Apenas Meu.
43 (II) Deixada.
Notas iniciais
Devo pedir desculpas pela demora, mas o problema é que minha rotina está MUITO CORRIDA. Hj estou estudando feito louca pra prova de amanhã, sim, sou dessas que só pega a matéria gravando-a )))): O bom é que na prova teste acertei a maioria das questões.
Consegui revisar a última parte desse capítulo hoje e já decidi postá-lo completo, dado o tempo que demorei.
Fiquei chateada por algumas pessoas não terem compreendido o sentimento de Ava no último capítulo, desculpe, mas estou sendo inteiramente sincera. Poxa, se uma mulher não tem útero, automaticamente ela não menstrua. Então, com ele falando que era coisa de uma mulher normal, ela se sentiu taxada a estranha, compreendem agora?
Sim, vou fazer vocês ficarem bravinhas com o Christianh, pra apimentarmos a relação e reação!!!!
E por fim, eu troquei a capa, o que acharam? *-*
I want to say I'll live each day until I die, and know that I had something in somebody's life. The hearts that I have touched will be the proof that I leave that I made a difference.
Quero dizer que vou viver cada dia até eu morrer, e saber que eu tinha algo na vida de alguém. Os corações que toquei serão a prova que deixo de que fiz a diferença. (I Was Here – Beyonce).
Christian sabia que tinha estragado boa parte do que levara anos para construir. Então, se trancou em um dos quartos mais escondidos da casa. Ao passar a chave, o cheiro de coisas guardadas entupiu suas narinas. Que mulher, na situação de Ava, o perdoaria por tais palavras? A pressão estava enorme sobre seu peito. Responsabilidades demais, omissões de enormes fatos, pedidos a serem feitos por alguém que o pediu por isso antes de morrer. O quarto o enchia de uma nostalgia inexplicável.
Ele olhou ao redor, enxergou as paredes beges e as fotos antigas. Andou calmamente até uma das caixas e viu uma antiga história que poderia dar em um grande final surgir. Corinne teve uma morte muito destrutiva. O câncer percorreu todo seu corpo rápido demais, mas ainda assim, ele viveu cada dia da forma que pôde. Christian sabia que ela sabia, e sabia que ela tinha suas razões para não ter lhe contado, e a respeitava por isso. A prova estava nas cartas guardadas em uma caixa de ferro, a prova de água, fogo e qualquer outro acidente. Cada uma delas representava uma passagem da vida de Jullie. Christian apreciou aquela atitude de sua ex-mulher. A responsabilidade aplicada a ela, os pensamentos do que poderia fazer para ao menos se sentir presente. Havia uma carta para quando a menina desse o primeiro beijo, para quando se apaixonasse, para quando completasse quinze anos e outra para quando completasse dezoito. Ele a respeito; seguiu as instruções da enorme carta que ela lhe deixara. Ele se sentou ao chão, pegando todas as poucas lembranças que havia guardado da ex-mulher, coisas que sabia que teria de mostrar a garota em um futuro. Coisas que iria querer dividir com a mulher com que se casaria. Aliás, Christian estava com uma aliança naquele instante, a pequena caixa o queimava na direção da coxa, algo dizia para ele ir atrás de Ava e lhe revelar o que guardava no peito, mas sabia que seria injusto com ela, principalmente pelo o que faria a seguir.
Ele já havia magoado ela demais, e talvez fosse realmente melhor ter acontecido a discussão. Não que se considerasse certo com as palavras ditas de forma errada. Como alguém, sabendo do que sabia, poderia dizer aquilo? Como poderia ser tão tolo? Como poderia sequer pensar na hipótese de perdê-la novamente? Depois de tanto lutar? Depois de passar três anos sentindo que estava dando passos para trás, sentindo que estava perdendo-a como grãos de areia entre os dedos. Ele passou três anos de sua vida sentindo que estava fazendo algo errado. Sentiu que estava fazendo algo certo, quando foi a sua casa depois do enterro de Corinne.
Ava era a culpada por aquilo. Nunca ninguém o fez sentir de forma correta. Nunca ninguém o protegeu da forma delicada que ela o fazia. E ele nunca sentiu tanta necessidade de proteger alguém, nem que aquilo custasse seus dias de vida. Vê-la sorrindo era como ver flores brotando como um milagre. E quando ela fazia aquilo para ele, era de arrebata-lo de tal forma... De forma a querer gravar seu nome em paredes públicas, em fazer besteiras como as que fazia quando era jovem. Mas sabia que teria de lutar muito para consegui-la de volta. Intacta. Apenas dele.
*
Eu não sabia qual caminho percorrer. De repente tudo se tornou muito vago. Sai da casa de Christian aos prantos. Andei de moto por muito tempo para ter qualquer pensamento sólido sobre o que fazer em seguida. E meu coração me guiou até a casa de meus pais, o último lugar que imaginei estar. O porteiro da casa abriu os portões para mim com um largo sorriso nos lábios.
Percorri o caminho até a entrada da grande casa sem pressa e foi quando descobri onde a festa de casamento e o casamento de Kate ocorreriam. Tirei o capacete e estacionei a moto em qualquer lugar vago. Elliot estava andando para lá e para cá. Apontando para diferentes direções. Foi só então que olhei em volta. Foi quando vi todas as flores chegando em grandes caixas. Brotos delas, luzes penduradas em fios, madeiras e muitos homens trabalhando a todo vapor. Sabia que o casamento era amanhã. Minha mãe estava com as roupas. Deixei o capacete no chão e caminhei vagorosamente até o local em que as cadeiras estavam sendo colocadas. Elliot se virou para mim e correu na minha direção.
- Ava? Não diga que Kate está...
- É lindo, Liot. Muito lindo. – Elogiei, olhando ao redor e sorrindo.
Ele avaliou minha expressão e depois sorriu timidamente, coçando um pouco a cabeça com os cabelos claros e cortados. – Eu não sabia direito onde escolher e Cary me ajudou me apresentando a Rachel.
- Quem escolheu as flores? – Indaguei, vendo brotos de diferentes tipos passando, rosas vermelhas, orquídeas, tulipas.
- Eu. – Ele sorriu novamente, seu rosto brilhando com o suor.
- São as preferidas de Kate. – Falei automaticamente.
- Quando a gente ama, a gente conhece a pessoa de ponta-a-ponta. – Elliot acenou em positivo. – Fico feliz em dividir isso com você. – Ele deu um beijo no centro da minha testa e correu até onde o restante dos homens estavam e recomeçou a gritar as ordens.
Outro topo de cabeça loura me chamou a atenção. O sorriso largo como o da irmã e também gritando ordens suaves e ajudando a carregar as caixas. Coloquei a mão em forma de aba no alinhamento da sobrancelha e fitei Kyle ao longe, também fazendo os esforços por Kate.
- Ava? Querida, o que aconteceu? – Minha mãe indagou e me virei para vê-la com roupas frescas e elegantes.
- Discussões, mamãe. – Dei de ombros, indo até as escadas e ficando na varanda limpa e organizada.
Duas mesas completando o cenário com frutas e sucos.
- Venha comigo, então. Nada que escolher vestidos não ajude! – Um sorriso percorria sua face ao pegar minha mão e abrir a porta dupla que dava para um hall com carpete creme.
Andamos pela casa de mãos dadas, como se meus olhos não estivessem lacrimejantes e como se a bolsa cheia não estivesse em meu ombro. Subimos os degraus que levavam para duas direções no andar de cima e viramos automaticamente para a direita. Percorríamos o caminho em silêncio. Ela abriu uma das portas e a trancou atrás de si. A minha frente, seu escritório que utilizava para ensaios tomou forma.
Algumas poltronas espalhadas, mas a maior parte do espaço era vazio para ela percorrer o caminho em seus ensaios. Em uma mesa, tinha vários papéis perdidos com anotações diferentes.
- Estou com tantos projetos. – Se lamuriou jogando os papéis em uma gaveta funda.
- Muitos papéis? – Indaguei, sorrindo e tirando a bolsa do ombro e colocando-a sobre uma poltrona.
- Na verdade, só um. Mas estou com um projeto em mente, porém um beneficente. – Ela deu de ombros.
- E qual causa agora, mamãe? – Indaguei, tomando uma das caixas em mãos e puxando as peças.
- Adoção. Ajudar em adotar crianças, independente da idade. – Ela sorriu, afirmando com a cabeça.
Ponderei durante alguns instantes. Minha mãe sempre pesquisava causas em prol de algo em que pudesse ser eficiente. Ela sempre me contava de todas; e todos os projetos tinham alguma referência comigo, ou com aquilo que ocorreu no meu passado. Mas, pela primeira vez, uma realmente tocou profundamente em meu coração.
- Posso ajudar. – Palpitei, assistindo sua reação.
Seu rosto se retorceu em surpresa e sorriso.
- Jura? Fico tão feliz com isso. – Ela acenou em positivo, pegando minha mão na sua e apertando-a.
- Christian falou coisas terríveis para mim hoje. – Disse com um sorriso, mesmo sentindo-o diminuir. – Em meio a uma discussão ele disse que eu estava de TPM e que aquilo ocorria com qualquer mulher normal...
A frase foi interrompida por um suspiro seguido de lágrimas incessantes. Minha mãe, com os olhos arregalados percorreu o espaço com os braços esticados e me puxou para o seu colo, coisa que não fazia há tanto tempo. A sensação foi um ímã para as lágrimas. Chorei como se o dia seguinte não existisse. Os dedos da minha mãe percorriam o longo do meu cabelo comprido.
- Ah, meu bem. É claro que as palavras dele te magoaram. – Falou com voz calma e doce. – Homens são feitos exatamente para isso. São os melhores em errar, é aí que descobrimos se vale a pena, porque se valer, ele vai ser capaz de consertar isso.
Só consegui acenar em positivo e sugar todas suas palavras para dentro do meu pensamento. Imagens vagas do meu passado com ele passavam por meus olhos. Imagens boas de lembrar e impossíveis de esquecer, mas todo momento era digno de ser lembrado ao lado dele. Tudo era um ponto positivo, ou um negativo que nos levava ao melhor da união.
*
Era a manhã do grande dia para Kate. Ela já havia me ligado umas trezentas vezes, falando como o spa para dia de noivas era incrível, que eu tinha organizado da melhor forma possível. Minha mãe e eu nos certificamos de escolher um vestido que se igualasse ao tom da gravata de Kyle. A sensação relaxada havia adornado todo meu corpo, eu estava apoiada contra o parapeito da varanda do meu quarto quando os últimos preparativos estavam sendo feitos. Meu pai estava dando as coordenadas ao reforço de segurança que foi contratado. As flores estavam postadas. Havia muitas delas, cada muda salpicada em cores e tipos. Havia alguns jardineiros também, cuidando para mantê-las vivas e abertas para a noite. Algumas mulheres, do serviço de Buffet, estavam arrumando as mesas com toalhas brancas. Outro grupo de funcionários estava arrumando o pequeno altar também revestido em flores e construído com madeira pintada em branco.
Foi quando o vi entrar. Seu sorriso amoleceu minhas entranhas e o modo como olhava para Jullie, colocada delicadamente em seu colo era arrebatador. Ele possivelmente sabia que eu estava lá. Provavelmente fora lá me procurando para tentar dizer algo que revertesse sua palavra. Pelo menos, era aquilo que eu esperava. Não que fosse dar certo, mas eu esperava que ele tentasse. Antes que eu pudesse andar de fininho até o interior do meu quarto, Jullie olhou para cima e começou a balançar a mão com velocidade, chamando a atenção de todos.
Ergui a mão e acenei de volta, sorrindo só para ela. Ver seus cabelos lisos ao vento era a evolução para um amor que imaginei que nunca chegaria a conhecer. Nunca pensei em olhar para uma criança e senti-la como minha filha, afinal, eu não tinha útero para ter aquele amor. Não tinha o órgão que procriasse outro ser dentro de mim. Mas eu tinha a sensação que ela me pertencia pelo amor que eu sentia por ela e que meu dever era protegê-la de qualquer mau.
- Quer dar uma volta, gatinha? – Perguntei em voz alta.
Ela olhou para Christian e o mesmo sorriu soltando-a ao chão. Corri pela Mansão, sorrindo de maneira boba, por saber que a encontraria perdida na grande casa. Assim que cheguei, a cena que presenciei foi de deixar-me sem reação a não ser apenas olhar. Minha mãe estava com os joelhos flexionados e conversando animadamente com Jullie em seu pequeno vestido amarelo.
- Encontrei ela, tia. – Jullie apontou na minha direção
E minha mãe acenou em positivo, abrindo espaço para que a mesma corresse na minha direção e pulasse nos meus braços.
- Você não estava hoje no café da manhã. – Ela comentou, se apoiando nos meus ombros, enquanto um de seus dedos se enrodilhava em um cacho meu.
Dali o assunto se percorreu para longe da minha ausência e o que antes se resumia a pura infelicidade pelos últimos acontecimentos, se reverteu em um sentimento puro de esquecimento.
*
Quando a hora para se arrumar chegou. Jullie e eu corremos para dentro de casa enroladas em toalhas. Com certeza Jullie teria uma grande noite de sono, era capaz de ela não suportar a cerimônia. Mas minha mãe a animou o suficiente para colocar seu vestido de veludo vinho e ficar junto com o pai até a cerimônia começar.
- Me ajuda a escolher um brinco, dinha? – Ela me chamou.
Acenei em positivo e a peguei no colo com cuidado suficiente para não abarrotar seu vestido. Puxei um par de pequenos brincos de pérola e instantaneamente Jullie bateu palminhas delicadas.
- Quero que o papai coloque em mim. – Ela sorriu, puxando-os da minha mão. – Não sei onde ele está.
- Eu te levo até lá. – Assegurei, abrindo a porta do quarto e caminhando pelo corredor onde sabia que Elliot, Cary e Kyle estariam.
Não havia entendido a razão para que se arrumassem todos juntos, mas nunca conseguimos passar pela linha de segredo dos pensamentos dos homens. Bati à porta e a mesma foi aberta instantaneamente. Kyle estava atrás dela, apenas com as calças sociais.
- Belo roupão. – Ele elogiou com um aceno firme em positivo.
- Cadê o meu pai? – Jullie indagou, se retorcendo para olhar o interior do quarto e interrompendo Kyle inconscientemente.
- Estou aqui. – Christian avisou em um tom alto de voz. – Venha aqui, anjinho. – Ele surgiu ao longe, com todo o ambiente a favor da sua aparência... e ele precisava estar sem camisa? Não, não precisava.
Jullie saltou dos meus braços, me deixando momentaneamente espantada. Eu me apoiei contra o batente da porta dupla branca e olhei para dentro, Christian também me olhou.
- Tudo bem se ela ficar? – Indaguei, olhando-o diretamente nos olhos.
Ele poderia ter me olhado de todas as formas, ter simplesmente acenado em positivo, ou ter dado um sorriso, eu entenderia todas as expressões. Mas ele não precisava erguer seu belo rosto com a máscara impenetrável que ele utilizava com desconhecidos.
- Sim. – E aquela não era realmente uma palavra calorosa.
Kyle assistiu a tudo de perto e fechou a porta educadamente diante de mim.
*
Fiquei pronta quando coloquei o par de brincos de pedras de diamante, os pontinhos brilhavam pendurados em minhas orelhas. Não me lembro de ter usado um vestido de cor esmeralda antes. Mas caia bem nas curvas do meu corpo. Ele era longo e com uma abertura na coxa esquerda serpenteando em leves camadas de seda até os pés. As sandálias eram de prata, combinando com os detalhes embutidos nas bordas do vestido e as costas eram completamente nuas, um charme que se tornou propenso em vestidos de festa, principalmente por fazer a mulher mais sensual. Dei uma voltinha, ainda atordoada por como as vestes caiam bem. Ao final da volta, vi Kyle encostado ao batente da porta, ele sorriu e eu devolvi o gesto.
Depois que olhou ao redor ele fechou a porta atrás de si, a trancou e andou até mim, só parou quando estávamos perdidos em um abraço que eu não sabia que estava com vontade de dar. Eu podia escutar seu sorriso, e por mais assustador que pudesse parecer, eu estava animada por reencontrá-lo. Sempre era bom ter fragmentos bons do passado inclusos no presente.
- Eu não pude te dizer olá da forma correta. – Ele falou próximo ao meu ouvido.
Nós nos soltamos e nos encaramos. Seus cabelos estavam coordenados por gel, o tom de sua pele deixando seus olhos ainda mais verdes e o smoking levando-o a beleza indestrutível.
- Olá, então. – Cumprimentei, enquanto fitava seus olhos serpenteando com pressa pelo meu rosto.
- Vamos? – Ele chamou, enquanto a música lenta se fazia ouvir lá de fora.
Eu peguei sua mão estendida, enquanto seguíamos juntos até a porta. Mesmo que eu não fosse a noiva, eu estava parcialmente ansiosa, principalmente porque a noiva era minha melhor amiga.
*
Christian enxergava que era daquilo que precisava. Da segurança de vê-la bem. Eles estavam quase frente-a-frente por ambos serem padrinhos dos noivos, mas em nenhum momento viu Ava lhe lançar qualquer olhar. Seus olhos deveriam estar em Kate na hora da sinfonia para noivas, ou no momento em que seu pai entregou sua mão ao seu primo. Mas em nenhum dos extremos momentos de um casamento ele conseguiu tirar os olhos de Ava. Ele a via olhando ao redor, procurando por algo e nunca encontrando. Preferia daquele jeito, sabia que era melhor de tal forma. E tinha de aceitar isso. Mas não conseguia e não podia. Não queria ser o responsável por colocar obstáculos no relacionamento que ambos demoraram a construir.
Agora, com um simples gesto ele iria desmoronar tudo. Conhecia Ava o suficiente para saber que aquilo aconteceria no dia seguinte. E que a decisão se arrastaria pelos outros dias.
*
A cerimônia ocorreu como o planejado. Não houve ninguém na parte do: “Fale agora ou cale-se para sempre”. E por mais incrível que pudesse parecer, os ombros de Kate aliviaram a tensão. Eu fiquei o tempo todo ao lado de Kyle. Estávamos de braços dados quando a pista foi liberada pela valsa dos noivos. Sempre achei que Kate tiraria aquela parte da cerimônia, mas fiquei feliz em saber que ela não o fez.
Kyle se soltou de mim e pegou algo para beber, indo diretamente para a pista. Eu precisava urgentemente me deitar, ter Christian tão perto por tanto tempo tinha me derrotado internamente, e também precisava levar Jullie para a cama.
Caminhei até minha melhor amiga, que me abraçou com seus braços e com seu vestido espalhafatoso.
- Foi tudo tão perfeito. – Ela garantiu sorrindo e segurando minhas mãos nas suas. – Agora, Elliot insiste em fazer surpresa quanto à lua-de-mel. Disso você não sabe, certo? – Indagou, sorrindo mais abertamente, como se não houvesse problema em guardar qualquer tipo de segredo.
- Não. Não sei. – Acenei em negativo.
- Sei que ainda estão brigados. Vá se deitar. Você está parecendo cansada. E Jullie está dormindo no colo de Rachel. – Ela sorriu, balançando a cabeça na direção da minha mãe com uma Jullie sonolenta em seus braços.
- Parabéns. – Lhe dei um último abraço e segui até minha mãe.
Minha mãe estava mexendo nos cabelos de Jullie, olhando a festa acontecer ao seu redor.
Eu cheguei e sorri quando Jullie passou os braços ao redor da minha cintura. Eu a peguei no colo com um pouco de dificuldade e minha mãe se ergueu, postando beijos nos nossos rostos.
Caminhei com Jullie em meus braços. Havia muita dificuldade em caminhar com uma criança colocando todo seu peso contra seu corpo. Eu não via o caminho diante de mim e a barra do meu vestido se embolava nas minhas pernas, me fazendo dar pequenos tropicões em determinados momentos do caminho.
- Precisa de ajuda?
Eu não precisava procura-lo para saber que estava lá. Então, mesmo com muita dificuldade, eu continuei a caminhar. E esperei qualquer que fosse a atitude de Christian. Infelizmente, ele a teve rápido demais. Colocou-se no meio do meu caminho e tirou Jullie do meu colo, carregando-a com mais habilidade e facilidade. Meus braços pareciam flutuar naquele momento de retirada de peso. Ele começou a caminhar ao meu lado, enquanto eu apressava meus pés. Não queria olhar para ele, e sequer falar com ele.
Caminhei em silêncio, lutando contra o ímpeto do coração de olhar ao menos uma vez para a direita. Fomos até o quarto em que eu dormiria. Abri a porta e ele caminhou pela escuridão, colocando Jullie sobre a cama e tirando seus pequenos sapatos e os brincos. Era bom saber o quão ótimo ele era com a menina, mesmo Jullie não sendo sangue do seu sangue. Mesmo sendo fruto do homem que me estuprara um dia e da mulher que mentira para ele por anos. O perdão era uma dádiva que poucos possuíam, e sentia-me bem comigo mesma por ser uma das poucas e por Christian também fazer parte dessa pequena quantidade.
Ele se virou para a porta, me olhando enquanto eu fitava Jullie embolada em um cobertor. Virei meus olhos para os dele, finalmente criando coragem suficiente para tal ato. Christian ficou estático diante de mim. E eu nunca o vi de tal forma. Sem palavras, reações ou gestos. E não foi bom vê-lo de tal forma. No meu interior, era como ver outra pessoa no seu lugar; e aquilo era doloroso. Era como se eu estivesse com a pessoa errada por muito tempo. Como se eu tivesse fornecido as chances para a pessoa errada.
Ele acenou em positivo, tentando sorrir, mas não conseguindo e em seus olhos passou um significado que não consegui desvendar. Não consegui desfazer o nó que se criou ao meu redor. Que se criou no nosso futuro. Ele se foi e mal sabia eu que não o veria durante um bom tempo.
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