Apaixonada Por Um Lobisomem
13 Pânico.
Notas iniciais
Era sexta feira e o Rudolph ainda não tinha dado nenhum sinal de vida. Eu estava pensando seriamente em devolver o livro para o Sr Jones e fingir que aquilo não tinha nada de especial e que eu estava apenas lendo como uma garotinha curiosa. Que droga.
Fui até o mural do baile. Mesmo sabendo que não havia nada no meu nome, eu sempre passava por lá. Para ver os bilhetes que tinham no nome dos outros ou de minhas amigas. Atravessei o pátio.
Um grupinho de garotas idiotas passou perto de mim cochichando: “Como essa garota conseguiu?”
Ignorei o comentário, provavelmente estavam fofocando de alguém. Continuei andando. Duas garotas passaram por mim e a da direita olhou feio. Isso já estava sinistro.
Continuei a caminhar até estar na frente do mural. Procurei meu nome, por curiosidade. Tinha uma carta.
CARAMBA. EU. RECEBI. UMA. CARTA.
Tirei a carta dentro daquela parada que parecia uma bolsinha e comecei a ler. A letra era complicada, mas legível.
“Oi, Rebecca. Você sabe por que eu mandei esta carta, é obvio: Convite para ser meu par no baile. Mas quem sou eu? Como eu te conheci? Por que quero ir ao baile contigo? Isso não importa. Somos amigos, quem precisa de detalhes?
Você deve estar se perguntando: “quem é esse maravilhoso cara que me procura?” Digamos que você precisa olhar para o numero 45 do mural, então saberá quem é que mandou esta cartinha. Lembre-se: Eu posso estar te observando.”
Olhei lentamente para o numero 45 do mural. Rudolph.
No nome dele tinha escrito: “Vou ao baile com o numero 43, Rebecca. Não quero ninguém mandando cartas para mim”.
Minhas bochechas viraram um tomate de tão vermelhas. Como ele teve a ousadia de fazer isso comigo? E ele nem sabe se eu quero ir ao baile com ele!
Fui até a minha sala, esperando encontrar o Rudolph com a cara de bosta dele e fazer uma treta maligna. Filho da mãe.
Cheguei até a porta. Onde estava ele? A única coisa que vi foi pessoas conversando, inclusive meu grupo de amigas que acenaram para mim. Meu corpo se arrepiou.
“Eu posso estar te observando”.
O medo corre pelas minhas veias e meu coração acelera. Esta carta não é do Rudolph, não pode ser.
Corro até Amanda.
–Agora. Amanda. Conversa.
–É o que, menina? Por que está falando assim?
–VEM LOGO!
–Eu já volto, minha amiga está ficando... AI! Rebecca, qual o seu problema?
Eu a puxei pelo braço até o corredor.
–Rebecca! Ai! Que merda, isso doeu!
Não falei nada, apenas mostrei a carta.
–Essa presepada toda por causa de uma bosta de papel?
–Leia, por favor.
Ela leu o papel com a cara de quem não estava dando importância.
–Quem é o maluco do numero 45?
–Rudolph.
Ela franziu a testa.
–Mas...
–Ele não veio durante a semana toda.
–“Eu posso estar te observando”... Fala sério, o único maluco que escreveria isso numa carta é o Rudolph.
–Sei lá, acho que falsificaram a letra do Rudolph. Não pode ter sido ele.
–E se for ele?
–Isso é impossível.
–Por quê?
–Como ele colocou a carta ali? E como ele sabe o que estava acontecendo?
–Estamos falando do mesmo Rudolph? Porque eu estou falando do Rudolph sinistro.
–Ele é sinistro, não vidente.
–Vai que ele está observando mesmo.
Um calafrio percorreu minha pele.
–V-Você acha mesmo que foi ele?
–Por um lado, sim. Todos aqui têm medo do Rudolph, ninguém falsificaria uma carta dele.
–Mas... Mas ele não apareceu nenhum dia desta semana! E já é sexta!
–Rebecca, o baile é só na próxima semana. Até lá, ele aparece... Pelo menos eu espero.
–Também espero, mas... Mas isso é impossível.
–Vamos esquecer esta carta...
Fui até minha cadeira e coloquei minha mochila. O sino soou pelos nossos ouvidos, hora da escravidão.
Do nada a sala ficou cheia de gente, cada um sentando nos seus lugares. A professora chegou um tempo depois, carregando duas malas (Acho que ela chama aquilo de bolsa) e uma pasta.
–ENTREGA DAS AVALIAÇÕES.
Droga, não poderia ter noticia pior.
–Quem é a líder de classe?
–Rebecca. –alguém respondeu.
–Rebecca, você sabe quem faltou?
–Acho que só o Rudolph.
–Pode guardar a prova dele e entregar quando ele estiver presente?
Sim, na nossa classe os líderes ficam com uma quantidade enorme de responsabilidades. Algumas matérias que tem duas aulas por semana não entregam as provas aos lideres, apenas as que têm uma. Levantei e peguei a prova do Rudolph.
–Ah, aproveite e pegue a sua. –eu segurei a minha prova e fui até a minha cadeira.
Eu tenho um costume em olhar as notas de provas. Começo sempre olhando por trás.
Depois de fazer a minha passagem por um prova quase toda certa, fiquei feliz ao ver minha nota. Só errei algumas coisas. Para uma prova de química estava ótimo.
Olhei para a prova do Rudolph. Ele não estudava nada, quanto será que tirou? Olhei para a professora, que conversava com um aluno (o pior da classe. Imagine a nota). Abri a prova do Rudolph.
COMO ISSO É POSSÍVEL? Ele tirou cinco décimos a menos que eu. Para quem não estudou merda nenhuma, isso é um milagre.
Meus pensamentos estavam indignados. Guardei a prova dele na pasta... É inaceitável.
–SENTEM-SE, POR FAVOR. –a professora levantou da mesa. –As notas foram, pelo menos a maioria, aceitáveis. Poucas pessoas tiraram nota abaixo da média e isso me deixa um pouco menos angustiada.
Todos permaneceram calados.
–A nossa querida diretora pediu para que eu tirasse duvidas ou falasse um pouco sobre as organizações do baile. Alguém tem alguma pergunta?
Todos ficaram em silencio.
–Ok... Vou falar um pouco da organização. O baile não vai acontecer na escola, vai acontecer naquela casa de eventos que fica perto de uma campina com um lago. Vocês sabem onde fica? Pelo caso que não saibam, posso pedir que mandem digitar num convite.
Boa parte não sabia a localização, então tivemos que receber o convite digitado mesmo. Depois de falar mais algumas coisas, a professora resolveu explicar o assunto. As aulas estavam rápidas hoje, então o tempo passou depressa. Em pouco tempo, eu já estava no intervalo. Jogos de basquete.
****
Todos da escola gostam de jogos de basquete, inclusive eu e minhas amigas. Todas nós estávamos indo em direção da quadra.
–Amanda vai ver o namorado... –falei perto do ouvido dela.
–PARE COM ISSO. –ela gritou. Eu não pude conter o riso.
Qual é, já era óbvio o que estava rolando entre Amanda e Jim. Ela tem razões para não ficar com ele, mas eu sei que ela gosta dele. Nem que seja um pouquinho, mas gosta. Atravessamos a quadra e sentamos no penúltimo andar da arquibancada.
–É a primeira vez que eu assisto essa parada. –Sarah estava sorridente.
–Hoje é o último jogo de todos, contra aquele colégio do norte. –Eleonora também sorria, eu sempre a via com Angel em todos os jogos.
–Eu vou sair sem garganta hoje. –Angel tinha duas garrafas de água do lado. –Melhor se afastarem enquanto eu estiver gritando.
Não demorou muito para que a quadra estivesse cheia de gente sentada nas arquibancadas falando alto. Músicas legais tocavam enquanto os jogadores se preparavam. A música parou e todos começaram a gritar bem alto, inclusive eu.
Eu não entendo nada de basquete, mas é legal assistir. Não demorou muito até os jogadores entrarem sorrindo com aqueles corpos altos, magros e com músculos pequenos (Músculos pequenos, porque são adolescentes).
Os jogadores da nossa escola usavam um traje parecido como os dos outros jogadores de basquete normais. A blusa era cinza escuro com detalhes brancos e o short a mesma coisa. Nós éramos conhecidos como “Sharks” (Sim, tubarões). Ok, se são chamados de tubarões, a cor não devia ser azul? Não, não devia.
Bem, eu já pesquisei um pouco sobre o porquê de serem chamados de “Sharks” e o que tem haver com a cor cinza. O apelido é uma referência aos tubarões brancos, que são um dos mais perigosos. Nós somos um dos melhores times da cidade, jogar contra o time da nossa escola é praticamente um perigo (para outras escolas).
O tubarão branco tem uma técnica de camuflagem surpreedente: Encima é cinza escuro e mais ou menos na parte de baixo (que seria a barriga) é branco. Com uma cor escura por cima, os animais que eles se alimentam não conseguem enxergá-lo. Por causa das baixas temperaturas os animais meio que confundem eles com a própria água que fica escura. Ok, chega de falar do meu lado Animal Planet, o que importa é o jogo.
Voltei a observar o jogo. Os jogadores se cumprimentavam com pulinhos e batidas maneiras enquanto as coisas eram organizadas.
Não demorou muito para todos ficarem em suas posições e o jogo começar. Em pouco tempo, nosso time estava fazendo pontos. E quem estava fazendo pontos? Exatamente, o Jim.
Dava para ver as picadelas que ele mandava para a Amanda e eu sempre dava cutucadas nela.
–Olha, Amanda, ele mandou de novo.
Ela simplesmente ignorava meus comentários e continuava observando o jogo.
–ACERTA LOGO A MERDA DESSA CESTA, SEU LERDÃO.
–Angel, calma.
–EU QUERO VENCER.
–Todos nós queremos vencer, principalmente eles.
–QUE DROGA FOI ESSA, NICHOLAS?
–E-Eu vou beber água, ok?
Ninguém nem sequer olhou para mim, só a Eleonora que mostrou o polegar positivamente. Levantei e fui para os bebedouros da quadra. Bebi água e molhei um pouco o rosto, não adiantava. Eu sentia algo estranho dentro de mim. Um aviso do destino? Talvez.
Algo muito ruim iria acontecer.
Lembrei-me de Amanda, falando que havia um sujeito muito sinistro com olhos avermelhados seguindo o nosso carro. Outro arrepio correu meu corpo.
–Garota, a água do bebedouro não é só sua.
Um garoto alto e estranho estava esperando atrás de mim para beber água. Afastei-me do bebedouro e saí correndo até chegar ao pátio. Talvez eu estivesse apenas precisando de tempo sozinha. Apenas eu.
Fui até aquela velha mangueira, em que o Rudolph me manipulou a furar aula pela primeira vez na minha vida. Horrível da parte dele, mas até que foi um dia divertido.
Acho que amigos servem para isso... Não importa como, mas eles sempre te deixam feliz. Rudolph é um bom amigo e é essa parte que me faz sofrer mais por sua perda. Não sei se o perdi para sempre, mas espero que algum dia ele apareça com aquela cara de doido e faça todos tremerem de medo e rirem de felicidade.
O que será que aconteceu com ele?
Puxei a carta do meu bolso e li novamente. Era tão real... Parecia mesmo a letra do Rudolph. Uma letra feia, porém legível. Se na carta ele diz que pode estar me observando, por que não aparece enquanto eu estou sozinha e longe de todos?
–Ei!
Meu corpo deu um pulo por causa do susto. Saí de trás da arvore. Era só o zelador.
–Caramba, você me deu um susto!
–A diretora não quer ninguém fora da quadra, volte para onde você estava.
–Não gosto de jogos de basquete.
–Acha que eu não te conheço Srta Simmons?
–Rebecca...
– Tanto faz! Eu te vejo todo ano naquela quadra com sua amiguinha torcendo. Você não me engana.
–Eu precisava ficar afastada por algum tempo, estou passando por momentos difíceis.
–A sala da psicóloga é lá no corredor, não aqui. Você vai lá e converse com ela. Agora, saia daqui antes que a diretora ouça barulhos e venha perguntar o que está acontecendo.
–Você é tão insensível.
–Tchau...
–Tem algum lugar nessa droga de escola que eu possa ficar sozinha?
–Nos seus pensamentos.
–Você me entendeu.
–Garota, eu sou apenas um zelador. Está me achando com cara de que?
–De chato.
–Rebecca Simmons, saia daqui ou...
–Ou o que?
–Ou eu mesmo grito o nome da diretora.
–Isso foi uma ameaça?
–A senhorita está muito atrevida. Foi aquele garoto bad boy sinistro que te fez isso?
–Não toque no nome do Rudolph. Meu atrevimento só existe com quem merece. Você foi chato desde que esta conversa começou.
–Um... Dois...
–Eu saio, eu saio...
–Obrigado, poupou minha voz.
Fiz uma careta e voltei para a quadra. Minhas amigas estavam vidradas no jogo, ainda.
–Estamos vencendo?
–SIM, PSIU! –elas disseram em uníssono.
Fiquei com cara de tédio até o jogo terminar, o nosso time ganhar e todos da nossa escola gritar como loucos. O sino soou nos nossos ouvidos. Hora da saída.
Eu e minhas amigas pegamos nossas mochilas e saímos da escola. Agora basta esperar nossos pais ter a bondade de vir nos buscar. Eleonora e Sarah foram embora mais cedo.
Eu estava esperando impaciente a chegada do meu pai. Não demorou muito até o povo to time sair da escola de banho tomado. Isso é um privilégio que eles têm por ficarem suados jogando. O Jim veio na nossa direção, sorrindo.
–Olá garotas, gostaram do jogo?
–Eu gostei. –disse Amanda, sorrindo.
–Eu não assisti todo, mas fico feliz pela vitória. –falei.
–Eu expulsaria o Nicholas do time, ele fica muito parado. –disse Angel, comendo um pacote de salgadinho.
–Sim, nós também estamos pensando disso. –concordou Jim. –Estou muito feliz que conseguimos vencer. Eles são bons, mas nós somos mais.
–Isso mesmo! –Angel trocou um “Toca aqui” com Jim.
–Olha, minha mãe chegou. Já vou, pessoas. –Amanda foi até o carro da mãe dela e entrou sorrindo.
Nós acenamos enquanto o carro dela partia.
–Vocês já estão com algum par para o baile? –Jim perguntou.
–Ainda não, mas recebi convite do Paul e do Johnny. –Angel respondeu lambendo os dedos.
–Não sei se recebi um convite ou uma carta de terror. –falei.
–Foi daquele tal de... Rodolfo? –Jim perguntou.
–Rudolph.
–Ah, eu sempre confundo.
–Não tem problema. E sim, foi dele. –acrescentei.
–Não recebeu mais de ninguém?
–Não, mas isso não tem problema. Já tenho anos de prática indo sozinha aos bailes.
–Que triste.
–Quando a pessoa se acostuma não é tão triste.
–Oi Jim, eu vim dar os parabéns. –Sophie se aproximou, dando um abraço do Jim. Ele não retribuiu.
–Valeu. –respondeu com um sorriso sem graça.
–Você é muito bom em basquete.
–Anos de treinamento.
Ela mexeu no cabelo e fez uma pose ridícula.
–Já tem par pro baile?
–Tenho sim, Sophie. –ele respondeu.
–Jura? Quem?
–Amanda.
–A amiga dessa aí? –ela apontou para mim.
–Ela mesma.
–Nossa, Jim, que gosto em.
–Não me obrigue a dar uns puxões no seu cabelo de novo. –falei.
–Aquilo foi um momento de sorte, Rebecca. Você não vai conseguir colocar as mãos nos meus valiosos cabelos de novo.
–Se para você sorte é sinônimo de força... Sim, foi sorte.
–Eu sou mais forte que você.
–Se você não sair da nossa frente agora, eu mesma vou voar encima de você e estragar ainda mais esse troço que você chama de face. –Angel ficou ao meu lado.
–Garotas, não estraguem sua vida escolar por causa dela. Sophie, por favor, saia. –Jim estava sério.
–Até você, Jim?
–Eu gosto de Amanda e não aceito que ninguém fale assim dela.
–Mas...
Um barulho alto atingiu nossos ouvidos. Todos entraram em desespero e começaram a gritar. Meu corpo ficou paralisado e minhas pernas tremeram como nunca havia tremido na minha vida.
Um tiro.
Meus pensamentos pediam socorro e meu corpo estava apavorado. Olhei para o chão. A Sophie estava caída com a mão na cabeça enquanto duas pessoas a socorriam. Eu senti pena dela, mesmo sentindo um ódio mortal.
Afastei-me da cena que estava me dando calafrios. Eu queria que meu pai chegasse logo e este pesadelo acabasse, queria ir para casa, onde é seguro.
Olhei ao redor, esperando ver o carro do meu pai. Nada, mas tinha alguém atrás da árvore do outro lado da rua. Um homem.
Estava com capuz, mas dava para ver bem seus olhos. Eram avermelhados. Seria o homem que Amanda viu perseguindo nosso carro?
Andei um pouco para frente, tentando ver o rosto daquele homem tão sinistro. De repente meu coração dispara.
O homem sacou uma arma. Foi ele que tinha atirado na Sophie.
Ele queria atirar em mim.
********
Eu estava dentro do carro do meu pai. Minha perna estava mexendo descontroladamente e meu rosto suava. Minha respiração estava acelerada e a vontade de sumir da face da terra era incontrolável.
Meu pai não me fez perguntas, acho que ele deixava todas as duvidas para o momento do jantar. Ele estacionou o carro na frente da garagem. Eu saí do carro e entrei em casa. Precisava de um banho.
Subi as escadas e larguei a mochila no chão do meu quarto. Tirei meus sapatos e meias e corri para o banheiro. Coloquei na água fria e tirei a roupa. Passei uns cinco minutos apenas sentindo a água bater nas minhas costas. Depois de ter certeza que eu estava segura e em casa, comecei a tomar o banho de verdade. Esfreguei bem as palmas da minha mão.
Quando terminei fui direto para a mesa, jantar.
Sentei-me em silencio e comecei a me servir.
–Seu pai me contou sobre sua colega que morreu.
–Foi tão... –não terminei de falar.
–Vocês eram amigas?
–Não. Na verdade eu não gostava nem um pouco dela.
–Mesmo assim não consegue tirar a cena da cabeça, certo?
–Sim...
–A vida é assim minha filha.
Meu pai sentou-se conosco, mas não falou nada.
O silencio contribuiu para eu começar a comer. Mesmo com toda aquela tragédia, eu ainda estava com fome.
*Flashback on*
A arma estava apontada para mim. O homem sorria enquanto acionava o gatilho. A mira era diretamente para o meu peito. Se ele atirasse, eu não veria mais a vida. Meu coração disparou e uma lágrima desceu no meu rosto. Uma lágrima que ardia. Olhei ao redor e tinha poucas pessoas ao meu redor, estavam ajudando a Sophie. Outros estavam apenas apavorados gritando.
Pânico era tudo que havia.
Olhei novamente para o cara da arma. Ele estava carregando-a. Acionou o gatilho novamente e atirou.
Minhas pernas tremeram e perderam a força. Eu caí de joelhos no chão, apenas sentindo alívio por aquela maldita bala ter passado de raspão na minha costela.
Afinal, por que ele estava fazendo isso? Por que queria me ver morta?
Fechei os olhos e abri novamente. Outra lágrima desceu, seguida por outra e mais outra.
Senti algo frio escorregando pelas minhas mãos. Sangue. Eu tinha colocado as mãos bem acima da cabeça da Sophie. Seus olhos ainda estavam abertos e ela respirava com dificuldade. As pessoas estavam apavoradas tentando parar o sangue da cabeça dela. Eu não sentia nojo, só sentia pena.
Outro tiro atingiu o portão, bem perto de mim.
Ela poderia ser uma pessoa infernal, mas era muito jovem para perder a vida. Para o homem que tentava me matar, ela foi apenas um obstáculo.
Um obstáculo que ele fez questão de tirar a vida, sem pensar duas vezes.
Eu não sabia se era sorte por ela ter ido, em vez de mim, ou azar por ela ter morrido apenas por minha culpa. Pensar positivo era impossível.
A cabeça da Sophie virou e olhou para mim. Ela sussurrou algo bem silenciosamente, mas eu pude entender por causa dos movimentos dos lábios.
Desculpa. Era a ultima palavra. Seu rosto caiu sem forças e uma vontade de chorar invadiu meu peito.
–Desculpa. –devolvi.
A mãe dela surgiu no meio da multidão, chorando em desespero. Os funcionários da ambulância surgiram com uma maca e a colocaram deitada encima. Levantei-me e fechei os olhos dela.
A mãe olhou para mim assustada. Eu neguei com a cabeça, o que a fez chorar mais ainda.
Sophie foi levada até o carro da ambulância. Outro carro também estava presente.O da polícia.
Observei ao redor para ver novamente o homem assassino. Ele havia sumido, mas a moto dele ainda estava lá, estacionada.
Fui até o policial mais próximo e cutuquei suas costas.
–Pode falar. –Ele virou sério.
–Eu sei quem foi o homem responsável por esta tragédia.
Desta vez, ele fez cara de interessado.
–Sabe dizer como ele era?
–Ele é o dono daquela moto que está estacionada do outro lado da rua. –apontei para a moto. –Durante o transtorno, ele estava atrás daquela árvore.
O policial fez sinal para o colega verificar a arvore.
–Você viu o rosto dele?
–Não, estava usando um capuz. Mas os olhos dele eram de um vermelho vivo.
–Estava armado?
Não cara, ele atirava facas.
–Sim, estava armado. E foi com aquela arma que ele disparou uns três tiros.
–A mocinha sabe onde os tiros atingiram?
–Sim. O primeiro tiro foi na cabeça da Sophie, o segundo passou raspando na minha costela e o terceiro atingiu o portão.
Ele fez sinal para outro colega.
–Mas algum ferido?
–Não teve nenhum ferido.
–E a garota?
–Ela... Partiu para outra vida.
–Sinto muito.
Fiquei em silencio, não queria dar uma resposta grossa em um oficial da policia.
–Tem algo a mais para acrescentar?
–...
–Tem?
–Não...
–Obrigado pela sua ajuda, foi muito corajosa em falar tudo isso. Talvez nós vamos ter que investigar mais algumas pessoas para descobrir definitivamente quem é o suspeito. Até mais.
–Ah! Minha amiga, Amanda, viu o rosto do suspeito.
–Onde ela está?
–Ela já foi embora, mas acho que ela viu.
–Amanhã nós estaremos aqui, fazendo perguntas a todos.
–Amanhã é sábado.
–Então na próxima semana. Muito obrigado e até mais.
–Até.
Senti algo tocando o meu braço. Era o meu pai. Dei um abraço nele tentando me sentir mais confortável.
Entramos no carro e ele perguntou o que ouve. Não expliquei detalhadamente para ele.
Depois de pouco tempo, ele parou num sinal vermelho e um homem atravessou a faixa de pedestres. Ao virar o rosto pude perceber quem ele era.
O olhar estava vidrado em mim. Os olhos vermelhos, como poças de ódio.
Era o ele o assassino.
*Flashback off*
–Filha?
Meus pais olhavam para mim de modo estranho.
–Deste jeito você não vai dormir esta noite.
–Os pensamentos não saem da minha cabeça, estão grudados.
–Entendo... Foi um susto para todos nós. Quando eu soube que sua escola foi atacada, quase tive um ataque do coração. Estou aliviada.
–E-Eu posso contar uma coisa?
Os dois assentiram com a cabeça.
–Acho que o alvo do assassino era eu.
Eles ficaram em silencio.
–Por que acha isso? –meu pai perguntou assustado.
–Porque ele mirou em mim duas vezes. A Sophie só morreu por acidente, ela estava na minha frente.
Meus pais ficaram em silencio por um bom tempo.
–Isso não vai acontecer novamente.
–Eu também espero.
–Agora vá para seu quarto e vá fazer algo.
–Ok.
Levantei da mesa e subi as escadas. Precisava fazer um telefonema urgente.Peguei meu celular e disquei o numero de Amanda.
Caixa de mensagens. Gravei uma mensagem, eu tenho certeza que ela iria ouvir.
“Amanda, você vai ter que dar o perfil do assassino para os policiais. Sei que você foi embora mais cedo e isso foi sorte sua, ocorreu um ataque de tiros lá na nossa escola. A Sophie morreu e eu não tenho mais noticias. Explico melhor depois, tchau.”
Depois de cinco minutos, senti meu celular vibrar. Não era a Amanda.
–Rebecca?
–Rudolph...?
–Não, não. Aqui é o Nick.
–Ah, oi Nick. Desculpe pela falta de entusiasmo, aconteceu umas paradas loucas hoje.
–Não tem problema. Eu tive que te ligar, era urgente.
–Urgente, por quê?
–A coisa aqui está sinistra.
–Sinistra?
–Muito. Eu nunca vi o Sr Jones tão exaltado e perturbado.
Sentei na cama.
–Alguém roubou algo muito precioso dele.
–Acha que esse alguém fui eu?
–Não, não! Eu... Eu precisava conversar com alguém sobre isso. Não consigo mais suportar... Os dias aqui nunca foram tão ruins.
–Você sabe qual objeto foi roubado?
–Parece que foi um livro.
Um livro é precioso para o Sr Jones?
–Eu queria saber se você não levou por engano, sei lá.
–Não Nick, eu não estou com nenhum livro. Eu peguei um livro emprestado dele, ele sabia disso.
–Pelo amor de Deus, mande para cá de volta.
–Eu peço para meus pais mandarem.
–Obrigado por melhorar minha vida.
–Por nada.
–Tchau, te vejo algum dia. Eu espero.
–Tchau.
Eu olhei para a tela do celular. A chamada ainda estava acontecendo. Coloquei o telefone no ouvido de novo.
–Então Nick, ela vai mandar o livro?
–V-Vai sim, s-senhor.
A voz do Nick estava tremula.
–Você sabe o que vai acontecer, certo?
Chamada desligada. Droga de sinal.
O Sr Jones parecia mesmo exaltado e perturbado no telefone. O Nick provavelmente estaria passando pelos piores momentos da sua vida.
O Sr Jones está atrás de algo precioso. Ele está atrás do Lobosnausin.
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