Apenas Mais Uma De Amor.
1 Apenas mais uma de amor
Notas iniciais
Já havia passado oito meses desde que eu saí de casa para cumprir uma missão fora do país como general do exército. Tinha muito orgulho do meu trabalho feito, mas agora que terminado, não queria nada mais do que simplesmente voltar.
Em casa estaria me esperando minha mulher, Mônica. Linda, de cabelos curtos e escuros, da cor de seus olhos e de uma personalidade extremamente forte, como era considerada sua força física quando éramos pequenos.
Durante a infância, sempre fomos amigos. Ela batia em praticamente todos os meninos do nosso bairro por chamarem-na de baixinha, dentuça e gorducha, mas não era o meu caso, eu sempre fui “do contra”.
Foi realmente difícil amolecer aquele coração que era loucamente apaixonado por Cebola, outro amigo nosso. Ela sempre soube que eu gostava dela. Lembro-me da primeira vez que nos beijamos:
Mônica chorava incessantemente por mais alguma inconsequência que Cebola havia feito. Estava sozinha no banco do parque quando eu passei por lá e resolvi sentar-me ao lado dela, que me olhou e disse:
Se veio me dizer “eu te disse”, nem se dê ao trabalho. – e virou a cara para a direção oposta a mim.
Mas eu nem sei o que te disse...
Você estava certo sobre Cebola o tempo todo. – e voltou a me olhar nos olhos. Eu estava com um sorvete nas mãos. – Ele não merece todo o valor que eu o dou.
Apenas mais uma lágrima escorreu do canto de seu olho esquerdo e estendi a mão para suavemente limpá-la. Ela sorriu e se aproximou de mim com tanta rapidez que mal consegui raciocinar.
Quando vi, estávamos nos beijando. Somente não consegui perceber que a minha mão involuntariamente foi para o rosto dela... A mão que segurava o sorvete. Nossos rostos ficaram sujos e ela começou a rir incontrolavelmente. Ela pegou um guardanapo e limpou meu rosto cuidadosamente, e acredito que foi a partir desse momento que ela começou a se importar mais comigo e até a me olhar com outros olhos.
É claro que depois não começamos logo a namorar. Ela ainda teve muitas idas e vindas com Cebola e eu tive algumas namoradas, mas nenhuma que fosse como a Mônica, nenhuma que despertasse em mim o sentimento que eu sentia quando ela me olhava.
Ela acabou por superar o Cebola e poucos anos depois, depois de até ele mesmo estar casado com Carmem, ela se casou comigo. Foi o dia mais feliz da minha vida. Vivíamos como todos os casais. Brigávamos, mas imediatamente estávamos nos beijando ou rindo. Era fácil convivermos, pois antes de marido e mulher, éramos amigos.
O jipe passou por uma estrada de chão no meio de um bosque que terminava em minha casa. Pouco tempo depois parou em frente da mesma. Peguei minhas coisas, pulei do jipe e me despedi de meu colega.
Finalmente em casa, então? – ele disse com um sorriso.
Já estava na hora. – respondi com a mesma felicidade.
Caminhei até a entrada e de lá, entrei em casa. Esperava ver Mônica por ali no andar de baixo, afinal, ela não trabalhava nesse horário e eu havia enviado uma carta também avisando que chegaria hoje.
Fui para a cozinha, que encontrei organizada, exceto por uma grande quantidade de papéis em cima da bancada. Resolvi olhá-los, ver se havia alguma carta para mim, e acabei por descobrir todas as cartas que eu havia escrito estavam ali, fechadas. Comecei a me preocupar. A Mônica não fazia essas coisas, o que significava que ela podia estar doente, no hospital, ou até pior, mas deviam ter me avisado.
Corri para o quarto, rezando para que ela tivesse somente adormecido lá e que estivesse tudo bem. Ao abrir a porta, contudo, tive uma surpresa. Não só estava tudo bem, estava na verdade tão bom, que se ouviam gemidos de felicidade. Minha reação foi instantânea: para perceberem que eu estava ali, peguei um copo no balcão ao lado na porta e o joguei no chão de madeira.
Com o susto, Mônica gritou e Cebola caiu no chão. Peguei a chave da porta do quarto e o tranquei por fora. Ainda falei:
Com sorte, se vocês pularem vão somente quebrar alguns ossos, até que eu ouça o barulho. Querida, ainda bem que você quis uma casa com dois andares e ainda bem que eu a fiz ainda mais alta.
Eu já conseguia ouvi-la chorar.
Cebola começou a bater na porta:
Cara, pensa bem no que você vai fazer. Somos amigos desde sempre. Não foi nossa intenção trair sua confiança – comecei a rir.
Você nunca esqueceu ele, não é, Mônica? Foi na verdade porque ele havia casado que você se casou comigo, não foi? Por que não havia mais esperanças? Pelo visto havia.
O que você vai fazer? Do Contra?
Não se preocupe, eu não vou sujar minhas mãos.
Pois eu conhecia alguém muito mais vingativo e que não se importaria em sujar as mãos com isso.
Em não muito tempo, saindo de saltos altos de uma Ferrari, apareceu Carmem. Fiquei esperando-a na frente de casa, garantindo que nenhum dos dois resolvesse pular sem ser pego, ou até mesmo dando um jeito de sair pela porta.
Antes de Carmem chegar, havíamos conversado no telefone e ela pediu que eu pegasse o que fosse necessário e que deixasse o gás ligado e saísse da casa. Foi o que fiz. Ainda espalhei álcool pela varanda da frente.
Ao sentirem o cheiro do gás, ambos Cebola e Mônica correram para a janela do quarto, mas Carmem já tinha acendido o fósforo e segundos depois jogou.
A varanda começou a pegar fogo primeiro, o que deu tempo para nos distanciarmos ainda mais da casa, que por fim explodiu.
Quer uma carona lá pra casa? Sua casa, afinal, pegou fogo...
Uma lágrima sincera escorreu de meus olhos enquanto eu sentava no chão, virado de costas para Carmem.
Não, obrigado.
Caso precise, você sabe onde me encontrar. – e foi embora.
Fiquei ali ainda por algum tempo refletindo no que eu tinha errado com Mônica. Nada concluí, somente que eu a amei incondicionalmente, enquanto, pelo visto, da parte dela era tudo fingimento.
Logo ouvi sirenes tocarem. O fogo foi apagado, havia dois mortos e a causa fora que o gás tinha sido esquecido ligado. Fui levado ao hospital sem suspeitas, pois havia acabado de voltar da missão e afirmei que poucos minutos após eu chegar em casa ela havia explodido, o que teoricamente explicava o fato de eu também não estar em chamas. Mas a ambulância fez questão de me levar para o hospital e me examinar, pois tinha inalado a fumaça.
Depois do hospital fui para o parque onde Mônica e eu compartilhamos nossos primeiros gestos de amor. Ou eu achava que tinha sido amor. Sentei no mesmo banco. Oito anos haviam se passado. No fundo eu acho que sempre soube que ela ainda era apaixonada pelo Cebola e a culpa começou a invadir meus pensamentos, afinal, eu a amava e ela não, ela amava ele, era justo que ela fosse feliz como eu queria ser. E eu não podia forçá-la a ser feliz comigo.
Comecei a lembrar dos momentos que tivemos juntos e eu novamente comecei a chorar. Finalmente cheguei a uma conclusão:
“Eu a amo e esse foi o início e o fim de tudo.” F. Scott Fitzgerald.
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