Apaixonada pelo Mal
2 Segunda Tentativa
Notas iniciais
–Agora me diga detalhadamente o que você se lembra deles – Pediu o tenente McGrey.
Estava fazendo esse depoimento há meia hora. Estava cansada, dolorida, molhada e com fome.
–Só que eles usuram dois nomes: Dog e JK, como eu já disse. Não vi a cor dos olhos deles, nem da pele, eles estavam completamente cobertos de preto... Eles tinham uma escuta e... De alguma forma eles estavam ouvindo a frequência da policia – Murmurei um pouco perdida.
–Hum... Continue — Disse o tenente se ajeitando na cadeira.
Fiquei mais uma hora falando com ele, contei todos os detalhes que lembrava, todos!
–Então já posso ir embora? – Perguntei cansada.
–Pode... Eu vou te acompanhar até em casa – Disse olhando para mim, foi então que percebi que ele estava olhando para minha mão, ela estava tremando até agora – Você quer ir ao médico?
–Não... Só quero ir para casa – Murmurei exausta, pressionando minha mão.
–Situações como essa são bem estressantes, talvez você devesse ficar uns dias de folga do trabalho – Sugeriu calmamente olhando para mim.
–Eu vou pensar sobre isso... Eu estou bem – Repeti novamente, não sabia se para ele ou para mim.
Ele me acompanhou até o carro da polícia que era todo preto, já havia outro policial ali dentro nos esperando. Abri a porta traseira e entrei, ficando perto do vidro.
O tenente McGrey ficou no banco do carona e começou a conversar amenidades com o outro policial durante o trajeto. Eles perguntaram qual quadra era minha casa e o nome da rua e seguiram viajem sem fazer mais nenhuma pergunta. Eles deviam conhecer cada centímetro de Manhattan.
Eu morava em uma rua bonita de Upper East Side, com várias casas parecidas, com pequenas escadas que davam acesso a varanda de entrada, o que fazia parecer à entrada dos prédios antigos perto da área industrial do Brooklyn.

Eles pararam o carro em frente a minha casa, eu agradeci e saí do carro.
Para minha surpresa eles também saíram do carro.
–Não precisam me acompanhar até dentro de casa – Murmurei cansada.
–Procedimento padrão, Srta. Bennet – Disse o policial que havia dirigido o carro.
–Tudo bem – Disse e segui na frente.
Como havia perdido minha bolsa em meio à confusão estava sem a chave principal, então peguei a chave reserva dentro do jarro de planta ao lado da porta e abrir a primeira porta.
–Está aberta... – Murmurei um pouco confusa.
–Tem certeza que não deixou aberta antes de sair de casa? – Perguntou o tenente McGrey.
–Tenho... Não costumo deixa-la aberta!
Ele fez uma carranca horrível e entrou apressado. Para a minha surpresa ele passou pela segunda porta, essa eu NUNCA deixo aberta!
Eu o segui e o outro policial ficou atrás de mim. Então eu parei no meio do caminho, ainda segurando a porta.
–Como minha bolsa veio parar aqui?! –Disse com a voz estrangulada.
Eles ficaram pálidos e começaram a olhar em volta.
Minha bolsa estava aberta no meio da sala e eu comecei a suar frio.
–Vamos sair daqui! Agora! – Disse o tenente e corremos para fora.
Fomos para perto do carro e nada aconteceu.
–O que vamos fazer agora? – Perguntei desesperada isso pareceu desperta-lo.
O tenente pegou o rádio dentro do carro e falou rapidamente.
–Aqui é o Tenente Derik McGrey para o comando. Caso do Banco do Central Park. Peço envio de reforços. Os suspeitos entraram na casa da vítima. Suspeita de bomba, repito, suspeita de bomba! – Disse no rádio e eu fiquei paralisada.
O outro policial estava em pânico olhando para as outras casas.
–O que vamos fazer? Pode explodir aqui! Talvez o cronometro esteja rolando! Como vamos mandar esvaziar todo o bairro?!
–Fique calmo Adam! – Esbravejou Derik – Não podemos alarmar a vizinhança assim! Não temos certeza se realmente há uma bomba aqui! Todos entrariam em pânico! Temos que esperar o esquadrão anti-bombas chegar! – Ele disse olhando para minha casa.
Adam olhou para mim e para a rua em desespero, mas ficou calado, ou seja, tínhamos que pedir a Deus para não ter uma bomba ali e para ela não explodir.
Eu estava desmoronando por dentro, mas por algum motivo eu continuei ali, em pé com eles, esperando pelo pior, talvez com medo demais para me mexer, mas de qualquer forma não havia para onde ir.
Tudo estava se repetindo novamente.
Vários carros de policial chegaram, o corpo de bombeiros, o esquadrão anti-bombas e carros da companhia de gás e energia, eles olhavam para mim como se eu fosse à culpada ou responsável por aquilo, eu queria sumir.
Meus vizinhos me olhavam totalmente confusos, muitos deles saindo de casa ainda de meias sendo guiados pelos policiais. O tenente me levou até onde eles estavam e pediu que eu ficasse em silêncio sobre o assunto para não causar tumulto.
Eu me sentei na calçada e coloquei a cabeça apoiada nos joelhos, rezando para que se existisse um deus que ele protegesse a todos ali.
Como estávamos na outra rua eu não podia ver o que estava acontecendo dentro da minha casa, somente o barulho distante das vozes se misturando.
Os minutos se passaram e nada. Eu ficava cada vez mais tensa, não parava de tremer.
Três horas depois e eles voltaram, dizendo que tudo estava tranquilo e que podíamos voltar para nossas casas. Fiquei olhando todos voltarem para suas casas e fiquei procurando o rosto familiar entre a turba. Quando vi o tenente eu me levantei e fui a sua direção.
Assim que eu cheguei perto dele ele segurou meus ombros.
–Respire Olivia, você está quase caindo – Disse, mas eu continuei a encara-lo.
–O que aconteceu? Acharam mesmo uma bomba? Desarmarão ela? – Disse sufocada as mesmas perguntas que me perseguiam há horas.
–Não havia nenhuma bomba, nós olhamos tudo.
–Tem certeza? Viram na casa toda? – Perguntei.
–Sim, tudo... Reviramos sua casa em busca de algo, mas não havia nada, pode ficar tranquila agora.
–Então... Como? Por quê? Por que eles entraram na minha casa e não fizeram nada? – Perguntei um pouco alto demais, não conseguia entender.
–Eles provavelmente fizeram isso para te amedrontar, você sobreviveu, algo que talvez eles não esperassem, eles fizeram isso como uma ameaça para que você soubesse que eles podem te achar a qualquer momento...
–E assim me matar se eu colaborar com vocês em algo... – Continuei seca – Mas eu não sei de nada! Não observei nada significante! Eles não deixaram brechas! – Disse agitada.
–Sim! Mas eles não sabem disso! – Respondeu.
Eu comecei a esfregar os olhos completamente desnorteada.
–Nós precisamos voltar para a delegacia – Disse o tenente.
–Mas por quê?!
–Você vai precisar de proteção, como essa quadrilha está usando bombas e agora está ameaçando os sobreviventes o FBI entrou no caso, é um procedimento.
Eu balancei a cabeça e ele me guiou de volta ao carro. Desta vez outro policial entrou no carro... Três para minha proteção... Isso não está acontecendo! Eu só fui ao banco e agora...
Quando eu desci do carro vi meu reflexo no espelho, eu não estava pálida, estava cinza, parecia ter envelhecido uns três anos, meus olhos estavam um pouco roxos em volta.
Dentro da delegacia estava um verdadeiro caos, havia mais gente do que antes. McGrey não me contou, mas eu ouvi que também haviam entrado na casa do outro sobrevivente, eu não o vi na delegacia, talvez eles não quisessem que nos encontrássemos, não saberia dizer.
Um psicólogo do FBI acompanhado por outro agente veio falar comigo, o tenente McGrey se juntou a eles e contou mais sobre o que havia acontecido. O psicólogo disse que ainda não havia gravidade suficiente para que eu me mudasse de estado e de identidade, mas me perguntou se eu não me sentiria mais segura se o fizesse.
–Não! Não! Eu não quero fazer isso! Vou permanecer em Nova York! Meu trabalho está aqui e o tenente mesmo disse que talvez eles tenham feito isso somente para me amedrontar! Eles não vão ficar me seguindo! – Disse nervosa.
–Tudo bem então... – Disse o psicólogo com a voz calma – Mas se sentir melhor futuramente e quiser tomar essa atitude pode dizer, okay?! Vocês nos deixariam a sós? Gostaria de falar com Olivia – Pediu brando.
Os policiais saíram dali em silêncio e o psicólogo começou a conversar comigo sobre tudo que havia acontecido, perguntando sobre o que eu pensava de tudo e aquilo me irritou profundamente. Odeio dizer o que estou pensando, não queria estar conversando com ele, queria estar em casa.
O psicólogo me deu uma licença de uma semana no trabalho e teve a gentileza de ligar para a diretoria do hospital para avisar sobre a situação, depois disso eu fiquei mal por tê-lo tratado com irritação.
Em casos de “tamanho estresse emocional e físico”, palavras do psicólogo, o FBI disponibiliza acompanhamento psicólogo para as vitimas, e eu teria que fazer as duas primeiras consultas obrigatórias e se eu ainda quisesse continuar o acompanhamento eu teria esse direito.
Antes de sair da sala ele também recomendou que eu fosse ao hospital, verificasse se tudo estava bem e tomasse um calmante, ao que parece minhas mãos trêmulas eram um sinal de uma possível crise nervosa.
–Sou enfermeira, não se preocupe – Disse gentil e ele saiu.
Tive que ficar mais tempo na sala para assinar alguns papéis do FBI e confirmar meus depoimentos. Foi o tenente McGrey que entrou na sala e colocou vários papéis na minha frente.
–Aqui... Tome algo, vai ajudar a se acalmar – Disse gentil me entregando um copo de café com creme.
–Obrigada... – Sussurrei e tomei um bom gole.
***
Pouco antes das duas da manhã eu terminei tudo. Os mesmos três policiais me trouxeram, me levaram de volta até em casa e entraram comigo em silêncio.
Estava tudo bagunçado e remexido.
Fui logo recolher meus documentos que estavam no chão e pus de volta na bolsa. Tudo estava ali, dinheiro, meus documentos, chave, até mesmo meu celular, tudo intacto.
Fiquei andando pela casa enquanto o tenente falava comigo.
–Dois agentes vão ficar fazendo a vigia está noite, se você vir ou ouvir algo pode ligar para eles – Disse e me entregou um papel com o número deles – Não se preocupe, olharam a casa toda, você pode dormir em paz – Diz brando, com certeza ele estava com pena de mim.
–Obrigada... – Disse, minha voz não passava de um sussurro.
Eles saíram em silêncio e eu comecei a olhar toda a casa, eu não tinha quintal, o que me tranquilizou. Comecei a trancar toda a casa, fechar todas as janelas e fui para o banheiro.
Eu joguei toda a roupa que usei, inclusive minhas sapatilhas, fora... Eu não queria me lembrar de nada deste dia, nada.
Quando olhei meu corpo em frente ao espelho pude ver as marcas de roxo em minha pele, em minhas costelas por causa daquele maldito colete! Nos meus braços quando eles me puxaram... Mas o pior era o meu rosto, estava parecendo um cadáver... Passei a unha no rosto ao mesmo tempo em que uma lágrima solitária descia pelo meu rosto.
Entrei na banheira e fiquei em silêncio, aproveitando o momento.
Tudo havia acabado, agora eu poderia chorar em paz.
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