportaria ver os últimos momentos de Sansa aqui sendo atrapalhados por conta dos Baratheon, Stark e Targaryen juntos. Como sempre.
– Compreendo, Vossa Majestade – e muito – Perdoe-me por recebê-la assim, fiquei tão desesperada que acabei esquecendo de todas as minhas obrigações.
A irmã do senhor seu marido sorriu dócil, eram mães e fariam tudo por seus filhotes.
– Não perca seu tempo pensando assim, Lady Stark – aconselhou-a dando-lhe dois beijinhos em cada uma das faces, um ato bastante informal para quem está no topo da pirâmide do poder – Só lhe peço um bom leite quente para minha filha e uma pequena ajuda para que nos acomodemos. Meus filhos são nascidos e criados no Sul, não estão acostumados com toda essa neve e muitas vezes penso em deixar alguns com vocês para ver se pegam um pouco da cultura nortenha. Pode ajudá-los em muitas coisas.
Pela Mãe, que eles não fiquem aqui.
(...)
Ele pediu que nenhum criado o ajudasse a desfazer as malas, apenas entrou em seus aposentos e fechou a porta silenciosamente. Deixou o irmão mais velho conversar com Robb no Bosque Sagrado enquanto o pai conhecia Winterfell junto com todos os outros dragões. Jon não tinha a menor ideia do que sua mãe estava fazendo no momento, ninguém sabia nada dela e o Príncipe Lobo agora sentia uma certa dificuldade de interação com o resto das pessoas.
Não podia negar que toda vez que ficava sozinho seus pensamentos se dirigiam até àquela menina inconsciente que achara no meio da floresta e caída na neve. O longo cabelo negro caía em ondas úmidas por causa da garoa e da neve que derretia ali, e o próprio não resistiu e tocou naquele cabelo molhado enquanto Aegon verificava se o tal do Gendry estava morto mesmo. Cega, a menina acordou tão indefesa que Jon não conseguiu evitar a sensação de querer protegê-la do mundo, cuidar dela de uma forma que Catelyn Stark jamais faria.
Os olhos acinzentados estavam sem foco quando Arya abriu as pálpebras, mas o modo de falar da menina resultava em uma personalidade forte e arisca. Perguntou-se a respeito das semelhanças quanto sua mãe, agora entendia porque seu pai havia sido enfeitiçado tão rápido por uma lobinha de Winterfell. Sentando-se na cama, ele passava toda aquela tarde por sua mente lentamente buscando um modo de esquecê-la, não poderia ter sequer uma amizade por causa do trato que fizeram antes mesmo de ele nascer.
Precisamos honrar este trato.
Ele tinha que colocar sua honra acima de qualquer coisa, e não jogar tudo para o alto como o seu próprio pai fez.
Ao mesmo tempo que queria esquecê-la, algo colocava em sua mente mais e mais coisas a respeita daquela menina peculiar que aparecera em sua vida de repente, de uma forma que nunca imaginaria. As pequenas mãos tinham calos em partes estratégicas de quem treina muito com armas, principalmente espadas e adagas. Imerso em sua imaginação, quase não escutou quando alguém bateu na porta pela... quinta vez.
– Pode entrar, mãe.
A poderosa, imponente e ameaçadora Lyanna Targaryen adentrou o aposento com o seu mais singelo e doce sorriso de mãe. Reparou que ela tomou o cuidado de checar se havia alguém no corredor mais de uma vez, trancando a porta logo em seguida. Jon havia se perdido enquanto imaginava a lobinha com ele, deixando parte do seu casaco aberto já achando que não o vestia mais.
– Como está meu lobinho? – perguntou-o carinhosamente enquanto procurava outras vestes no maleiro do filho, arranjando uma túnica negra e combinando-a com outras vestes negras em cima da cama que o filho ainda estava sentado.
– Tranquilo, por que não estaria? – perguntou como quem não queria nada, preferindo não encarar o olhar penetrante da mãe.
– Você e Aegon podem enganar o Rei, — começou astuta, colocando o filho em pé para ajudar a retirar o casaco dele – mas nunca conseguirão enganar a Rainha. Me conte o que aconteceu de verdade, querido. Sei que se o rapaz estivesse tentando estuprar Arya, você e seu irmão iriam torturá-lo durante um longo tempo e depois iriam expô-lo para Westeros inteira ver. O nome ‘Baratheon’ seria logo associado à barbáries, sendo melhor para nós. Sou sua mãe, farejo uma mentira de longe.
Ela sempre sabe.
A mãe retirou o casaco do filho, dobrando-o e colocando em cima da cômoda.
– Não adianta fugir da Rainha, não é? – ele perguntou sorrindo, nem sequer adiantava perguntar como ela sabia que algo estava errado – O que a senhora falou para a mãe da lobin... quero dizer, Lady Arya?
Um sorriso divertido brincou nos lábios da mãe, que tentou disfarçar sua reação virando de costas para Jon. Este ergueu uma sobrancelha, gostaria de saber o que era tão engraçado assim para fazer Lyanna Targaryen rir escondido.
Com um pigarro, ela voltou a encarar o filho.
– Falei que se qualquer um insistir para saber quem matou aquele idiota, eu mesma assumirei o assassinato.
Jon arregalou os olhos, não pensou que a mãe chegaria tão longe para protegê-lo.
– A senhora não precisava...
– Precisava, sim! – insistiu enquanto o vestia com as roupas que escolhera – Não vou deixar que nenhum Baratheon arrume motivos para interferir em minha família, está bem?
– Mas... – só que a Rainha não deixou com que ele terminasse novamente.
– Não quero saber deste assunto mais, entendeu? – ele demorou, mas assentiu sentindo-se culpado por deixar com que a mãe assuma aquele fardo – Me diga a verdade agora, quero saber tudo dessa ‘lobinha’.
Ele se sentiu estranho quando a mãe pronunciou a última palavra sorrindo, tal comportamento o perturbou profundamente.
– Não é motivo de riso, mamãe.
– Ok – ela respirou fundo – Me perdoe, mas você nunca esteve tão parecido com o seu pai quanto agora. Olhe esse olhar, pelos deuses! Foi o mesmo de quando nos conhecemos na Falsa Primavera!
Jon bufou, já estava irritado com o modo que a mãe estava tratando o assunto.
– Eu matei aquele rapaz porque estava parecendo estar sequestrando alguém, o que de fato fazia, porque calado é mais fácil recuperar o item roubado e...
Ela revirou os olhos impacientemente.
– Eu não importo sobre e o porquê você matou aquele infeliz, só quero ter certeza que a ‘lobinha’ mexeu com você – interrompeu-o pela terceira vez só naqueles últimos instantes, algo bem típico de sua mãe – Vamos, não me deixe curiosa! Nem se atreva a falar que não sentiu nada, conheço-te muito bem porque fui eu que te pari.
Delicada quanto um coice de cavalo.
– Lady Arya – frizou incomodado com o ‘lobinha’ – é uma menina muito bonita, apenas fiquei preocupado porque não sabemos qual veneno que aquele rapaz a fez ingerir. Ela está cega, mamãe.
– É temporário, o Meistre Luwin já a examinou por completo quando ela acordou – informou-o querendo ver qual a reação do filho, e logo se viu satisfeita com o brilho de interesse que surgiu naqueles olhos cinzentos do rapaz – Quer visitá-la?
– E-eu... – não sabia o que falar para a mãe — ...para com isso, mãe. É chato.
– Querido, — ela o abraçou por trás, mesmo sendo bem mais baixa que ele – você tem mais sangue de dragão do que pensa. Nem me preocupo com Aegon, aquele ali tem sangue de Dorne correndo pelas veias mas se te vê interessado nela, sei que abrirá caminhos para você. Ele só irá se aproximar da ‘lobinha’ caso você não falar nada, então aconselho falar algo.
Será que ela foi falar com ele primeiro?
– Mãe!
Lyanna era impossível, gostaria de saber como seu pai aguentava toda aquela insistência.
.. prefiro não pensar nisto.
– Minha cunhada iria preparar um banquete de boas-vindas mas eu falei que não precisava, só queremos descansar após essa longa viagem – começou a mãe nas pontas dos pés, beijando a nuca do rapaz – Seu pai já não é tão jovem quantos vocês, e olha que Brandon e Rickard estão exaustos. Elliot virou a mais nova obsessão de Lysa Tully, pelos deuses, preciso salvá-la das mãos daquela louca. Rhaegar está lá com ela, pelo menos isto.
– E...? – ele a conhecia, sabia que a mãe estava planejando algo. Vê-la sorrir como se fosse uma criança pega no ato era impagável, acabou deixando-se levar pelo comportamento juvenil da Rainha e sorrindo em seguida – Agora sou eu que quero saber, Rainha Lyanna. O que pretende fazer com o seu pobre filho?
Ela encarou-o atentamente, olhando em seus olhos seriamente.
– O que achou dela? – cada nova pergunta, mais uma surpresa, Rainha Lyanna – Acha que vale a pena desafiar o Norte por ela?
Era como se algum dragão ou lobo-gigante estivesse devorando sua língua, porque não conseguiu pronunciar uma só sílaba. A mãe era pior do que ele pensava.
– E-eu... não sei do que está falando.
Observou-a revirar o olhar.
– Pelos deuses antigos, você tem a lerdeza dos Stark mesmo – ela botou as mãos na cintura – Bota esse sangue de dragão para ferver, eu passarei aqui de madrugada para vermos a sua ‘lobinha’. Ela já aceitou te ver em segredo, quero dizer, ‘ver’.
Isso fez o coração do jovem Príncipe Lobo estagnar, chocando-o completamente. Um misto de vergonha e ansiedade tomou conta de si, era tão forte que mal conseguia disfarçar um traço de esperança que logo escapou em sua expressão facial, atraindo o interesse de uma risonha Lyanna Stark.
– M-mas... – Jon engoliu em seco — ...por que ela aceitou? Foi a senhora que propôs?
Depois de abraçá-lo e beijar a sua nuca, a mãe deu um soco em seu ombro.
– Olha só, eu não te fiz sozinha – começou enquanto o filho acariciava o local – Tem sangue de dragão aí e você tem que usar, meu filhote! Aegon disse que você ficou tão deslumbrado com a ‘lobinha’ que pareceu esquecer aonde estava quando a viu pela primeira vez – maldito Aegon – Eu aconselho que você me dê um neto rapidamente.
– Mãe!!! – suplicou pela terceira vez, já se sentia envergonhado e completamente corado por causa da investidas nada discretas da mãe, que ria descontroladamente – Isso não é divertido! Para a própria mãe arranjar um encontro para o filho...
– Jon, não é um encontro – falar assim a fez rir mais ainda, deixando-o se complicar mais ainda – É isso que você quer que seja? Enfim, já sei a resposta. Você irá visitá-la para ver se ela está bem, foda-se que é uma visita de madrugada e cheia de segundas intenções, e usará a desculpa que não se sentiria bem no meio dos Stark que provavelmente te julgarão de outra forma. E com razão, porque né?
Fechando os olhos, Jon colocou a mão esquerda na ponte do nariz, apertando-a.
– Tem noção do quanto isso é inadequado, mamãe?
Lyanna o fez encará-la após colocar as mãos em seu rosto, direcionando até ela.
– Você precisa de alguém, não quero vê-lo sozinho enquanto seus irmãos festejam por aí, sei que é um rapazinho de família e que tem uma visão bem conservadora do mundo – ‘rapazinho’ – Esse brilho em seus olhos devem persistir, nem que eu tenha que fazer um Torneio de Harrenhal II, ok? Não precisa responder, sei que é um absurdo... mas é para isso que sou Rainha: fazer absurdos se concretizarem só por causa da minha posição.
– Isso é uma questão de honra, mamãe! – insistiu envergonhado pela situação.
Pelos deuses, eu devo ser uma merda para arranjar um encontro.
– E quem se importa?
Jon esqueceu que estava conversando justamente com uma mulher que quando muito jovem resolveu jogar tudo para o ar e acabar se tornando amante do Jovem Dragão.
– A senhora não tem juízo.
A mesma depositou um leve beijo na testa do filho, que dobrou os joelhos levemente para que ela pudesse alcançá-la. Pareceu nem escutar o que ele havia acabado de falar, ou então não dava a mínima para o que o próprio filho achava.
– Esteja pronto após meia-noite, Jon – sugeriu em um tom de voz mais baixo – Tenho que ir agora, seu pai está me esperando com Elliot e quero aquela louca Tully bem longe da sua irmã. Não se esqueça: eu quero netos.
Lyanna deixou um jovem Príncipe constrangido pra trás, preso naquele aposento e logo ansiando o que viria mais tarde. Tentou cortar o aumento vertical de suas esperanças, mas já era impossível.
Jon Targaryen havia sido fisgado pela lobinha cega de Winterfell.
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