Apenas Amigos
7 Desabafo
Notas iniciais
Eric estava à pé e, segundo ele, o local da festa não era longe e poderíamos caminhar até lá. Peguei minha bolsa no carro e segui ao lado dele, rumo à tal “festa de verdade”. Como um cavalheiro, ele me tirou do lado da calçada que ficava mais próximo à rua e se pôs em meu lugar.
— Você não perdeu essa mania? — brinquei.
— Sou um gentleman. — Respondeu ele.
Enquanto caminhávamos, apanhei meu celular na bolsa para conferir se havia alguma notificação importante e acabei me arrependendo por isso. Jason havia ligado um zilhão de vezes e mandado centenas de mensagens de texto. Ele devia estar puto comigo por não haver atendido. Bloqueei o aparelho novamente e guardei-o.
— Já está pronta pra me contar o que está acontecendo?
Engoli em seco.
— Não vou te encher com minhas bobagens, Eric. Estamos indo a uma festa.
— Certo. Por isso mesmo vamos deixar os problemas da porta pra fora. — insistiu ele. — Vamos falar disso agora para não precisarmos mais lembrar desse problema até o final da noite. — Após uma pause, ele completou: — Vai ser bom pra você, tampinha!
Vencida pelo cansaço, suspirei.
— Jason. Este é o nome do meu problema. — Eric assentiu e eu prossegui: — Eu meio que recusei um pedido de casamento dele…
— Meio que recusou?
— Sim… Ele não chegou a pedir, mas deu umas indiretas, sabe? Aí, eu só disse que queria me estabilizar na agência, fazer uma especialização e ter minha casa própria antes de “juntar meus trapos” com alguém, mas ele não levou na boa.
Eric gargalhou.
— Parece que tem alguém fugindo de casamento…
— Não estou fugindo, Eric. Só não é o momento…
— Tá arrumando cada vez mais obstáculos para que este momento não chegue, não é? — Eric sorriu, confiante com a própria observação.
Mirei nossos pés caminhando em sincronia.
— Não é isso… Bem, talvez um pouco… Eu só quero que as coisas aconteçam sem atropelar nada… De forma correta…
— E ele é o correto pra você?
No mesmo instante, passei a encarar Eric. Como assim? Claro que Jason era o correto pra mim. Nós estávamos juntos há três anos, não nos desgrudávamos, tínhamos a mesma profissão, as agências de publicidade em que trabalhávamos eram próximas, bem como nossos apartamentos e nossas famílias se gostavam muito e aprovavam o relacionamento. Poxa, é claro que ele era o correto!
— Claro que ele é o correto pra mim! — Franzi o cenho.
— Ah, é? — Eric zombou. — Só pela cara que você fez, tenho minhas dúvidas.
— Não sei por quê... Nós entendemos a rotina um do outro, somos parecidos em muitas coisas, nossas famílias se adoram… Claro que ele é o correto…
— Ok. Pode ser o correto. Mas ele é o que você quer?
Outro silêncio se fez entre nós. Droga! Lembrei-me de como era horrível quando Eric me fazia pensar nos meus próprios problemas.
— Você percebe que algo está errado? — Eric questionou depois de um tempo. — Você hesita demais quando se trata desse Jason.
— É que… Sei lá… Eu nunca tinha pensado nessas coisas… — Justifiquei-me.
— E o natural não seria pensar nessas coisas?
Eu estava prestes a sair correndo dali! Quando cheguei à Loveland, eu estava apenas chateada com Jason e com o modo como minha vida estava tomando seu rumo. Mas depois de haver encontrado Eric, David e todos aqueles babacas do colégio, eu só conseguia me sentir confusa!
— Droga, Eric!
— O que foi?
— Você está certo, porra!
Meus olhos se inundaram em lágrimas, meus pés se fixaram ao chão. Abri a boca como um bebê chorão e eu não conseguia nem mesmo sentir-me envergonhada por isso.
Eu estava desgraçando minha própria vida por puro comodismo. Eu estava acostumada a ter Jason ao meu lado para tudo, mesmo que dentro dos limites da vontade dele, e estava esquecendo dos meus desejos, dos meus sonhos; eu estava deixando de ser eu mesmo.
No fundo eu nunca quis estar com Jason, pois eu camuflava David em tudo o que eu vivia. E quando nos encontramos, momentos antes, aquilo ficou claro para mim. Eu notei como ele não havia ficado no passado coisa nenhuma e como eu deveria simplesmente me livrar de qualquer impedimento para estar com ele. Uma pena ele estar com a Kate e também ter sido um idiota de não me procurar.
De repente, me vi nos braços de Eric. Ele me deu refúgio em seu abraço de urso e afagou meus cabelos, dizendo que eu podia chorar, que era bom eu me livrar daquele sentimento. Sua camisa começou a encharcar, porém ele não teve pressa e afirmou que poderíamos ficar ali o quanto eu quisesse.
E assim ficamos. Não sei por quanto, mas foi por um bom tempo.
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