Apaixonada Por Um Morto-Vivo
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Estava sentada na primeira carteira da sala ao lado de sua melhor amiga de infância: Lanna McQueen. A ruiva não parava de
tagarelar banalidades, os alunos em volta faziam algazarra. Todos entretidos em conversas calorosas e se abraçando, contando novidades aqui e ali das férias. Alguns olhavam para os seios à mostra de Lanna, outros, a cor dos cabelos de Tina. O professor nada de chegar. Era o primeiro dia, de fato. Porém, não para a adolescente mais rebelde dali. Tina já repetira o último ano três vezes, sem contar as séries que pulara. Nada era novidade. Tudo era entediante.
-Acha que esse ano vai ter algum gatinho? — Perguntou Lanna, eufórica.
A amiga ruiva também não tinha um histórico muito vistoso. Estava sempre pulando ou repetindo séries para acompanhar Tina. Sua capacidade intelectual estava longe de ser baixa. Tudo o que fazia era meramente proposital e nem se importava com isso. As duas eram inseparáveis.
-Veja como estou interessada — rebateu Tina, fazendo uma careta.
Os papos aleatórios continuaram por mais alguns minutos até a sala ficar cada vez mais cheia. Ao entrar uma mulher parruda e
baixinha, o alvoroço cessou.
-Bom dia! Sou Eliana Truntboll — começou a mulher. — Professora de Anatomia.
Assim, ela se virou para escrever na lousa, com ar de desprezo. Tina e Lanna prenderam o riso com a estatura da mulher, mas ao mesmo tempo estranharam sua presença. As duas estavam naquele colégio há muitos anos e conheciam todos os funcionários. E de
repente, aparece uma mulher estranha e mal-encarada. Todos notaram que Eliana escreveu o próprio nome no quadro.
-Onde está o Caio? — Alguém perguntou.
-É, cadê nosso professor? — Outra voz foi ouvida.
A miniatura de professora encarou a classe de modo ameaçador. Passou a mão entre os cabelos curtos e desidratados antes de
falar:
-Lamento, mas eu o substituí.
-Por quê? — Lanna tomou a palavra.
A professora suspirou.
-Caio sofreu um acidente, deve retornar no meio do semestre.
Houveram algumas vaias.
-Que saco! — Tina murmurou.
-O que você disse?
Silêncio. Todos encararam a garota. Ela estava sentada de modo relaxado com um braço no encosto da cadeira.
-Eu disse: Que saco! Queremos o Caio de volta — respondeu, desafiadoramente.
Eliana suspirou, jogando em sua mesa a caneta de quadro.
-Já disse que lamento! Qual seu nome, mocinha? — Vociferou.
Tina cogitou não responder. Conseguiria ser muito mais ousada se quisesse e proporcionaria um belo show de início de ano letivo
para aquela baixinha. Mas o dia mal havia começado e ela já estava pelas tampas.
O silêncio pairou pela segunda vez na sala. Parecia que do nariz de Eliana iria sair fumaça se ela continuasse a respirar daquele jeito. A tensão entre Tina e a professora foi aumentando. As duas se encaravam duramente. O clima pesava.
Alguém bateu na porta e entrou.
-Bom dia! Desculpe o atra...
Todos olharam para o aluno novo, menos as duas mulheres. Antes mesmo de fechar a porta, ele percebeu a tensão.
Eliana cedeu primeiro.
-Entre e sente-se, rapaz!
Era o cara da casa em frente, Tina avaliou depois.
Só faltava essa!
O garoto passou por ela, encarando-a. Ela sustentou o olhar. O mundo estava contra a garota hoje, não era possível. Quantas
horas faltavam mesmo para estar em sua cama? Levou alguns segundos para que o garoto, que agora usava um sobretudo, mas a
blusa branca e a calça eram as mesmas, sentasse, ironicamente, duas carteiras atrás dela.
-Pelo visto, você não tem boa conduta, não é? — Eliana chamou sua atenção, estudando a garota dos cabelos azuis até as botas
de couro. — Sei como lidar com alunos assim. Conversaremos mais tarde.
-Que seja! — Tina bufou.
A professora notou que podia ir muito longe com aquilo, entretanto tinha uma aula para dar e não um espetáculo para os novos alunos. Se resolveria com aquela abusada depois. Enquanto isso, na cabeça de Tina, só o garoto intrigante rodava e rodava e rodava...
-Você conhece o gato? — Lanna a provocou quando Eliana virou de frente para a lousa novamente.
A garota olhou para a amiga e cuspiu:
-Vizinho novo!
Lanna revirou os olhos.
-Que sorte! E sua educação para se apresentar? Cadê, hein? Preciso conhecê-lo também!
-Fique à vontade! Não estou na fila.
Com isso, a aula correu rapidamente e sem atritos, para alívio de Tina. Em vários momentos, Lanna se virava para espiar o garoto.
O mesmo não tirava os olhos da amiga ao lado. Ela pensou que ele fosse levantar a qualquer instante e falar com Tina, contudo isso
não aconteceu.
-Parece que ele vai arrancar um pedaço de você de tanto que olha — a ruiva dava risinhos.
-Que se dane — era sempre a resposta que recebia.
Quando o sinal tocou alto, Tina saiu despercebida pela professora, deixando Lanna com suas piadinhas para trás, e o garoto também.
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