Apaixonado pelo diabo
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Cheiro de fumaça invade meu nariz, ouço barulhos de destroços que parecem estar próximos, ainda estou de olhos fechados mas consigo sentir pequenas pedras perfurando o lado direito do meu rosto. Sinto um vento quente correr pelos dedos da minha mão esquerda, é quando percebo que ela está pendurada, então finalmente abro meus olhos e vejo que estou de bruços na beirada de um edifício que antes parecia um abismo. Quer dizer, considerando a altura do prédio, uma escorregada e eu viro patê. Com a ajuda da minha mão direita eu me rastejo para o lado e me levanto, limpo o rosto e em seguida tiro a poeira da mãos na minha roupa. Estou vestindo: Uma calça preta e justa, um colete preto com o zíper fechado a altura do tórax e botas de cano longo. Olho em volta e vejo uma cidade destruída, caminho até a beirada e as ruas estão esburacadas, carros estão em chamas e partes dos prédios estão por toda a parte. Mas tem algo estranho, não vejo corpos ou pessoas feridas, ou sobreviventes, apesar de que no estado catastrófico que se encontra essa cidade seria meio que um milagre alguém ainda estar vivo. Então é isso, parece que estou sozinho mesmo.
Quase colado ao topo do prédio onde me encontro há uma construção espelhada que mesmo destruída ainda resta um vidro intacto, olho o meu reflexo nele e vejo que além das roupas diferentes, meu cabelo que antes era preto agora está com mechas brancas. Enquanto me observo e julgo minha aparência, ouço alguém gritar meu nome:
"JHON!" — Grita uma voz grossa e olho imediatamente tentando identificar de quem é e de onde vem.
"JHON, SOCORRO!" — Grita mais uma vez e eu finalmente consigo ver de onde vem.
Um rapaz está dentro de um bloco cinza com apenas o buraco da porta e das janelas, o bloco se encontra dois prédios a minha frente, canos fazem uma pequena ponte entre os prédios e eu os uso para chegar até lá. Tento não olhar para baixo enquanto atravesso mas é inevitável, olho o abismo abaixo dos meus pés e minha pernas começam a tremer. Respiro fundo, tento manter a concentração e antes que minhas pernas parem de me obedecer eu pulo para a sacada a minha frente. Estou a um prédio de chegar mas já consigo vê-lo melhor, ele tem a minha altura (1,70), não é gordo e nem magro, é parrudinho. Está usando uma bermuda cinza, camisa listrada e tênis. Tem uma barba desenhada, bonita e muito bem feita que ao longo do rosto se junta ao seu cabelo que é um castanho bem claro. Eu nunca o tinha visto na minha vida mas de alguma forma ele me conhecia e quando me viu se aproximando, abriu um sorriso, parecia feliz por me ver ou simplesmente estava feliz porque alguém apareceu para ajudar. Se ele acha que eu sei alguma forma de sair desse lugar, vai ficar desapontado porque eu não faço ideia.
Começo a atravessar o próximo cano e quando estou na metade ele grita mais uma vez:
Rapaz — "JHON, ME AJUDA!"
Olho para frente e vejo que no buraco da porta,onde ele estava me olhando, agora está em chamas. Começo a andar mais rápido mas meu pé escorrega e eu caio de joelhos em cima do cano que é frágil, e começa a ceder com o peso do meu corpo, me recomponho, corro e pulo na sacada antes que eu caia. Sinto o chão estremecer, olho para o bloco e o vejo se deslocando do chão. Ele começar a flutuar e seguir em frente como se uma força maior estivesse puxando ele. Penso em desistir mas os gritos do rapaz invadem meus ouvidos e vão de encontro ao meu coração, é estranho, eu não conheço ele mas meu coração aperta e grita ao mesmo tempo a medida que ele se afasta. Um pedaço do cabo de energia está pendurado no bloco, eu corro pela sacada o mais rápido que posso e tomo um impulso na beirada para alcançá-lo, o agarro com força e vou escalando até chegar na beirada do bloco. Quando finalmente alcanço a beirada eu o vejo sentado no meio com a cabeça entre as pernas, como se tivesse aceitado a própria morte e eu não tenho como entrar, as chamas formaram um bloqueio. Vejo que do outro lado as chamas não alcançaram o buraco de uma janela e é a única forma de entrar, do meu lado um conjunto de cabos intactos estão fixados na parede seguindo para o topo do bloco, então começo a escalar. Quando chego no topo o bloco começa a girar para frente, começo a escorregar de encontro ao abismo mas me seguro em uma pequena barra de ferro no meio do bloco e começo a escalar de volta para a beirada que agora virou o topo. Finalmente estou em cima mas percebo que agora a entrada da janela está do outro lado, o bloco começa a se chocar com os prédios e preciso pensar rápido antes que sejamos engolidos pelos destroços. Os cabos que usei para escalar se estendem por todo o bloco, começo a arrancar do chão até que chego ao limite e ele fica preso pela parte de baixo do bloco. Não sei se isso vai aguentar mas é minha única esperança, corro, tomo impulso e pulo. O bloco se choca contra uma enorme construção e eu vou caindo enquanto seguro no cabo até alcançar a janela, quando entro caio de joelhos na frente do rapaz que está em pé encostado na parede, antes que eu possa pensar em qualquer coisa o chão onde ele está se desfaz e eu seguro a mão dele. Dessa vez ele não grita e nem aparenta medo, assustado sim mas com medo não, nessa hora eu percebo que ele confia demais em mim e eu continuo sem entender o porque. O bloco começa a desmoronar e eu uso toda a minha força pra puxá-lo de encontro a mim, finalmente eu consigo, ele cai por cima de mim, me abraça forte e enterra sua cabeça no meu ombro. Não tem mais o que fazer, vamos morrer e eu nunca vou saber quem é esse menino. O abraço de volta, enterro minha cabeça em seus ombros e somos jogados pra dentro de uma escuridão.
"Jhon! Acorda! Vai se atrasar pra aula." — Grita meu pai da porta do quarto
Eu me espreguiço, resmungo e sento na cama.
"Já é a segunda vez essa semana que eu tenho que te acordar, não pago curso caro pra você ficar faltando não, vamos ter mais responsabilidade." — diz ele
Odeio quando ele fica me dando sermão, eu sou o melhor aluno da turma do curso de inglês, meus trabalhos são ótimos, sou participativo, sempre tiro notas altas e meu professor sempre elogia a minha dicção. Eu só gosto de dormir demais, sou um pouco preguiçoso e adoro comer besteira, ta vendo sou um americano perfeito. Me levanto, tomo um banho, arrumo minhas coisas e saio. Chego no curso, passo pelo lobby, subo as escadas, vou de encontro a porta da sala e abro lentamente.
"JHON!" — Grita Letty, minha colega de turma.
"Hi guys! Good afternoon!" — eu digo e no mesmo instante paro no meio da porta com a mão na maçaneta, com cara de assustado.
"You're late again, Jhon! — diz meu professor, mas eu não dou atenção pois estou muito assustado com o que vejo.
Sentado com uma perna em cima da outra, batendo com o lápis no caderno, vestindo exatamente a mesma roupa (única diferença é a camisa que é mais escura), está o menino dos meus sonhos. Ele olha pra mim indiferente e eu continuo o olhando, com o coração quase saindo pela boca.
Fale com o autor