Apaixonada Por Um Morto-Vivo
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Tudo estava escuro. Os pés descalços se cortavam no chão conforme ela corria. Grama seca ou galhos. Impossível enxergar e distinguir. Ela corria agarrando panos longos e molhados. Suor ou chuva? Também não sabia.
Ela podia sentir o desespero crescendo por dentro. Não tinha certeza se era por não enxergar nada, por estar se machucando ou se a coisa da qual estava correndo era a causadora do pânico.
Você não pode fugir disso.
Aonde estava aquela voz? Na sua cabeça ou realmente a ouviu?
Você está correndo na direção errada...
Parecia um eco. Mas era suave ao mesmo tempo. Repetitivo e suave. Como isso poderia ser possível?
Galhos cortavam também seu rosto durante a corrida. O pano que segurava estava em frangalhos. Ainda não enxergava nada.
Corra para mim, Rayka...
Esse nome... Esse nome não lhe era estranho. Mas e a voz? Ela conhecia essa voz.
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Acordou no susto tentando se lembrar de onde estava. Sua cabeça queimou imediatamente.
Trabalho, quarto, vinho... Stoll!
Estava deitada na cama dele. Na cama do inimigo.
Tina tentou unir todas as forças para ficar, no mínimo, sentada. Mas a cabeça rodava por conta do vinho e estava atordoada com o pesadelo ainda embaraçado.
— Você não devia ter dormido.
De onde saiu aquilo? Ainda estava sonhando?
Olhou em volta e encontrou Stoll em pé, na porta de vidro do banheiro. Estava encostado, com os braços cruzados sobre uma bonita camiseta preta com uma imagem do universo em um forte roxo e azul.
— O quê?
— Eu fiz todo o trabalho sozinho – ele reclamou.
Tina segurou as têmporas. Sentiu o azedo vir na ponta da língua. Levantou correndo na direção de Stoll para alcançar o vaso. Quando conseguiu, o vômito já estava preso na boca, esperando ansiosamente para pular vaso afora.
— Já peguei água e comprimidos para você. Eu temia por isso – ele entrou no banheiro atrás dela e segurou seus cabelos azuis.
Tina não estava entendendo muita coisa. Após colocar tudo para fora, ela reparou no chão frio de ladrilhos do banheiro. Tudo impecavelmente limpo, preto, branco e frio. Aquilo fazia seus olhos doerem. Afastou a mão de Stoll para longe de seus cabelos e sentou entre o vaso sanitário e banheira, que só reparou bem depois.
— Tá, tá, valeu. Eu tô bem.
Stoll foi até a escrivaninha onde os remédios repousavam com o copo d’água e os ofereceu para Tina. Ela agarrou como se sua vida dependesse daquilo e tomou rapidamente.
— Trouxe uns chocolates também, mas quando voltei você já estava adormecida. Terminei nosso trabalho e apaguei as luzes para que você pudesse descansar – ele dizia lentamente, num tom alto e seguro.
Mas Tina mal prestou atenção no que ele disse. Estava perdida comparando sua voz com as vozes que vinha escutando em seus pesadelos. Era até parecida, mas agora ela tinha dúvidas se era mesmo a voz dele. Talvez estivesse apenas fantasiando coisas. Estava tendo surtos de subconsciência sexual com ele ou o quê?
— Sonho ruim? – Ele a puxou de volta para o banheiro.
— O quê?
— Você teve um sonho ruim?
Tina bufou.
Agora ele lê mentes, senhoras e senhores!
Levantou apoiada na banheira e voltou para cama. Pôs-se a calçar seus tênis de volta.
— Tem hora para ir embora? – Nesse momento ele foi zombeteiro, relembrando à Tina uma situação já passada.
— Olha só, garoto. Não consigo me lembrar o que aconteceu aqui e nem sei que merda eu comi pra vir pra sua casa. Vou embora – ela falava rápido, sua mente atropelava os pensamentos.
— Tudo bem. Nosso trabalho está pronto, te mando por email. Levei um tempo fazendo, mas tenho certeza de que ficou excelente.
— Você se acha – ela soltou.
Mas depois parou.
— Que horas são? – Perguntou, confusa.
— São exatamente 22h36 – Stoll apontou para um relógio na escrivaninha.
Merda!
— Eu dormi esse tempo todo?
Ele assentiu com a cabeça.
— Que loucura! Você me envenenou – ela terminou de calçar os sapatos e ajeitou sua roupa e cabelos para sair.
— Eu disse que deveria ir devagar no vinho – ele sorriu.
Tina viu aquilo e sentiu o ranço que tinha dele voltando. A melhor opção realmente era ir embora.
— Eu te levo na porta – Stoll abriu a porta do quarto e foi indicando o caminho.
Percorreram toda casa o mesmo trajeto que haviam feito até o quarto de Stoll mais cedo. Chegando na porta principal, Tina colocou a jaqueta de volta e antes que Stoll pudesse abrir a porta alguém a empurrou, dando risadas.
— Oh, não sabíamos que estava com visita – uma mulher muito branca disse isso, acompanhada de um homem igualmente branco atrás dela.
Tina tomou um susto. Já tinha visto essa mulher... Sim! No dia da mudança.
— Tina, não é? Muito prazer! Sou Vídia e esse é o Clarke, meu marido. Somos os tios do Stoll — ela disse isso numa alegria estranha, dando beijos nas bochechas da adolescente.
A garota deu um sorriso amarelo e apertou a mão do marido de Vídia.
— Ora, fique – Clarke disse. Tinha um tom culto, apenas em duas palavras Tina notou.
— Ela já está de saída – Stoll soltou.
Pareceu rude pela segunda vez no mesmo dia.
Tina balançou a cabeça e saiu.
Atravessou a rua e olhou para trás. Os três estranhos estavam de pé na porta, aguardando que ela entrasse em casa. Vídia com um sorriso ridículo, Clarke com uma expressão tranquila e Stoll com as sobrancelhas franzidas.
Ela bateu a porta.
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