Notas iniciais
Neste capítulo, um pouco de mistério vai surgir para desencadear a traminha da fic. Boa leitura!

Ela mantinha um braço tapando metade do rosto, como se estivesse relaxando na maca improvisada, mas na verdade queria
esconder a leve dor estampada através dos olhos. Estava nos fundos da casa de Billy, numa sala escura, feita de estúdio de tatuagens, e um rock inundava o local. Cheiro de álcool e fumaça reinavam por toda parte. Pouca gente sabia daquele lugar e este era o favorito de Tina. O sujeito de lá era o mais confiável ao se tratar de manchar seu corpo com desenhos. E ela não precisava pagar nunca.
Os dois eram parceiros e trocavam ''favores''.
— Prontinho! Tá perfeita, como sempre, gata — Billy desligou a máquina de agulha e o zumbido teve fim.
Tina analisou o símbolo da PlayBoy que pedira para ser feito na virilha. Estava mesmo perfeito. Subiu a calça e abotoou-a.
— Valeu, cara — Tina pegou o cigarro que ele sustentava na boca e deu uma inspirada rápida.
O homem sorriu e sacou de volta o objeto dela.
— O que vai fazer mais tarde, garota?
— Não vou sair contigo, grandalhão — ela deu um empurrão no ombro dele, brincalhona.
Os dois trocaram sorrisos e se despediram.
Não havia nada mais relaxante do que uma tatuagem feita depois de um dia super estressante. Tina adorava aquilo. Parecia que seus problemas deixavam de existir quando a agulha tocava em sua pele. Fosse agulha para tatuagem ou para dar espaço a mais um piercing. A sensação era viciante. A garota nunca se cansava disso. E Billy era um cara legal. Descolava uns cigarros e fazia os serviços gratuitos. Tina já tivera um lance ou outro com ele, mas nada sério.
Passaram a tarde toda conversando desde que ela saíra do colégio. A noite dominava a cidade e Tina acelerava a mobilete rumo à sua casa. A hora de ter que encarar sua mãe e seu pai era a pior do dia. Ela desejava nunca precisar voltar. Porém, ficava bem complicado se manter e dar o fora do ninho dos pais quando ela não era uma funcionária muito agradável para seus chefes. Não compreendia o conceito respeito e muito menos ordens, portanto não tinha escolha. Tina se odiava por isso.
Estacionada a moto e estando dentro de casa, ela jogou as chaves para um lado e a jaqueta para o outro. Nem sinal de alguém na sala, mas ouvia vozes sussurrantes na cozinha. Foi de fininho por trás da bancada e abaixou-se para escutar melhor.
— ...parece que eles chegaram hoje pela manhã — Haney falava.
— Isso não importa, eles não vão levá-la agora. Ainda não estamos prontos — retrucou Robson, meio embriagado.
— Ora, desde quando você liga? Não somos mais uma família mesmo. Deixe que levem-na...
— Não acredito que estou ouvindo isso de você! Quem está comendo teu cérebro, mulher? Que mãe você é? Sabemos que estamos longe de sermos os melhores pais, mas ela é nossa menina, não podemos permitir!
— Tudo bem, não falamos mais disso, por enquanto. Vamos dar um jeito neles. Mas Tina não pode saber nunca...
— O que eu não posso saber nunca? — Tina não se conteve e levantou-se do esconderijo.
Haney e Robson se entreolharam. De repente, ficaram sem fala.

— O gato comeu a língua de vocês? — Debochou.
— Não é nada, filha...
— Nada? Tenho cara de maluca? Não tenho 8 anos. Do que estavam falando?
Silêncio novamente. Se eles quisessem mentir, teriam que arrumar uma bela desculpa. Tina era muito esperta para cair em qualquer
coisa. Mas por que tanto mistério? O que estavam escondendo dela?
— Ótimo! Quando o gato devolver a língua de vocês, não vou mais querer nenhuma explicação!
Saiu, batendo os pés, em direção ao quarto.

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Estava no chuveiro, tentando organizar os pensamentos.
Eles chegaram pela manhã ... deixe que levem-na ... não estamos prontos... dar um jeito neles ...
O que aquilo tudo significava? Não bastava o péssimo dia que tivera e agora isso.
Aquela altura da vida de Tina, nada mais era tão grave. Já havia feito tanta besteira e seus pais nunca tentaram impedir. Que tipo
de pais eram? Talvez ela só fosse rebelde para que eles a notassem, para que dessem conselhos, para que chamassem sua atenção,
dessem-lhe um castigo ou um puxão de orelhas... Por que eles nunca fizeram essas coisas que pais normais fazem? Será que não ligavam mesmo para ela? Será que 'não sabiam fazer'? Era confuso. Seu modo de vida era um tanto faz. Isso não tinha graça. Ela nunca sentiu a adrenalina de trair a confiança dos pais, ou quebrar uma regra, porque nunca houvera nada disso, nunca lhe fora exigido isso. As coisas eram fáceis demais.
Esfregou uma toalha nos cabelos azuis e saiu nua do banheiro. Catou uma peça de roupa confortável e, vestindo-se, decidiu sair
para esfriar a cabeça. O banho não havia sido suficiente para isso. Mandou uma mensagem de texto no celular e desceu as escadas
para o primeiro andar.
Haney estava na sala vendo TV, tranquilamente. Ao ver Tina, levantou-se.
— Aonde vai?
— Isso importa? — Recebeu a resposta.
— Vamos conversar...
— Agora você conversar? Não tô com saco pra isso — Tina pôs-se a procurar as chaves da moto.
Haney observava a impaciência da filha. Havia se tornado uma menina tão agressiva. Poderia ter sido doce, como era quando
criança, mas Haney não permitiu. Pela primeira vez, não culpava Robson por tudo. Este, estava na cozinha, bebendo uísque.
Onde estão as malditas chaves?
— O que procura, filha? — O pai se aproximou.
Apareçam logo, droga!

Olhou no chaveiro, mas de que adiantaria se elas jamais ficavam lá? Vasculhou o aparador perto da escada. Nada. A mesinha de centro da sala. Nada.
— Não quer ajuda?
Tina acabou explodindo.
— O que deu em vocês? Resolveram ser pais agora? Vão pro inferno — retirou-se pela porta da frente e encontrou as chaves
presas no vão.
Ligou a moto e sumiu no final da rua. Haney e Robson ficaram imóveis por um tempo. Trocaram um olhar triste e, através da
janela, viram a porta da casa em frente se abrir. Dela, saiu um jovem alto e elegante. Fecharam a cortina e voltaram aos seus lazeres.
A preocupação só aumentaria a partir daquele momento.

Notas finais
E aí? Gostaram? COMENTEM SEMPRE! Tatuagem da Tina, ousada , porém nesse estilo mesmo - http://1.bp.blogspot.com/-2ME3l6qW4wU/T75EASSmKcI/AAAAAAAAAgw/HpBsW56YIus/s320/depi++(10).jpg