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1 Capítulo Único
Não, não parecia nem um pouco justo. Não era o que haviam planejado, a falta de tempo. Andava pela rua devagar aquela noite, chutando algumas pedras no meio do caminho iluminadas por postes de luz incandescente. O chão estava molhado de uma forte chuva recente que agora parecia dar trégua. A sombrinha longa e preta se encontrava na mão direita pronta para ser utilizada caso a necessidade retornasse. Pensa na chuva por pouco tempo, há tanto mais a se preocupar. As pessoas na rua vestem casacos e se ignoram, prestam unicamente atenção à chega dos ônibus que as levarão para casa. Ela olha para essas expressões com a tranqüilidade de saber que não será encarada de volta. Balança a sombrinha de forma circular, solta um suspiro. Está cansada. Trabalha a semana inteira e chega tarde em casa; os finais de semana são gastos com cursos de especialização e estudos. É apenas temporário, combinaram, precisavam se dedicar a se estabelecer para então viverem de forma mais tranqüila e estável. Era um “mal necessário”, mas a incomodava demais vez ou outra e temia que a distância acabasse se tornando algo maior do que gostaria. Queria poder por uma semana deixar de lado trabalhos e estudos para se dedicar somente a ela. O sentimento era forte, acreditava que duraria muito tempo, ou quem sabe a eternidade como alguns casais mais jovens gostavam de pensar. Seria o sentimento forte o suficiente para superar a carência dos toques, das palavras, da proximidade física de alguém que embora more com ela está quase sempre fisicamente distante, em seu trabalho, seus estudos, tentando construir seu futuro? Suspira desanimada e incerta. Queria que as coisas fossem um pouco diferentes, queria ter mais tempo. Verifica ao longe que seu ônibus acaba de dobrar a rua. Não se abala por mudar de posição, espera que ele encoste e que as pessoas se amontoem tentando subir primeiro, fica por trás do tumulto, prefere ser a última. Felizmente era tarde o bastante para deixar ainda vários assentos vazios, e com sorte pega um lugar à janela. Encosta a cabeça no vidro cheio de gotas de chuva e foca na rua do lado de fora, úmida, vazia, com suas lojas fechadas e algumas casas ainda ostentando poucas luzes acesas. As pessoas no ônibus, encolhidas pelo frio, baixavam a cabeça cansadas, talvez contando os minutos para chegarem em casa e dormirem. Um silêncio percorre a cidade, apenas o motor do ônibus é audível. Sorri meio tristemente que ao chegar em casa encontrará a dona de seus sentimentos muito cansada para permanecer acordada e novamente terão apenas uma noite de sono juntas para o dia seguinte novamente passarem afastadas. Ah... Ás vezes se perguntava como isso podia valer a pena. Depois de meia hora circulando a cidade, pede descida. Caminha agora com passos mais rápidos, tentando aumentar o tempo que tem para ficar com ela, em direção ao prédio em que moravam. Acena para o porteiro que, dentro de sua cabine iluminada por uma forte lâmpada, tenta esconder o sono e o cansaço. Ele talvez também tenha procurado por um tempo para ser somente dele, um tempo dedicado a si mesmo e não aos outros, desconhecidos que lhe pagavam o dinheiro com o qual se sustentar. Parece entendê-lo perfeitamente e lhe dá um sorriso de compreensão ao desejar “boa noite”. Sobe as escadas até chegar ao terceiro andar, busca a chave, gira-a na fechadura e encontra a casa no escuro. O susto inicial desaparece em uma fração de segundos, ri baixinho, olhando o sofá. Volta a fechar porta com cuidado e observa a mulher dormir no grande sofá, iluminada apenas pela fraquíssima luz da rua que entrava pela grande janela da sala. Essa mania! Pendurou sua sombrinha no cabideiro, retirou o casaco, e parte da roupa. Foi ao quarto buscar uma colcha e ao voltar deitou-se junto com ela, abraçando-a por trás, e acordando-a recebendo um beijo nos lábios. Ali abraçadas e aquecidas pelo calor da coberta e dos corpos, ficaram 5 minutos, sem dizer palavra, com apenas um sorriso indescritível em seus semblantes, um suspiro reconfortante e dois corações batendo levemente mais rápidos que anteriormente pelo talvez reconhecimento um do outro. A troca do “eu te amo” surgiu logo antes de fecharem os olhos e adormecerem. Apenas 5 minutos, e pensar que ela desejara uma semana inteira. Não era realmente necessário.
Notas finais
Beijosss!!!
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