Apartamento 804

5 Cute, but psycho


Notas iniciais
É curtinho, mas... Digamos que foi uma surpresinha até para mim.

Meu Deus, que lindinhas! Diz uma voz distante. A entonação me lembra minha mãe, quando eu tinha sete anos e ia em lojas provar as roupas pomposas que ela escolhia. Resmungo e me afundo ainda mais no calor do sono. Algo balança, me incomodando. Resmungo novamente. Porra, eu estou confortável! Uma risada. Inicialmente infantil, mas vai desenvolvendo certa malícia à medida que a escuto. Ela não vai acordar tão fácil. A voz parece mais próxima agora. É masculina, mas há algo suave, alegre e feminino nela…

—Porque não tenta dar um gritinho no ouvido dela? -É James. — Assim ela acorda.

—Porque não tenta ir se fuder? -Não abro os olhos, mas tenho certeza de que a dona da voz agora foi Vick. Sinto meu corpo aquecido e sua voz está próxima. — Sai daqui, que saco.

Abro meus olhos aos poucos e me dou conta da situação. Estou abraçando a cintura de Vick e ela está apoiada no meu corpo. Estava, pois agora tenta se desenrolar de mim, sem querer me acordar. James está com os braços cruzados, nos encarando com um olhar divertido. Minhas bochechas coram imediatamente, então solto Vick, sem pensar.

— Hm… Desculpe… — Falo, sonolenta. Ela ri e levanta.

—Tudo bem. Eu não queria te acordar…

—Tranquilo, estou bem. Não posso dormir para sempre. — Sorrio, então olho para James. Ele se limita a piscar e deixar o quarto, discretamente. Fico um tempo pensativa, encarando a porta que James acabara de fechar. Viro-me para encarar Vick. — James sabe, não sabe?

Um momento de silêncio. Ela desvia o olhar e suspira. Já sei a resposta, mas espero assim mesmo.

—Sim.

—Você cont...

—Jennifer. Se quiser provas, ele ainda tem os áudios que ela enviou salvos no celular.

Lembro da garota gritando na sala e sinto um arrepio gelado. Pergunto-me o que estou fazendo naquele apartamento depois de tudo aquilo. Tento me concentrar na raiva e no arrependimento que senti depois de tudo, mas não consigo. Desvio o olhar.

—Você ouviu? — Pergunto. — Aposto que ela foi criativa nas inúmeras maneiras de me chamar de destruidora de lares.

—Eu não ouvi. Não quis ouvir Jenn te xingando. — A resposta é tão firme quanto o olhar que ela sustenta. Arrependo-me por encarar aqueles olhos escuros, pois agora não consigo desviar.

Perco meu fôlego por alguns segundos. Se os olhos são a janela da alma, essa garota cobriu a casa com uma cortina de ferro. Estes olhos negros são do tipo que você não tem a menor ideia do que há por trás deles. Não importa por quanto tempo você os encare, não vê nada. Mas há alguma coisa. Algo que apenas estes olhos cor de ébano são capazes de esconder.

Nossos lábios se tocam, suavemente, arrancando-me de uma hipnose e me jogando em outra. O beijo é suave e delicado, trazendo consigo uma intensidade sublime. Algo simples que altera cada célula de meu corpo. Vick também sente. Uma mão vai até minha nuca e a outra sustenta o peso de seu corpo, para que se incline sobre mim. Levo minhas mãos até sua cintura, mas não aperto, nem a puxo para mim. Consigo escutar meu coração dando saltos, tenho dificuldade em manter a respiração regular, minha pele formiga, mas mesmo assim o beijo se mantém calmo.

Quando Vick se afasta, a escuridão familiar volta a me engolir. Agora vejo algo. Um pouco de ansiedade e… Desejo? Fecho meus olhos e mordo forte meu lábio.

—Eu preciso que você pare de fazer isso.

—Desculpe? -Ela sai de cima de mim, trazendo-me uma mistura de alívio com a vontade de puxá-la de volta.

—Você tem que parar de me beijar. — Falo, sem pensar muito. Quando abro os olhos, Vick está com uma expressão confusa e indignada no rosto.

—Você me beijou na primeira vez, lembra? Eu só te beijei uma vez, não haja como se eu estivesse insistindo para ficar com você, por favor.

Enfio meu rosto entre minhas mãos, tentando formular uma boa frase.

—Não quis dizer isso… Só… Eu não posso… Isso aqui — Falo, apontando para nós duas. — não pode acontecer.

—O que foi? Tem problemas com relacionamentos? Relaxa. Eu não te apresentei pros meus pais que nem o seu amigo fez.

—Não, não é isso…

—Se não quer ficar comigo, pode falar. Eu aguento um fora.

—Não! Eu quero ficar com você, esse é o problema.

Vick me encara com o olhar mais confuso possível. Sobrancelhas erguidas, expressão questionadora e boca entreaberta, como se pedisse para explicar o que acabei de dizer. Depois de longos segundos, ela respira fundo e balança a cabeça.

—Você é maluca.

—Você não entendeu…

—É, não entendi mesmo. A não ser, é claro, que seja uma desculpinha.

—Não é desculpinha, eu juro… Eu só… — Minha mente acelera, dessa vez pensando em uma desculpa. — Você terminou com a sua namorada há pouco tempo, não tem nenhuma chance de entrar em um relacionamento de novo. E eu… Não quero ficar nessa de sexo sem compromisso, amizade colorida, etc..

—Meu Deus, a gente se beijou, não falei de sexo.

—É mesmo? — Ergo uma sobrancelha para Vick. — Tem certeza de que se a Jennifer não tivesse aparecido não teríamos feito algo no sofá?

—É claro não não iríamos! — Seu olhar é indignado. — Sou uma dama, te levaria para a cama antes de tirar sua calcinha.

Sinto meu rosto corar instantaneamente, então jogo o travesseiro mais próximo nela. Vick dá uma risada alta e pega o travesseiro no ar, antes que ele encoste em seu rosto. Enquanto protesto em relação ao comentário, ela continua rindo e levanta, me ajudando a fazer o mesmo. Frente a frente, ao lado da porta, ela me oferece um sorriso franco.

—Ok, entendo seus motivos. Sem beijos. Prometo.

—Obrigada… — Ela ergue um dedo, pedindo silêncio, então se abaixa, mantendo o ouvido na porta. Dou uma risada confusa. — Vick, o que está fazendo…

Ela dá um soco na porta, então escuto o grito assustado de James no outro lado da madeira.

—Sério? -Ela pergunta, abrindo a porta e encontrando o garoto largado no chão. — Na próxima vez, coloca uma câmera escondida que é mais garantido.



Horas depois, no apartamento de Theo, ligo para Claire e a atualizo sobre o ocorrido. A garota me dá broncas em meio a risadas.

—Por que não falou a verdade pra ela?

—Ah, claro! “Então, eu queria muito ir para a cama com você agora, mas estou tentando me manter longe de problemas e… OPS! Você é uma garota”. Parece que eu tenho… Sei lá, homofobia contra mim e não contra os outros.

—Você tem.

—Não tenho, só prefiro investir meus interesses em pessoas mais seguras. — Apoio os cotovelos na mesinha e tomo um gole do meu café. — Só não quero que ela me veja como uma lésbica com auto-regeição. Isso é coisa de quem está saindo do armário.

—Você saiu, se assustou e se trancou no armário novamente. De qualquer forma, é muito melhor ela pensar que você é uma lésbica cristã, não é mesmo? — Dou risada e balanço a cabeça com o comentário. — Meu Deus Christie… E se ela descobrir sobre Theo?

— Eles nem se conhecem,- Falo baixinho — Vick não tem como descobrir nada sobre Theo.

—Melhor ter certeza disso, não seria nada legal se Vick soubesse que vai esperar o casamento com ela, mas não esperou nada com Theo.

—Eu sei, ok? Mas… Mesmo se eu seguisse o seu conselho e considerasse continuar ficando com Vick, eu tentaria ir mais devagar.

—Ha! Tentaria. Não ia conseguir. Não conseguiu nem com Theo!

—É diferente, com Theo foi só algo casual. Com Vick é… diferente. -A porta se abra bruscamente atrás de mim, me assustando e me fazendo derrubar o celular. Viro e encaro aqueles olhos azuis furiosos. Com mãos trêmulas, pego o celular de volta e levo até a orelha, temendo cortar o contato visual. — Eu te ligo depois, Claire.

Estou encolhida no sofá enquanto Theo desaba. Ele anda de um lado para o outro, o rosto vermelho, gesticulando abertamente, claramente frustrado. Não sei como reagir. Não posso desmentir o que ele ouviu, não posso justificar o que disse, nem acusá-lo por ouvir minha conversa. A merda da casa é dele e eu duvido que essas paredes finas bloqueiem algum som.

—... Você deve estar se sentindo ótima, Christine. Ótima! Já esfregou na minha cara minha insignificância uma vez e eu aceitei, mas agora está tagarelando sobre isso no telefone! Para quantas pessoas espalhou que usou o babaca que abriu a porta de casa para você, hein?! Hein?!

— Eu estava falando com minha melhor amiga! Não contei a mais ninguém!

—Sua melhor amiga é Claire! Pelo amor de Deus, ela me conhecia! — Ele passa os dedos por entre os cabelos, exasperado. — Ela sabia de tudo! Tudo!

—Theo, do que você está falando?!

— Eu já gostava de você antes, porra! -Congelo durante um momento. Ele me encara com uma mistura de… Raiva, desespero, mágoa e… Esperança. — E agora, além de virar boneco, tem esse Victor. — Seguro o riso. Péssimo momento para risadas, Christie. Respiro fundo e me recomponho.

—Theo… Nós não tínhamos compromisso nenhum. Você não pode cobrar nada de mim.

—Eu te apresentei pros meus pais, Christine…-Ele senta no chão, a cabeça enterrada entre os joelhos.

—Aquilo foi uma armação sua, não concordei com nada. Você falou que namorávamos.— Encolho minhas pernas, tentando me manter longe dele.

—Meus pais perguntaram sobre você, sabia? -Sua voz é trêmula. — Eu disse que precisou ficar estudando.

Não respondo. Os únicos sons que sou capaz de escutar são os latidos dos cachorros de rua e a respiração ofegante de Theo. As peças vão se encaixando aos poucos.

—Você falou para seus pais que namoramos, não foi?

Silêncio. Lentamente, Theo ergue o rosto.

—Eu falei para meu primo o que aconteceu. Ele disse aos meus pais que namoramos. -Ele faz uma pausa. — Eu concordei.

—Chega. — Levanto e o contorno. — Eu vou sair daqui.

Antes que eu visse qualquer coisa, Theo estava em pé na minha frente, segurando meus ombros. A raiva voltara aos seus olhos, assim como a vermelhidão à sua pele. Quando fala, sua foz sai grossa e controlada, apesar de trêmula.

—Vai para a casa do seu namorado, não vai?

—Se não percebeu ainda, você está pirando. -Tento ser firme, mas as lágrimas começam a se acumular no canto dos olhos. Só quero sair correndo, mas as mãos de Theo em meus ombros estão me machucando com a força.

—Eu não vou deixar você ir para a casa do Victor! — Sua voz explode a centímetros do meu rosto.

—Pelo amor de Deus!— Grito, com todo o ar dos meus pulmões. -Não existe nenhum Victor! Você ficou maluco?!

Debato-me, dando socos e pontapés inúteis, até Theo me soltar. Recuo longos passos, tentando manter minhas pernas firmes o suficiente para ficar em pé. Ele está encarando as próprias mãos, em choque. Vejo que tenta balbuciar alguma coisa, mas não adianta. Porque ainda estou aqui parada? Parte de mim espera que a expressão assustada em seu rosto suma, que eu possa abraçá-lo e dizer que foi um caso estranho de sonambulismo ou algo do gênero. A outra parte é mais simples e sensata. Pego meu celular e saio correndo porta a fora. Enquanto estou descendo as escadas, temo ouvir Theo correndo atrás de mim, mas isso não acontece.

Ao chegar no térreo, paro para tomar fôlego. Ele não saiu do lugar. A porta ainda está aberta. Theo está congelado, preso em si.

Continuo correndo.

Notas finais
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