Apartamorte

3 A curiosidade matou o gato 3/5


Acordei várias vezes durante a noite com um pressentimento ruim toda vez que ouvia o som de uma gota de água cair ao chão. Distinguia cada uma no meio da tempestade. O que me fazia dormir em seguida toda vez que acordava era a noite escura.

Logo, os brilhantes raios do sol não começaram a aparecer. Continuava a chover.

O dia amanheceu mesmo assim e eu acordei.

Fui logo falar com meu pai, que já estava na mesa da cozinha.

– Você tem alguma notícia do caso? – Disse eu, com o ar triste de quem perde algum amigo.

– Nada. Mas do Lucas, o morador do prédio, a polícia interrogou várias pessoas e não chegou à conclusão alguma.

– Pai, aconteceu alguma coisa relacionada à água?

– Como assim?

– Não sei... Vazamento, tempestade, alguma coisa? Acordei com isso na cabeça.

– Não. Sobre água, só sei que você não vai nadar hoje.

– Por quê? Aconteceu alguma coisa?

– Sim.

– O quê?

– Está chovendo bastante. A síndica não deixa nadar na chuva, oras. Ela manda tampar a piscina com a lona.

– Eu não ia querer nadar hoje mesmo. Não sou burro de nadar na chuva e dar a sorte de ser eletrocutado por um raio.

– Tá... Filho, você é muito sinistro...

– Eu vou no apartamento da Heather.

– Obrigado por me cortar de repente. Mas você vai fazer o quê?

– Preciso conversar com alguém, oras.

– Mas você vai de pijama?

Sei que de pijama eu não iria. O pijama representa o sono, e o sono lembra a morte. Cada pessoa perde, em média, um terço da vida dormindo. Alguns dormem sem pijama, mas isso não vem ao caso. Também, seria meio estranho eu chegar ao apartamento de alguém com essa vestimenta. Muito estranho. Troquei de roupa.

Comecei a descer de escadas, tentando enfrentar o meu medo. As escadas são separadas por portas dos corredores dos apartamentos e ninguém as usa. O elevador sobe e desce o tempo todo. Os degraus são o lugar mais propício de eu ser morto, já que ninguém veria nada se não alguma faxineira quando fosse limpar ou algum morador com síndrome de esportista.

Cada passo que eu dava abaixo, pensava em como isso interferiria no processo como um todo. Na verdade, esse meu ato de não usar o elevador é uma aceitação das palavras de Catharine. Eu estava tentando perder o medo, aceitando a ideia de que tenho que descobrir a identidade do assassino, mesmo colocando a minha vida, e a de Heather, em perigo. Aliás, para falar sobre isso que estava indo em seu apartamento.

Toquei a campainha.

– Quem é? – Sua voz perguntou.

– Eu. – Respondi.

– Eu quem?

– Eu.

– Certo.

Heather rodou a chave na porta e a puxou. Abriu, e me viu com o olhar cansado de quem não dormiu direito. Olhos meramente vermelhos, olheiras grandes e a pele pálida. Não havia comido nada e ela percebeu isso.

– Quer comer alguma coisa?

– Aceito.

O pretexto para iniciar a conversa era a comida. Nada melhor do que se concentrar em duas coisas ao mesmo tempo: a conversa séria que poderia decidir o futuro de nossas vidas e o sabor agradável do infantil biscoito de chocolate, que, no momento, parecia mais interessante. Aliás, o açúcar pode alegrar qualquer pessoa em quase toda situação.

A minha maior decepção é que de biscoito de chocolate só tinha a embalagem, o plástico. A única coisa decente de comer que havia na cozinha de Heather era repolho. Muito estranho. Como estava com muita fome, comecei a tirar as folhas desse vegetal redondo e me pus a comer.

Minha amiga olhou para mim e perguntou:

– Você vai realmente comer isso? Eu vou ao supermercado hoje.

Ignorei. Já havia engolido um pedaço da folha de repolho e continuei comendo. Comecei falando a respeito de Catharine.

– Talvez ela tenha razão.

– Quem? – Perguntou Heather.

– Catharine. – Respondi.

– Também andei pensando a respeito disso.

– Acontece que somos muito pequenos em relação ao assassino.

– Ele é só um. Nós seremos três. Também podemos ajudar a polícia, Simon.

– Está louca? Não. A polícia não, Heather. Não vamos nos envolver com eles.

– Tá bom... – Ela pensou um pouco. — Você já pensou em falar com o David?

Eu não queria introduzir David de maneira tão bruta na história toda, mas tive que seguir com a fala de Heather.

David é um morador do primeiro andar no prédio. Quando esse prédio estava em construção, seus pais vieram olhar algum apartamento e estavam de olho na cobertura. Tudo estava certo, mas quando o menino conheceu o apartamento, viu que era muito alto e começou a berrar incansavelmente, até que os pais desistiram e compraram o apartamento do primeiro andar.

Acontece que David é a pessoa mais medrosa que eu conheço. Não anda sozinho para lugar nenhum, não come sozinho com medo de engasgar e morrer, não fica sozinho em casa. Isso que o levou a conhecer-me um dia. Se não me falha a memória, há uns dois anos, seus pais me viram pegando as correspondências na portaria, e como eu tinha a mesma idade que o filho deles, me perguntou se ele podia ficar na minha casa, que eles iam sei lá para onde e só voltariam no dia seguinte.

Eu realmente não faço ideia para onde eles foram.

O importante é que o menino passou a noite na minha casa e ficou conferindo a cada cinco minutos se a porta estava trancada. Isso se repetiu tantas vezes... Seus pais tomavam chá de sumiço e David ia para minha casa. Com isso, acabamos fazendo uma amizade.

A maior característica de David é, com certeza, o medo. Isso, todavia, o faz peça fundamental na história de descobrir quem foi o assassino que matou meus colegas e, provavelmente, o morador desse prédio na sauna. Seu medo faz com que ele tenha reflexos. Se andarmos com ele, podemos ter certeza que não vamos ter nenhuma surpresa, que o assassino nunca conseguirá nos alcançar. Ele sente a mais sutil mudança na direção do vento, o mais sutil cheiro de gente, o mais fraco dos ruídos. Não tem superpoderes. Talvez, uma qualidade para superar seu defeito.

Pois, então, eu perguntei a Heather se ela sabia onde havia se metido David.

– Eu lá vou saber! Você que fala mais com ele. – Disse minha amiga.

– Eu também não sei, oras. – Falei.

– Liga pro celular dele então.

Me deu uma vontade imensa de rir nesse momento. O menino não tem celular, porque tem medo de ser roubado ou de receber algum trote.

– Ele não tem celular. – Eu disse.

Detalhe: eu disse com o gosto de repolho na minha boca. Estava começando a ficar nauseado.

– E o que você vai fazer? – Perguntou Heather.

– O que qualquer um faria. Procurar ele no armazém. – Respondi.

– Ele trabalha? – Heather começa a rir. – Num armazém? Sério? Ele não tem medo?

– Tem, claro.

– Mas como você vai ao armazém agora?

– Com os pés. – Respondi achando que havia tirado uma boa sacada.

– Está chovendo, não viu?

Minha ficha caiu.

– Ah, sim... Então não sei.

Heather levantou da cadeira da cozinha, pegou o resto de repolho que ainda restava e o guardou na geladeira. Imagino o que ela deve ter pensado de mim: um pobre indivíduo folgado que não se alimenta em casa pois prefere comer na casa dos outros. Não... Ela não deve ter pensado isso. Somos amigos verdadeiros.

Como eu havia dito, Alanna e Jordan não eram meus melhores amigos. Heather sempre foi minha melhor amiga. Sua personalidade bem humorada, sua beleza, sua simpatia. Ela é a pessoa que eu mais confio. Conhecemo-nos desde que me mudei para cá. Acho que passei mais tempo no apartamento dela do que no meu. Talvez, por isso, eu não a chamei para ir ao cinema, ao shopping naquele terrível dia. Talvez eu tivesse tido um pressentimento de que algo ruim aconteceria.

Talvez eu pudesse adivinhar que aquilo aconteceria.

Não, não posso viajar tanto assim. Toda vez que me lembro desse massacre no shopping center começo a viajar. Não gosto de tocar nesse assunto, mas não tem jeito. Porque o assassino matou somente Alanna e Jordan, que eram meus amigos? É óbvio que o assassino está me perseguindo. É óbvio que o caso do shopping está relacionado à morte do Lucas na sauna.

Como que a polícia, os investigadores, sei lá quem, como todos não me procuraram? Será que não sabem que eu estava no shopping no dia da morte dos meus amigos e que moro nesse prédio, onde dois moradores morreram? Eles não estão dando a devida importância a mim. Será que eles não se tocam que mais pessoas podem ser assassinadas, se mais alguém não tiver sido?

– Heather, vamos pra área de lazer. – Perguntei.

– O quê?- Ela questionou.

– Vamos pra área de lazer.

– Fazer o quê?

– Olha... Eu não dormi essa noite, não sei... Tive um pressentimento ruim toda vez que uma gota de chuva caía no chão.

– Ok... Já que você quer ir lá, não sou contra, mas a chuva está muito forte.

Heather nunca discordou de mim. Sempre me apoiou em tudo. Assim, nós levantamos, saímos de seu apartamento, chamamos o elevador, descemos até o andar da área de lazer e saímos. O vento estava tão forte que a chuva caía horizontalmente. Tínhamos que falar gritando por causa do barulho.

Heather começou a fazer uma cara estranha. Poderia ser qualquer coisa. Algum sentimento, algum desgosto com a chuva, com a água que molhava os pés, o vento que soprava sua cara. Não era isso.

– Simon, você está sentindo um cheiro ruim? – Perguntou.

– Nada. – Respondi.

– Tá vindo de lá.

Ela apontou para a direção da piscina.

– Não sei, Simon. – Começou Heather. – Um cheiro estranho, podre.

– Continuo não sentindo nada. Deve ser algum pássaro morto que caiu na lona da piscina.

Eu não estava gostando nada disso. Um cheiro podre, estranho, ruim. O cheiro da morte. O que deveria ter feito era não ter descido nem chamado Heather. Não sei por que fiz isso. Queria alguma resposta, alguma lembrança, algum sinal. Como tive pressentimentos ruins durante a noite, achei que ver a chuva poderia me ajudar. Não me ajudou em nada, acho que atrapalhou. Não sabia mais o que estava fazendo lá em baixo.

– Heather, vamos subir.

Ela se assustou. Eu falei num tom forte, rápido. Eu demonstrei que realmente queria subir, ficar lá em baixo não era seguro para mim.

– Está bem... – Ela respondeu.

Apertamos o botão do elevador, esperamos um tempo até que ele descesse.

Elevador é uma das maiores invenções da sociedade. Desde o Séc. I a.C, evita que pobres cansados tenham que desgastar ainda mais suas pernas fatigadas pelo trabalho. Assim como as coisas que mais ajudam o ser-humano, o elevador caiu no esquecimento, tornou-se algo rotineiro, comum. Algo que ninguém se importa mais. Todos deveriam agradecer a Vitrúvio toda vez ao entrar em um elevador. Mas ninguém se importa com as coisas simples, ninguém sabe quem foi Vitrúvio.

Afinal, o que importa é que o elevador havia chegado e ele me levaria até o andar do meu apartamento. Sua porta se abriu e levei uma grande surpresa que me fez esquecer o vento e a água que tanto gritavam e me incomodavam. Como se tudo conspirasse ao meu favor, lá estava David, o medroso, que subiria direto da portaria do prédio até o andar do seu apartamento, suponho. Eu, porém, o atrapalhei. Não tenho culpa se a área de lazer fica um piso acima ao da portaria. Quando o elevador se abriu, ele se assustou, como sempre aconteceu. Eu poderia rir, mas a seriedade da situação não deixou que isso acontecesse.

– David, me dê uma batata. – Eu disse.

Tudo bem que o momento era sério, a situação era chata e que pessoas estavam morrendo, mas o indivíduo tinha um pacote de ar. Ar não, digo, de batata chips, e eu realmente gostava muito disso.

Eu coloquei a mão naquele pacote e peguei algumas batatas. Acho que mais que algumas, e isso de comer me deu uma grande sede. Eu gosto de batata, mas eu me esqueci de que batata chips é ruim, salgada, forte e ainda faz mal a saúde. Já estava com um pouco de náusea, e as batatas fizeram piorar ainda mais essa sensação fantástica.

David não recusou em me dar as batatas. Era sua obrigação, claro, permitir que eu as pegasse, levando em conta que eu nunca recusei sua estadia no meu apartamento na noite em que seus pais sumiam. A bondade minha – primeiramente do meu pai – fez com que meu vizinho se tornasse extremamente grato a mim. Não sei, porém, dizer se ele teria medo que eu fizesse alguma coisa com ele caso se recusasse a compartilhar o salgadinho. Logo, ele se pôs a falar:

– Pode pegar, Simon.

– David, você precisa andar com a gente.

Ignorei sua gentileza. A minha vida é mais importante do que ter que agradecer por alguém ter permitido que eu comesse algumas batatas.

– Por quê? – Ele perguntou.

Heather, que ainda não havia dado sinal de vida depois que entrou no elevador, tornou-se a falar:

– Oi, David.

A situação era tão delicada, que estávamos em um estágio que nossa mente fazia o que era importante para a sobrevivência, enquanto o subconsciente processava qualquer outra ação. Tornou-se comum, por isso, atrasos no processamento de nossas falas e quaisquer outros tipos de retardos.

Eu não gostei da interferência de minha amiga, apesar de entender.

– Você não ficou sabendo da morte do Lucas na sauna? – Perguntei.

– O quê? Aqui no prédio?

Sua tranquilidade me espantou, afinal, não pareceu ficar com medo diante do fato.

– Você não viu os policiais aqui anteontem?

– Vi, mas meus pais falaram que o porteiro tinha brigado com o zelador e mandaram eu subir na hora.

O elevador parou no meu andar e a porta se abriu.

– Vêm vocês dois comigo.

Eu abri a porta do meu apartamento. Com o maior falso cavalheirismo, permiti que Heather e David entrassem antes de mim. Ela agradeceu e ele pediu que eu trancasse a porta.

Entramos e sentamos. O jovem medroso, tardiamente, manifestou o seu medo.

– Calma aí, um morador foi assassinado aqui no prédio? Ai meu Deus! Não pode ser! A gente pode ser o próximo! Cadê a polícia? Cadê todo mundo? Como ninguém sabe?...

Interrompi que ele continuasse.

– Cala-te!

Esse momento comprovou que nossa cabeça não estava tão bem. David só expressou seu pânico após entrar no meu apartamento.

– David — Heather começou a falar calmamente. -, nós vamos tentar descobrir quem é o assassino. O Simon tem certeza que é o mesmo do shopping. Antes que você fale qualquer coisa, a gente sabe que você é medroso, mas você tem reflexo. Se andar junto com a gente, é impossível que ele nos pegue de surpresa. Nós somos três, ele é um.

– É. – Completei. – Vocês são dois. Tem a Catharine também.

– Vocês só podem estar de brincadeira comigo! – Expressou David. – Não quero morrer tão cedo. Inclusive, acho que vou passar alguns dias fora. Não posso ficar aqui para ser morto!

– Você não vai morrer! – Falei.

– Como você tem tanta certeza? – Ele perguntou.

– Você não vai morrer. Eu sei. Confia em mim.

Finalmente, consegui fazer com que ele abaixasse a cabeça. Eu quase nunca minto. Todos confiam muito em mim. Eu tenho autoconfiança. Se eu prometo alguma coisa, dou minha vida para que minha promessa seja cumprida, e todos sabem disso.

– Está bem, eu acho... Mas como vocês sabem que o assassino vai aparecer de novo?

Não conheço o assassino, mas conheço a minha inteligência. Ele escreveu “bem vindo ao pesadelo” com o sangue do Lucas na sauna. No singular. É óbvio que era uma mensagem para mim, pelo menos se for o mesmo do shopping.

– David – Comecei. -, ele está aqui no prédio. Eu sinto isso. Não podemos andar sozinhos. Inclusive, Heather, interfona para a Catharine. Ela também não pode ficar sozinha.

Nada faz sentido. Seria muito mais fácil acionarmos a polícia e todos os moradores saírem do prédio. O problema é o assassino sair do prédio e começar a matar todo mundo. Se ele me quer, se é que ele me quer, é preferível que mate alguns vizinhos do que toda a população mundial.

– Eu vou chama-la. – Disse Heather, interrompendo a minha linha de pensamento.

Ela levantou-se subitamente, destrancou a porta do meu apartamento e saiu. Chamou o elevador e entrou nele.

Voltando ao meu pensamento, eu me sentia capaz de desmascarar o assassino. Algo em mim me dizia que só eu poderia descobrir, tirando o egoísmo. Com a ajuda de Heather, Catharine e David fica mais fácil.

Argh. Minha náusea só aumentou.

No mesmo instante, eu lembrei que a Heather havia ido chamar Catharine. Sozinha.

– David, interfone para o apartamento da Catharine e mande ela vir pra cá. A Heather... A Heather tá sozinha! Eu vou busca-la agora!

Saí correndo, bati a porta do meu lar, deixando para que David a trancasse. Ele, com certeza, iria trancar.

Olhei para a pequena tela ao lado do elevador que indica em qual andar ele está. Merda! Catharine morava a dois andares acima do meu e o elevador estava descendo!

Eu conheço o suficiente de Heather para saber para onde ela foi. Desde sempre, um dos pequenos prazeres do homem é assassinar a curiosidade, um instinto primordial que permite descobrir o que está escondido por detrás da mente obscura dos seres vivos. Há seis meses, estávamos eu e Heather na loja do meu pai que vende toldos especificamente para igrejas, a Toldo Poderoso.

Nessa época, tive que ajudar meu pai por vários dias na construção e venda de toldos, pois esse mercado estava movimentando muito dinheiro no país, e a Toldo Poderoso é a única loja de todo o mundo especializada em produzir esse tipo de material para igrejas. Acontece que ocorreu um fenômeno raríssimo de micro-planctons dinoflagelados na nossa costa oceânica, deixando as águas do vasto oceano vermelhas, e isso causou, em nossa cidade, a abertura instantânea de cinco igrejas islâmicas, para aumentar seu espaço na região, quatro protestantes, para anunciar o fim dos tempos, uma católica – essa, na verdade, estava planejada há muito tempo, porém, não se sabe porque demorou tanto o início da construção -, e duas ateístas, para criticar a fé das pessoas nas diversas religiões e mostrar o quão cegas elas são, mesmo o ateísmo tendo se tornado uma religião.

Independente da religião, meu pai tinha bastantes toldos para fazer. Heather, como sempre ao meu lado, foi me ajudar a ajudar o meu pai.

Estávamos fixando uma lona bege na madeira, até ela reclamar de um cheiro estranho, que vinha do fundo da loja. Ela queria muito ver o que era, mas eu pedi para ela continuar me ajudando.

Muito esperta, falou que ia ao banheiro. Eu sou inteligente o suficiente e tenho pleno equilíbrio das minhas qualidades raciocinais para saber que ela iria para fora ver de onde vinha o maldito cheiro.

Heather fez o que eu pensei.

Ao sair pela porta dos fundos da loja, ela deu de cara com um gigante muro antigo de tijolinhos, que em sua frente tinha uma grande caçamba de lixo, ao lado de uma caixa de água antiga, que meu pai iria jogar fora, já que estava vazando.

Na manhã desse dia, havia chovido muito. Por suposto, a caixa d’água estava cheia.

Heather se assustou ao se aproximar do muro, em que estavam pregados três cartazes de propaganda da loja, a clássica propaganda — “Toldo Poderoso, a melhor loja de toldos para igrejas” -, seguida do clássico bordão “te protege do sol, mas te leva ao céu”. Tudo estaria normal se não houvesse uma mancha vermelha, formada por duas listras que desenhavam um “x”, por cima das três propagandas.

Ela foi aproximando o dedo dos tijolinhos, arrastando-o pelas manchas por alguns segundos e trazendo-o de volta ao seu nariz.

Seu olfato confirmou. Era sangue.

Ela arregalou os olhos de repente e começou a andar de costas lentamente, passando os braços pela caixa d’água ao lado, como se estivesse a empurrando para se afastar do sangue na parede. Heather, entretanto, sentiu três dedos de sua mão esquerda presos.

Olhou para baixo, movendo sua cabeça para o lado esquerdo, até que viu seus dedos presos em um chiclete na caixa d´água. Com cara de nojo, puxou a sua mão, esticando a goma de mascar até que ela se soltasse do recipiente, mesmo continuando presa em seus dedos.

O outro inesperado aconteceu. O doce chicle tampava um buraco, e, em seguida, a água começou a vazar. Uma água rubra. Sangue.

Heather se assustou mais ainda, e tirou a lona que tampava a caixa. Lá estava, olhando diretamente para ela, um gato morto no fundo do recipiente. Ela gritou com todas as suas forças.

Por esse motivo, eu sabia para onde Heather havia ido. Eu sabia porque o elevador estava descendo, sendo que Catharine morava a dois andares acima do meu.

Eu comecei a descer pelas escadas de emergência correndo, com o coração acelerado, sabendo que minha amiga estava em perigo. Os incansáveis degraus que não acabavam nunca. Quanto mais eu corria, mais sentia que não iria chegar a tempo. Tropecei algumas vezes e continuei correndo.

Sem esperanças, cheguei ao andar da área de lazer, com o rosto molhado e o coração disparado. Ainda estava chovendo bastante. Olhei para o lado.

Corri para a piscina, subi quatro degraus de desnível, e vi a pior coisa que podia acontecer. Heather estava do outro lado da piscina, toda encharcada, levantando a lona.

– Simon! – Ela gritou.

Debaixo da lona, foi se revelando aos poucos uma água avermelhada, com um cheiro forte. O cheiro de gente morta. No fundo, o corpo horrível e irreconhecível de Mary, uma moradora do prédio, todo encharcado e no começo do estágio de decomposição. Isso fez com que Heather estremecesse, e gritasse, fazendo com que todo o sentimento de terror subisse a sua mente.

Atrás dela, eu vi. A névoa trazida pela chuva não me impedia de ver nada. Lá estava uma máscara branca com uma lágrima negra.

– Heather! – Gritei.

O assassino a pegou no colo, e pulou uma mureta que separava a área da piscina, com um certo desnível, do resto da área de lazer. Ele estava cortando caminho.

Eu corri atrás de Heather para salvá-la, usando toda a minha força, mas ele, assim como eu, também usava toda a sua força, e corria com Heather no colo.

Eu segui os seus passos, tentando seguir a mesma velocidade, mas não consegui alcança-lo. Ele era mais forte e mais rápido.

Eu sabia, porém, que era mais esperto. O assassino apertou o botão do elevador e lá esperava, pensando que eu não o alcançaria. Eu consegui chegar até ele e dei um soco em sua cabeça, fazendo-o soltar Heather. Cooperando comigo, o elevador abriu instantaneamente e eu a puxei para dentro dele, e a porta também se fechou instantaneamente.

O maníaco sem coração ficou do lado de fora. Heather estava no meu colo, chorando, implorando por ajuda, em estado de pânico. Estávamos encharcados, e a única coisa que eu queria era entrar no meu apartamento, trancar a porta, e chamar a polícia. Me dei conta que ideia de lutar contra o assassino era burra de mais. Somente a mente utópica de Catharine imaginava que isso poderia dar certo.

Droga!

Interrompendo meu pensamento, elevador começou a parar antes do tempo habitual. Meu coração voltou a acelerar antes do tempo habitual. As portas, para o meu pavor, começaram a se abrir. Antes do tempo habitual.

O assassino era tão esperto quanto eu. Ele subiu pelas escadas, correndo, e chamou o elevador em algum andar acima do meu. Droga.

As portas se abriram, e eu tentei acreditar que aquilo não estava acontecendo. O homem da lágrima negra estava com uma faca apontada para o coração de Heather, enquanto a outra mão me puxava para fora do elevador. Eu vi as portas se fechando, com o assassino lá dentro dando o seu bote fatal: a facada certeira.

As portas se fecharam. A minha esperança também. A minha confiança também.

A única coisa que ficou aberta foi o meu estado de pânico.

Notas finais
1) Sensacionalismo: E agora? O que acontecerá com Simon? David estará correndo perigo sozinho? Catharine será morta andando pelo corredor até a casa de Simon? A identidade do assassino será revelada? Porque ele mata? Veja no próximo capítulo. 2) Respondam a este formulário: https://docs.google.com/forms/d/123mFHoRTT6kwBXxxDSJs9BVkFgFQ21v8LPNcpXVP9ww/viewform. Quem acertar tudo ganha uma imagem exclusiva da história. 3) Deixem review com as críticas, opiniões e sugestões.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.