Apaixonada Por Um Morto-Vivo
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Durante todo o percurso para sua casa, Tina ponderava. Por que Stoll havia feito aquilo? Nunca o perdoaria. Linden estava numa péssima situação no hospital, a mãe atordoada, Lanna inconsolável e a pequena Lassie sem entender nada. Aquela família não merecia isso. E tudo porque Tina resolveu se apaixonar por um monstro. Como ele havia conseguido causar tamanho estrago num garoto com seu mesmo porte físico? Deveria ter treinamento de luta no meio de seus hobbies pessoais.
Permitiu-se chorar na viagem. Chovia fora do carro, naquela manhã de setembro. O céu se debulhava em lágrimas junto com ela. Os dois estavam tristes.
Desceu do taxi na porta de casa depois de pagar a corrida. Procurava as chaves no bolso da jaqueta que sabia que tinha colocado na noite anterior, ao sair. Achou-as, com satisfação. Porém, nada poderia deixá-la feliz naquele momento, diante daquela situação toda.
—-Preciso falar com você, senhorita.
A voz...
Uma raiva cresceu dentro da garota ao ouvir essa voz.
Virou-se e deu de cara com um Stoll totalmente ensopado e arrependido, estampado bem no rosto tal expressão. Talvez ele já estivesse ali fora esperando por ela há um bom tempo. Suas roupas encharcadas, coladas no corpo. Algumas partes mais pesadas formando bolsões de água da chuva.
Tina respirou fundo. Fechou os olhos, deixando as gotas de água tomarem seu rosto e cabelos, por completo.
Ela esbofeteou a parte direita do rosto dele. Com toda a força que tinha milimetricamente em seu punho. Sua mão bem aberta ficou desenhada na face dele. O mesmo não pareceu se incomodar com o tapa, muito bem dado, por sinal.
A raiva tomou conta dela inteira. Ela começou a empurrá-lo, bater com os punhos em seu peitoral. A camisa branca estava transparente, mostrando toda a extensão de seu tórax. Tudo estava à mostra. Tina podia ver até seu cordão de prata com o pingente de pimenta, oprimido pela água na camisa. Ele não usava um sobretudo, como de costume. Mas ela não estava nem reparando nisso.
Continuou com os golpes para cima dele. Stoll, por sua vez, não se mexia. Parecia somente mais arrependido e chateado. Realmente chateado. Mas Tina achava que ele não tinha esse direito. Não tinha o menor direito de estar daquele jeito, afinal, ele colocara Linden naquela situação. A culpa era dele.
—-Eu odeio você! —Ela gritava em meio ao barulho de chuva.
Acelerou a investida contra ele, mas foi ficando cansada. O choro fez com ela enfraquecesse absolutamente. E então, ele a segurou forte em seus braços. Num abraço gelado, molhado e coberto de ternura. O último parecia mais presente do que qualquer água e frio.
Ficaram não se sabe quanto tempo abraçados na chuva. Os dois não davam um pio. Apenas se ouvia o choro melancólico de Tina. Stoll não a soltou de jeito nenhum. E, na verdade, ela não queria sair dali. Quando finalmente conseguiu formular uma frase, esta saiu engasgada.
—-Por que você fez aquilo?
Stoll suspirou. Ela pôde sentir pois sua cabeça estava enterrada em seu peito largo.
—-Porque eu te amo, Tina.
A garota de cabelos azuis não potencializou nada que pudesse responder quanto àquela afirmação. O que poderia dizer? Que também o amava? Mas e Linden? Isso não era mesmo justo com o garoto que estava deitado numa cama, no hospital, com sua família sem dormir, preocupada, prestes a fazer uma cirurgia de risco. Se algo desse errado, ela perderia um amigo, Lanna perderia um irmão, a sra. Lillyth perderia um filho, e tudo isso por conta de um amor doentio?
—-O Linden... está no hospital. Ele quase morreu...—falou entre soluços.
—-Ele vai ficar bem.
Como pode ter tanta certeza?
Não disseram mais nada. Stoll deixou que ela desabafasse o resto de choro. Mas havia uma certeza na voz de Stoll sobre a recuperação de Linden, que transmitiu grande alívio para o coração de Tina. De repente, a raiva não estava mais ali. Só a mágoa e... amor. De fato, o sentimento estava lá, ela não poderia negar.
—-Vamos entrar e tirar essas roupas molhadas. Você pode ficar doente e eu não vou perdoar por isso também —Stoll puxou-a para a casa dela.
Os dois entraram.
Na sala, o silêncio. Só ouviam as gotas de chuva que batiam lá fora. Os pais dela não estavam por ali. Talvez ainda estivessem dormindo. Afinal, que horas eram?
Tina tomou a dianteira para subir as escadas em direção ao seu quarto, seguida por Stoll.
Os dois iam manchando com os pingos de água da chuva, deixando um rastro por onde passavam em todo o carpete da casa. Entraram no quarto dela e Tina trancou a porta.
Ainda não compreendia o que estava acontecendo. Havia perdoado Stoll, então? Não conseguia mais ficar com raiva dele. Estava muito magoada, claro. Mas raiva? Não.
Stoll tirou sua camisa e pendurou na cadeira que ficava de frente para a mesa com computador. Voltou para ela e puxou sua jaqueta jeans pelos seus ombros. A adolescente permitiu, acompanhando suas mãos nesse movimento leve e cuidadoso. Ele pendurou a jaqueta no porta-casacos de madeira do quarto dela. Havia outras coisas mais penduradas lá. Bolsas, mochilas, vários casacos e sua jaqueta costumeira de couro preta.
Tina tirou o resto das roupas, ficando somente de langerie, aquela que escolheu no dia anterior, justamente por ser uma das mais sexys que ela tinha. Stoll tirou sua calça ensopada. Os dois não se olhavam muito. Na verdade, ele percebeu que ela não estava à vontade com tudo aquilo. Levou-a até o banheiro. Ligou a ducha quente e deixou a água bater no corpo dela. Retirou seu sutiã, puxou a calcinha para baixo. Não havia segundas intenções em qualquer toque dele. Tina sentiu isso.
Ele esfregou sabonete por todas as partes de seu corpo, sem deixar passar nada. Ela permitiu. Se sentiu num filme romântico. Após isso, ele mesmo tomou seu próprio banho, virado de costas para ela. Um estava de costas para o outro. O maior respeito e simplicidade exalava de Stoll.
Saiu do box, sacou uma toalha, secou-se primeiro. Depois secou Tina e enxugou seus cabelos azuis. Enrolou a toalha em volta da garota e arrastou-a até a cama, em passos curtos e arrastados.
Uau!
Que fantástico o jeito como ela estava se sentindo. Jamais havia sido tratada assim, nem mesmo por seus pais. Com tanto carinho, cuidado, atenção...
Stoll ajeitou as colchas na cama para que ela deitasse confortavelmente.
E ela o fez. Deitou, ele a cobriu até o queixo. Foi até seu mp3 e mexeu nas músicas. Sorriu quando encontrou o que queria.
Aumentou lentamente o volume e Tina pôde ouvir Kenny G, The Moment.
O garoto deu a volta na cama, largou a toalha no chão e entrou embaixo das cobertas, ficando bem próximo de Tina. Ela notou que o corpo dele não encostou no dela. Ele teve uma certa preocupação de manter uma coberta pesada entre os dois. Mas puxou sua cabeça para que ela apoiasse nele. Macio, liso, quase impossível perceber a presença de pelos ali, naquele peito tão branco e gelado. Ela adormeceu namorando seu pingente de pimenta azul, ouvindo a música calma e recebendo o melhor cafuné no cabelo que já tivera na vida.
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Estava numa dança com um quê de melancolia. A melodia preenchia o ambiente agradavelmente. Eles dançavam, mas pareciam flutuar. Ela não sentia o chão aos seus pés, havia um vento teatral em volta deles. Muitas luzes reluziam também, fazendo com que ela tivesse dificuldades de enxergar tudo em volta.
Vários outros casais dançavam na pista com eles. A garota pôde reparar no brilho ofuscante dos vestidos das moças, nos acessórios, cabelos tão bem penteados e os homens muito bem vestidos. Porém, nenhum rosto era conhecido para ela.
Olhou para si mesma, na esperança de que conseguisse ver seus pés. Mas um longe vestido rodado vermelho não permitia que alcançasse a visão que queria. Subiu o rosto para o companheiro com quem dançava.
—-Eu estou feliz!
Aquilo saiu da boca dela sem que ela sentisse. De fato, seu espírito estava leve. Uma tranquilidade surreal tomava conta dela.
Estava sonhando? Ela percebeu que estava num baile. Ora, um baile! Daqueles de realezas, com danças e roupas chiques, sapatos de princesas por todos os lados nos pés das mulheres, gravatas em concordância com as cores dos vestidos, bebidas servidas em taças de cristal, garçons pareciam bonecos de cera, de tão brancos e inexpressivos, grupo de músicos com violinos e muita luz, o brilho... remetia a purpurina. Quase mágica!
—-Que bom que é feliz ao meu lado, Rayka.
Sempre a mesma voz. E aquele nome de novo. Mas por incrível que pudesse parecer, o rosto do homem estava apenas a alguns centímetros do dela e, mesmo assim, ele estava escuro. Ela não podia vê-lo. Entretanto, não se assustou com isso.
—-Quando você vai se mostrar pra mim? —Ela perguntou.
No mesmo instante, ele deu um giro com ela e a inclinou, como se fosse beijá-la, ainda sem aparecer seu rosto.
—-Quando for a hora certa...
Ela sentiu um baque como se seu corpo houvesse caído. Seu espírito retornou. Deu umas piscadas.
Não, não, não.
Havia acordado. Todo aquele sonho maravilhoso sumiu de sua vista. Murchou na hora.
Fazia tempo que não tinha uma sensação boa com seus sonhos, porém esse foi tão sereno...
Estava na mesma posição em que adormeceu. Deitada no peito de Stoll, ouvindo sua respiração, o pingente no pescoço dele estava enrolado por sua mão, até com certa força. Stoll estava adormecido ainda. A música de fundo ainda era do Kenny G, mas a essa altura, a faixa toda já havia tocado.
Aproveitou para analisar o garoto deitado ao seu lado. A pele branca e gélida demais para um ser humano normal. Afinal, não já era para ele estar aquecido? Com aquele banho quente e o tempo que ficou embaixo das cobertas, não era possível isso. Colocou a mão em sua testa, buscando sinal de febre. A cabeça dele estava tão gelada quanto o corpo. Sua respiração bastante tranquila para alguém que estivesse doente. Tina notou que, mesmo com o ouvido no peito dele, ela não conseguia escutar o coração batendo.
—-Não é muito educado ver alguém dormir.
Tomou um grande susto. Stoll abriu os olhos, com um meio sorriso.
—-Então, já estava acordado? —Ela se recuperou.
Ele assentiu.
A expressão dela assumiu a forma de dúvidas e descrença.
—-Qual o problema? —Ele indagou, acariciando suas costas.
—-Você não tem coração ou o quê? Não ouço ele bater...
Stoll riu.
—-Não tenho coração, senhorita.
Dito isso, ele pegou o telefone de Tina embaixo do travesseiro dele e entregou-o a ela.
—-Eu te acompanho até o hospital.
Ele levantou lentamente, se enrolou na toalha que estava no chão, catou suas roupas já secas no porta-casacos de Tina e se dirigiu ao banheiro dela.
A adolescente não sabia se ria para descontrair com o comentário dele, se reparava na curva de sua bunda pela toalha branca dela ou se achava tudo aquilo muito estranho.
Stoll, pelado no meu quarto, nós dois sozinhos e eu não fiz nada. Sou muito lesada.
Acendeu a tela de bloqueio de telefone e viu as horas. 11h56
Ótimo. Tinha que voltar para o hospital e levar o que havia prometido para a sra. Lillyth. Em pouco tempo, Stoll saiu vestido do banheiro, cabelos muito bem arrumados, como de costume. Sentou-se na beira da cama para esperar a vez de Tina, para que pudessem sair.
Ela vestiu o que achou primeiro no guarda-roupa e jogou sua jaqueta de couro por cima. Antes de saírem do quarto, ela parou.
—-Tem certeza de que quer ir ao hospital comigo?
Stoll respirou fundo, pacatamente.
—-Acho que devo isso ao Linden...
Tina assentiu. Sim. Talvez fosse mesmo bom que ele visse o estado em que deixou o rapaz, para que se arrependesse ainda mais. Porém, não era isso que estava na cabeça de Tina. Ela só queria ficar mais tempo perto dele e seria reconfortante ter o apoio do garoto por quem ela estava apaixonada.
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