Apaixonada Por Um Morto-Vivo
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Numa cafeteria de esquina, que por acaso era o refúgio de Tina quando queria ficar sozinha, ela contara tudo a Lanna, detalhadamente.
— O que você acha de tudo isso? — Perguntou a ruiva.
Tina deu de ombros.
— Nem me importo. Mas que é estranho, isso é.
As duas dividiam um capuccino com licor de menta grande. Estavam conversando há mais de meia hora. Aquele, além de ser
tachado como o segundo recinto secreto de Tina, era o ponto de encontro das amigas. Ninguém conhecido se arriscava a entrar,
grande vantagem. Não tinha uma fachada muito convidativa, possuía apenas uma porta estreita de entrada que dava numa esquina
deserta. Era apertado e de baixa movimentação. Só uns dois ou três grupos de homens grandes e mal-educados apareciam para comprar uns bolinhos acompanhados de café misturado com álcool e apreciar pervertidamente uma garotinha de quinze anos fazendo cover.
— É estranho, sem dúvida — continuou Lanna. — Mas você precisa descobrir logo, estou curiosa.
Tina bebeu uns goles do chocolate. Não era novidade que Lanna estivesse curiosa.
— Como tá minha pequena? — Tina mudou de assunto.
— Bem. Deixei-a dormindo. E falando nisso, não posso demorar aqui. Tenho que estar em casa antes da minha mãe chegar.
A outra garota assentiu. Se referia à irmã menor de Lanna, Lassie. Era uma gracinha de criança, com apenas 4 aninhos.
Nesse momento, a menininha no microfone começou a cantar Home, de Blake Shelton, e alguns caras bateram com suas canecas de café nas mesas, em satisfação. Tina acompanhava a música enquanto bebericava seu capuccino e Lanna se levantou.
— Vou ao banheiro, volto já — saiu dando risinhos. Ia ao banheiro coisa nenhuma.
E a jovem ficou sozinha. Correu a vista para observar o local. A iluminação era precária e hoje estava estranhamente cheio. Um sino baixo soou. Esse barulho era feito toda vez que alguém abria e fechava a porta do estabelecimento. Os olhos de Tina voaram para ver qual era, dessa vez, a pessoa que chegara para ocupar sua cafeteria. E deu de cara com o garoto da casa em frente.
Ah, qual é? Ele tá me seguindo?
E como não tinha uma aparência nada discreta, o cara logo a avistou. Tina achou-o ousado quando ele foi em sua direção.
— Boa noite! A senhorita é minha vizinha, certo? — Ele tinha uma voz grossa e ao mesmo tempo sensual.
Ela balançou a cabeça.
— Prazer! Sou Stoll — ele estendeu a mão.
Alguém me mate!
— Tina — ela recusou o cumprimento.
Ele recolheu a mão, todavia não pareceu sem graça com o gesto dela.
— Está sozinha? Se importa se eu me sentar aqui?
Tina estudou-o. Vestido de calça jeans e blusa escura, com um sobretudo por cima. Ele carregava no pescoço um cordão de prata
com um pedra azul em forma de pimenta pendurada, que lhe era familiar de algum modo.
— Estou com uma amiga — respondeu, secamente.
Stoll correu com o olhar, como que procurando outra garota. A única que viu foi a que estava cantando. Voltou a encará-la com
dúvida. Tina virou-se em direção do banheiro e viu Lanna saindo entretida com um cara barbudo.
Obrigada, Lanna!
Quando a amiga fazia aquilo, só voltava a vê-la no dia seguinte, trazendo uma expressão de desentendida no rosto. Coitada de Lassie, por estar sozinha em casa.
— Tanto faz — Tina desistiu.
O jovem puxou a cadeira e se sentou.
— Também temos aula de Literatura no colégio juntos — ele recomeçou.
A garota, como sempre, estava sendo antipática. Odiava gente nova e arrumar amigos era a última coisa que tinha vontade de
fazer. Seus primeiros encontros não foram nada agradáveis com o rapaz a sua frente. Ele a teve como algo desprezível ou troço semelhante, e ela não gostou nada disso.
— Você fala? — Indagou, irônico.
— Engraçadinho — ela sorriu, debochada.
Ficaram em silêncio. Não tinham o que conversar, na verdade. Por que ele estava ali mesmo?
— Esse lugar não é pra você.
— E para uma garota, é? — Stoll rebateu.
— Sei me cuidar — ela terminou o líquido doce do copo.
Ele sorriu. Pela primeira vez exibiu seus dentes. Incríveis! Não havia outra palavra. Perfeitamente alinhados e estranhamente brancos.
Tina se levantou.
— Aonde vai? — Stoll, no impulso, segurou seu antebraço.
— Embora. Já terminei por aqui — ela puxou o membro da mão dele com força.
— Por favor, fique. Não quer conversar? — Insistiu ele.
Tina fez cara de tédio, mas sentou de volta.
— Cara, o que você quer?
— Conhecê-la.
— Por quê?
Ele ficou sem resposta. Estava admirando seus piercings. Depois seu cabelo, e por fim, seus olhos.
—Não gosta do que vê? — Tina alfinetou.
Stoll abriu outro sorriso.
—Você é linda!
E mais essa agora.
— O quê?
— Eu disse que você é linda — repetiu, chegando mais perto.
— Tá louco? Olha pra mim — e riu.
Stoll não desviou os olhos. Aquilo parecia interminável.
— Minha opinião não mudou. Lamento se não está acostumada com esses elogios.
Tina fechou a cara. Quando os homens vinham com esses comentários, já sabia aonde ia acabar. E não estava nem um pouco a fim de se aproximar daquele engomadinho. Entretanto, ele parecia natural e ela não conseguia, por mais que tentasse, achar um pingo
de segundas intenções.
Stoll examinou o relógio de prata no pulso e disse:
— Bom, infelizmente, tenho que ir!
— Tem hora pra chegar em casa? — Ela zombou.
Ele riu. Tinha um riso gostoso. Tina percebeu que ficava irritada quando ele ria. Ele era imune às suas piadinhas ou o quê?
— Nos vemos amanhã no colégio, certo? — Ele tomou a mão dela delicadamente e, antes que ela ficasse encabulada ou tivesse uma reação agressiva, pousou um beijo e piscou.
Stoll sumiu pela porta da cafeteria, deixando para trás uma Tina paralisada e confusa.
Ele flertou comigo? Que idiota!
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